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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.25 n.11 Rio de Janeiro Nov. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2009001100012 

ARTIGO ARTICLE

 

Mudanças no consumo alimentar de mulheres do Município do Rio de Janeiro, Brasil, 1995-2005

 

Changing in dietary intake by women in the Municipality of Rio de Janeiro, Brazil, from 1995 to 2005

 

 

Rosângela Alves PereiraI; Roseli Gomes de AndradeII; Rosely SichieriII

IInstituto de Nutrição Josué de Castro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
IIInstituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

Compara-se o consumo alimentar de mulheres de 35 anos e mais investigado em dois estudos transversais de base populacional desenvolvidos no Rio de Janeiro, Brasil, em 1995-1996 (n = 1.014) e 2004-2005 (n = 1.001). Utilizou-se questionário de freqüência do consumo de alimentos para estimar o consumo de alimentos e o índice de massa corporal (IMC = peso/estatura2) para avaliar o estado nutricional. A prevalência da obesidade (IMC > 30kg/m2) aumentou no período de 10 anos (16,6% para 24%). O consumo de diversos alimentos com alta densidade energética sofreu incremento, como: biscoitos salgados, doces, bacon, lingüiça/salsicha e hambúrguer. Outros foram relatados com menor freqüência: manteiga/margarina, maionese, batata frita ou chips, e açúcar. Frutas, leite, feijão, raízes e tubérculos, e carnes tiveram redução do consumo. Mulheres com escolaridade elevada apresentaram maior redução no consumo de frutas e carnes. As mudanças na prevalência da obesidade parecem estar relacionadas com as modificações do consumo de alimentos e dependentes do grau de escolarização.

Consumo de Alimentos; Obesidade; Mulheres; Questionário


ABSTRACT

This article compares food intake by women 35 years or older in two population-based cross-sectional studies in Rio de Janeiro, Brazil, in 1995-1996 (n = 1,014) and 2004-2005 (n = 1,001). Food intake was assessed with a food-frequency questionnaire, and nutritional status was defined according to body mass index (BMI = weight/height2). Prevalence of obesity (BMI > 30kg/m2) increased in the ten-year period (16.6% to 24%). Many high energy density (kcal/g) foods showed a statistically significant increase in the period, such as crackers, candies, bacon, sausage, and hamburger. Some high energy density items were reported less frequently: butter, mayonnaise, potato chips, and sugar. The intake of fruits, milk, beans, roots and potatoes, and meat decreased in the 10-year period. Women with more education showed a larger reduction in fruit and meat intake and a smaller reduction in fish, dairy product, and root and potato intake. Changes in prevalence of obesity were associated with numerous changes in food intake, depending on the level of schooling.

Food Consumption; Obesity; Women; Questionnaire


 

 

Introdução

Transição nutricional é a expressão utilizada para sintetizar as mudanças ocorridas no perfil nutricional da população, como a tendência de incremento das prevalências de sobrepeso e obesidade, e que são acompanhadas de modificações na dieta, no padrão de atividade física e nas condições nutricionais 1. Essas mudanças na alimentação, associadas à redução da atividade física, constituem um dos principais fatores predisponentes para o sobrepeso e obesidade 2,3,4,5.

No Brasil, os dados que permitem avaliar as modificações no consumo de alimentos são as Pesquisas de Orçamentos Familiares (POF), realizadas regularmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde a década de 1970, e que estimam a disponibilidade de alimentos nos domicílios pela avaliação dos gastos com aquisição de alimentos, entretanto, estes inquéritos não permitem a obtenção de informações sobre consumo alimentar individual.

Levy-Costa et al. 4 observaram que a evolução do padrão alimentar da população brasileira a partir da década de 1970 é consistente com a participação crescente das doenças crônicas não-trasmissíveis no perfil de morbi-mortalidade da população brasileira e, particularmente, com o aumento da prevalência do excesso de peso e da obesidade no país. Ao avaliar a tendência, comparando as POF realizadas em meados das décadas de 1970, 1980, 1990 e 2000, os autores observaram o declínio da aquisição de alimentos tradicionais, como o feijão, o arroz, frutas e hortaliças, e aumento de até 400% no consumo de produtos industrializados, como biscoitos e refrigerantes. Também foi observada a persistência do consumo excessivo de açúcar e aumento sistemático no teor de gorduras em geral e de gorduras saturadas 4.

