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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.22 n.12 Rio de Janeiro Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2006001200024 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Eugênia Coelho Paredes

Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, Brasil. eparedes@cpd.ufmt.br

 

 

LOUCURAS E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS. Jodelet D. Petrópolis: Editora Vozes; 2005. 391 pp.
ISBN: 85-326-3127-4

Há pouco mais de meio século, o psicólogo social Serge Moscovici pensou e postulou a existência das representações sociais. Na seqüência, apresentou sua teoria, denominada "Teoria das Representações Sociais" (TRS). Sua pesquisa fundadora tratava de como os conceitos da Psicanálise deixam seu território original, povoado por especialistas, e passam a integrar o pensamento comum, presente na vida cotidiana das pessoas. Alguns anos depois, Denise Jodelet vai a campo estudar como pode ser socialmente representada a loucura. Seu estudo se faz à luz da teoria moscoviciana.

A pesquisadora tem sido considerada como divulgadora e explanadora da obra de Moscovici. Seu interesse genuíno e caloroso pelos latino-americanos, com os quais abriu largas vias de comunicação científica e humana, foi acompanhado por seu trabalho continuado de explicar e propor a TRS como alternativa teórica às análises sobre fatos sociais nas mais diversas áreas de aplicação.

Nesse livro, Jodelet cumpre igual papel: de forma rigorosa, que é o seu feitio, dá ao entendimento de todos como perscrutar a realidade através das lentes da TRS. Ao percorrer diversos problemas de que se pode ocupar, como as questões da alteridade, do interdito, das práticas guiadas por crenças e atitudes, a autora escancara ou apenas aponta, em conformidade com o que julga necessário, os veios teóricos de sustentação àquilo que descreve e analisa.

A pesquisadora utiliza metodologia quantitativa extensa, que abrange todos os placements, as famílias que acolhem os doentes mentais, a fim de ter clareza sobre os estilos de vida reservados aos pacientes. Constrói, assim, uma amostragem de pessoas que deveriam ser entrevistadas, com base nas diferenças de práticas, para ver a quais representações correspondiam tais dessemelhanças.

Mas Jodelet também trabalha com metodologia qualitativa. E o faz de modo arguto, aliando estilo, perspicácia e sutileza. De fato, a investigadora utiliza diversas formas de recolha de dados. Consulta documentos, observa práticas, conversa com pessoas: famílias anfitriãs, pacientes, funcionários da saúde.

Um paper de Colin Fraser, da Universidade de Cambridge, considera que Jodelet, nessa investigação, em busca de conexões e sentidos, realiza um trabalho de inferência quase detetivesca. Isto, que poderia ser perigoso em um iniciante descuidado, acaba por revelar acurácia, meticuloso esforço de construção analítica da pesquisadora.

Jodelet costuma dizer que os inquéritos sobre determinados assuntos podem conduzir os respondentes a tomar consciência das teorias que formulam sobre diversos aspectos da realidade. Recentemente, em João Pessoa, no curso de uma conferência, ela contou que exatamente essas mudanças na percepção das pessoas, habitantes da pequena cidade francesa Ainay-le-Chateau, tornaram-na persona non grata, uma vez que eles "...m'ont littéralement mise à la porte".

O que teria ela feito de tão grave? Penetrando no íntimo da comunidade, relatou que a maioria dos moradores desejava manter um estatuto de desigualdade e exterioridade em relação aos loucos. Entretanto, em sua investigação, Jodelet percebera a existência de um grupo minoritário, desviante em relação a tal norma social, e, interessando-se por isso, vê a si fechadas as portas, porque o grupo maior não lhe permitia que penetrasse no "...secret de la déviance qui remettait en cause la norme que l'on voulait me cacher". Publicada a pesquisa, as dificuldades foram exibidas, não era mais possível fugir ao conhecimento das circunstâncias que haviam sido, até então, cuidadosamente manejadas para permanecer em um estado penumbroso.

A obra, que já quase completa duas décadas de sua edição original, desvela mais do que uma teoria e alguns possíveis resultados de uma bem conduzida pesquisa. Uma das conseqüências mais importantes do trabalho que Jodelet realizou diz respeito a relembrar aos que a lêem a enorme importância em atentar ao pensamento do senso comum.

