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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.27 n.8 Rio de Janeiro Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2011000800004 

ARTIGO ARTICLE

 

Equivalência semântica e avaliação da consistência interna da versão em português do Sociocultural Attitudes Towards Appearance Questionnaire-3 (SATAQ-3)

 

Semantic equivalence and internal consistency of the Brazilian Portuguese version of the Sociocultural Attitudes Towards Appearance Questionnaire-3 (SATAQ-3)

 

 

Ana Carolina Soares AmaralI; Táki Athanássios CordásII; Maria Aparecida ContiII; Maria Elisa Caputo FerreiraI

IFaculdade de Educação Física e Desportos, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, Brasil
IIAmbulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil

Correspondência

 

 


ABSTRACT

This study aimed to describe the cross-cultural adaptation of the Sociocultural Attitudes Towards Appearance Questionnaire-3 (SATAQ-3) into Brazilian Portuguese. The methodology involved the following stages: (1) translation of the questionnaire into Portuguese; (2) back-translation into English; (3) meeting with experts to prepare a draft version; (4) assessment of verbal understanding of the draft by experts and by a sample of the target population; and (5) analysis of the tool's internal consistency, using Cronbach's alpha. The questionnaire was translated into Portuguese, and the scale's final version included 30 items, as in the original. Both the experts and target population members assessed all the items as easy to understand. Internal consistency was satisfactory, reaching 0.91 for the scale as a whole. The questionnaire has now been translated and adapted into Portuguese, with evidence of clear understanding and internal consistency. However, it is still necessary to assess its measurement equivalence, external validity, and reproducibility.

Body Image; Eating Disorders; Translations; Validation Studies


RESUMO

O objetivo do estudo foi descrever o processo de adaptação transcultural do Sociocultural Attitudes Towards Appearance Questionnaire-3 (SATAQ-3) para a língua portuguesa. A metodologia foi baseada nas etapas de (1) tradução do questionário para o português; (2) retrotradução para o inglês; (3) comitê de peritos para construção da primeira versão; (4) avaliação da compreensão verbal por especialistas e por uma amostra da população-alvo; (5) análise da consistência interna do instrumento a partir do alfa de Cronbach. O instrumento foi traduzido para o português e a versão final contou com os 30 itens do instrumento original. Todos os itens foram interpretados como de fácil compreensão, tanto por especialistas quanto pela população-alvo. Os valores de consistência interna foram satisfatórios, sendo de 0,91 para toda a escala. O instrumento encontra-se traduzido e adaptado para o português, com evidências de boa compreensão e consistência interna, sendo ainda necessária a avaliação de sua equivalência de mensuração, validade externa e reprodutibilidade.

Imagem Corporal; Transtornos Alimentares; Tradução; Estudos de Validação


 

 

Introdução

As pesquisas em relação à imagem corporal têm ocupado um lugar de destaque no cenário acadêmico, sendo um tema recorrente em discussões nas áreas de Psicologia, Sociologia, Medicina, Pedagogia, Educação Física, entre outras.

O conceito "imagem corporal" refere-se a um constructo composto, envolvendo, no mínimo, duas dimensões: a perceptiva - relacionada à estimativa do tamanho e da forma corporais, e a atitudinal - referente às crenças e aos comportamentos focados na aparência 1. Campana & Tavares 2 caracterizam essa dimensão atitudinal da imagem corporal como sendo formada pelos componentes: insatisfação geral subjetiva - referente à (in)satisfação do sujeito em relação à sua aparência como um todo, componente afetivo - relacionado às emoções relativas à aparência física, componente cognitivo - referente ao investimento na aparência física e a pensamentos e crenças sobre o corpo, e o componente comportamental - relacionado a situações de evitação e checagem do corpo.

O contexto cultural gera grande influência sobre a imagem corporal, sendo destacado como uma das principais fontes das quais emanam diversas atitudes em relação ao corpo. Alguns autores destacam que a influência dos padrões de beleza difundidos pela mídia são aspectos relevantes no que se refere ao desenvolvimento e à manutenção de transtornos alimentares e de imagem 3, bem como ao consumo de esteroides anabolizantes e à realização de cirurgias plásticas estéticas 4,5. Como a prevalência desses transtornos e práticas tem se tornado cada vez mais alta entre a população brasileira 4,5,6,7, faz-se necessária a avaliação dos diversos componentes da imagem corporal, a fim de investigar o papel de suas dimensões no desenvolvimento desses comportamentos, que chegam a se configurar como problema de saúde pública 6.

