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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.22 n.5 Rio de Janeiro May. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2006000500027 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Romeu Gomes

Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. romeu@iff.fiocruz.br

 

 

A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA MASCULINIDADE. Oliveira PP. Belo Horizonte: Editora UFMG/Rio de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro; 2004. 347 pp.
ISBN: 85-7041-416-1

No cenário bibliográfico das ciências sociais, há alguns anos, a masculinidade vem surgindo como uma categoria de discussão. A obra de Pedro Paulo de Oliveira, que é uma versão de sua tese de Doutorado em sociologia, faz coro a esse movimento que procura tratar essa categoria como uma construção social.

Na introdução, é apresentada a etimologia da palavra masculinidade ­ que surge no século XVIII para explicitar critérios de diferenciação entre os sexos. Sem cair na armadilha de reificar a masculinidade, logo de início, o autor chama a atenção para a insuficiência das definições acerca dessa expressão e encaminha o debate para a importância das suas características históricas, a sua força de arregimentação social, a imbricação com outros lugares simbólicos estruturantes e o seu poder de orientar a formulação de juízos.

Em sua discussão, Oliveira chama a atenção para a masculinidade como um espaço simbólico de sentido estruturante que modela atitudes, comportamentos e emoções a serem seguidos. Aqueles que seguem tais modelos não só são atestados como homens como também não são questionados pelos outros que compartilham desses símbolos.

Em seguida, o autor desenvolve uma discussão com o intuito principal de buscar a modelação da masculinidade a partir de uma sociogênese moderna que se volta para instituições que foram decisivas para o surgimento de suas características contemporâneas fundamentais. Assinala que, nos séculos XVIII, XIX e parte do século XX, inúmeras características tidas como positivas ­ a exemplo da valentia, firmeza, inteligência e imponência ­ foram associadas ao ser masculino e vistas como qualidades sobre as quais a própria sociedade gostava de se autoprojetar. Discute ainda ícones, símbolos e reflexos dos períodos medievo e moderno que constituem o masculino ou em torno dele gravitam.

Nesse ideal moderno, em que o temor da imaturidade é menor do que o da efeminação, a transformação de um menino em homem passa, primeiro, pela "aquisição de um certo padrão físico e, depois, através de uma adequação moral, que deveria culminar com a consagração do casamento" (p. 54).

Ainda no século XIX, ressaltam-se os discursos médicos que alimentaram o slogan mente sã num corpo são e ajudaram a desqualificar aqueles ­ como insanos, negros, judeus, homoorientados ­ que não se encaixavam no ideal burguês de masculinidade, imputando-lhes o status de serem diferentes ou serem deficientes sob algum aspecto. Junto a essa desqualificação, a mulher costumava também ser vista como ser inferior.

A disciplinarização do corpo masculino também é tratada nesse capítulo. Esse mecanismo, que fazia parte de um processo social mais amplo, servia aos ideais de conquista e defesa e era incorporado ao cotidiano. Seguindo os eixos de docilidade e utilidade, "o processo de subjetivação quase que se igualava ao processo de sujeição presentes nas forças armadas, nas escolas, em conventos, internatos, colégios, quartéis, presídios, fábricas, hospitais, asilos etc." (p. 63).

Seguindo a sua análise sobre o assunto, o autor passa para a contemporaneidade, discutindo o enredamento do ser masculino com fragilidades, angústias, crises, modismos e aparentes contradições. A discussão política e acadêmica em torno do ser masculino também é por ele tratada.

Em termos acadêmicos, segundo Oliveira, a epidemia da AIDS ensejou debates que tornaram públicos certos temas interditos, como as relações extraconjugais e homoorientadas. No bojo dessa discussão, desencadeou-se o estímulo para as negociações femininas em prol de práticas sexuais seguras, questionando-se as bases convencionais em que predominava a determinação masculina no desenho e significado da heterossexualidade padrão. Ele observa que a AIDS também provocou uma reação do movimento gay que trouxe reflexos aos estudos sobre a masculinidade. Esse movimento se organizou no combate do recrudescimento do preconceito e do estigma imputados àqueles considerados vetores da disseminação da doença.

Ainda em relação ao mundo contemporâneo, o autor observa que, "apesar de todas as mudanças socioestruturais e todos os movimentos que continuamente contestam a hegemonia masculina, esse lugar simbólico ainda é bastante valorizado e funciona como bússola de orientação para a construção de identidades em diversos segmentos sociais" (p. 285).

Em suas considerações finais, Oliveira almeja que sejam desatados os nós das conexões e das associações imediatamente projetadas na polarização entre o masculino e o feminino, tão freqüentes nos julgamentos do senso comum.

Inúmeras são as contribuições que a obra em questão pode fornecer ao campo da saúde pública. Por meio dela, pode-se ancorar uma discussão sobre as identidades de gênero. Essa discussão, por sua vez, pode intentar uma maior reflexão acerca da masculinidade para se compreender os comprometimentos da saúde nas relações entre os gêneros. As imbricações entre violência de gênero e masculinidade é outra temática que pode buscar subsídios na construção social da masculinidade. A superposição de ações violentas e características tidas como viris podem ser melhor compreendidas por meio dessa construção.

Ainda no que tange à perspectiva relacional de gênero e saúde, as especificidades do ser homem no processo saúde-doença-cuidar podem ter maior visibilidade a partir do debate da obra em questão. Nesse sentido, dentre outras questões, o debate sobre a socialização dos homens que faz com que o cuidar de si não seja visto como prática masculina pode ganhar maior densidade com a leitura deste livro.