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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.26 n.9 Rio de Janeiro Sep. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2010000900019 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Marcelo de Abreu Maciel

Centro de Ciências Humanas e da Educação, Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, Brasil

mdabreu@uol.com.br

 

 

REFORMA PSIQUIÁTRICA: AS EXPERIÊNCIAS FRANCESA E ITALIANA. Passos ICF. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2009. 244 p.

ISBN: 978-85-7541-187-2

Itália, França e Brasil: histórias, lutas e políticas em torno da saúde mental

A micro-história italiana nos ensina que investigações em torno de experiências particulares não significa operar reducionismos ou trabalhar com algo que só teria valor histórico, documental ou político em si mesmo. Muito pelo contrário, quando lemos os trabalhos de historiadores como Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, descobrimos o micro como potência fundadora para pensarmos e ampliarmos campos de discussões e lutas muitas vezes surpreendentes ou reveladores de pontos ainda não trabalhados ou vistos. Assim acontece também nos trabalhos de Deleuze, Guattari e Foucault ou nas experiências da Análise Institucional. Experiências micro, molares, em escalas menores, infames, mas intensas no campo das lutas políticas, subjetivas e históricas. Por outro lado, e é bom que se diga também, o micro pode ser aquilo que não é pequeno necessariamente, porém algo que ficou descartado, silenciosamente abafado como não tendo importância e que alguém foi lá e lhe deu amplitude, vigor, permitindo outras ou novas leituras, recolocando determinadas situações na pauta dos debates.

O livro da professora Izabel C. Friche Passos, Reforma Psiquiátrica: As Experiências Francesa e Italiana, é um momento muito interessante para entendermos como Itália e França, valendo-se de experiências tão diferentes e particulares, foram capazes de produzir um efeito clínico, institucional e político no campo da saúde mental, inventando práticas, conceitos e ações que não só ganharam corpo e visibilidade nesse campo, mas também habitaram as fronteiras da educação, comunidades e práticas hospitalares em geral. É interessante perceber que muitos profissionais que atuam em áreas educacionais ou de saúde se utilizam de conceitos que foram forjados nas lutas contra o manicômio e sua lógica excludente. Nesse sentido, elaborar uma pesquisa sobre as experiências francesa e italiana em torno da reforma psiquiátrica permite que a autora nos coloque diante de outras escalas de análise, já que vai trazer a singularidade de cada uma dessas histórias, suas aproximações com nossa trajetória brasileira, diferenças e principais personagens. Mesmo não sendo um trabalho de corte biográfico, é impossível contar essa história sem falar em profissionais como Franco Basaglia, Jean Oury, Tosquelles, Félix Guattari, Deleuze e Foucault. Muitos outros estavam presentes ainda, esses, no entanto, são importantes, pois se ligam a situações institucionais fundamentais para se conhecer o trabalho da saúde mental na França e Itália, especialmente Basaglia, Tosquelles, Guattari e Oury, dentro das experiências analisadas pela autora. Vale ressaltar que no texto encontramos uma conversa discreta com a Psicanálise e sua presença no cenário francês e quase ausência nas transformações italianas em torno da saúde mental. A autora traz ainda em seu texto, algumas intervenções da antipsiquiatria inglesa nas figuras de Laing e Cooper, dois outros personagens fundamentais no processo de lutas em território inglês.

Outro ponto importante no livro de Passos é que, apesar de não se propor a fazer uma análise do movimento da reforma psiquiátrica brasileira, em muitos momentos de seu trabalho ela faz pontuações fundamentais com a nossa experiência, mostrando o quanto a nossa trajetória é e foi mesclada de Itália, França e Inglaterra. Talvez possamos dizer que, no Brasil, uma polifonia ordenou o campo das lutas em torno da saúde mental brasileira. Nossa história confunde-se com outras produzidas em solo brasileiro como, por exemplo, a história da Análise Institucional, das instituições psicanalíticas e das transformações ocorridas no campo da Psicologia Social nas décadas de 70 e 80. São histórias que se cruzam, se misturam, se interrogam, produzindo caminhos nem sempre fáceis de serem analisados ou percorridos 1,2. A própria história da Psicoterapia Institucional francesa está marcada pela 2ª Guerra Mundial e a ocupação nazista na França, assim como o final da guerra e o começo da chamada guerra fria, trariam um impacto não só para todo território político, mas o mundo "psi" e acadêmico seria atingido pela polaridade capitalismo/comunismo. É bom lembrar também a presença de Basaglia no Brasil e Guattari, que por diversas vezes esteve observando experiências brasileiras e discutindo diversos temas em um Brasil em processo de redemocratização após anos de ditadura militar e que buscava uma outra identidade para trajetórias clínicas, grupais e de formação e diálogos no mundo da psicologia.

A autora não só nos coloca os anos da reforma psiquiátrica na França e Itália, mas aponta desdobramentos e conseqüências do caminho percorrido pela Psiquiatria de Setor francesa e a Psicoterapia Institucional, bem como a Psiquiatria Democrática Italiana. Para cada um desses movimentos ocorridos, ficam claros no trabalho de pesquisa as dificuldades, impasses e caminhos encontrados, ao mesmo tempo em que a autora vai realçando o campo de críticas mútuas existente entre franceses e italianos, sem cair, ela mesma, no fácil jogo do "qual é o melhor". Tal é uma marca do texto que, além de leitura estimulante, não assume uma postura analítica baseada em julgamentos reducionistas ou simplistas que deixariam de fora a riqueza e importância desses dois países para a história da saúde mental, da clínica e da política. O livro de Passos é ainda fruto de um trabalho de campo na França e Itália. Alguém que esteve lá para olhar de perto o que aconteceu e o que ficou das transformações ocorridas. Destaque, em particular, para a passagem por La Borde e as entrevistas na França sobre a Psiquiatria de Setor e um não querer falar mais, por parte dos entrevistados, sobre as problematizações em torno da saúde mental e seus destinos que, atualmente, perde espaço para a chamada psiquiatria biológica.

A abertura do livro com prefácio de Gregório Baremblitt é uma boa porta de entrada e um convite à leitura e ao debate do texto de Passos. Por outro lado, o fechamento do texto é uma discussão sobre a política e a clínica que é conduzida de forma muito bem tramada sem cair em dicotomias que impeçam que possamos avançar nas nossas práticas ou desmontar visões clínicas ainda reduzidas somente ao enquadramento privado, a-histórico, a-temporal e sem conseqüências políticas no cotidiano, nas instituições e nas cidades. Talvez um legado das lutas no campo da saúde mental seja que tivemos que reinventar práticas, estabelecer outros campos de problematizações teóricas e pensar uma clínica atravessada por múltiplos aspectos, redimensionando nosso campo de intervenção.

Por tudo isso, a leitura do livro Reforma Psiquiátrica: As Experiências Francesa e Italiana traz um reencontro com temas ainda importantes para nosso fazer em torno da saúde mental e uma leitura crítica de como estamos nos movendo em torno da clínica, da política e das instituições.

 

1. Coimbra CMB. Guardiães da Ordem: algumas práticas psi no Brasil do "milagre". Rio de Janeiro: Oficina do Autor; 1995.         [ Links ]

2. Rodrigues HBC. Sejamos realistas! Tentemos o impossível. In: Jacó-Vilela A, Leal AA, Portugal F, organizadores. História da psicologia - rumos e percursos. Rio de Janeiro: Nau Editora; 2007.         [ Links ]