Os potenciais danos para a saúde relacionados a essas alterações no consumo relacionam-se com a concentração de energia e com a deficiência e desequilíbrio no teor de nutrientes. Essa configuração da dieta tem sido denominada de "ocidental" ou "ocidentalizada" e engloba, também, o consumo elevado de sal, açúcar e bebidas alcoólicas; redução do consumo de frutas, fibras, verduras e legumes e aumento sistemático no teor de gorduras em geral e de gorduras saturadas. A dieta ocidental vem sendo associada ao incremento da prevalência de excesso de peso e de várias doenças crônicas não-transmissíveis 2,6,7.

Este estudo teve como objetivo avaliar a evolução do consumo alimentar de mulheres com 35 anos ou mais de idade, investigadas em dois estudos de base populacional desenvolvidos no Município do Rio de Janeiro, Brasil, em 1995-1996 e 2004-2005.

 

Materiais e métodos

Para a análise da evolução do consumo alimentar foram comparados dados de dois estudos seccionais, de base populacional, realizados em 1995-1996 e em 2004-2005, que coletaram dados de consumo alimentar, permitindo a análise de tendência de consumo alimentar individual. A população do estudo foi constituída por mulheres, com 35 anos ou mais de idade, residentes no Município do Rio de Janeiro. Foram incluídas mulheres na faixa etária de interesse, residentes nos domicílios particulares permanentes do Município do Rio de Janeiro, não-grávidas ou lactantes.

A pesquisa Nutrição e Saúde no Rio de Janeiro (PNS/RJ), desenvolvida em 1995-1996, investigou amostra probabilística por conglomerados, com dois estágios de seleção; no primeiro, foram selecionados os setores censitários, definidos de acordo com os dados do IBGE para o Município do Rio de Janeiro. No segundo, foram selecionados sistematicamente os domicílios em cada setor. Dos 2.040 domicílios elegíveis, 1.668 participaram da pesquisa. A taxa de não-resposta foi de 18,2%. Foram entrevistados todos os moradores dos domicílios selecionados com idades acima de 12 anos totalizando 4.560 entrevistados, entre os quais 1.401 mulheres na faixa etária de interesse. Para conferir compatibilidade com o desenho da amostra do estudo de 2004-2005, manteve-se na análise apenas uma mulher por domicílio na faixa etária considerada, escolhida aleatoriamente (n = 1.075) (Figura 1).

Em 2004-2005, a pesquisa Prevalência de Sobrepeso e Consumo Alimentar em Mulheres com 35 Anos ou Mais do Município do Rio de Janeiro considerou como domicílios elegíveis aqueles com pelo menos uma mulher na faixa etária considerada, dentre os domicílios particulares permanentes existentes nos setores censitários determinados no Censo Demográfico de 2000 (http://www.ibge.gov.br) no Município do Rio de Janeiro. O desenho de amostra seguiu o modelo de amostragem probabilística em conglomerados com três estágios de seleção: setor censitário, domicílio e uma mulher em cada domicílio, daquelas acima de 35 anos de idade. O tamanho estimado da amostra foi de 1.200 mulheres. Foram entrevistadas 1.029, o que significou 14% de perdas (Figura 1).

A pesquisa realizada em 1995-1996 foi desenvolvida respeitando os princípios éticos preconizados na Declaração de Helsinki. A pesquisa de 2004-2005 foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro em março de 2004.

Coleta de dados

As duas pesquisas obtiveram os dados em entrevistas domiciliares sobre o consumo alimentar, histórico familiar e pessoal de doenças pregressas, dados sócio-econômicos, além da tomada de medidas do peso e da estatura.