Por ser um constructo multidimensional, existem diversas formas de se avaliar os componentes da imagem corporal. As escalas e os questionários autoavaliativos são os principais instrumentos utilizados no acesso a esse constructo, provavelmente por sua praticidade de aplicação e análise.

Entre os componentes da imagem corporal, o cognitivo consiste naquele com um menor número de instrumentos disponíveis validados para a população brasileira. Ressalta-se que uma das escalas destinadas à investigação das crenças e dos pensamentos sobre o corpo é o Sociocultural Attitudes Towards Appearance Questionnaire (SATAQ), desenvolvido originalmente por Heinberg et al. 8, e se destina a verificar a aceitação, por mulheres, dos padrões de aparência socialmente estabelecidos. Essa versão conta com 14 perguntas desenvolvidas para avaliar a internalização dos ideais de corpo divulgados pela mídia e a familiarização das mulheres com estes padrões.

A fim de avaliar outros aspectos dessa influência da mídia, Thompson et al. 9 desenvolveram o SATAQ-3, uma versão revisada sob a forma de questionário, em escala Likert de pontos, de 1 (Definitely Disagree) a 5 (Definitely agree). A versão original do instrumento foi validada para uma amostra de universitárias americanas, com idades entre 17 e 25 anos. Para a construção do SATAQ-3, foram utilizadas algumas das questões que compunham a primeira versão do SATAQ, acrescidas de itens que indicam a influência da mídia em relação aos esportes e ao exercício 9. O escore total do SATAQ-3 é calculado pela soma das respostas, sendo que a maior pontuação representa maior influência dos aspectos socioculturais na imagem corporal do indivíduo. O questionário é composto por 30 perguntas destinadas a avaliar a internalização geral dos padrões socialmente estabelecidos (9 itens), incluindo o ideal de corpo atlético (5 itens), a pressão exercida por estes padrões (7 itens) e a mídia como fonte de informações sobre aparência (9 itens). A consistência interna das subescalas no estudo original foi de 0,96 para internalização geral, 0,95 para internalização atlética, 0,92 para pressão e 0,96 para informação, sendo que o total da escala obteve um alfa de Cronbach de 0,96. Os autores observaram, ainda, a validade discriminante da escala a partir da aplicação do SATAQ-3 a uma amostra de pacientes com transtornos alimentares, verificando que as pacientes com transtorno obtiveram escores significativamente maiores que os controles em todas as subescalas (p < 0,017).

A internalização do padrão de corpo perfeito se torna um importante aspecto no que tange à imagem corporal por representar o aval ativo dos ideais de aparência, ou seja, a incorporação do valor ao ponto de modificar suas atitudes e comportamentos pessoais 10.

Com o crescimento das pesquisas acerca da imagem corporal, muitos pesquisadores têm se dedicado à criação e/ou adaptação transcultural de escalas. Seguindo essa perspectiva, as duas versões principais do SATAQ têm sido traduzidas e validadas para diversas populações no mundo, o que reflete a grande importância que vem sendo dada por pesquisadores de diversos países a esse componente da imagem corporal 11,12,13,14,15,16.

Entre as validações do SATAQ-3 para outros contextos, destaca-se a versão francesa 16, na qual os autores confirmaram, por meio de uma análise fatorial exploratória, os quatro constructos da escala original e valores do coeficiente alfa de Cronbach variando entre 0,82 e 0,92. Markland & Oliver 13 realizaram uma análise fatorial confirmatória a fim de comprovar a validade de constructo do SATAQ-3 em uma amostra de universitárias britânicas, e verificaram os mesmos quatro fatores da versão original. Uma versão do SATAQ-3 para uma amostra de mulheres malaias 15 comprovou que o instrumento pode ser, também, utilizado em culturas não ocidentais. Nesse estudo, os autores atestaram a estrutura fatorial do SATAQ-3 na Malásia e verificaram coeficientes alfa de Cronbach satisfatórios, variando de 0,82 a 0,94.

