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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.26 n.9 Rio de Janeiro Sep. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2010000900020 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Francisco Viacava

Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil

viacava@cict.fiocruz.br

 

 

AS DIMENSÕES DA SAÚDE: INQUÉRITO POPULACIONAL EM CAMPINAS. Barros MBA, César CLG, Carandina L, Goldbaum M, organizadores. São Paulo: Aderaldo & Rothschild Editores/Editora Hucitec; 2008. 229 p. (Saúde em Debate, 184).

ISBN: 978-85-60438-46-4

Em As Dimensões da Saúde: Inquérito Populacional em Campinas, estão apresentados os resultados do inquérito populacional realizado no início da década de 2000, em Campinas, São Paulo. A publicação contém cerca de 15 pequenos capítulos organizados em três seções contemplando: Estilo de Vida, Estado de Saúde e Utilização de Serviços de Saúde.

Na introdução, Marilisa Barros discorre sobre a importância dos inquéritos populacionais para gerar informação sobre as múltiplas dimensões do estado de saúde, os estilos de vida associados à ocorrência de doenças crônicas e avaliação das desigualdades sociais na prevalência das doenças crônicas e no acesso e uso de serviços de saúde. E a análise das desigualdades é a abordagem metodológica que orienta a análise dos resultados.

Um oportuno capítulo sobre o plano amostral da pesquisa em que são didaticamente abordados aspectos relacionados ao tamanho da amostra, estágios amostrais, ajuste dos pesos pela pós-estratificação precede a apresentação dos resultados.

Na primeira seção, os artigos abordam os estilos de vida que incluem hábitos alimentares, atividade física, tabagismo e consumo de álcool. Os comportamentos saudáveis estão em geral positivamente associados com variáveis sociais como a escolaridade das pessoas. Entre os achados relevantes, destaca-se a ocorrência simultânea dos comportamentos não saudáveis (tabagismo, consumo de álcool e sedentarismo) em adolescentes, entre os quais o mesmo padrão foi observado em todos os níveis sócio-econômicos.

Na segunda seção, apresentam-se os resultados sobre condições de saúde. Grande parte das doenças crônicas, entre as quais se situam a hipertensão, artrite e diabetes, é referida com maior freqüência pelas pessoas de menor escolaridade. Mas a tendência não é a mesma para "alergia" e "depressão/ansiedade/problemas emocionais" em que foi observada uma associação positiva com a escolaridade. Um aspecto importante da pesquisa é a baixa adesão dos portadores de hipertensão e diabetes às condutas recomendadas e ao seguimento de rotina mediante visitas periódicas ao médico ou serviços de saúde.

Em Campinas, a prevalência de obesidade supera a de vários países europeus. E novamente, verifica-se a ocorrência simultânea de obesidade, consumo de álcool e sedentarismo. Para os adultos, a obesidade não se apresentou associada à escolaridade como é normalmente referido em países industrializados. Tal associação só foi verificada para adolescentes do sexo feminino. Neste caso, o estudo também indica a tendência de presença concomitante de obesidade e tabagismo.

De especial interesse para a saúde mental é o capítulo Transtorno Mental Comum. Os autores consideraram como indicativo de TMC a ocorrência de oito ou mais respostas positivas ao Self Reporting Questionnaire (SRQ-20) elaborado pela Organização Mundial da Saúde e validado no Brasil. A maior prevalência de TMC foi detectada em mulheres, segmentos populacionais com pior condição sócio-econômica, evangélicos e idosos com avaliação negativa da própria saúde.

Outra contribuição importante dessa pesquisa foi a aplicação do questionário conhecido como Short Form 36, traduzido e validado no Brasil, em idosos. Do conjunto de 36 itens, foram selecionados aqueles incluídos nos domínios capacidade funcional, aspectos físicos e aspectos emocionais. Os resultados indicam que em Campinas os idosos apresentam piores pontuações no domínio "capacidade funcional". Verificou-se também que idosos com maior escolaridade obtiveram melhores resultados nos três domínios.

A seção sobre Estado de Saúde finaliza com um capítulo sobre acidentes e violência que destaca as desigualdades de gênero. Homens referem mais acidentes de transporte e mulheres mais quedas. Entre os homens, nota-se diminuição da ocorrência de acidentes e violência entre os de maior renda. Como vem sendo encontrado em outros inquéritos e também nos estudos de mortalidade, os motociclistas costumam ser as vítimas mais graves nos acidentes de trânsito e esse é um importante alvo a ser perseguido pelas políticas de prevenção de acidentes.

Na última seção do livro, estão incluídos os capítulos referentes a uso de serviços com destaque para a realização de exames para detecção precoce de câncer e mama e de colo de útero, vacinação contra influenza por idosos e uso de medicamentos. Os resultados do inquérito adquirem particular relevância para a avaliação e orientação das políticas de saúde em Campinas. As menores desigualdades sociais observadas refletem na opinião dos autores o caráter compensatório das políticas sociais no município. Uma exceção importante é a assistência odontológica: até mesmo em Campinas, as desigualdades sociais são muito grandes e na maior parte dos atendimentos houve desembolso pelas pessoas.

Uma contribuição importante do inquérito está no último capítulo, no qual se analisa o uso de medicamentos. Cerca de 40% da população com 20 anos ou mais consomem algum medicamento e o consumo é maior entre as pessoas de menor escolaridade. Entretanto, apenas 16% das pessoas referiram estar utilizando medicamento genérico, e entre os de menor escolaridade quase 20% desconhecem a existência de genéricos.

Em síntese, trata-se de uma publicação de grande importância para os gestores municipais e outros leitores, pois dispõe de uma quantidade enorme de informações adequadamente analisadas, apresentadas de forma clara e de fácil assimilação. O que poderia ter sido apenas um relatório de pesquisa foi apropriadamente colocado em um livro que suscita a reflexão e o debate sobre a importância das informações de base populacional para gestores e pesquisadores de saúde pública, promove a disseminação do conhecimento e contribui para a formação de profissionais na realização e análise de inquéritos populacionais em saúde.