Em 1995-1996, o consumo alimentar foi avaliado com a aplicação de um Questionário de Freqüência de Consumo Alimentar (QFCA), com 80 itens, validado para a população adulta do Rio de Janeiro 8, o qual incluía opções abertas para porções. Em 2004-2005, foi utilizado o mesmo questionário com padrão para leitura ótica, porém, modificações no questionário levaram à inclusão de duas ou três opções fechadas de quantidade e a exclusão de dois itens (carne de boi com osso e pão doce). Assim, esta análise contempla a avaliação do consumo dos 78 itens que foram mantidos no QFCA na versão 2004-2005.

Os métodos de coleta dos dados antropométricos (peso e altura) foram similares nas duas pesquisas, com utilização de técnicas padronizadas e pesquisadores treinados. Para a tomada do peso, utilizou-se balança digital marca Filizola (São Paulo, Brasil) em 1995-1996 e Plenna (São Paulo, Brasil) em 2005, em ambas as ocasiões o examinado permanecia com o mínimo de roupa possível e descalço. Em 1995-1996, a estatura foi aferida com o uso de fita métrica aderida a uma parede sem rodapés e um esquadro de madeira, observando-se as recomendações de Lohman et al. 9 . Em 2005 foi usado estadiômetro marca Seca (Hamburgo, Alemanha) para a tomada da estatura.

Tratamento dos dados de consumo alimentar

A freqüência de consumo relatada para cada item foi transformada em freqüência diária. Para tanto, considerou-se a opção de freqüência "uma vez ao dia" como valor um (1) e procedeu-se à transformação das demais opções em freqüências diárias de forma proporcional (por exemplo, uma vez por semana = 1/7). Para estimar a quantidade consumida diariamente (porção diária) de cada alimento, a freqüência diária estimada foi multiplicada pela quantidade consumida (porção referida do alimento).

Para permitir a comparação nos dois momentos foi necessário estabelecer um paralelo (adaptação) entre as porções relatadas em 1995-1996 de forma aberta, para as duas ou três porções padronizadas que eram as opções para o relato do consumo que constavam na versão do questionário de 2005. Por exemplo, para o arroz na versão de 2004-2005 estavam designadas três opções de porção: duas, três ou quatro colheres de sopa. Para as informantes de 1995-1996, o relato das porções consumidas (pergunta aberta) foi redefinido da seguinte forma: considerou-se como tendo consumido duas colheres de sopa quando era relatado o consumo de até duas colheres de sopa; quando o consumo relatado situava-se entre duas e três colheres, considerou-se a segunda opção (três colheres de sopa) e para relatos de consumo de quatro ou mais colheres de sopa, considerou-se a opção quatro colheres de sopa.

Quanto aos dados de consumo alimentar, foi analisado o consumo de alimentos, grupos de alimentos e alimentos de alta densidade energética. Esses últimos são os que fornecem mais de 1,5kcal por grama de peso e têm baixo valor nutricional, conforme proposição de Rolls et al. 10 (Tabela 1). Avaliou-se a tendência de consumo considerando a freqüência de consumo diário e semanal (consumo diário x 7) e o número de porções diárias referidas, variáveis analisadas como contínuas. Determinou-se a prevalência do consumo estimando a proporção de indivíduos que referiu consumir cada alimento ou grupo de alimento. Os alimentos consumidos pelo menos duas vezes por semana foram considerados de "consumo usual".

Análise de dados

A avaliação do estado nutricional nos dois estudos foi realizada com o uso do índice de massa corporal (IMC = peso/altura2) segundo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) 11, sendo considerado normal para 18,5kg/m2 < IMC < 25kg/m2, sobrepeso para 25kg/m2 < IMC < 30kg/m2, e obesidade para IMC > 30kg/m2.

Para os dois momentos, as mulheres foram estratificadas segundo a faixa de idade, escolaridade (até 4 anos, 5-12 e 13 ou mais anos de estudo) e a renda familiar per capita (considerando-se os múltiplos do salário mínimo segundo os valores praticados em cada um dos períodos em que foi desenvolvida a pesquisa). Realizou-se o teste do qui-quadrado para avaliar se havia homogeneidade na categorização das mulheres analisadas em 1995-1996 e 2004-2005 de acordo com as variáveis: estado nutricional, idade, grau de escolaridade e renda.

