SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.27 issue10O veludo, o vidro e o plástico: desigualdade e diversidade na metrópole author indexsubject indexarticles search
Home Page  

Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.27 n.10 Rio de Janeiro Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2011001000024 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Roseney BellatoI; Laura Filomena Santos de AraújoII

IFaculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, Brasil. roseney@terra.com.br
IIFaculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, Brasil. laurafil1@yahoo.com.br

 

 

CUIDADO: TRABALHO E INTERAÇÃO NAS PRÁTICAS DE SAÚDE. Ayres JRCM. Rio de Janeiro: Centro de Estudos e Pesquisa em Saúde Coletiva, Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ABRASCO; 2009. 282p. (Coleção Clássicos para Integralidade em Saúde).

ISBN: 978-85-89737-49-4

José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres tem sua formação no campo da medicina, com pós-graduações em medicina preventiva. Fazendo referência de origem a Ricardo Bruno Mendes Gonçalves para indagar do trabalho em saúde e, nele, o lugar do sujeito, apropria-se das fontes de diversos autores, de vertente fenomenológica e hermenêutica contemporânea, dentre eles, Heidegger, Gadamer, Habermas e Ricoeur, direcionando seus estudos para o Cuidado em sua dimensão intersubjetiva.

Na introdução o próprio autor apresenta a sua obra, composta por sete ensaios reflexivos e estudos aplicados compreendendo o período de 2001 a 2008, com predominância de publicação em 2004 e 2005. Desta forma, os capítulos são compostos por estudos já divulgados em conceituadas revistas da área da saúde coletiva, além de um texto publicado como material de difusão para equipes multiprofissionais de saúde, o que mostra o interesse pelo tema. O impacto desses estudos para o campo da saúde em geral, bem como para a saúde coletiva, se reforça com este livro, constituindo-se uma das referências para a discussão do cuidado desde seu lançamento em 2009.

Ayres experimenta sucessivas indagações ao profissional da saúde e a si mesmo, num processo construtivo-reflexivo. Ele formula estas indagações como eixos que enuncia, reitera e renova ao longo da obra, num movimento intrínseco de reapropriação e aprofundamento consistente em torno do tema "Cuidado: trabalho e interação nas práticas de saúde". Dentre esses eixos, destacamos: (i) sobre a perspectiva de se constituir o "si mesmo", o profissional da saúde, como cuidador, a partir da dimensão intersubjetiva do cuidado; (ii) sobre o "encontro desejante", do si mesmo com o outro, como possibilidade de modelagem do cuidado em situações aflitivas ou de alcance de um bem-estar; (iii) sobre como "reconhecer o outro do cuidado" no cotidiano das ações em saúde, por meio de pontes linguísticas entre os sujeitos que possibilitem o compartilhamento de horizontes normativos; (iv) de como, então, este constructo cuidado possa remodelar práticas que agreguem êxito técnico e sucesso prático; e de como é possível mobilizar tais referências na formação e na prática assistencial.

Deste arcabouço o autor apresenta o cuidado como uma "habilidade artesã de um projeto de vida" (p. 47). Consideramos que este seja um dos aspectos mais inovadores do trabalho de Ayres: a ousadia de afirmar a necessidade de nós, profissionais da saúde, considerarmos tal projeto daqueles de quem cuidamos. Ou, indo mais longe, fazer o questionamento sobre a possibilidade de nossa participação na construção de projetos existenciais dos sujeitos, instaurando, assim, um cuidar porque se responsabiliza, referido pelo autor como o giro paradigmático necessário às nossas práticas.

Ayres não apenas expõe teoricamente o tema do cuidado, mas o pauta em resultados de pesquisa própria; tal experimentação constitui-se em mais um mérito do livro, como condensador da discussão sobre o cuidado. Dentre outros, ele nos apresenta resultados de pesquisa envolvendo jovens vivendo com HIV/AIDS e seus cuidadores familiares, afirmando a perspectiva do outro do cuidado.

