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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.22 n.5 Rio de Janeiro May. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2006000500025 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Luiza Garnelo

Centro de Pesquisas Leônidas & Maria Deane, Fundação Oswaldo Cruz, Manaus, Brasil. Universidade Federal do Amazonas, Manaus, Brasil

 

 

AVALIAÇÃO POR TRIANGULAÇÃO DE MÉTODOS: ABORDAGEM DE PROGRAMAS SOCIAIS. Minayo MCS, Assis SG, Souza ER, organizadoras. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2005. 244 pp.
ISBN: 85-89697-06-1 

O livro Avaliação por Triangulação de Métodos: Abordagem de Programas Sociais é um guia que nos leva, com mão segura, para lugares onde nunca antes estivemos. Organizado por Maria Cecília de Souza Minayo, Simone Gonçalves de Assis e Edinilsa Ramos de Souza, ele é produto da colaboração de 11 pesquisadores reunidos numa simpática reunião de investigadores seniores, mestrandos e doutorandos. Os autores exploram, com minúcia e precisão, dois temas caros à saúde coletiva brasileira: a avaliação de programas sociais e o uso de métodos interdisciplinares para a investigação da realidade, aqui empreendida através da chamada triangulação de métodos.

A interdisciplinaridade como estratégia de abordagem de objetos complexos tem sido alvo de preocupação da saúde pública latino-americana, na qual os autores brasileiros têm desempenhado um papel proeminente. Em particular, a trajetória do grupo responsável pelo trabalho aqui analisado mostra, a cada nova publicação, os avanços na construção de uma práxis científica capaz de apreender as dimensões objetivas e subjetivas da realidade e de superar a falsa dicotomia entre sujeito e objeto da pesquisa. O enfoque simultaneamente hermenêutico e dialético proposto por Minayo, e desenvolvido pelo grupo de participantes da investigação, viabiliza a combinação de múltiplos aportes teóricos e nos mostra formas de superar a mútua exclusão entre as filosofias materialistas e subjetivistas, que desde Descartes assombram a razão ocidental.

A triangulação de métodos, um elemento-chave na concepção do livro, surge como uma estratégia de diálogo entre áreas distintas de conhecimento, capaz de viabilizar o entrelaçamento entre teoria e prática e de agregar múltiplos pontos de vista ­ seja das variadas formulações teóricas utilizadas pelos pesquisadores ou a visão de mundo dos informantes da pesquisa ­ utilizados de modo articulado no estudo empreendido pelos autores. O uso da triangulação exige, também, a combinação de múltiplas estratégias de pesquisa capazes de apreender as dimensões qualitativas e quantitativas do objeto, atendendo tanto os requisitos do método qualitativo, ao garantir a representatividade e a diversidade de posições dos grupos sociais que formam o universo da pesquisa, quanto às ambições do método quantitativo, ao propiciar o conhecimento da magnitude, cobertura e eficiência de programa sob estudo.

O mote do livro é uma pesquisa avaliativa empreendia junto ao Programa Cuidar, cuja ambição é superar a mera transmissão de conhecimentos escolares e propor uma pedagogia que sensibilize e motive os jovens para o cultivo de valores, e para o estímulo ao exercício da cidadania, da autonomia, da solidariedade e da responsabilidade social. Na tentativa de consolidar o Programa, seus idealizadores buscaram parcerias que efetuassem uma avaliação capaz de apreender as potenciais mudanças sociais geradas pela ação programática, e os processos sociopolíticos e psico-afetivos envolvidos na proposta de transformação de valores empreendida pelo Cuidar. Tais voltas e reviravoltas deram origem à obra que agora resenhamos.

Porém, expor o processo de avaliação do Programa Cuidar talvez seja um objetivo menor do livro. A pesquisa avaliativa surge aqui como um fio condutor da verdadeira finalidade dos autores reafirmada no último parágrafo da obra: o desejo de viabilizar, por meio do seguimento do dia-a-dia da pesquisa, um ensino-aprendizado teórico-prático de como se efetuou uma investigação usando-se a triangulação de métodos; dos caminhos seguidos pelos pesquisadores e de seus acertos e falhas nesse tortuoso percurso, que se desdobra em inusitadas combinações de métodos interdisciplinares, gerando produtos igualmente singulares. Ao longo da introdução e dos sete capítulos que formam o livro, os autores dissecam as orientações teóricas que os conduziram e demonstram como elas foram utilizadas na investigação avaliativa do Programa Cuidar.