Em pesquisas que utilizam desenhos amostrais complexos, por exemplo, em conglomerados, a variância das estimativas é sempre maior quando é utilizada a amostragem aleatória simples. O cálculo dos estimadores requer programas computacionais específicos que considerem o efeito do desenho amostral. Para as análises estatísticas realizadas, utilizou-se o procedimento survey do programa SAS (SAS Inc., Cary, Estados Unidos) na expansão das estimativas para dados populacionais.

Para descrição das tendências de consumo alimentar foram estimadas as médias (intervalo de 95% de confiança - IC95%) das freqüências de consumo e das porções para alimentos e grupos de alimentos nos dois momentos, inclusive considerando os estratos por escolaridade. Para avaliar as possíveis modificações ocorridas no consumo alimentar das mulheres entre as duas pesquisas, por exemplo, se havia diferenças no número de porções de grupos de alimentos consumidos, foram desenvolvidas análises de regressão linear, nas quais foram consideradas como variáveis dependentes o número de porções consumidas diariamente e como variável explanatória, o ano da pesquisa. Os modelos foram ajustados por idade, uma vez que esta foi a única variável associada significativamente com o ano da pesquisa. Essas análises foram realizadas aplicando-se os procedimentos proc surveyreg e proc surveylogit do SAS.

 

Resultados

As características das mulheres das duas amostras populacionais modificaram-se no período de dez anos quanto ao estado nutricional, escolaridade e renda. As prevalências de peso normal e sobrepeso reduziram, e a prevalência de obesidade aumentou de 16,6% para 24%. Observou-se redução da proporção de mulheres com menos de quatro anos de estudo e aumento daquelas que freqüentaram escola por pelo menos 12 anos. As análises revelaram redução significativa da proporção de mulheres com renda familiar per capita acima de cinco salários mínimos (Tabela 2).

O consumo alimentar avaliado pela prevalência de consumo (referido por pelo menos 70% das mulheres entrevistadas em 1995-1996), freqüência semanal de consumo e número de porções diárias consumidas pode ser observado nas Tabelas 3, 4 e 5.

A mudança mais significativa entre os alimentos consumidos com maior freqüência foi observada para o consumo de laranja, que foi referido por 87,1% das mulheres investigadas em 1995-1996 e por 66% das mulheres em 2004-2005, o que representou redução de 24% na prevalência do consumo (p < 0,001). Outros alimentos sofreram variações na freqüência do consumo: cenoura, manteiga/margarina, leite, repolho, suco, açúcar e mamão também foram referidos com menor freqüência na segunda pesquisa. Por outro lado, alimentos como pão, queijo e alface passaram a ser consumidos por maior proporção de mulheres em 2004-2005 (Tabela 3).

Nos dois períodos, os alimentos consumidos pelo menos uma vez por dia (freqüência semanal media > 7,0) eram o açúcar, café, arroz, feijão, manteiga/margarina, pão e leite, porém o feijão passou a ser o sétimo alimento mais consumido semanalmente em 2004-2005. Para biscoito salgado, café e tomate observou-se elevação significativa da freqüência média de consumo semanal entre 1995-1996 e 2004-2005. Para o arroz, feijão, carne, laranja, macarrão, suco, ovo, peixe e queijo foi detectada a redução da freqüência de consumo. Para outros produtos como frango, cenoura, alface, banana, leite, refrigerantes e chuchu, a frequência do consumo manteve-se similar nos dois períodos (Tabela 4).

Em 2004-2005, observou-se redução significativa no número médio de porções consumidas diariamente para 11 dos 24 alimentos mais referidos em 1995-1996: feijão, frango, carne bovina, laranja, macarrão, suco, leite, ovo, peixe, queijo e refrigerantes. Todavia, o número médio de porções de biscoito salgado consumido diariamente sofreu incremento importante, passando de 0,8 (IC95%: 0,7-1,0) para 2,1 (IC95%: 1,9-2,3) (Tabela 5).

