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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.28 n.4 Rio de Janeiro Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012000400021 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Danielle Ribeiro de Moraes

Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. danielle@fiocruz.br

 

 

DAS LOUCURAS DA RAZÃO AO SEXO DOS ANJOS: BIOPOLÍTICA, HIPERPREVENÇÃO, PRODUTIVIDADE CIENTÍFICA. Castiel LD, Sanz-Valero J, Vasconcellos-Silva PR. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2011. 188 pp.

ISBN: 978-85-7541-214-5

Não se pode julgar um livro por sua capa. Talvez para capas da primeira metade do século XIX de O Vermelho e o Negro, ícone do realismo de Stendhal, esse ditado popular pudesse ser aplicado. Mas em tempos líquidos, incertos e arriscados, como é a época em que Das Loucuras da Razão ao Sexo dos Anjos: Biopolítica, Hiperprevenção, Produtividade Científica é lançado, o provérbio já não possa ser absolutamente seguido. Não em sua literalidade. Seu sentido alegórico, no entanto, permanece pertinente para aludir às reflexões presentes na obra de Luis David Castiel, Javier Sanz-Valero & Paulo Roberto Vasconcellos-Silva. Afinal, ajuizando a bela ilustração da capa, que evoca o personagem Chapeleiro Louco, de Alice no País das Maravilhas, e as instigações de Marcos Santos Ferreira na quarta capa, logo suspeitamos da intencionalidade deste livro: expor ambivalências sobre as atuais práticas e a produtividade científica em saúde. Aqui, uma ressalva: um desavisado poderia esperar um texto prolixo e hermético, todavia e em direção oposta, os autores escrevem em um elegante tom ensaístico politicamente deliberado, e com a cadência didática de uma boa aula.

O prólogo toma emprestado o oximoro "loucuras da razão", usado por Joost Van Loon, autor contemporâneo do campo dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (ESCT). Por meio de referências da literatura, do cinema e outras, ao longo de todo o livro os autores insinuam analogias que indicam o olhar aguçado sobre as naturalizações da neutralidade científica, supostamente unívoca e despida de interesses, e de seus usos no território da saúde pública, tais como a Promoção da Saúde, o enfrentamento dos desastres (ditos naturais), a busca pela longevidade.

O primeiro capítulo é dedicado a uma reflexão sobre a trajetória recente do campo da saúde, especificamente desde a Conferência de Alma-Ata. Entre as idas e vindas das políticas de saúde, visualizamos no texto as da universalização do acesso, as da emergência das políticas de atenção primária (cada vez mais restritivas), as do entendimento do que seja participação social nesse campo. Ao que parece, em uma conjuntura tardo-moderna, o autocuidado venceu a batalha que previa a construção da utopia. E os vencedores, que contam a história, indicam que a superação dos problemas coletivos reside em soluções individuais. Dessa máxima contemporânea, a culpabilização das pessoas por seu estado de não saúde é uma previsível consequência. A evitação do estado de não saúde, de outro lado, implicaria o que os autores chamam de um "controle meticuloso dos riscos à saúde". Utilizam-se do conceito de biopolítica, com base no paradigma imunitário, para trabalhar esses aspectos das práticas sanitárias no capítulo 2 (A Biopolítica e os Enredos Imunitários), não antes de lançarem mão, desde contribuições de Zigmunt Bauman e Donna Haraway até, e por que não, do personagem Borat, de Sacha Cohen, para criticarem o imperativo daquilo que, parafraseando os autores, seja ideologicamente correto para a saúde pública.

Aludindo à perspectiva foucaultiana de biopoder, os autores usam a designação de "epidemiopoder" para discutir tal imperativo no campo da saúde pública e do método epidemiológico, reconhecidamente hegemônico quando se trata da construção do conhecimento científico e das evidências em saúde. Não à toa, lançam-se à análise dos limites da crença nesta suposta "firmeza epistemológica" do método, como denominam. Apontam ainda, em diversos momentos do livro, situações em que a normatividade advinda da interpretação acrítica desse fazer científico gera distorções, como a hiperprevenção, o desdobramento da biopolítica em bioeconomia, e a moralização das práticas sanitárias.