Entre os acadêmicos, em particular os especialistas das diversas áreas do saber, o conhecimento científico é de tal forma prezado, que ocorre o esquecimento de singelas verdades, verdadeiros truísmos. Por exemplo, o relembrar que a maior parcela da humanidade vive de acordo com noções oriundas das experiências do cotidiano, das conversas entretidas em seus grupos de pertença, do saber que escorre pelos meios de comunicação. O livro de Jodelet revela um sistema classificatório da doença mental, formado no nível que insistimos em qualificar como ingênuo, e mostra diversas de suas repercussões na vida cotidiana dos personagens que nos apresenta.

Para delimitar seu caminho, ela propõe uma pergunta, de aparência singela: "...como as representações sociais da loucura explicam a relação com o doente mental, figura da alteridade?". É em torno das respostas possíveis que seus leitores navegam pelo livro, dividido em três partes.

Inicialmente, Jodelet nos leva à pequena cidade que tomou para locus de sua investigação, e o faz de forma a nos permitir o ingresso à paisagem e à história de uma colônia familiar. O funcionamento desta é explicado: "...é um hospital psiquiátrico baseado na instalação 'hétero-familiar': os doentes que dela dependem, administrativa e terapeuticamente, gozam de um tipo de vida livre e familiar. São assumidos, no plano da moradia, da alimentação e da vigilância diária, por famílias que residem perto do estabelecimento hospitalar, mas que não pertencem propriamente ao pessoal deste. Assim, no caso que foi objeto do nosso estudo, nos anos 1970, mil doentes, confiados a cerca de 500 famílias, estavam dispersos por um perímetro de 20 km em torno do centro médico-administrativo situado na cidade de Ainay-le-Chateau".

No segundo bloco, a autora conduz à constatação das barreiras interpostas à integração, mostrando, no fechamento, que o medo está no âmago da questão social investigada.

Na terceira parte, Jodelet nos encaminha aos mundos que residem no perímetro demarcador de sua pesquisa, afirmando: "um traço, de constância impressionante, marcaria todos os discursos a respeito dos pensionistas: a dificuldade de falar deles como de doentes mentais; ou mais exatamente de aproximar-se, através deles, da doença mental. (...) O embaraço, a reticência que manifestaram os nossos interlocutores ao enfrentar diretamente, na comunicação, algo que se referisse ao fato psiquiátrico transparecia até na enunciação, nas hesitações, nas recusas, nos mutismos, na fuga ou na divagação diante das perguntas...".

No que falam, os informantes colocam suas classificações da doença, enquanto sediadas no plano físico, em dois topos: o cérebro e os nervos. São diagnósticos consensuais: os de cérebro vazio, parado, encolhido, e, do outro lado, aqueles que têm os nervos tomados, os que caíram nos nervos, nestes casos, por exemplo, porque nasceram de um sangue mau, ou em vista de ter tido o próprio sangue desandado...

Que importância tem esse sistema de explicação, desenvolvido no plano do senso comum? Jodelet vai, nas páginas subseqüentes, fornecendo vários indicadores, que atendem ao interesse em conhecer essa topologia e as influências que ela acarreta à vida cotidiana.

O que parece apenas fruto do desconhecimento, em si mesmo inócuo, pode produzir, bem ao contrário, relações até perigosas. No que concerne à administração dos remédios, diz Jodelet: "aliás, os hospedeiros elaboram uma 'teoria' segundo a qual a nocividade do medicamento está no fato de que é destinado a tratar dos nervos e é apresentado sob forma líquida". Cita, então, um de seus entrevistados: "Isso acalma eles. Tenho um que é nervoso, faz gestos, faz caretas, bate palmas e tudo isso. Pois é, tenho remédios para dar para ele e eu disse ao M. (o enfermeiro); ele me deu um e eu fiquei toda cheia de manchas. Eu disse 'Com certeza é o remédio'. De fato, ele me deu em comprimidos em vez de líquido e passou".

No epílogo, Jodelet nos coloca questões que dizem respeito aos tabus relativos ao sexo, a alianças, ao afeto, explicando que tudo isso, e as questões concernentes aos contágios orgânicos e psíquicos, "...se conjugam para multiplicar as partições protetoras", ocorrências habituais em uma comunidade defensiva.

Para apresentação da edição brasileira, Sandra Jovchlovitch resume: "A grande lição do livro de Jodelet é demonstrar que efeitos simbólicos, como os provocados por representações sociais da loucura, são tão reais quanto efeitos materiais".

No prefácio, o próprio Moscovici vaticina: "não se lê a obra de Denise Jodelet sem ter vontade de ler novamente". E isto se tem provado verdadeiro.