A Tabela 6 apresenta as mudanças ocorridas no número de porções diárias consumidas de grupos de alimentos. Os resultados indicam que o número de porções de frutas consumido diariamente sofreu redução próxima de 50%, passando de 4,8 em 1995-1996, para 2,6 porções diárias em 2004-2005 (p < 0,01). Em 1995-1996, as mulheres consumiam, em média, 2,3 porções diárias de bebidas com adição de açúcar, valor que reduziu para 1,3 em 2004-2005 (p < 0,01). O consumo dos produtos à base de cereais também sofreu aumento de cerca de 40% no número de porções consumidas diariamente entre os dois períodos, passando de 1,8 para 2,5 (p < 0,01). Outros grupos de alimentos experimentaram redução significativa no consumo diário das porções: leite e derivados, macarrão, feijão, carnes, peixes, açúcar, e raízes e tubérculos, enquanto que o número de porções diárias de pão, lingüiça/salsicha e doces aumentou (Tabela 6).

Em função do possível papel dos alimentos de alta densidade energética nas modificações do estado nutricional, avaliou-se a prevalência do consumo usual destes produtos (Tabela 7). Observou-se aumento da prevalência de consumo usual de balas (+351%), hambúrguer (+329%), bacon (+150%), pudim ou doce (+94%), biscoito salgado (+72%), lingüiça/salsicha (+56%) e peixe enlatado (+29%). Houve redução significativa no consumo usual de manteiga/margarina (-6%), açúcar (-13%), achocolatado (-19%), biscoito doce (-26%) e batata frita ou chips (-44%). Verificou-se também aumento estatisticamente significativo da média do número de porções diárias referidas para chocolate/bombom, balas, pudim e biscoito salgado (p < 0,05), e redução para batata frita e achocolatado (p < 0,05) (dados não apresentados).

Observou-se incremento da ingestão de bebidas alcoólicas entre 1995-1996 e 2004-2005 entre as mulheres com até 12 anos de escolarização; enquanto que as mulheres com 13 ou mais anos de escolarização reduziram o consumo de bebidas alcoólicas no período considerado, embora nenhuma destas alterações tenha sido estatisticamente significativa. O consumo de frutas mostrou alterações significativas (p < 0,05) segundo o grau de escolaridade: aumentou no grupo de até 4 anos de escolarização e reduziu de maneira importante nos grupos com 5-12 anos e 13 ou mais anos de escolarização. O consumo de bebidas adicionadas de açúcar (que inclui os refrigerantes) reduziu nos três estratos de grau de escolaridade (p < 0,05) (dados não mostrados).

Observaram-se singularidades na variação do consumo pelas mulheres investigadas quando se considerou o grau de escolaridade. Aquelas de menor escolaridade (< 4 anos de estudo) apresentaram aumento (p < 0,05) no consumo de frutas e lingüiça/salsicha, e redução de leite e derivados, carnes e feijão. As mulheres que tinham entre 5 e 12 anos de estudo apresentaram aumento (p < 0,05) no consumo de bolo e biscoitos, pão e gorduras (manteiga/margarina e bacon) e redução no consumo de peixes, cereais, feijão, carnes, leite e derivados, e frutas. As mulheres com 13 e mais anos de estudo aumentaram (p < 0,05) o consumo de doces (sorvete, pudim e chocolate em barra e em pó), pão, cereais, lanches rápidos (pizza, hambúrguer, salgadinhos e batata frita) e lingüiça/salsicha, e reduziram (p < 0,05) o consumo de leite, carnes e frutas (dados não mostrados).

 

Discussão

A elevação da prevalência do excesso de peso no período entre 1995-1996 e 2004-2005 em mulheres do Rio de Janeiro é consistente com os resultados de outros estudos realizados no Brasil 12,13. Em estudo anterior foram discutidas as variações no consumo de macronutrientes e a evolução das taxas de obesidade nessa população, observando-se o incremento no consumo de gorduras no estrato de escolaridade mais elevada e a sua redução entre as mulheres com baixo nível de escolarização 14. Esses achados motivaram a investigação mais detalhada do consumo de alimentos e de grupos de alimentos, tendo em vista a compreensão das variações na ingestão de macronutrientes.