O SATAQ-3 tem sido utilizado em diversas investigações acerca da influência da mídia na imagem corporal, sendo o instrumento mais difundido na atualidade para o estudo do componente cognitivo 15. Entretanto, esse questionário ainda não possui uma versão na língua portuguesa nem registros da avaliação de suas qualidades psicométricas para a realidade brasileira.

Esse instrumento se configura como uma possibilidade de acesso à dimensão cognitiva da imagem corporal e, em função da crescente influência da mídia na busca pelo corpo perfeito, a investigação acerca deste componente se faz de extrema relevância no estudo dos fatores relacionados aos transtornos de imagem e alimentares. Por ser autoavaliativo, o SATAQ-3 é de fácil aplicação em grandes amostras e, devido à sua grande aceitação no meio científico, uma versão na língua portuguesa possibilitará comparações futuras com outras populações por meio de estudos transculturais.

Assim, o presente trabalho objetiva descrever as etapas iniciais do processo de adaptação transcultural do SATAQ-3, que se desdobram em sua tradução, retrotradução, avaliação da equivalência semântica, compreensão verbal e a avaliação da consistência interna para a população brasileira.

 

Métodos

O processo de adaptação transcultural baseou-se nos procedimentos sugeridos por Guillemin et al. 17 por serem largamente os mais utilizados pelos pesquisadores brasileiros na tradução de instrumentos na área da saúde. Buscou-se, igualmente, preservar a avaliação das equivalências proposta por Herdman et al. 18,19 e descrita em detalhes por Reichenheim & Moraes 20. Sendo assim, o primeiro passo foi a solicitação de autorização aos autores das escalas originais feminina e masculina para seu manuseio, sendo estas concedidas nos dias 25 de março e 30 de março de 2010, respectivamente.

Segundo Beaton et al. 21, a adaptação transcultural pode ser definida como o processo que examina a língua (tradução) e questões de adaptação no processo de preparar um questionário para uso em outro contexto cultural. Autores como Herdman et al. 18,19 destacam que esse processo garante que um instrumento possa ser utilizado em outras culturas, desde que haja uma equivalência entre as versões traduzidas de um mesmo questionário.

Procedimentos

Segundo Reichenheim & Moraes 20, o primeiro passo para a realização da adaptação transcultural de um instrumento para outro contexto cultural é a avaliação de sua equivalência conceitual. Pesquisas recentes têm demonstrado a crescente prevalência de insatisfação corporal entre amostras brasileiras variadas 6,7, indicando que a preocupação com o corpo é um fenômeno presente também na realidade brasileira.

A primeira etapa consistiu da tradução do instrumento, em suas versões masculina e feminina, da língua inglesa para o português, sendo que esta foi realizada por dois tradutores independentes e nativos brasileiros. Um desses tradutores possuía conhecimento sobre o fenômeno avaliado pelo instrumento, enquanto o outro desconhecia o tema. Em seguida, os dois tradutores propuseram uma síntese de suas traduções, a qual foi encaminhada para a retrotradução para dois tradutores nativos da língua inglesa que desconheciam o questionário original 17.

Na segunda etapa, procedeu-se a revisão do instrumento e a avaliação da equivalência semântica por um comitê de peritos constituído pela pesquisadora responsável, uma especialista em línguas, uma das tradutoras e uma especialista em metodologia de adaptação transcultural de escalas. A avaliação da equivalência semântica buscou manter os mesmos significados entre as palavras e expressões do instrumento original e do traduzido. A revisão a respeito do modo de administração e aplicação do instrumento traduzido também foi realizada, garantindo que, mesmo com a opção por alteração no formato da escala, o conteúdo fosse semelhante, assegurando a equivalência operacional. A partir desse processo, foi elaborada a primeira versão do instrumento.