É este último aspecto que delineia a deixa para o capítulo 3, Epidemiologia, Desastres, Hiperprevenção e Corpo-Risco, em que partem da problematização da epidemiologia dos desastres, cujo rebatimento, no plano das políticas, se relaciona com a assunção de um caráter cada vez mais objetivante da gestão, não mais apenas dos riscos, mas também da chamada "ajuda humanitária". Isso residiria na esperança de que, objetivando a forma de lidarmos com os riscos, possamos anulá-los. Porém, além de ser uma tarefa frustrante - pois impossível - perseguir, esta esperança gera outros tipos de caçadas hiperpreventivas. Esse fenômeno já havia sido apontado por diversos teóricos do campo dos ESCT, a quem os autores enunciam em algumas de suas epígrafes. Não de outro modo, Castiel, Sanz-Valero & Vasconcellos-Silva mapeiam arautos apocalípticos em diferentes dimensões da vida: na engenharia, para aplacar as ameaças de asteroides em possível rota de colisão com a Terra; nas estratégias de contenção de novas e velhas doenças; na predição quase paranoica de desastres que possivelmente adviriam de nossa neurótica relação com a, quem sabe vingativa, "Mãe Natureza". Essa relação estaria calcada na estratégia política do medo e teria como base de argumentação a lógica economicista, historicamente localizada em uma época em que a dimensão dos consumidores se sobrepõe à dos cidadãos.

Seus efeitos são sentidos tanto na produção das subjetividades de um "corpo-risco", quanto nas ambivalências da construção do conhecimento sobre o risco, que, cientificamente iluminando alguns aspectos e sombreando outros, acaba por vitimar e culpar. Quem sabe até possa inspirar tanto a retórica de um envelhecimento saudável, quanto economicamente viável, conforme é mostrado no quarto capítulo (Risco Catastrófico em Termos Pessoais: saúde, genética e a promoção da longevidade).

Adiante, em Promoção da Saúde como Prática Religiosa, os autores se utilizam da noção de "condição pós-política" para iniciar uma provocante crítica sobre a fragilização da crença na mediação pela política, intrínseca à modernidade tardia. E, quando a saída política falha, restam as soluções privadas que, em tal conjuntura, muitas vezes tomam a face de panaceia engendrada pelo progresso científico. Apoiados em um interessante exercício linguístico, expõem desdobramentos dessa condição no campo da saúde, mediante a comparação das virtudes cardeais com a corrente fé na salvação pela saúde. A leitura do capítulo nos faz lembrar o uso tão atual da expressão mens sana in corpore sano, originalmente atribuída a um trecho do poeta romano Juvenal, em que propõe pelo que os romanos deveriam rezar - no caso da Roma Antiga, pela longevidade, que conduziria à retidão moral. No nosso caso e usando as palavras dos autores, estaríamos seguindo a trilha de nos tornarmos "fieis cidadãos epidemiologicamente ativos".

Retomando as discussões do prólogo, no último capítulo, O Artigo Científico como Mercadoria Acadêmica, os autores analisam as vicissitudes das apropriações de parâmetros bibliométricos com vistas a avaliar e financiar as pesquisas e o trabalho em saúde, apresentando-nos o fenômeno da "bibliometriose" e seu corolário, o "darwinismo bibliográfico", que estariam assumindo padrões de epidemia no meio acadêmico. Não descuidando da robustez teórica, dialogam com autores como Bruno Latour, Gérard Fourez, Madel Luz, Pierre Bourdieu, entre outros.

A análise desse fazer acadêmico prossegue no epílogo, quando expõem que a perspectiva teórica crítica, usualmente confundida com o sexo dos anjos, tem sido cada vez mais rara em tempos dominados pela lógica produtivista. Os autores defendem a pertinência do pensamento filosófico, mesmo frente a seu aparente deslocamento no campo da saúde, do qual se espera a qualidade de ser "naturalmente" propositivo. É o que chancela Sandra Caponi em seu corajoso prefácio, quando, ao expor a obra um pouco de trás para diante, sintetiza: "expor os sujeitos à pura corporeidade, à vida nua, é, sem dúvida, uma eficaz estratégia de despolitização das relações humanas e sociais". Talvez, em uma corruptela absolutamente tentadora, sejam tempos de mens insana in corpore scientificum.