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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.24 n.4 Rio de Janeiro Apr. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2008000400027 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Marcelo de Abreu Maciel

Centro de Ciências Humanas e da Educação, Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, Brasil. mdabreu@uol.com.br

 

 

SAÚDE MENTAL E ATENÇÃO PSICOSSOCIAL. Amarante P. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2007. 120 pp. (Temas em Saúde).

ISBN: 978-85-7541-135-3

A história da saúde mental no Brasil e em alguns outros lugares do mundo é uma narrativa de lutas. Envolve muitos personagens e suas trajetórias; mobilizações, discussões e rupturas. Uma história de jogos de poder, "da emergência dos jogos de verdade", como nos lembra Foucault 1. O lugar de onde nos posicionamos para construir, narrar essas histórias, já indica, de alguma forma, nosso comprometimento político, afetivo, cotidiano com aquilo que estamos enunciando. O livro de Paulo Amarante, Saúde Mental e Atenção Psicossocial, nesse sentido, nos permite entrar em contato com o campo da saúde mental sem deixar de lado aspectos importantes de uma história que vem abrindo e conquistando territórios cotidianos e políticos que apontam para uma transformação no campo da saúde mental brasileira.

De maneira concisa, mas sem deixar de tocar em aspectos fundamentais que permitem ao leitor passar por caminhos teóricos e debates em torno do campo da saúde mental, o livro, escrito de maneira informal, estabelece uma boa conversa com seus leitores de forma que alguns temas poderão ser aprofundados em outras leituras como indica o próprio autor. Fazendo parte da coleção Temas em Saúde, a publicação se confirma como uma ferramenta acessível, podendo circular tanto por leitores iniciantes nesta temática, mas que estão dispostos a conhecer um território que faz parte da história dos movimentos sociais no Brasil, bem como instrumentaliza leituras no circuito daqueles já mais familiarizados com as discussões da saúde mental e sua literatura.

O livro abre com a epígrafe provocativa de Ronald Laing, já anunciando que existe um debate epistemológico no campo da saúde mental que irá circular em torno das concepções de ciência e os seus métodos para lidar/pesquisar aspectos diversos da vida humana, em particular, os estados de intenso sofrimento psíquico ou, o que chamamos, por exemplo, de psicose. Aliás, a presença de Laing na abertura indica, neste caso, uma crítica a toda uma aparelhagem teórico-conceitual que certos modelos de psiquiatria, medicina e psicologias colocaram em circulação entre os séculos XVIII e XX. Contudo, o livro em questão não faz uma crítica ingênua apenas porque o autor toma um outro caminho dentro de seus posicionamentos teóricos e a partir da sua própria história. As idéias trazidas por Amarante são trabalhadas no sentido de que o leitor possa ver o que representou determinada posição teórica e prática, e o que ela engendra ou engendrou no território da saúde mental. A Psiquiatria Preventiva americana nos serve como exemplo disso. Ela é analisada na publicação no que diz respeito ao contexto de seu aparecimento e qual o efeito que isto gerou na comunidade americana e no campo da saúde mental. Apesar disso, é preciso, como revela o texto, termos cuidado com determinadas estratégias formuladas por essa linha de pensamento como a de "buscar suspeitos", ou a idéia de "desvio". Conhecer esses campos da saúde mental é se introduzir nos principais aspectos das suas discussões e o livro abre caminho para problematizações que se fazem necessárias. Até porque, saúde mental é um campo de fronteiras com muitas possibilidades de leitura, análise e estratégias usadas nos tratamentos. Basta ver o capítulo no qual o autor fala de Comunidades Terapêuticas, Psicoterapia Institucional, Psiquiatria Preventiva, Psiquiatria de Setor, Antipsiquiatria e a Psiquiatria Democrática Italiana. Cada campo desses traz uma potência para as discussões na saúde mental, fazendo parte de nossos estudos, leituras, discordâncias, reflexões na área da saúde mental e assistência psicossocial.

Se pegarmos, por exemplo, a Psicoterapia Institucional, encontraremos o personagem fascinante que é Françoise Tosquelles e todo seu intenso trabalho transformador em Saint Alban nos anos 40/50. Esta experiência, mais tarde, será apontada como uma das precursoras do que veio a se chamar Análise Institucional Francesa, trazendo outros personagens impactantes: Lapassade, Lourau, Félix Guatarri, Freinet, entre outros 2.