As variações no consumo de alimentos de mulheres com idades acima de 35 anos do Rio de Janeiro entre 1995-1996 e 2004-2005 caracterizaram-se pela redução da qualidade nutricional da dieta. Observou-se notável redução no consumo de alimentos de alto valor nutricional como frutas, feijão e laticínios, e o incremento no consumo de itens como o biscoito salgado. Porém, é interessante apontar, entretanto, a diminuição do consumo de alimentos como a batata frita, os refrigerantes e o açúcar.

O consumo geral de frutas reduziu, entretanto, na análise estratificada por escolaridade, observou-se aumento do consumo de frutas entre as mulheres de baixo grau de instrução e a redução no consumo deste grupo de alimentos entre aquelas com 5 ou mais anos de escolarização. Uma hipótese seria atribuir esses resultados à ocorrência de um possível erro de classificação, dado que o relato do número de porções consumidas no inquérito de 1995-1996 era feito com base em uma questão aberta, e em 2005 com base em três opções fechadas. Contudo, outros itens deveriam sofrer o mesmo problema; isso não ocorreu, por exemplo, com o relato do consumo de vegetais, sugerindo que houve modificação real no consumo de frutas entre mulheres nessa faixa de idade.

O número de porções de frutas consumidas pelas mulheres de baixa escolaridade em 1995-1996 era menos da metade daquele consumido pelas mulheres com pelo menos 5 anos de estudo. Assim, o modesto incremento no consumo de frutas observado no grupo de baixa escolaridade possivelmente relaciona-se com o aumento da disponibilidade destes alimentos no mercado 15 e a redução relativa do seu custo, aliados ao aumento do poder de compra ocorrido no país a partir de 2003 16.

As modificações do consumo alimentar de mulheres com elevado grau de escolarização indicam o aumento do consumo de alimentos poupadores de tempo (lanches, pão, lingüiça/salsicha), que além de alta densidade energética, apresentam baixa densidade de micronutrientes.

A redução no consumo de carnes e peixes e aumento no de lingüiça/salsicha também são modificações preocupantes, uma vez que as carnes e peixes são fontes mais saudáveis de proteínas do que as carnes preservadas. Aumento da disponibilidade domiciliar de embutidos no Brasil também foi documentado nos dados de orçamento familiar 4.

A redução do consumo de alimentos básicos tradicionais, principalmente o feijão, entre as mulheres do Rio de Janeiro, pode ser considerada característica típica do processo de transição nutricional, apropriadamente descrito por Tardido & Falcão 17. O efeito desse tipo de mudança sobre o perfil de saúde e nutrição vem sendo relacionado ao aumento da prevalência de obesidade e de distúrbios metabólicos, que são, em última instância, fatores de risco importantes para as doenças crônicas não-transmissíveis, como as cardiovasculares e o câncer. O abandono progressivo da dieta tradicional brasileira tem sido relatado nos estudos de consumo alimentar 4,18,19. Estudo de corte transversal realizado por Sichieri 20 no Município do Rio de Janeiro, indicou que a dieta tradicional brasileira, baseada em arroz e feijão, era protetora para sobrepeso e obesidade.

A redução no consumo de bebidas com adição de açúcar e de biscoito doce poderia indicar um possível viés de informação na direção de uma alimentação com menor valor energético, dado que já é do senso comum o conhecimento de que estes alimentos são fontes de energia e podem estar relacionados ao ganho de peso. Esses dados poderiam, portanto, indicar que as mulheres estariam restringindo o consumo de alimentos considerados "vilões" na luta contra o ganho de peso, motivado pelo fato de já se encontrarem com excesso de peso ou como medida de prevenção para o excesso de peso.

O aumento no consumo de biscoitos salgados pode ser indicativo de estratégia, não muito eficiente, de perda de peso, que seria a substituição do pão por crackers. Pode também refletir o fato de que as populações de grandes centros urbanos permanecem longos períodos fora de casa e optam freqüentemente por lanches rápidos, de custo relativamente baixo e fáceis de portar, o que vem a ser o caso dos biscoitos salgados.

