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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.20  suppl.2 Rio de Janeiro Jan. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2004000800007 

DEBATE DEBATE

 

Debate sobre o artigo de Hillegonda Maria Dutilh Novaes

 

Debate on the paper by Hillegonda Maria Dutilh Novaes

 

 

Eleonor Minho Conill

Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil. eleonorc@bol.com.br

 

 

Entre tantas contribuições interessantes, Novaes aponta em seu texto para a existência de uma "compartimentalização" dos campos do conhecimento, sugerindo também a criação de fluxos comunicativos para facilitar o impacto dos estudos realizados. A separação de campos do conhecimento caracterizou-se pela ausência de preocupação dos estudos em clínica e epidemiologia com os efeitos que os serviços poderiam ter no uso individual das tecnologias e com a pouca problematização de suas dimensões específicas nos trabalhos das ciências humanas. Mas, se a necessidade de uma interface pode ter sido uma das razões que facilitaram o surgimento de uma área para apreender essas especificidades, na medida em que o campo se expande, os formuladores de políticas, gestores e a própria área clínica parecem ser pouco influenciados por ela. Então, além da necessidade do crescimento da pesquisa científica nessa área, principalmente no Brasil, é necessário melhorar sua difusão e utilização.

Por compartilhar profundamente com tal argumento, optei por agregar mais alguns elementos a esse respeito. Por exemplo, repensar o uso do conhecimento produzido parece-me essencial antes mesmo de aumentá-lo. Por vezes, tem-se a impressão de que um novo estudo é proposto ou desenhado sem que a etapa de uma adequada revisão bibliográfica tenha sido cumprida ou a discussão dos resultados com os interessados tenha sido feita.

Em seu artigo, a autora enumera algumas iniciativas nesse sentido, e outras poderiam ser acrescentadas. Elas envolvem o estímulo a temáticas específicas ou à criação de uma cultura de difusão de resultados, tais como o financiamento de estudos realizados por pesquisadores locais e oriundos de demandas dos serviços, como foi feito pela Rede de Investigação em Sistemas e Serviços de Saúde do Cone Sul 1; o estabelecimento de agendas de prioridades de investigações conduzidas por instâncias gestoras (Ministério da Saúde. Contribuições à I Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia em Saúde; 1994); a mudança do modo de apresentação de teses e dissertações em favor de artigos publicados; a crescente incorporação do item divulgação dos resultados nos roteiros para financiamentos de projetos de pesquisa. Todas parecem ainda limitadas no alcance de seus objetivos, além de descontínuas.

O que está em discussão são as dificuldades e as possibilidades para que se estabeleça um diálogo ou uma interação mais proveitosa entre espaços ou territórios institucionais, atores e grupos sociais. Quais seriam os aspectos essenciais a serem levados em conta na busca de novas alternativas? Discuti-los parece tão amplo e audacioso como teorizar acerca da transformação social e, considerando os limites deste debate, meu esforço deve ser considerado exploratório, um compartilhar de idéias e dúvidas.

Motivada pela afirmativa da necessidade de que se estabeleçam "fluxos de comunicação oportunos e compartilhados" 2 (p. 27), fui procurá-los nas propostas que têm o diálogo como base em seus desenvolvimentos metodológicos, em três enfoques relacionados com os serviços de saúde: o planejamento comunicativo 2, o método Paidéia 3 e a avaliação participativa 4. Ainda que com referenciais diferentes, todos têm em comum a criação de espaços interativos para negociação ou envolvimento direto dos interessados na ação a ser realizada, com ênfase na mudança de atitudes e de comportamentos dos que supostamente detêm saber ou poder.

A avaliação participativa reconhece suas raízes na pesquisa-ação, na antropologia social e na pedagogia do oprimido de Paulo Freire. Vem sendo usada como uma metodologia de empowerment, por envolver os interessados no desenho e demais etapas da pesquisa, facilitando a reflexão e a ação através do uso de técnicas qualitativas e visuais (http://www.ids.ac.uk/ids/particip/index.html, acessado em 28/ Mai/2004).