A introdução, assinada por Minayo, explicita os conceitos de avaliação e de pesquisa avaliativa aplicada a programas sociais que foram adotados pelos autores do livro. Ela também compara as características que unem e separam a pesquisa acadêmica e a pesquisa avaliativa desenvolvida utilizando-se a triangulação de métodos.

A autora remete as premissas teóricas da pesquisa avaliativa às categorias do entendimento em Kant. Em busca de uma síntese entre sujeito/objeto, teoria/prática, Minayo lança mão da Crítica da Razão Pura, na qual a filosofia kantiana propõe a unidade sintética entre os fenômenos e a razão, construtora e construto da experiência. No sujeito kantiano os conhecimentos que detém, a priori, possibilitam que ele experimente a realidade; mas a atribuição de sentido ao que é experimentado só pode ser construída no contato efetivo com a própria realidade. As proposições kantianas são dissecadas por Minayo, para nos levar à compreensão de como se dá a interdependência entre as dimensões objetivas e quantificáveis e as dimensões subjetivas de interpretação da realidade. Seus argumentos demonstram como os procedimentos de triangulação de métodos propiciam essa (re)união entre os distintos planos da existência e da experiência no que-fazer científico. Outro aporte epistemológico apontado pela autora é a teoria da complexidade, por meio da qual trabalha as idéias de organização recursiva dos fenômenos sociais e da causalidade complexa, a fim de viabilizar a combinação de conceitos concorrentes e complementares de cada área disciplinar que acorre à pesquisa por triangulação.

No capítulo 1 é ainda Minayo quem explora o conceito de mudança social, um assunto importante para a pesquisa avaliativa, que investiga processos sociais que são, em última instância, tentativas de mudança social. A autora explora também as dificuldades enfrentadas pelos processos avaliativos, interessados em apreender as potenciais diferenças entre o momento inicial e final de uma intervenção, e se as eventuais mudanças encontradas durante o processo avaliativo podem ser atribuídas (ou não) a tais estratégias de ação. O capítulo enfatiza um tipo específico de mudança social, a metanoia, ou seja, a busca de mudança da mente dos sujeitos, um tema de interesse específico dos executores e avaliadores do Programa Cuidar, concebido como um tipo de intervenção que visa à mudança de valores.

Na segunda parte do capítulo, Minayo efetua um diagnóstico da fase de implantação do Programa Cuidar, e dos esforços para estabelecer uma linha de base capaz de permitir que a equipe de investigadores avaliasse, nos três anos subseqüentes, a implementação do programa e os resultados obtidos por meio desta ação.

Nos capítulos seguintes os autores se diversificam. No segundo capítulo, Minayo, Souza, Constantino & Santos discutem os métodos e técnicas empregadas em situações interdisciplinares. Exploram as possibilidades de combinação de abordagens qualitativas e quantitativas adequadas ao experimento da triangulação e demonstram as possibilidades e dificuldades de seu uso na avaliação de programas sociais.

Na seqüência, os autores discutem com clareza de detalhes as bases teóricas e técnicas utilizadas no trabalho de investigação e ­ o que é mais importante para as finalidades do livro ­ as maneiras como foram articuladas para viabilizar a pesquisa do Programa Cuidar. A narrativa oferece ao leitor uma visão panorâmica de como experientes pesquisadores, oriundos de diversos campos de saber, se movem no campo, que problemas enfrentam e os modos como buscaram a superação das dificuldades inerentes à tarefa.

Os capítulos 3 e 4 tratam, respectivamente, dos objetivos e da construção de indicadores que subsidiam a elaboração dos instrumentos qualitativos e quantitativos utilizados no trabalho de investigação. Neles, os autores brindam o leitor não apenas com uma revisão sistemática das premissas que fundamentam o uso dos instrumentos de pesquisa social (questionários, roteiros de entrevista e de observação, para grupo focal, e outros) e das características, finalidades e limites de cada um deles, mas também proporcionam uma farta ilustração de seu uso no dia-a-dia da pesquisa, remetendo-nos diretamente ao campo, num entrelaçamento preciso entre teoria e prática.