O incremento no consumo de alimentos de alta densidade energética é coerente com as variações observadas nas taxas de obesidade entre essas mulheres. Resultados semelhantes foram obtidos por Nielsen et al. 21, que analisaram a variação do consumo energético nos Estados Unidos entre 1977 e 1996 e evidenciaram o aumento do consumo de alimentos de alta densidade energética e de baixa qualidade nutricional, como pizza, em todas as faixas etárias acompanhando o crescimento do excesso de peso naquele país.

A avaliação do consumo de alimentos de alta densidade energética é relevante, dado que independente do conteúdo lipídico, estes alimentos aumentam a ingestão calórica total 22 e têm efeito deletério sobre a saúde, como tem sido evidenciado em diversas investigações. Alguns autores têm buscado elucidar o efeito do consumo desses alimentos sobre a regulação do apetite e ingestão calórica 23,24. Estudo de Mendoza et al. 25 encontrou associação entre consumo de alimentos de alta densidade energética com obesidade e síndrome metabólica em amostra de base populacional de adultos nos Estados Unidos. Schroder et al. 26 avaliaram a relação entre consumo de fast-food e obesidade em amostra de base populacional da Espanha e encontraram associação entre freqüência de consumo destes alimentos com o aumento do risco de obesidade. Outros estudos que abordam a relação positiva entre ingestão de alimentos de alta densidade energética e obesidade sugerem que o incentivo do consumo de frutas e vegetais é uma importante estratégia para reverter este quadro 27,28,29,30.

Embora esses resultados sejam de grande importância para o desenvolvimento de ações de promoção da alimentação saudável e prevenção do ganho de peso, este estudo tem como limitação o fato de não apresentar dados de atividade física ou de gasto de energia. Não foi possível identificar um padrão claro que pudesse explicar por que as mulheres de maior escolaridade apresentaram menor incremento na prevalência de obesidade, o que poderia ser explicado, possivelmente, por diferentes padrões de gasto energético entre os estratos por nível de instrução.

Outras limitações que podem ser atribuídas ao estudo, poderiam estar relacionadas com o instrumento utilizado para a investigação do consumo alimentar, o questionário de freqüência do consumo de alimentos. Entretanto, considera-se que, nesta investigação especificamente, esse instrumento mostrou-se de grande valia, pois sendo validado para a população em estudo e adequado para a categorização do consumo em gradientes de intensidade (prevalência do consumo, freqüência de consumo, número de porções) permite a comparação dos dois momentos investigados. Além disso, quaisquer vieses (sub ou super-relatos) estariam sendo observados para os dois momentos do estudo, propiciando a comparação de dados similares.

Este estudo mostrou que as modificações no consumo alimentar por mulheres adultas da Região Metropolitana do Rio de Janeiro se contrapõem às orientações para uma alimentação saudável 31. Tais mudanças afetam a qualidade nutricional da alimentação desse grupo da população, e possivelmente contribuem para a ocorrência do sobrepeso e da obesidade, além de concorrerem para o desenvolvimento de distúrbios metabólicos, como a síndrome metabólica e as dislipidemias, e outras doenças crônicas não-transmissíveis. Os resultados indicam a necessidade de priorização das ações de promoção da saúde voltadas para essas mulheres, particularmente, considerando que, usualmente, a decisão das mulheres é definitiva na composição da alimentação familiar.

 

Colaboradores

R. A. Pereira participou na concepção do estudo, análise e interpretação dos dados, e redação do manuscrito. R. G. Andrade colaborou na coleta, análise e interpretação de dados, e redação do manuscrito. R. Sichieri contribuiu na concepção e desenho do estudo, análise e interpretação dos dados, e redação do manuscrito.

 

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), Ministério da Saúde, e ao Laboratório Abbott do Brasil pelo financiamento.

 

Referências

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Correspondência
R. A. Pereira
Instituto de Nutrição Josué de Castro
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Av. Brigadeiro Trompowski s/n, bloco J, 2º andar
Rio de Janeiro, RJ. 21941-590, Brasil
rpereira@pobox.com

Recebido em 22/Dez/2008
Versão final reapresentada em 06/Jul/2009
Aprovado em 06/Ago/2009