Para avaliação da compreensão verbal, esta primeira versão foi apresentada a profissionais especialistas na área de transtornos alimentares (nutricionista, psicólogo, psiquiatra e educador físico). Ao especialista foi solicitado responder a uma escala numérica adaptada 22,23, a fim de avaliar a clareza e a compreensão de cada questão e do instrumento na íntegra. O participante foi orientado a indicar o quanto compreendeu de cada item do instrumento, por meio de uma escala Likert de 0 (não entendi nada) a 5 (entendi perfeitamente e não tenho dúvidas). Conforme Conti et al. 23, foi estabelecido que as respostas 0, 1, 2 e 3 eram indicadoras de uma compreensão insuficiente. O especialista foi ainda orientado, caso não compreendesse a questão ou a linguagem não parecesse adequada, que sugerisse alterações justificando os motivos.

Essa mesma escala de compreensão verbal foi apresentada a 60 jovens, estudantes do curso de Educação Física, de uma instituição pública do Município de Juiz de Fora, Estado de Minas Gerais, sendo 30 homens e 30 mulheres, selecionados de forma aleatória simples e que concordaram em participar voluntariamente da pesquisa. Do mesmo modo que foi pedido aos especialistas, solicitou-se aos jovens que registrassem suas sugestões e dificuldades na compreensão das questões. A fim de se analisar os escores de compreensão verbal de cada uma das 30 perguntas que compõem o questionário, foram calculados a média e o desvio-padrão das respostas dos especialistas e dos universitários, de forma a se ter uma visão geral da compreensão verbal das questões. Uma nova versão do instrumento foi formulada a partir da observação dos dados apresentados pelos especialistas e pelos jovens entrevistados.

Como última etapa, a versão final do instrumento foi aplicada a um grupo de 86 universitários, sendo 46 mulheres e 40 homens, para avaliar o grau de consistência interna das questões que fazem parte do instrumento, bem como de cada uma das quatro subescalas, por meio da análise do coeficiente alfa de Cronbach. Os voluntários foram selecionados de forma aleatória e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Ao questionário foram acrescentadas perguntas diretas que buscavam verificar dados demográficos dos participantes, como idade e sexo.

Para as análises estatísticas utilizou-se o programa SPSS versão 16.0 (SPSS Inc., Chicago, Estados Unidos). Foram realizadas análises descritivas (média e desvio-padrão) e inferencial (alfa de Cronbach).

O projeto do presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em 15 de julho de 2010 (parecer nº. 148/2010), e sua execução está de acordo com as normas da Resolução nº. 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

 

Resultados

Participaram deste estudo nove profissionais especialistas na área de transtornos alimentares, sendo três nutricionistas, três psicólogos, dois psiquiatras e uma educadora física. A amostra da população-alvo foi composta por 146 universitários, sendo 70 homens (20,7 anos ± 3,5 anos) e 76 mulheres (20,3 anos ± 2,2 anos).

Tradução

O primeiro item que mereceu atenção referiu-se a uma das opções de resposta, pois a tradução literal da palavra mostly é "a maioria", o que não expressa a intenção avaliativa do questionário. Assim, optou-se pela utilização da expressão "em grande parte" e, dessa forma, garantiu-se uma maior clareza do conteúdo expresso, adequando-o à língua portuguesa.

Já nas questões 1, 5, 9,13, 17, 21, 25, 28 e 29, optou-se pela introdução do vocábulo "como" à tradução da expressão being attractive, com o intuito de dar maior clareza ao significado pretendido no instrumento original. Dessa forma, conseguiu-se garantir, por meio dessa expressão, o sentido de que a mídia se configura como fonte de informações sobre as características e as maneiras de se tornar uma pessoa atraente.

Como o instrumento não determina um período ao qual o participante deve se remeter ao responder às questões, entendeu-se que cada item se refere a acontecimentos que ocorreram em algum momento da vida do sujeito, sem registro temporal específico. Assim, optou-se pelo tempo verbal presente em todo o questionário. Quanto à expressão I have felt pressure, o comitê optou por sua tradução em forma de locução verbal: "já me senti pressionado", sugerindo mais claramente esta intenção do instrumento.

Na língua inglesa, a utilização do verbo to look conjugado a um adjetivo (look pretty e look muscular) transmite a ideia de algo momentâneo. Por isso, optou-se pela tradução na forma do verbo "ficar", indicando a tendência de modificação da aparência.

