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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.24 n.10 Rio de Janeiro Oct. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2008001000030 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Cristiane SpadacioI; Nelson Filice de BarrosII

IFaculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Brasil. cris.spadacio@gmail.com
IIFaculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Brasil. nelfel@uol.com.br

 

 

TRADITIONAL, COMPLEMENTARY AND ALTERNATIVE MEDICINE AND CANCER CARE: AN INTERNATIONAL ANALYSIS OF GRASSROOTS INTEGRATION. Tovey P, Chatwin J, Broom A. London: Routledge; 2007. 180 pp.

ISBN: 0-415-35993-7

Experiências que expandem fronteiras: o uso de medicinas tradicionais, alternativas e complementares por pacientes em tratamento do câncer em diferentes países

O livro de Tovey, Chatwin & Broom, Traditional, Complementary and Alternative Medicine and Care Cancer: An International Analysis of Grassroots Integration, foi publicado em 2007, simultaneamente na Inglaterra, Canadá e Estados Unidos, pela Editora Routledge. Discute os fenômenos das Medicinas Tradicionais (MT) e Medicinas Alternativas e Complementares (MAC), e o cuidado a pacientes em tratamento do câncer, pretendendo-se o primeiro estudo qualitativo internacional sobre grupos de apoio a pacientes oncológicos que utilizam MT/MAC no Reino Unido, Austrália e Paquistão.

O desejo de compreender esses "problemas" sociais, com profundidade para além das correlações quantitativas, e estudar uma área de interface que articula os campos de conhecimento da Saúde e das Ciências Sociais, se dá, por um lado, pela relevância atual do tema, e, por outro, pela própria formação dos autores: Tovey e Chatwin são sociólogos atuando no Traditional, Complementary and Alternative Medicine Program/Healthcare School/University of Leeds, e Broom, também sociólogo, é no momento professor da Humanities and Social Sciences Division/University of Newcastle, embora na época do lançamento do livro fosse pesquisador da Social Sciences School/University of Queensland.

O livro está dividido em três partes, além da introdução e da conclusão. Essa divisão em partes torna o trabalho claro e bem articulado, proporcionando uma visão do todo a partir das descrições pontuais dos estudos nos três países envolvidos. A primeira parte discute o tema do uso de práticas não-biomédicas no tratamento do câncer, no mundo, e quanto a uma visão particular de cada país investigado. A segunda, a maior delas, é constituída pelos capítulos 3, 4, 5 e 6, cujo foco é interpretar e descrever as estruturas e processos dos grupos de apoio, investigados nos países ricos: Reino Unido e Austrália. A terceira parte, composta dos três últimos capítulos, refere-se, especificamente, à pesquisa conduzida no Paquistão.

De acordo com os autores, embora seja inegável o progresso científico e tecnológico da medicina moderna ocidental, genericamente denominada de Biomedicina, contraditoriamente nota-se o crescimento exponencial do uso de práticas terapêuticas não-biomédicas. Se, por um lado, a Biomedicina tem seu paradigma pautado no modelo biomecânico, positivista e representacionista, por outro, as MT/MAC ampliam este modelo trazendo nova perspectiva para a doença e para o indivíduo, com: a reposição do sujeito doente como centro do cuidado médico; a relação médico-paciente como fundamental para a terapêutica; a busca de meios terapêuticos simples como alternativa às práticas dependentes de tecnologias caras; a construção da autonomia do paciente como princípio; e a busca da saúde e não mais a doença como centro do processo de cuidado e cura 1.

É nesse contexto de ampliação de possibilidades terapêuticas que as MT/MAC vêm despertando o interesse de acadêmicos, profissionais, gestores de serviços de saúde, que buscam estudos com abordagem qualitativa, expandindo as fronteiras das informações quantitativas, quase sempre empenhadas em descrever: o uso das técnicas, a população consumidora e a evidência científica produzida sobre estas práticas 2.

As pesquisas descritas no livro discutem como indivíduos ou grupos de pessoas se apropriam e negociam uma pluralidade de opções terapêuticas em contextos pessoais particulares e em situações sociais específicas. A escolha de três países distintos tem, pois, uma relevância sociológica, uma vez que abarca os aspectos sociais tanto de países ricos, como o Reino Unido e a Austrália, quanto de países pobres, como o Paquistão; além de representar uma inovação metodológica de grande envergadura para os estudos acadêmicos no campo da sociologia das MT/MAC.

A partir da pesquisa de campo com oito grupos de apoio que oferecem MT/MAC a pacientes nos três países, foram delineados, de maneira geral, os seguintes aspectos: (1) os contextos empírico, teórico e político dos estudos de MT/MAC e câncer; (2) a natureza, a estrutura e a evolução de grupos de apoio a pacientes; (3) a configuração da prática cotidiana destes grupos; (4) a extensão destes grupos de apoio e a maneira como eles orientam suas condutas terapêuticas e organizacionais; e (5) o processo de negociação terapêutica por pacientes com câncer.

O livro apresenta uma proposta teórica e metodológica audaciosa, apontando mudanças na agenda de estudos relacionados à sociologia das MT/MAC no tratamento do câncer. Assim, os autores esboçam algumas prioridades da agenda de pesquisa sobre a temática, além de chamar atenção para a ampliação da perspectiva do cuidado, proporcionada pelo uso das MT/MAC, o que garante mais possibilidades terapêuticas que devem ser levadas em conta pelos serviços de saúde. Na conclusão do livro, os autores retomam os principais aspectos discutidos ao longo das três partes, para, então, refletir, com maior profundidade, sobre: a dimensão do problema nos contextos social e acadêmico; a importância dos temas correlatos no Reino Unido, Austrália e Paquistão; e, por fim, a unidade metodológica e temática que os trabalhos constituem.

Conclui-se que se trata de um livro importante sobre a temática recente no campo da saúde, do uso de Medicina Tradicional, Alternativa e Complementar por pacientes em tratamento do câncer, sobretudo por se calcar na perspectiva da interface entre a pesquisa sociológica e qualitativa de um tema relevante em diferentes lugares do mundo rico e pobre.

 

1. Camargo Jr. KR. Biomedicina, saber & ciências: uma abordagem crítica. São Paulo: Editora Hucitec; 2003. (Coleção Saúde em Debate, 151).         [ Links ]

2. Barros NF, Tovey P, Adams J. Investigações qualitativas em práticas alternativas, complementares e integrativas. In: Barros NF, Cecatti JG, Turato ER, organizadores. Pesquisa qualitativa em saúde: múltiplos olhares. São Paulo: Editora Hucitec; 2005.        [ Links ]