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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.27 n.2 Rio de Janeiro Feb. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2011000200021 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Sergio Rego

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. rego@ensp.fiocruz.br

 

 

O MÉDICO E SUAS INTERAÇÕES: A CRISE DOS VÍNCULOS DE CONFIANÇA. Schraiber LB. São Paulo: Editora Hucitec; 2008. 254 p. (Saúde em Debate, 186).

ISBN: 978-85-60438-65-5

O que é um bom livro? Ou o que faz um livro ser considerado bom por um leitor? A resposta a estas perguntas é variada e pode ser dada tendo como foco uma variedade incontável de questões ou aspectos. Quero enfatizar aqui dois desses aspectos, os quais me ocorreram ao finalizar a leitura desta obra da Profa. Schraiber e me fazem aclamá-lo como um livro maravilhoso: o conteúdo propriamente dito, que deve ser apropriado para o que se pretende com o livro e o diálogo com o leitor. Entendo que o bom livro é como o bom professor: não se limita a apresentar idéias ou conteúdos teórico-práticos, mas estabelece uma relação tal com seu leitor, que deixa clara a premissa de um diálogo, que, neste caso, se complementará nos diversos campos que a vida acadêmica proporciona. E a autora consegue dirigir-se a diferentes interlocutores. Não são apenas os estudiosos da medicina, da sociologia, das profissões ou do mercado de trabalho em saúde a quem ela aparentemente se dirige, mas a gerações e gerações de médicos que, muitas vezes, mostram-se perdidos ou confusos no entendimento do seu próprio lugar e papel social. Ainda hoje, ouvimos aqui e ali, seja de professores ou estudantes de medicina, seja de médicos desencantados com seu quotidiano profissional, a defesa aturdida do sacerdócio médico e de uma autonomia profissional que caracterizavam a concepção liberal de sua organização. Esses ideais tradicionais da medicina se confrontam e se perdem na nova forma como a prática profissional se dá. A sempre defendida e preconizada autonomia se transformou e foi reinterpretada, de forma que, ainda hoje, ela é reafirmada no discurso e em documentos oficiais da corporação, porém não possui o mesmo significado de outrora. Médicos da geração dos que foram entrevistados para este trabalho, os quais iniciaram suas atividades profissionais no início da década de oitenta do século passado, estão ainda perplexos com as transformações de sua prática, que eles vivenciaram, mas, ainda hoje, não compreendem perfeitamente, restando muitos lamentos pela percepção de que tal prática hoje é mediada por intermediários e pela tecnologia. Essas novas situações são de tal ordem, que seus questionamentos sobre como e por que agir não são mais adequadamente respondidos pelas respostas tradicionais que a corporação lhes oferecia. Como assinalou a Dra. Alice: "Antigamente, não tinha tanto recurso quanto o que tem hoje, então, quando se chegava no fim, não se entubava, não se fazia nada, e o paciente morria... E acabou. A criança não parava, ela morria, que é diferente. Hoje em dia, o pessoa vê a morte como parada. Se é parada, então vamos reanimar. Às vezes, falo: 'Olha, ele está morrendo, vai morrer, não vai parar, entenderam?'". Embora esta compreensão tenha sido expressa aqui pela Dra. Alice, a grande maioria dos profissionais parece de fato submissa à lógica tecnológica.

