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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.21 n.3 Rio de Janeiro May./Jun. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2005000300037 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Angela Maria Hygino Rangel

Escola de Serviço Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

 

 

SAÚDE E DOENÇA: UM ENFOQUE ANTROPOLÓGICO. Marco S. Queiroz. Bauru: EDUSC, 2003. 230 pp. (Coleção Saúde e Sociedade).
ISBN: 85-7460-169-1

O reconhecimento da importância dos estudos sócio-antropológicos relacionados aos processos saúde/ doença/atenção pode ser confirmado pelo número de estudiosos que se dedicam a essa tarefa, assim como pelo incentivo dado pelas instituições de ensino e de fomento à pesquisa. Entretanto, sabe-se que, na prática, alterações decorrentes das mudanças conceituais nem sempre são facilmente aceitas pelos profissionais de saúde e nem pelos gestores. Essa situação pode ser compreendida levando-se em conta que novas concepções acerca dos processos saúde/doença/atenção trazem, como conseqüência, a introdução de mudanças significativas nas relações estabelecidas entre profissionais de saúde de diferentes categorias e usuários dos serviços, além das repercussões no encaminhamento das práticas profissionais. As modificações resultam, ainda, em alterações na correlação de forças no interior das instituições, que podem afetar a hegemonia médica historicamente constituída. Por outro lado, os programas de qualificação profissional e os de educação permanente, patrocinados pelas instituições dedicadas à execução das atividades em saúde, são ainda insuficientes para dar conta desta demanda, ou seja, qualificar os profissionais de saúde, de todas as categorias, para a compreensão de uma concepção de saúde/doença/ atenção que leve em consideração o valor da cultura, do meio social, das práticas alternativas, e a importância da opinião dos leigos acerca dos procedimentos que lhes dizem respeito.

No entanto, registra-se, já solidamente estruturado entre os pesquisadores, um consenso acerca da importância dos estudos sócio-antropológicos para a Medicina e para a Saúde Pública. Essa importância está, dentre outros fatores, relacionada aos estudos que articulam representações sociais e processos de saúde/doença/atenção, notadamente pesquisas qualitativas com os profissionais e usuários dos serviços de saúde, a fm de compreender aquilo que sustenta e direciona suas intervenções e suas práticas. De modo geral, esses estudos são precedidos por uma discussão dos paradigmas da medicina tradicional em contraste com outras posições fundadas em práticas alternativas, incluindo aquelas oriundas de crenças religiosas.

O livro de Marcos S. Queiroz situa-se nessa linha interpretativa. Inicialmente o leitor encontra uma discussão acerca do conceito de representação social do ponto de vista multidisciplinar em pesquisa qualitativa, oferecendo à apreciação uma visão panorâmica do desenvolvimento do conceito, destacando sua potencialidade no interior das Ciências Sociais.

A seguir, o autor elabora uma referência crítica à medicina ancorada no positivismo, que, ao formar uma forte corporação profissional, "lutou e venceu as medicinas concorrentes" (p. 50). Na atualidade, em razão do que se convencionou designar como a crise dos paradigmas da ciência, o entendimento dos processos saúde/doença/atenção não deve ficar aprisionado a um contexto que desconsidere a relevância dos fatores sócio-culturais e psicológicos. É a (re)entrada da subjetividade em cena. Sem desconsiderar a importância da prática médica, agora ela passa a ser vista também considerando-se as contribuições e interpretações sociológicas e antropológicas sobre a doença/saúde/atenção.

Corroborando essa contribuição, o autor apresenta os resultados de uma pesquisa empírica, com o objetivo de clarificar o sentido do termo "alternativo" em saúde e doença. O estudo foi realizado na cidade de Campinas, em São Paulo, no período de maio de 1997 a abril de 1998. Segundo o autor, naquele momento, o município vivenciava um quadro de instabilidade no setor saúde, ocasionado pelo processo de implantação da municipalização dos serviços. Essa instabilidade, ao provocar alterações nas representações dos profissionais, possibilitou favoravelmente a realização do processo investigativo em torno da avaliação de outras alternativas de trabalho implantadas na área da saúde. Para tanto, utiliza-se de métodos oriundos da tradição etnográfica e fenomenológica, com as técnicas de observação participante e entrevista semi-estruturada. Ao adotar uma perspectiva metodológica qualitativa, o conceito de representações sociais emerge como instrumento fundamental à compreensão da realidade estudada.

O autor valoriza a investigação em torno de experiências práticas, demonstrando que a insistência na utilização do paradigma mecanicista tem sua parcela de responsabilidade nos problemas enfrentados pelo setor da saúde. Nesses termos, enfatiza que a experiência da saúde e da doença exige a consideração das questões subjetivas – microssubjetivas, segundo sua própria expressão –, ressaltando a inovação desta posição em termos da Sociologia da Saúde no Brasil.

Um dos méritos do livro é sua contribuição para superar o hiato entre as novas perspectivas teóricas e a prática vivida nos serviços de saúde por seus atores, o que o torna indispensável a todos os leitores interessados no tema e, particularmente, aos profissionais de saúde, estudantes, docentes e pesquisadores aguçados em acrescentar às práticas tradicionais uma perspectiva holística da realidade social vivenciada no setor saúde no Brasil.

Marco S. Queiroz é cientista social e mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas. Seu doutorado em Sociologia foi realizado na Universidade de Manchester, Inglaterra. É reconhecido como um dos primeiros estudiosos do Brasil a se preocupar com questões relacionadas à saúde, à medicina e seus paradigmas, questionando com vigor as relações entre a ciência, a medicina e a ordem social na modernidade.