DEBATE DEBATE

 

Debate sobre o artigo de Delma Pessanha Neves

 

Debate on the paper by Delma Pessanha Neves

 

 

José A. Chaieb

Porto Alegre, Brasil. j.chaieb@via-rs.net

 

 

Acusação: não! Diagnóstico: sim!

Não obstante as dificuldades semânticas enfrentadas para o entendimento do texto, e da exígua passagem reservada para a participação de um professor de Medicina, restringirei meus comentários a apenas alguns poucos trechos que minha experiência na pesquisa em tabagismo e alcoolismo me permitem formular.

Já no título, Neves contempla um antagonismo, um dilema conceitual difícil de aceitar, pois não exibe o respaldo científico necessário para considerar-se o alcoolismo como algo que decorra de uma rotulagem vinda de fora para dentro do indivíduo como a autora sugere com a tese da "acusação". A proposição emerge de observações de caráter empírico (que se conhece por uma rápida referência feita entre parêntesis, no terceiro parágrafo da p. 8), e que pode ser resumida a afirmativa: "afinal, o alcoólico é aquele que assim se vê ou adota o ponto de vista acusatório do outro" (p. 12). Se assim fosse, o alcoolismo se excluiria da esfera médica para surgir no campo da introjeção pessoal, da rotulagem acusatória, de uma sociedade culturalmente mais ou menos complacente. Não é assim que a medicina encara a questão.

Na medicina de hoje, sabe-se que o alcoolismo é uma doença individual, cuja influência genética está bem documentada nos humanos, por meio de estudos em populações de gêmeos homozigóticos 1 onde, decorrente das várias e complexas inter-relações de genes DRD4 2 nos cromossomas 10, 11 e 12 3, em que a regulação do metabolismo da álcool-dependência é feita pelos alelos ADH (desidrogenase alcoólica) e o da álcool-resistência o é pelo alelo ALDH (desidrogenase aldeídica) 4.

Assim sendo, os indivíduos não nascem alcoólatras, herdam a predisposição genética para desenvolverem o alcoolismo, que não tendo um caráter dominante como: cor dos olhos, da pele, dos pêlos e outros atributos individuais, se manifestará ou não em decorrência de fatores de natureza psicológica e ambiental. Fica óbvio que a regulação ambiental e psicológica pode ser decisiva para a manifestação do caráter álcool-dependência, haja vista que não se constitui um problema em saúde pública nos países islâmicos, onde bebidas alcoólicas não estão disponíveis. O que não exclui a herança da álcool-dependência entre tal população. Afirmações peremptórias como: "a ingestão de bebida alcoólica, mesmo a considerada abusiva, constitui um ato social", não pode ser feita sem uma clara justificativa, pois considera-se o alcoolismo uma doença individual. Beber é tanto um ato social como são todos os demais que caracterizam a vida em sociedade: beber, fumar, comer, dançar, conversar, discutir, namorar, negociar, competir, trabalhar... enfim, viver em sociedade. Qualquer dessas atividades exercida abusivamente, se constituirá em ato transgressivo das normas sociais, podendo acarretar danos nas mais variadas esferas.

Não concordo também com o penúltimo parágrafo da p. 11 onde se desqualifica o alcoolismo como doença, pois atribui-se-lhe o propósito desabonatório, desmoralizante. O diagnóstico, no caso, busca identificar algo anormal que vem de dentro para fora e quem o faz, o faz para melhor conhecer as causas dessa disfunção e buscar corrigi-la, usando para isso os recursos terapêuticos disponíveis num dado momento. O isolamento e abstinência do doente é parte necessária para sua recuperação, com o uso de drogas e a psicoterapia, pois tem-se o objetivo de reintegrá-lo à família e à sociedade. O alcoólatra é na concepção médica, um doente orgânico e não um produto de uma construção familiar ou social.

No último parágrafo da p. 12 há uma evidente contradição conceitual em duas afirmações: (a) "...a ingestão de bebida alcoólica, mesmo a abusiva, constitui um ato social..." (aqui é social) e (b) "essas regras são internalizadas pelo alcoólatra como demonstra sua presença fugidia no bar ou a sua solidão..." (aqui é anti-social).

Ora, se assim fosse, quem condenaria o alcoólatra que passa fugidiamente pelo bar e curte seu drama solitariamente? Que implicação social esse suposto abuso construiria?

A sociedade trata o bom alcoólatra com carinho e compreensão. Nesse caso, a sociedade é tolerante e o alcoólatra é aceito como o produto de suas frustrações, em geral amorosas, tão abordadas por poetas e cantadores de todo o mundo, por artistas e literatos e vem sempre muito bem expressa no anedotário popular, não obstante saber-se que viverão menos e sofrerão as conseqüências físicas, psíquicas e sociais de sua dependência, necessitando portanto atendimento voltado para sua proteção física e psíquica.

O mau alcoólatra, porém, pelo dano que em geral inflige à família e à sociedade, deve sofrer o isolamento indispensável para o tratamento de sua dependência química, bem como a utilização de todo o arsenal terapêutico disponível para a sua difícil, embora possível integração familiar e social.

Nas pesquisas científicas utilizam-se inúmeros critérios para a mais apurada identificação do alcoólatra. Existem escalas como a C.A. G.E. que utilizou-se em nosso meio em Saúde Pública 5, bem como o hoje amplamente utilizado Índice de Adição Severa (Addiction Severity Index) 2. Essa metodologia diagnóstica pode e é aplicada em Saúde Pública ou individualmente, não com o propósito acusatório ou vexatório como foi considerado no texto, mas como instrumento de estudo que tornou possível a descoberta da origem genética da disfunção bioquímica cerebral, que ocorre em cerca de 10% da população, como muitos estudos demonstram.

Essas são as breves críticas que acho conveniente fazer sobre essa complicada e complexa apresentação, o que sem dúvida demonstra a competência, coragem e determinação da autora.

 

1. Heath AC, Bucholz KK, Madden PA, Dinwiddie SH, Slutske WS, Bierut LJ, et al. Genetic and environmental contributions to alcohol dependence risk in a national twin sample: consistency of findings in women and men. Psychol Med 1997; 27:1381-96.

2. Comings DE, Gonzalez N, Wu S, Gade R, Muhleman D, Saucier G, et al. Studies of the 48 bp repeat polymorphism of the DRD4 gene in impulsive, compulsive, addictive behaviors: Tourette Syndrome, ADHD, pathological gambling, and substance abuse. Am J Med Genet 1999; 88:358-68.

3. Wilhelmsen KC, Schuckit M, Smith TL, Lee JV, Segall SK, Feiler HS, et al. The search for genes related to a low-level response to alcohol determined by alcohol challenges. Alcohol Clin Exp Res 2003; 27:1041-7.

4. Mulligan CJ, Robin RW, Osier MV, Sambuughin N, Goldfarb LG, Kittles RA, et al. Allelic variation at alcohol metabolism genes (ADHIB, ADHIC, ALDH2) and alcohol dependence in American Indian population. Hum Genet 2003; 113:325-36.

5. Chaieb JA, Castellarin C. Associação tabagismo-alcoolismo: introdução às grandes dependências humanas. Rev Saúde Pública 1998; 32:246-54.

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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