É sobre essas transformações na organização e prática médicas que a professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Lilia Blima Schraiber, desenvolve seu estudo, ora publicado pela Editora Hucitec. Como bem explica em seu Prefácio, este trabalho, em outra redação, foi sua tese de livre docência, defendida, em 1997, na mesma faculdade onde ainda hoje exerce suas atividades profissionais, e complementa o estudo realizado para seu doutoramento, tendo sido publicado também pela Hucitec com o título O Médico e Seu Trabalho. Limites da Liberdade. Neste livro, Schraiber, valendo-se de entrevistas realizadas com médicos que iniciaram suas atividades até 1955, mostrou o movimento de especialização e tecnicismo iniciado nos anos 1960 com a superação da medicina liberal. O presente estudo buscou guardar pontos de contato com o anterior de forma a assegurar alguma ligação histórica entre eles, e o resultado foi bastante satisfatório. O leitor se vê brindado com a possibilidade de compreensão da transformação ao longo das narrativas de protagonistas do processo histórico. É oportuno destacar que seus entrevistados não são expoentes da profissão médica. São médicos comuns, tão comuns que estranharam serem escolhidos para a entrevista, o que confere às suas narrativas um significado e um sabor todo especial. Não raro, ao longo da leitura, somos capazes de "ver" em um ou outro trecho, colegas ou amigos nossos, de gerações próximas, falando. Esse reconhecimento proporcionado pela transcrição generosa dos depoimentos contribui para legitimar tanto os atores entrevistados, como a própria pesquisa e sua análise.

Este livro está organizado em cinco capítulos. Conta com uma apresentação do Prof. José Ricardo Ayres e um posfácio do Prof. André Mota, ambos da USP.

Em seu primeiro capítulo são apresentadas as bases teóricas com as quais Lilia Schraiber analisará seus dados empíricos. Afirma, desde logo, sua opção por analisar a prática médica não como a aplicação de conhecimentos em um exercício profissional, mas como produção de um trabalho, na melhor tradição do saudoso Ricardo Bruno Mendes-Gonçalves, com seu pioneiro Medicina e História: Raízes Sociais do Trabalho Médico. Alguns não iniciados poderiam considerar, a priori, essa fundamentação teórica de leitura mais árdua, mas o estilo adotado pela autora torna o capítulo, essencial, também de leitura agradável. Uma das alegrias que o livro proporciona ao leitor preocupado acadêmica e politicamente com a profissão médica é exatamente o diferencial de um corpo teórico estruturado, que não fica na superficialidade de tantos trabalhos que hoje se dedicam a analisar os médicos, especialmente quando focados em seu processo de formação.

No segundo capítulo, a autora descreve e discute, generosamente, a abordagem metodológica escolhida. Cada escolha, cada decisão tomada em relação ao como fazer uma pesquisa como essa, na modalidade qualitativa, está apresentada e justificada, em um texto que muito bem poderia se tornar modelo para jovens pesquisadores (mas não só) que se aventuram por esses caminhos e que, muitas vezes, parecem confundir este método com a inexistência de método.

No capítulo Medicina: Ontem e Hoje, a autora nos oferece seis narrativas amplas, porém editadas, sendo três de cada estudo. Ela selecionou relatos que proporcionam uma boa comparação entre eles e é também um dos trechos mais agradáveis de leitura, pois oferece um mergulho no universo dos entrevistados. Já nos capítulos IV, Medicina, Tecnologia e Interações: A Crise de Confiança, e V, Medicina: Arte e Ciência, a autora desenvolve suas reflexões relacionadas à crise existente na prática médica. O mercado de trabalho se transformou com aumento do assalariamento e diminuição da autonomia; as organizações onde o trabalho se produz se tornaram mais complexas e suas condições de trabalho se deterioraram; houve um aumento da especialização e da tecnificação, mas, sobretudo, como a autora assinala, "da perspectiva das interações, este novo contexto produtivo e mercantil é compreendido como a existência de múltiplas engrenagens e meios tecnológicos, que passam a ser intermediários na relação entre o médico e seu trabalho".

Embora o estudo tenha sido feito em meados da década passada, sua atualidade permanece, já que os processos descritos e as condições analisadas parecem ter apenas se intensificado, como evidencia, por exemplo, a atual supremacia das diretrizes clínicas e protocolos, que parecem até mesmo desmerecer a reflexão do médico em sua prática. Esperemos que muitos leiam esta obra, especialmente aqueles que estão envolvidos na formação dos futuros médicos, para que possam entender melhor a produção deste trabalho.