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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.21 n.4 Rio de Janeiro Jul./Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2005000400035 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Heliete Karam

Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, Brasília, Brasil

 

 

ALCOOLISMO NO TRABALHO. Magda Vaissman. Rio de Janeiro: Garamond/Editora Fiocruz, 2004. 219 pp.
ISBN: 85-7617-033-7

O livro de Magda Vaissman – intitulado Alcoolismo no Trabalho e prefaciado pelo renomado médico, professor René Mendes – é, numa perspectiva estética aplicada à filosofia da saúde, um belo e útil estudo de caso: o do Programa de Apoio ao Trabalhador, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, voltado para a prevenção do alcoolismo de seus servidores e para a reabilitação dos casos afetados por esta síndrome. Belo porque, com precisão e sensibilidade intelectual, incluindo curiosas metáforas e metonímias, a autora relata a peculiar história da criação e evolução do centro no qual o programa (originário do diálogo fundador entre a psiquiatria e a neurologia) foi implantado e implementado, encontrando-se, hoje, consolidado enquanto modelo sistêmico interdisciplinar de assistência médico-social; e útil porque, entre seus registros fortes, apresenta o isolamento da variável absenteísmo, como principal indicador de efetividade desse programa. Por meio da escolha desse indicador, a autora dá visibilidade a um dos pontos nevrálgicos mais expressivos da vida intramuros das organizações: de fato, a literatura mundial atesta que uma das causas mais importantes dos afastamentos do trabalho é, justamente, a ingestão abusiva de álcool. Embora o livro possa ser considerado um estudo de caso, ele também é, por esta mesma razão, um instrumento importante para aquelas empresas e organizações que se preocupam com a referida ingestão por parte de seus funcionários; e, uma vez que o ponto crucial é a questão da adicção que antecede tal comportamento, é possível estender sua utilidade para o consumo patológico e patogênico de outras substâncias psicoativas, tão presentes na sociedade.

Inicialmente, em consonância com a tradição dos estudos epidemiológicos na área, a autora confirma o alcoolismo como um dos maiores problemas de saúde publica em âmbito mundial, ilustrando este achado com dados estatísticos contundentes. A seguir, dirige sua atenção para as organizações, nelas situando o problema do alcoolismo e destacando as pesquisas e procedimentos de ação e de intervenção nas realidades latino-americana e norte-americana; ela também apresenta a posição das pesquisas em outros países anglo-saxões, a proposta da Organização das Nações Unidas para a prevenção e tratamento do alcoolismo e faz uma justa retrospectiva da posição atual dos programas nas empresas brasileiras.

Sempre articulando entre si os tópicos tratados, a autora encara outras questões árduas, mas imprescindíveis de serem abordadas. Entre elas, destacam-se: (i) a tensão entre os órgãos financiadores dos programas de saúde (provedores de seu suporte técnico-material) e os profissionais pesquisadores (comprometidos com verdades fundamentais e ideais éticos universais); (ii) e o polêmico tema da escolha metodológica, estendido à avaliação de resultados de programas no campo dos consumos patológico e patogênico de álcool. A interdependência entre essas duas questões é claramente mostrada; no entanto, embora reconheça que não é fácil compatibilizar órgãos financiadores e profissionais pesquisadores (principalmente quando se busca ir além da ótica biologizante e meramente contabilizável das ações e das intervenções convencionais na área), a autora comprova que esta compatibilidade é possível quando atrelada a procedimentos metodológicos capazes de conduzir a resultados convincentes. Assim, desenvolve acurada revisão metodológica de diferentes padrões avaliativos no campo da saúde (notadamente em saúde mental nos quais o abuso de álcool é a variável primordial) e busca uma composição entre as referências quantitativa e qualitativa em pesquisa, conduzindo o leitor, passo a passo, ao âmago do modelo construído pelo programa.