Ao propor um novo modo interativo, o método Paidéia faz a distinção entre o que define como sendo núcleo e campo das competências profissionais. O primeiro refere-se às especificidades de cada formação e o segundo seria o espaço propício para as interações. O núcleo das competências da atividade de produção de conhecimento caracteriza-se pela busca da validade na realização de um estudo. Talvez resida aí um dos nós críticos sobre o qual possamos refletir. Ao garanti-la, distanciamo-nos do valor de uso do conhecimento produzido, causado pelo descompasso que se estabelece entre os tempos desses procedimentos e as necessidades mais imediatas de gestores e gerentes.

Vínculo, escuta, diversidade, incerteza, são categorias que aparecem com freqüência nesses enfoques e nos obrigam a rever posturas e procedimentos. Como fazê-lo, respeitando as especificidades do processo de pesquisa?

O debate epistemológico acerca dos impasses da ciência é amplo e diverso, com novas configurações do fazer científico que aproximam senso comum e ciência, impondo limites ao rigor científico. A maneira de encontrar tais limites e novos horizontes deve ser dada pelo diálogo entre as diversas razões, com processos sistemáticos que traduzam e articulem lógicas diferentes 5.

Tive a oportunidade de participar recentemente de um projeto dessa ordem, visando a avaliar a qualidade da atenção primária de um Distrito de Londres, em interação com o Primary Care Trust (PCT), nova estrutura de gestão local do National Health Service (NHS) (http: www.cai-haz.org.uk/publications/pdf/hsislington.pdf, acessado em 11/Jun/2004). Entre seus inúmeros aspectos interessantes, destacaria um, cuja aplicação é relativamente viável: a criação de um grupo de referência composto por representantes dos diversos serviços locais, com a função de acompanhar o projeto de pesquisa desde seu início até a etapa de divulgação dos resultados. Todavia, é verdade que nem sempre isso pode ser feito e nem todas as temáticas podem ser abordadas dessa forma. Além disso, trabalhos recentes mostram que a implicação de usuários nas pesquisas não garante a implementação de mudanças na qualidade dos serviços 6.

Pode-se argumentar com otimismo que houve um crescimento importante da pós-graduação na área de saúde coletiva. Os espaços acadêmicos tenderiam a cumprir essa função interativa, na medida em que grande parte dos mestrandos e doutorandos provém dos serviços e dali extraem as temáticas para seus trabalhos de pesquisa. Nota-se uma crescente preocupação com a criação de interfaces entre a pesquisa e os serviços nas propostas de institucionalização da avaliação do Programa de Expansão e Consolidação da Saúde da Família (PROESF), do Ministério da Saúde. O atual processo de ajuste de metas nas programações dos Sistemas Municipais de Saúde também oferece um campo promissor para esse tipo de interação, conforme sugerido no texto.

Mas sabemos o quanto é demorada a passagem entre a produção de conhecimento e a ação. Foram necessários quase cinqüenta anos entre os achados de Doll & Hill 7 sobre as relações entre fumo e câncer de pulmão até a visibilidade de programas visando a apoiar a suspensão do tabagismo. Isso não nos isenta de procurar caminhos, pois, como sugere o texto, a pesquisa deve ser em, sobre e para os serviços de saúde.

 

 

1. Myashiro G, Arias O, Conill E, Silver L. Incentivando investigaciones en servicios de salud: experiencia de un Programa de Enseñanza-Investigación en el Paraguay. In: Libro de Resúmenes Economía, Ciudadanía y Derecho a la Salud. VII Congreso Latinoamericano de Medicina Social. Buenos Aires: Asociación Latinoamericana de Medicina Social; 1997.
2. Rivera FJU. Análise estratégica em saúde e a gestão pela escuta. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1993.
3. Campos GWS. Saúde paidéia. São Paulo: Editora Hucitec; 2003.
4. Chambers R. Participatory rural appraisal (PRA): analysis of experience. World Development 1994; 22:1253-68.
5. Sanín FG. Limites da razão. Razão dos limites. In: Santos BS, organizador. Conhecimento prudente para uma vida decente, um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo: Editora Cortez; 2004. p. 419-28.
6. Crawford JM, Rutter D, Manley C, Weaver T, Kamaldeep B, Fullop N, et al. Systematic review of involving patients in the planning and development of health care. BMJ 2002; 325:1263-5.
7. Doll R, Hill AB. A study of the aetiology of the carcinoma of the lung. BMJ 1952; 2:1271-86.