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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.25 n.5 Rio de Janeiro May. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2009000500025 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Glória Inês Beal Gotardo

Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. gotardo@iff.fiocruz.br

 

 

VALORES FAMILIARES E USO ABUSIVO DE DROGAS. Schenker M. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2008. 168 pp. (Coleção Criança, Mulher e Saúde). ISBN: 978-85-7541-153-7

O livro que apresento, com prefácio de Maria Cecilia Minayo, é fruto de uma Tese de Doutorado, defendida por Miriam Schenker. Nele, estão postos três eixos norteadores: valores familiares, conflito entre gerações e processo educativo. Todos perpassam o manuscrito, sustentados na "teoria geral dos sistemas e na cibernética".

No adiantar das páginas, a leitura nos encaminha a uma "viagem" no seio de quatro famílias, nomeadas com criatividade e propriedade como: Zoar, Mimar, Devanear e Ciumeira. É praticamente impossível não transitar e confrontar-se com a trama familiar, minuciosamente descrita pela autora. É um livro que coloca o leitor em contato com a complexidade da drogadição e, não menos, com as mazelas inerentes à primeira sociedade - Família.

Tomo a liberdade de citar um parágrafo que me é necessário no encaminhamento da apresentação da obra: "A família, sistema aberto em constante movimento, realiza mudanças espontâneas em sua dinâmica particular. Ao lidar com situações inusitadas, cria alternativas e novas opções, podendo reorganizar algumas de suas regras básicas. A homeostase é um dos modos de a família funcionar. Aqui o sintoma é visto como uma questão de coerência da família e da possibilidade de efetuar mudança. A crise gera um desequilíbrio necessário nos padrões familiares, aumentando a desordem e a incerteza que, em geral, costumam levar a um nível mais elevado de auto organização" (p. 41-2).

O estudo realizado, base para o livro, desmonta conceitos que costumam ser pré-concebidos e nos encaminha na contramão do processo da drogadição. Isto é, Miram encaminha o desvendamento de fora para dentro, no tempo e no espaço da família, vitima ou cúmplice no processo da existência do adicto, oferecendo a possibilidade da auto-organização familiar.

A autora cria a possibilidade para a compreensão do adicto sobre seu processo de drogadição. Encaminha-o à complexidade familiar como um modo de, ele próprio, desvendar o entorno de sua vida em família. Esta inversão como forma de assistência e tratamento do adicto, ou seja, o confronto de sua própria história de vida inserida nos valores familiares, no processo educativo e no conflito de gerações, consegue apresentar aos pais, mães, avós, irmãos e adicto o fenômeno da conscientização dos fatores interventores da drogadição. No livro, encontramos uma descrição impecável da vida em família e as possibilidades que podem ser produzidas em resposta aos comportamentos de seus membros.

O transitar entre a constatação de situações descritas por Schenker e aquelas que se aproximam da vida do leitor pode até se confundir com o estudo, tal a abrangência e o detalhamento deste em relação aos movimentos de valores familiares, educação e conflitos entre gerações.

Livro de leitura "impactante", que nos reporta ao sentimento de responsabilidade social, seja a partir da análise de nossas próprias histórias de família, seja pela condição de profissional de saúde ou mesmo de leigos que trabalham com as questões da drogadição.

Outra relevante peculiaridade do livro é que Schenker traz consigo um grande número de autores que favorecem um verdadeiro diálogo entre ela, os demais autores, o fato e o leitor. É prazerosa essa leitura e impressionam as incursões bem localizadas para auxiliá-la na construção de um conhecimento sobre a complexidade familiar e a influência no desenvolvimento dos valores de vida para a prevenção da drogadição. A autora utiliza-se de uma linguagem que sugere uma "conversa" com o leitor, tal o grau de envolvimento proporcionado por ela. A forma como está posto seu estudo, literalmente, faz-nos embarcar em uma viagem repleta de questionamentos, perplexidades e até indignação. Ao mesmo tempo, vai oferecendo o suporte incontestável para o desenvolvimento de nossa compreensão para a atuação mais apropriada enquanto profissionais e, não menos significativas, para a auto-avaliação das nossas estruturas familiares contemporâneas.

A metodologia utilizada para o desvendamento da realidade familiar é ímpar. Ela "invade" a família em três gerações, realiza a coleta de dados enquanto cria situações de auto-avaliação dos membros entrevistados e produz as reflexões necessárias à compreensão do grupo familiar que convive com o adicto. E mais, ela devolve o estudo como contribuição para a consolidação do autoconhecimento da possível influência ou não dos comportamentos instituídos pelos membros da família.

Apresentar este livro é uma tarefa complexa; por mais que se tente descrever-lhe qualidades, somente com a leitura profunda da obra será possível apreciar a grandiosidade das informações nela contidas. Autores como Maturana, Heller, Geertz, Gilberto Velho, Becker, Dumont, entre tantos outros, oferecem um "brilho" a mais aos escritos de Schenker.

Tomarei emprestado o discurso de Minayo, posto no prefácio do livro: "Creio que não devo comentar mais sobre o trabalho, para dar ao leitor a oportunidade de fazer seu próprio percurso" (p. 11).

É um livro para todas as pessoas que desejam uma sociedade melhor e, em especial, aquelas que pretendem ser pais.