No interior de suas análises, a autora atenta para a questão da co-morbidade, esclarecendo-a com muita propriedade: os quadros depressivos, os comportamentos anti-sociais e as desordens psiquiátricas convivendo com as adicções – nas quais se incluem as dependências cruzadas. O livro traz o "desenho da pesquisa": métodos adotados para estudar o programa, dados precisos sobre sua população-alvo, instruções sobre a constituição dos grupos e a coleta de dados, relação das hipóteses testadas; e discute os resultados e as conclusões, referindo, entre outros elementos, que a efetividade do programa poderia ser ampliada se – conforme recomendam alguns autores – tivessem sido incluídos, na contagem dos dados positivos, aqueles sujeitos que conseguiram um "beber controlado" ou que apresentaram "lapsos" e "pequenas recaídas" – fatos que, na verdade, não comprometem o processo de tratamento quando este é concebido na perspectiva de horizontalização consensual praticada pelo programa, da qual participam cada trabalhador, a equipe interdisciplinar e o grupo familiar.

Mas, tomando uma distância crítica do livro, nele há uma particularidade importante a ressaltar, pois ela constitui o fio condutor do programa: considerando-se que o foco temático do livro é a relação álcool/ trabalho, a autora apresenta pareceres a respeito do lócus de prevenção e tratamento do alcoolismo, entre os quais destaca-se o da Organização Mundial da Saúde – francamente favorável a que esse locus seja o próprio trabalho dos sujeitos. Essa idéia, à qual a autora se alia, constitui-se um dos pontos altos da prática do programa. Este defende que o tratamento dos servidores não os isole do ambiente e do local onde exercem suas atividades – restringindo-se as eventuais internações aos casos de intoxicação aguda e síndromes de abstinência, onde a falta de suporte hospitalar poderia oferecer algum tipo de risco para a segurança do sujeito ou de terceiros. Com isso, indica que a prevenção do alcoolismo nas organizações e a reabilitação dos casos de dependência química têm, na abordagem ambulatorial (incluindo a desintoxicação) um peso maior, sem descartar o recurso ao tratamento farmacológico visando a aliviar certos desconfortos decorrentes da abstinência ou prevenir as convulsões e o delirium tremens. No entanto, o livro indica que tal medida não se dá apenas em função da prevalência de casos possíveis de serem tratados desta maneira; mas, sim, porque há algo peculiar nessa maneira de agir responsável pelo sucesso do programa: por alguma razão particular, sua equipe interdisciplinar zela por não alijar o trabalhador daquilo que ele faz.

Temos, aqui, um desdobramento da particularidade fundamental recém-ressaltada: por que, exatamente, o trabalho é recomendado como locus da prevenção e da reabilitação? Sem dúvida porque sua centralidade é reconhecida para além do chão da fábrica (incluindo atividades e tarefas), no qual ele é, às vezes fator de risco, às vezes suporte terapêutico. Mesmo que a bibliografia adotada seja de orientação notadamente anglo-saxônica, a autora se permite, na composição destas análises – e visando a fundamentar tal recomendação – levar em conta noções teóricas próprias de outras escolas, dando elasticidade ao seu pensamento sem, no entanto, perder o rigor científico. Esta particularidade constitui-se elemento estruturante do programa: na lógica da prevenção-reabilitação, a equipe interdisciplinar, em harmonia com a cultura organizacional – esta entendida como um dos resultados positivos do programa – atribui um lugar privilegiado ao trabalho.

Ora, essa particularidade, filia-se à linha de ação-pesquisa adotada por aqueles profissionais que percebem o trabalho (ou, mais precisamente, o trabalhar), como principal operador de saúde mental. O livro revela, então, um aspecto mais abstrato do programa – mas nem por isto menos real – que é o papel simbólico do trabalho enquanto locus principal de suas ações. A dimensão subjetiva, mas, principalmente, intersubjetiva, implicada neste processo, é que poderia ser um pouco mais explorada no livro. A definição do que se entende por trabalho – assim como foi definido, de imediato, o que se entende por alcoolismo – ajudaria esta operacionalização. Esclarecer os dois conceitos principais a que o título do livro remete, complementaria o estudo da relação alcoolismo e trabalho, nela situando o absenteísmo – pois não é por acaso que este tenha sido escolhido e circunscrito como principal indicador de avaliação da efetividade do programa. De fato, os índices crescentes de absenteísmo nas organizações, e o número, também crescente, dos casos de consumo de álcool têm sido preocupações apontadas pelos gestores empresariais. Portanto, como indica o livro, é bastante apropriado pensar-se numa relação de causa e efeito entre esses dois fenômenos: eles não são variáveis isoladas uma da outra, em especial quando as demandas de inúmeros gestores a eles fazem tanto eco.