Já em relação à expressão music videos, optou-se pela única palavra disponível no dicionário da Academia Brasileira de Letras 24 referente a vídeos musicais apresentados na televisão. Dessa forma, a expressão foi traduzida para a palavra "videoclipe".

Após revisão do questionário em suas versões feminina e masculina, escolhemos por fundir as duas versões em uma única escala. Como a adaptação masculina proposta por Karazsia & Crowther 25 apenas substituiu as palavras que faziam menção à magreza por referência à muscularidade, seguiu-se esta mesma lógica na padronização do presente estudo. Ademais, essa fusão se justifica pela facilidade de aplicação de um mesmo questionário às duas populações simultaneamente.

Para que a fusão dos questionários fosse realizada, foi necessário o retorno das frases negativas à versão masculina do instrumento, pois a adaptação para esta população na língua inglesa havia transformado os itens com escore reverso em afirmações.

As etapas de tradução, retrotradução e a versão do instrumento produzida pelo comitê de peritos podem ser observadas nas Tabelas 1 e 2. No que diz respeito ao título do questionário, optou-se por utilizar sua tradução, mantendo, contudo, a sigla do instrumento original, para que o mesmo seja facilmente reconhecido na comunidade científica.

Em relação à equivalência instrumental, ou seja, à forma de administração do questionário, o comitê optou por sua alteração. Foi estabelecida a apresentação do SATAQ-3 na forma de uma tabela, na qual cada linha representa um item do questionário e cada coluna uma opção de resposta.

Compreensão verbal

Entre os especialistas, as questões do SATAQ-3 obtiveram graus de compreensão verbal superiores a 4,3 (valor máximo = 5), demonstrando que as mesmas foram avaliadas como de fácil compreensão (Tabela 3).

 

 

Os jovens entrevistados nessa etapa destacaram a clareza das perguntas. Esse fato foi confirmado pelos graus médios de compreensão verbal, apresentados na Tabela 3, na qual percebe-se que todas as questões obtiveram valores médios superiores a 4,3 (valor máximo = 4,9).

As sugestões dadas pelos especialistas e pelos estudantes foram reportadas ao Comitê de Peritos que, com base na análise e no julgamento das mesmas, produziu a versão final do instrumento (Figura 1).

Consistência interna

O instrumento demonstrou valores do coeficiente alfa de Cronbach de 0,91 entre as mulheres e 0,92 entre os homens. Ao se considerarem os itens do questionário, independentemente do sexo, o valor do coeficiente foi de 0,91.

Quando analisadas cada uma das quatro subescalas do instrumento, os valores encontrados foram de 0,90 para internalização geral (sendo 0,88 entre as mulheres e 0,90 entre os homens), 0,81 para a subescala internalização atlética (0,74 para as mulheres e 0,86 para os homens), 0,85 para a subescala pressão (0,87 e 0,82 para mulheres e homens, respectivamente) e 0,82 para informação (0,83 entre as mulheres e 0,82 entre os homens).

 

Discussão

As pesquisas que buscam investigar a imagem corporal e seus componentes têm se tornado cada vez mais presentes no meio científico. Thompson 26 destaca a importância da escolha de instrumentos adequados para a avaliação dos componentes da imagem corporal, sugerindo, também, que estas escalas possuam validade e fidedignidade comprovadas. O SATAQ-3 se destina a avaliar o componente cognitivo da imagem corporal, ainda carente de instrumentação avaliativa no Brasil.

Apesar de não existir um guia padrão-ouro para a realização das traduções, adaptações culturais e validações de instrumentos para a população brasileira, os guias existentes são unânimes ao defender a importância desse processo no desenvolvimento de escalas válidas e fidedignas 17,21. Os autores destacam que somente um processo de adaptação transcultural de qualidade é capaz de tornar um instrumento apto a ser utilizado em outro contexto cultural 18,19.

Com base nesses pressupostos, este estudo desenvolveu a tradução e adaptação transcultural do SATAQ-3 para a língua portuguesa, apresentando resultados satisfatórios. Incluiu a elaboração de três versões do instrumento, com a participação de peritos, especialistas da área de transtorno alimentar e população-alvo, para chegar a sua versão final. Comprovou, também, sua consistência interna, apresentado resultados promissores, com o valor alfa de Cronbach superior a 0,91.