Outra presença realçada no livro é a de Franco Basaglia. Sem dúvida alguma um homem de pensamento potente e inquietante e que não desvinculava as lutas no campo da saúde mental daquelas que dizem respeito à reorganização do corpo social, bem como reincorpora os atravessamentos da vida humana no entendimento do que seja o binômio sujeito/"a doença", posto em primeiro plano, condenando a resto tudo aquilo que diga respeito à dinâmica da vida: o trabalho, as relações sociais, amorosas, cotidianas, a vida nas cidades etc.

A publicação ainda irá retomar o trabalho de Cooper e Laing e a presença da Antipsiquiatria neste cenário de transformações, assim como, os estudos críticos de Erving Goffman sobre as instituições, ou instituições totais, como ele denominava. Goffman foi fundamental, segundo o autor, para distanciar, descolar, o conceito de desinstitucionalização de desospitalização, como na concepção norte-americana.

O capítulo 4, intitulado Estratégias e Dimensões do Campo da Saúde Mental e Atenção Psicossocial, é um momento do texto no qual podemos observar mais de perto o que vem sendo construído dentro deste campo da saúde mental, a partir de uma militância que, hoje, passa por profissionais de saúde ou não, familiares, usuários, artistas, entre tantos outros. Fica claro que as discussões do campo da saúde mental não podem ocorrer somente dentro dos chamados dispositivos substitutivos como um ponto de chegada. Ou melhor, de outra forma, os enfrentamentos impactantes talvez aconteçam numa mescla entre o campo social e dispositivos. Até porque, um dispositivo deve ser aquilo que faça encaminhar, intervir, instituir outras possibilidades de existência, abrir novas perguntas ou recolocar antigas questões com base em outros lugares ou posições a serem observadas. Como nos fala Deleuze 3 (p. 2): "...no dispositivo, as linhas não delimitam ou envolvem sistemas homogéneos por sua própria conta, como o objecto, o sujeito, a linguagem, etc., mas seguem direções, traçam processos que estão sempre em desequilíbrio, e que ora se aproximam ora se afastam uma das outras. Qualquer linha pode ser quebrada – está sujeita a variações de direcção – e pode ser bifurcada, em forma de forquilha – está submetida a derivações".

Amarante lembra, via um diagrama, que os serviços de base territorial atuam na comunidade ao contrário daqueles que não trabalham valendo-se desta idéia de território. Nessa direção, vale lembrar as discussões de Milton Santos sobre espaço e território. Santos 4 nos lembra que ao falarmos de espaço estaremos sempre reportados a uma discussão que é da ordem da técnica ou um conjunto desta. Contudo, um tempo mais lento é necessário para não ficarmos aprisionados à técnica. Faz-se necessário, segundo Santos 4, retomar um tempo de solidariedade. O território, assim, deve ser visto como espaço de pertencimento, de laço e engajamento de todos.

Todas as experiências relatadas pelo autor trazem em si uma força de atuação em relação às transformações no território: as rádios, os grupos musicais, de teatro, a participação no carnaval, os ateliês etc. Apontam para uma forma de solidariedade, para uma aposta nas reinvenções dos territórios. Soma-se a isso, as tendências atuais das políticas públicas em saúde mental e os novos desafios a serem enfrentados com base no que já foi construído. Interessante, nesse ponto, é o encontro que o autor faz entre políticas de saúde mental e as estratégias de saúde da família.

Ao finalizar o livro, Amarante faz indicações de textos e filmes que contribuem para leituras, estudos e pesquisas nesse campo. É interessante pois podemos encontrar ali livros que aprofundam posições e indicações que estavam no corpo do trabalho. Quanto aos filmes e documentários é essencial que busquemos outras fontes de pesquisa dentro de uma linguagem muitas das vezes esquecida, negligenciada pela academia, tanto quanto o campo literário. Contudo, vale ressaltar, que são esses campos que muitas vezes nos trazem um subsídio real, inesperado e intenso para nossas práticas cotidianas.

 

1. Foucault M. Ditos e escritos. v. V. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária; 2004.        [ Links ]

2. Rodrigues HBC. Sejamos realistas, tentemos o impossível! Desencaminhando a psicologia através da análise institucional. In: Jacó-Vilela AM, Ferreira AAL, Portugal FT, organizadores. História da psicologia – rumos e percursos. Rio de Janeiro: Nau Editora; 2006. p. 515-63.        [ Links ]

3. Deleuze G. O mistério de Ariana. Lisboa: Editora Veja; 1996.        [ Links ]

4. Santos M. Técnica espaço tempo: globalização e meio técnico científico informacional. São Paulo: Editora Hucitec; 1997.        [ Links ]