Nesta perspectiva, o alcoolismo – como bem remarca a autora – não pode mais, definitivamente, continuar sendo visto como entidade nosológica unitária, mas como "síndrome multivariada" a ser compreendida numa perspectiva interdisciplinar e no contexto de uma nova conjuntura epidemiológica. Este ponto é capital, conforme demonstram os estudos em psicopatologia e psicodinâmica do trabalho e da ação, os quais permitem superar a "lógica segregadora" entre trabalho e saúde. Inscrito neste registro, o livro vai ao encontro dessa disciplina: sem deixar de reconhecer os novos paradigmas da neuropsiquiatria moderna – com destaque para a neurotoxicologia – pode-se dizer que ele situa esta área do conhecimento no registro do princípio da complexidade (Morin, passim), adotado pelas pesquisas modernas no campo das ciências da saúde, e abre caminho para que os programas em saúde mental, principalmente aqueles voltados para a assistência aos consumidores patológicos e patogênicos de álcool, reconheçam o lugar privilegiado que o trabalho ocupa em nossas vidas: quando aviltado, torna-se um fator de risco capaz de conduzir os sujeitos em sofrimento ao seu consumo; quando ressignificado pode se tornar o pilar pelo qual o sujeito é capaz de retomar a construção de seu processo identitário (exercício da cidadania) – retomada que, no contexto da pesquisa-ação moderna, pode ser interpretada como um "processo poético" permanente.

Assim, o livro oferece uma contribuição estratégica fundamental para subsidiar o planejamento de ações em saúde, e também indica um progresso relevante no universo das intervenções em saúde, na medida em que nele identifica-se uma mudança de eixo das terapêuticas na área: este é guindado do registro da doença para o da saúde, atestando o quanto, ultimamente, o conceito de saúde vem sofrendo modificações – conforme nota a autora.

Entre os vários benefícios do programa pacientemente analisado, além da possibilidade concreta de recuperação dos servidores, destaca-se "a baixa probabilidade de um caminho inexorável para a aposentadoria" precoce ou forçada. Todavia, concordando com a autora, fica um senão a ser pensado e, quem sabe, algo a ser relançado como um novo e desafiador objeto de pesquisa: a relação alcoolismo/absenteísmo junto às camadas mais altas das organizações – camadas que, por algum motivo, são, geralmente, deixadas de lado nas pesquisas nacionais. Todavia, a possibilidade de se ampliar os estudos feitos, neles agregando o segmento dos altos escalões e o aprofundamento do valor simbólico do trabalho, é algo para ser desenvolvido num outro momento; por enquanto o livro cumpre a finalidade primeira a que se propôs: avaliar a efetividade do programa supramencionado, no que tange, especificamente, a prevenção do alcoolismo e o apoio ao trabalhador afetado por essa síndrome.

Não se pode deixar de mencionar os dois artigos constantes em anexo que, numa perspectiva ética do testemunho, complementam a leitura do livro, colocando-nos em contato direto com a realidade daqueles trabalhadores que, nas empresas, continuam imolando sua saúde "em nome do padrão de qualidade". Usando o caso dos mestres cervejeiros, a autora destaca a relação entre a medicina do trabalho e a responsabilidade civil, e discute a possibilidade do alcoolismo ser, de fato, uma doença profissional.

Assim, situado no registro da teoria da ação, o livro é urgente para médicos e assistentes sociais – principais parceiros no bem-sucedido programa – mas, também, ampliando a visão interdisciplinar que propõe, para psicólogos, enfermeiros, administradores, engenheiros de segurança, sociólogos, nutricionistas, farmacêuticos, cientistas contábeis e advogados, sobretudo "num país em que o trabalho humano é tão pouco valorizado".