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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.23 n.3 Rio de Janeiro Mar. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2007000300031 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Kátia Silveira da Silva

Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil

 

 

EPIDEMIOLOGIA DOS AGRAVOS À SAÚDE DA MULHER. Aldrighi JM, Buchalla CM, Cardoso MRA, organizadores. São Paulo: Editora Atheneu; 2005. 319 pp.

ISBN: 85-737-9716-9

O livro Epidemiologia dos Agravos à Saúde da Mulher contribui para organizar e divulgar informações atualizadas sobre a saúde feminina, que se encontram dispersas em artigos científicos e livros textos nacionais e internacionais. Os editores e os colaboradores se constituem num conjunto de profissionais da área acadêmica e clínica, com produção científica e de competência técnica reconhecidas.

O livro é composto por trinta capítulos, divididos numa primeira parte intitulada Epidemiologia, na qual são resumidos em três capítulos elaborados pelas professoras Cássia M. Buchalla & Maria Helena Alves Cardoso os conceitos básicos sobre medidas de freqüência e de efeito, principais desenhos de estudos epidemiológicos e análise de dados; na segunda parte, intitulada Clínica, são apresentados vários temas importantes relacionados à saúde da mulher, sendo dado um enfoque especial aos aspectos clínico-epidemiológicos relacionados ao câncer para o qual foram dedicados dez capítulos, seis deles associados ao sistema reprodutivo feminino.

O primeiro capítulo da parte Clínica (capítulo 4) apresenta o perfil de morbimortalidade da população feminina brasileira, os professores Rui Laurenti & José Mendes Aldrighi chamam a atenção para a importância do entendimento das questões relacionadas à saúde da mulher numa perspectiva de gênero, isto é, o ser mulher (assim como, ser homem) é uma "construção social, a partir das diferenças entre sexos, que varia historicamente e está sujeita a mudanças por intervenções de políticas na ordem social, econômica, jurídica e política". Portanto, esses papéis socialmente definidos têm conseqüências diretas na saúde e no adoecimento da população.

Para os anos de 1999/2000, são apontadas como principais causas de mortalidade feminina as doenças do aparelho circulatório (31%) e as neoplasias (14%), a partir de dados oficiais que apresentam elevado porcentual de causas mal definidas (15,8%). Se for considerada apenas a faixa de 10-49 anos e causas específicas de morte, uma investigação realizada pelo Centro Brasileiro de Classificação de Doenças em 2002, observou que o acidente vascular cerebral, a AIDS e os homicídios foram as causas de maior destaque. Quanto à morbidade, obtida a partir de inquéritos, identificou-se que hipertensão arterial, diabetes, neoplasias, osteoporose e doenças reumáticas foram as mais prevalentes.

Informações relevantes sobre as neoplasias do aparelho genital feminino (mama, colo de útero, ovário, endométrio, vulva e vagina, neoplasia do pulmão, colorretal e de pele e hereditariedade do câncer) são descritas nos capítulos 5-13 e 29. A maior parte desses capítulos apresenta revisões realizadas de forma sistemática com referências atualizadas sobre o assunto, com ênfase nas medidas de incidência e prevalência das doenças e nos seus fatores de risco. Dentro dessa abordagem clínico-epidemiológica, destaca-se o capítulo referente ao câncer de mama, provavelmente por ser uma das principais causas de morte em mulheres.

Os capítulos seguintes (14 ao 18) abordam temas que vêm ganhando mais interesse e com que se deparam principalmente os profissionais da área de ginecologia. As discussões incluem desde medidas de freqüência e fatores de risco até medidas terapêuticas. São eles: endometriose, tensão pré-menstrual, menopausa, moléstia inflamatória pélvica, infertilidade conjugal.