A escrita de Ayres é complexa e bonita, fazendo usos de alegorias para formular imagens-conceito e, ao mesmo tempo, nos levar, por meio da imagem alegórica, aos nossos próprios encadeamentos de ideias, seja no livre voo que corta o ar da leve pomba, na alegoria de Kant; seja na modelagem da forma humana na argila por Higino e no sopro do espírito por Júpiter, na alegoria de Heidegger. Ambas utilizadas para figurar o cuidado em seus elementos constitutivos, por meio dos quais Ayres nos diz estarem imbricadas as possibilidades de "(trans)formação" e a natureza plástica da "forma Cuidado", o que bem o configura em seu sentido artesanal. Para logo a seguir, contrastar esta natureza com a dureza dos arranjos tecnológicos, gerenciais e assistenciais - constituidores de fôrmas.

Embora o cuidado constitua antigos discursos na área da saúde, banalizado, pois reiterado à exaustão, tem sido pouco sustentado teoricamente, de modo a balizar práticas em saúde. Ayres vem nos propor, a partir de seu campo, mas não se limitando ao mesmo, alguns constructos filosóficos e éticos que possibilitem constituir o cuidado como prática encarnada na dimensão existencial, através da qual possamos afirmar nossa responsabilidade, conosco mesmo e com o outro do cuidado, em projetos de felicidade.

É ao profissional de saúde que Ayres se dirige e indaga - "Como nos constituímos cotidianamente no cuidar? E com que sentido para o outro?". E é, enfaticamente, com o sentido de um projeto de felicidade que o autor responde. Indaga ainda da finalidade da nossa prática como possibilidade de uma existência desejante e desejável, para ambos os sujeitos do cuidado, muito além de uma produção material.

Consideramos, assim, ser premente questionar, de uma perspectiva ética, os esforços e investimentos que dão arcabouço e organização ao mundo "imenso" do trabalho em saúde e, nele, nossos tantos desperdícios, visto que o enraizamento da racionalidade científica que dá corpo à prática biomédica instrumental esteja cada vez mais insustentável. Com toda parafernália montada com base em saberes de "intervenção", estamos cada vez mais distanciados de alcançar êxito técnico, tanto quanto sucesso prático, fazendo-se necessário constituir o "cuidado" com referências mais compreensivas, sustentadoras de nossas práticas.

Já as pessoas que se cuidam e, em algum momento, são cuidadas pelo profissional da saúde, mostram-se cada vez mais resistentes à instrumentalidade das práticas, se estas tomam meramente esta forma, desejando fazer-se compreender em seus próprios e complexos modos de viver. Daí, a obra de Ayres se apresentar como bons ventos renovadores, pois se propõe a indagar de nós mesmos e de nossas práticas quanto às possibilidades de abarcar essas existências, constituindo cuidados que tenham como finalidade, com o outro, aplacar sofrimentos e sustentar bem-estar.

O outro do cuidado toma presença na obra de Ayres, embora se dirija mais propriamente ao profissional da saúde em suas indagações, problematizando as tecnologias e saberes do campo e suas imbricações com as sabedorias, práticas e juízos destes profissionais. Neste movimento, Ayres sempre posiciona o profissional face ao outro do cuidado, sendo este o grande desafio ao nosso entendimento - o pôr-se em movimento amalgamando e mobilizando todos estes elementos exatamente na inter-relação com o outro. Deste encontro, podendo tomar corpo o cuidado na contínua reconstrução dos seres mesmos, em intersubjetividades.

E se, constituindo o cuidado, temos a substância do "desejo" movente, pois se coloca em experiências em aberto direcionado para um modo de vida que se quer, Ayres propõe o cuidado como forma possível de nos conciliar com "uma construção livre e solidária de uma vida que se quer feliz" (p. 63) erigida pelas pessoas - o ser e o outro do cuidado, e em consonância a este projeto. Complementarmente, podemos indagar dos projetos de felicidade de nós mesmos, uma vez que nos constituímos profissionais no e pelo cuidado, ao mesmo tempo em que podemos ser mediadores no cuidado do outro.

Contudo, parece necessário, para além das intervenções e prescrições costumeiras, aproximarmo-nos ainda mais das pessoas e das formas do "possível realizável" com que as normas em saúde são amalgamadas no cotidiano de suas vidas. É necessário compreendermos como, aos seus modos, as experiências de cuidar e adoecer se conformam numa diversidade de matizes e movimentos. Talvez neste movimento o outro do cuidado possa reconhecer o profissional de saúde como possibilidade de, então, participar de seu projeto de felicidade.