A idéia de triangulação é retomada para apoiar a construção de indicadores que permitam quantificar dimensões objetivas e interpretar as facetas subjetivas do processo social estudado. No caso do Cuidar tal tarefa exigiu muita delicadeza, pois parte importante das propostas do programa estava voltada para dimensões muito subjetivas da vida dos estudantes e professores, tais como avaliar auto-estima, as atitudes e o exercício da liderança e da cidadania. A construção dos indicadores é discutida passo a passo, propiciando ao leitor uma nítida visão de suas estratégias de elaboração e das dificuldades encontradas na produção de indicadores que se mostrassem capazes de operacionalizar os objetivos da pesquisa e de expressar as características próprias do cenário social sob avaliação.

O capítulo 5 traz uma discussão que abrange o preparo, a entrada e o desenvolvimento do trabalho de campo. Ele analisa desde questões muito corriqueiras como o agendamento de viagens, o transporte dos equipamentos e os detalhes de hospedagem, até um pormenorizado tratamento do papel social produzido por um pesquisador ao iniciar a pesquisa, o qual variará (facilitando ou dificultando a tarefa) de acordo com as alianças construídas, a interação com os jogos de poder dos agentes sociais encontrados no campo e o modo como o pesquisador conduz, explícita e implicitamente, a práxis da investigação. O texto alterna momentos de teoria densa com uma vívida descrição do cotidiano dos pesquisadores, reconstruindo com cores e sentimentos a trajetória da pesquisa qualitativa, que habitualmente é vista como caixa preta: olham-se as premissas e resultados, sem se entrever o modo como ela foi desenvolvida.

Os capítulos 6 e 7 tratam do processamento, análise, interpretação e divulgação dos dados, segundo a orientação hermenêutica-dialética. Neles, os pesquisadores demonstram os modos como trataram seus heterogêneos dados de campo, utilizados como eixo de uma argumentação que segue a linha mestra do livro, trazendo para o plano concreto a sofisticada teoria colocada em ação pelos autores. Sempre exemplificando por meio da pesquisa do Programa Cuidar, os autores demonstram as categorias de análise que utilizaram e discutem também problemas práticos enfrentados por todos nós, tais como as dificuldades na digitação do material e na construção e verificação da consistência dos bancos de dados. A construção dos capítulos permite que o investigador experiente reflita sobre suas próprias estratégias de trabalho, e que o jovem pesquisador se oriente com segurança na massa de dados que costuma emergir dos trabalhos de campo, e que nem sempre é utilizada de modo adequado.

O sétimo e último capítulo fala de algo pouco abordado em processos de investigação; discute como estabelecer estratégias de comunicação que divulguem os resultados da pesquisa. Os autores nos lembram que as características e finalidades próprias da pesquisa avaliativa requerem estratégias especiais de divulgação de produtos. Assim, eles exploram as estratégias formais e informais de comunicação dos resultados da pesquisa, assinalando outros modos menos valorizados (ou menos praticados) pelos pesquisadores, como o sumário executivo e as apresentações orais. Preocupam-se também em discutir como elaborá-las de forma resumida e agradável, visando particularmente ao público de gestores que dispõem de pouco tempo para a leitura de volumosos relatórios e que exigem rapidez na tomada de decisões.

A última, mas não menos relevante, questão colocada pelo livro é a necessidade de definir, com clareza, os parâmetros que mostrem como os avaliadores levaram a cabo sua missão. Sendo que essa é uma questão de difícil solução, a propositura dos autores é a apreciação pelos pares, razão pela qual decidiram redigir a obra da maneira aqui descrita, demonstrando os contraditórios caminhos da pesquisa e valorizando o conhecimento já acumulado sobre o assunto, mas sem deixar de explicitar o processo de ensino-aprendizado gerado em experiências multidisciplinares como a pesquisa avaliativa empreendida junto ao Programa Cuidar.

Essa é uma diferença essencial trazida pelo livro, ele permite que o leitor observe ­ em ação ­ o diálogo entre diferentes áreas de saber. Para lograr tal feito os autores trazem até nós uma interessante alternância entre saber e fazer, demonstrando, por um lado, os fundamentos teóricos da pesquisa avaliativa, e por outro, os modos de desenvolvê-los no cotidiano da investigação, expondo os bastidores da difícil construção da interdisciplinaridade. Todos esses motivos conspiram para tornar Avaliação por Triangulação de Métodos: Abordagem de Programas Sociais uma leitura obrigatória para os pesquisadores iniciantes e experientes, e para os demais interessados na produção do saber.