No capítulo 19, os autores (José Mendes Aldrighi & Antônio de Pádua Mansur) apresentam dados sobre mortalidade no Brasil, nas suas regiões geográficas e em alguns estados brasileiros devido a doenças circulatórias, por meio da análise dos seus mais importantes subgrupos – as doenças isquêmicas do coração e as doenças cerebrovasculares. Observam que "apesar de as doenças circulatórias terem sido as principais causas de morte de homens e mulheres da população brasileira, com maior participação das doenças cerebrovasculares na mortalidade por doenças circulatórias, vem sendo observada uma tendência decrescente do risco de morte". Nesse capítulo também são referidos os fatores de risco para doença isquêmica do coração, dentre os quais se destacam a idade, a hipertensão arterial, o tabagismo, a dislipidemia, a diabetes, obesidade e antecedentes familiares.

Rosa Maria R. M. Pereira & Jussara de A. L. Kochen referem, no capítulo 20, a inexistência de estudos de abrangência nacional que estime a prevalência da osteoporose, apesar da magnitude observada em mulheres de outros países e da sua identificação como fator de risco para fraturas de quadril, vértebras que possuem alta morbidade e mortalidade associadas, principalmente na população acima de cinqüenta anos.

No capitulo 23, discute-se o caráter epidêmico da obesidade e o sobrepeso na população brasileira, o seu reconhecimento como um problema de saúde pública, sendo o Brasil o sexto lugar na classificação de países com maior número de obesos. Além disso, abordam-se os fatores que contribuíram para o desenvolvimento da obesidade e as suas repercussões na saúde.

Um dos aspectos mais interessantes e originais deste livro pode ser considerado na abordagem de temas que estão relacionados aos transtornos mentais nas diferentes fases de vida da mulher e o seu impacto sobre a saúde e sobre a qualidade de vida (capítulos 21, 26, 27 e 28). É relatada a maior vulnerabilidade das mulheres à ansiedade e à depressão. Também se destacam na população feminina a prevalência da esquizofrenia, do transtorno afetivo bipolar, do tabagismo e do abuso de álcool e de drogas ilícitas, sendo que alguns destes se constituem como fatores de risco para várias doenças. Os autores chamam a atenção para o fato de a violência contra a mulher aumentar a chance de comprometimento de sua saúde física e mental.

Como é comentado em diferentes capítulos, o aumento da expectativa de vida da população brasileira, particularmente entre as mulheres, traz um aumento da prevalência de doenças crônicas degenerativas, dentre elas a doença de Alzheimer (capítulo 24). Os autores identificam a situação socioeconômica dos idosos como uma preocupação em relação ao agravamento das condições de saúde. São apresentados dados de incidência e prevalência de estudos realizados em população brasileira. A idade, fatores genéticos e ambientais são considerados como associados positivamente ao risco de doença, enquanto a maior escolaridade e o uso de antiinflamatórios seriam fatores protetores. No capítulo 25, são discutidos diferentes aspectos relacionados à enxaqueca, uma afecção crônica que gera incapacidade e que atinge duas vezes mais as mulheres.

Há ainda um capítulo sobre saúde bucal (capítulo 22) que visa a "discutir os principais fatores epidemiológicos que influenciam a saúde bucal e sua relação com condições sistêmicas".

No seu conjunto, o conteúdo deste livre rompe os limites da saúde reprodutiva ou da saúde feminina no climatério, para alcançar uma visão mais abrangente e multidisciplinar da saúde da mulher, incorporando temas como obesidade, enxaqueca, doença de Alzheimer, uso de drogas e transtornos mentais. Porém neste livro, a síndrome de imunodeficiência adquirida, violência doméstica, as causas externas de morbimortalidade, assim como diabetes mellitus e a hipertensão arterial não mereceram capítulos específicos.

Mas, como se pode observar, a amplitude de temas selecionados reflete diferentes aspectos que devem ser levados em conta em uma assistência integral à mulher, assim como possibilita o conhecimento do quadro de saúde da população feminina para aqueles que atuam na saúde pública e têm como objetivo o planejamento de uma assistência baseada nos princípios da integralidade.

Ao final da leitura do livro, o leitor terá acesso ao estado atual da produção científica e das lacunas ainda existentes sobre temas. Essas informações são importantes para a formação de estudantes de medicina, profissionais de saúde e alunos de pós-graduação interessados em obter conhecimento sobre a Epidemiologia dos agravos à saúde da mulher.