Em relação à sua apresentação, escolhemos por fundir as escalas feminina e masculina em um único questionário, a fim de facilitar a sua aplicação. Essa estratégia também foi utilizada em outras validações do SATAQ para outras culturas e populações 14,27, e não causou nenhum prejuízo ao entendimento dos itens, conforme pode ser observado pelos valores da consistência interna.

Ademais, não foram necessárias exclusões de itens da escala, e as alterações realizadas em relação ao instrumento original se justificaram pelo melhor entendimento dos enunciados. Essa medida está de acordo com o que propõem van Widenfelt et al. 28, segundo os quais os tradutores devem avaliar criticamente o instrumento e notar os itens que não podem ser traduzidos de forma literal. Os autores destacam que a escolha pela tradução do enunciado deve ter como objetivo capturar a intenção do instrumento original, mesmo que, para isso, algumas palavras necessitem ser alteradas. Esse cuidado foi adotado neste estudo.

Já em relação à compreensão dos itens, sua avaliação foi satisfatória, com valores médios na escala de compreensão verbal, tanto por especialistas quanto pela população-alvo, superiores a 4,3. Vale destacar que os mesmos atendem ao estabelecido por Conti et al. 23, para os quais esse valor deve ser superior a 3, para que sejam considerados de compreensão suficiente.

Interessante observar que, no estudo original para mulheres 9, a consistência interna foi de 0,96 para toda a escala, valor muito próximo ao encontrado no presente trabalho. Na adaptação masculina 25, os valores obtidos para o alfa de Cronbach também foram semelhantes. Quando analisadas cada uma das quatro subescalas que compõem o instrumento original, os valores de consistência interna também foram satisfatórios, variando de 0,74 a 0,90. O fato de os coeficientes alfa de Cronbach terem sido altos podem ser discutidos, também, em função do número de questões do instrumento (30), o qual pode ter colaborado para os valores encontrados. Apesar disso, deve-se ressaltar a importância desses resultados, que apontam para a fidedignidade do instrumento pela avaliação da consistência interna de todas as suas questões e de suas subescalas.

É importante enfatizar a relevância clínica de instrumentos de avaliação dos componentes da imagem corporal, visto que distúrbios neste constructo são considerados fundamentais na etiologia dos transtornos alimentares 29. Estudos recentes destacam a crescente prevalência desses transtornos na população brasileira, o que aumenta ainda mais a necessidade de instrumentos válidos e confiáveis para a investigação dos aspectos precursores dos mesmos 6,7.

Dessa forma, como o presente estudo se limitou a descrever as etapas iniciais do processo de tradução, adaptação transcultural e avaliação da consistência interna do SATAQ-3 brasileiro, faz-se ainda necessária a avaliação de sua equivalência operacional e de mensuração, bem como de sua estabilidade, por meio do teste-reteste, a fim de comprovar suas condições psicométricas. Após essa confirmação, o Questionário de Atitudes Socioculturais em Relação à Aparência (SATAQ-3) estará apto para a utilização em pesquisas com a população brasileira jovem e, também, para a sua adaptação a fim de que seja utilizado com outras populações, tais como indivíduos com transtornos alimentares, adolescentes, entre outros.

 

Colaboradores

A. C. S. Amaral participou da elaboração do projeto, coleta e análise dos dados, redação e discussão do artigo. T. A. Cordás e M. A. Conti contribuíram na análise dos dados, na redação e revisão do artigo. M. E. C. Ferreira colaborou na coleta dos dados, na redação e revisão do artigo.

 

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Correspondência:
A. C. S. Amaral
Laboratório de Estudos do Corpo, Faculdade de Educação Física e Desportos, Universidade Federal de Juiz de Fora.
Rua José Lourenço Kelmer s/n, Campus Universitário
Juiz de Fora, MG 36036-900, Brasil
acsamaral@hotmail.com

Recebido em 13/Out/2010
Versão final reapresentada em 24/Mai/2011
Aprovado em 11/Jun/2011