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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.26 n.5 Rio de Janeiro May. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2010000500029 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Claudio Bertolli Filho

Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência, Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista, Bauru, Brasil. cbertolli@uol.com.br

 

 

DO CLIMA E DAS DOENÇAS DO BRASIL OU ESTATÍSTICA MÉDICA DESTE IMPÉRIO. Sigaud JFX. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2009. 434 p. (Coleção História e Saúde; Clássicos e Fontes).

ISBN: 978-85-7541-180-3

Instalado nos trópicos, Sigaud elaborou o que pode ser considerado o primeiro compêndio de Higiene sobre o Brasil, utilizando para tal uma volumosa documentação que inclui textos dos viajantes, especialmente de naturalistas, que registraram suas experiências no país desde o início da colonização, relatórios oficiais e sua própria vivência de clínico no Rio de Janeiro. Seu papel foi fundamental na atualização da medicina brasileira, segundo as balizas do neo-hipocratismo forjado na modernidade clássica, analisando os fatos à luz dos novos conhecimentos científicos produzidos na Europa e reclamando, não sem razão, o papel pioneiro no contexto nacional na elaboração da primeira estatística médica.

O título da obra pode enganar o leitor, pois o binômio clima e doença se constitui o eixo privilegiado pelo livro, também vem acompanhado de um grande número de informações que, para Sigaud, contribuiriam para o esclarecimento das condições sanitárias do país, desde as relações entre os grupos étnicos e as características da administração sanitária até a dieta alimentar de cada grupo e a topografia própria de cada região do império.

O livro é dividido em quatro partes. A primeira delas refere-se ao clima e às doenças do Brasil. A partir de uma minuciosa apresentação das características climatológicas de cada uma das províncias brasileiras, adicionou observações sobre as "trombas" d'água e as neblinas, além de tecer relações do clima com as características geológicas de cada região.

Em sua análise parece claro que ele ainda guardava traços de estar se reportando a um território edênico. O clima brasileiro foi anunciado como "o mais belo entre as principais terras do globo", da mesma maneira que os rios desta parte da América compunham segundo a visão do médico francês "o mais belo sistema de irrigação natural". Talvez para contrabalançar tais afirmações, também buscou basear uma parte de suas observações em dados diários sobre a temperatura reinante no Rio de Janeiro, além de buscar dados do mesmo tipo, mas mais esparsos, de várias partes do território nacional.

A segunda parte do livro constitui-se na apresentação da primeira geografia médica que toma como alvo todo o território nacional. O crivo adotado inicialmente foi o enfoque das doenças que mais acometiam os índios, os negros e os brancos, sem contudo situar a condição étnica como determinante das enfermidades; pelo contrário, em vários momentos ressaltou que as enfermidades de um grupo não eram estranhas aos demais. No mesmo tópico, também se empenhou em indicar as principais doenças endêmicas e epidêmicas que caracterizavam o país, situado numa região denominada como intertropical, conferindo um caráter abrangente e até certo ponto generalizante à problemática sanitária imperial.

Sua preocupação em historicizar as doenças levou-o também a referir-se aos tipos de tratamento disponíveis desde o período colonial, sobretudo ao que denominou medicina dos jesuítas e ao curandeirismo. Como produto da elite branca, a medicina praticada pelos padres foi colocada em oposição pelos índios e pelos negros, apesar de a própria elite fazer constante uso dos conhecimentos curandeirísticos das camadas subalternas.

As duas últimas partes do livro mostram-se mais extensas, minuciosas e precisas, multiplicando as fontes de referência. O tema central da terceira parte foram as patologias tidas como intertropicais; com entusiasmo, reportou-se à ausência de certas enfermidades que cobrava um grande número de vidas em outras partes do planeta, como a peste, o cólera e febre amarela (as quais se pronunciaram no Brasil com toda sua violência alguns anos após a publicação do livro), explicando em detalhes as conseqüências orgânicas e sociais da ocorrência de febres de todos os tipos, da tuberculose e, na seqüência, das doenças que comprometiam os olhos, a pele e os "órgãos geniturinários". Juntando a tudo isto, alinharam-se os acidentes, especialmente aqueles produzidos por cobras e os envenenamentos, não deixando de salientar que os negros e os índios dominavam eximiamente os conhecimentos sobre as plantas venenosas e os seus possíveis usos, situação que alimentava os receios dos senhores brancos.

Percebe-se que, nesta parte da obra, Sigaud, ao se deparar com a escassez de dados, recorreu em muito à sua experiência como clínico privado no Rio de Janeiro, explorando casos individuais, provavelmente de seus próprios pacientes, no contexto das epidemias e das endemias que se restringiam às províncias próximas da corte. Um exemplo disto é a epidemia de febre intermitente que ocorreu por volta de 1830, primeiramente identificada na cidade de Macacu, localizada na província do Rio de Janeiro, e que se alastrou por Magé, Guapi e a Corte, disseminando-se em seguida ao norte até o Espírito Santo e, ao sul, até o porto de Santos. Buscando fugir do simplismo na indicação das causas desta epidemia, elencou um grande número de fatores para esta crise sanitária, dentre eles o regime dos rios e das marés, as temperaturas registradas no período, as águas estagnadas, os carrapatos, a grande concentração de escravos e o "terror pânico" que se apoderou da região já nos primeiros sinais da epidemia. A partir disto, buscou também informar sobre os exames anatomopatológicos realizados nas vítimas fatais da febre e as observações clínicas realizadas nos moribundos para esclarecer os mecanismos da febre, assim como as drogas administradas aos enfermos, dentre elas o sulfato de quinino.

Certamente influenciado pela nova preocupação da medicina européia em quantificar os dados, Sigaud alongou-se também na quarta parte do seu livro, destinada a oferecer um amplo painel do que denominou como sendo estatística médica do império. Neste trecho da obra, percebem-se claramente suas dificuldades em dispor de informações mais precisas sobre a totalidade do Império, o que o condenou uma vez a privilegiar o enfoque do Rio de Janeiro e das províncias vizinhas. Não obstante, buscou oferecer um amplo painel, oferecendo dados demográficos sobre a população brasileira, inclusive segundo as etnias, assim como as taxas de longevidade e mortalidade disponíveis ou por ele projetadas.

Paralelamente a isto, o autor apresentou informações sobre a legislação sanitária vigente, deixando de esclarecer que tal disposição legal, se era precariamente aplicada na capital do Império, praticamente não era colocada em prática na maior parte do território nacional. Além disto, buscou recensear os estabelecimentos científicos, farmácias e médicos em atividade, as cirurgias realizadas, os cemitérios existentes, e ainda indicar a qualidade das águas minerais e a complexidade da farmacopéia brasileira. O veio de historiador da saúde pública nacional esteve presente em toda a sua preleção, inclusive no fechamento do seu estudo, no qual teceu uma longa resenha biográfica dos médicos, cirurgiões e naturalistas que atuaram no Brasil.

Em suma, Sigaud empenhou-se em tecer uma obra que, pela plenitude, buscava não só esclarecer sobre a saúde nacional, como também ser útil como um texto orientador para a atuação dos médicos brasileiros. Vale ainda ressaltar que o livro foi publicado originalmente em 1844, na França, sendo que a presente edição foi enriquecida pelo precioso trabalho de Ângela Porto e Ana Maria Oda, que incluíram no texto as anotações inéditas que o autor elaborou para uma futura reedição de sua obra, assim como um prefácio e uma introdução que objetivam esclarecer a importância do livro e da presença do autor no contexto da história da medicina brasileira.