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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.28 n.9 Rio de Janeiro Sep. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012000900001 

EDITORIAL

 

Câncer de pulmão e as tendências atuais do tabagismo no Brasil

 

 

Gulnar Azevedo e Silva

Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. gulnar@ims.uerj.br

 

 

Os primeiros resultados sobre o impacto da política de controle do tabagismo na redução da mortalidade por câncer de pulmão foram observados entre homens já na década de 1980 em alguns países de alta renda. No Brasil, a partir da década de 2000, a mortalidade por câncer de pulmão entre homens passou a mostrar queda estatisticamente significativa. Considerando o altíssimo risco atribuível ao fumo no aparecimento do câncer de pulmão, medidas de prevenção primária continuarão mostrando efeito na diminuição da incidência e, por consequência, da mortalidade deste tipo de câncer, ainda de alta letalidade.

Em 2010 foram registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) 21.868 óbitos por neoplasias malignas de traqueia, brônquios e pulmão (dos quais a maior parte corresponde às de pulmão). Desde meados da década de 1980, o câncer de pulmão ocupa no Brasil o primeiro lugar entre os óbitos por câncer em homens e a partir de 2006, passou a ocupar o segundo lugar entre mulheres, só superado pelo câncer de mama. A diferença de gênero vem diminuindo ao longo do tempo; a razão das taxas de mortalidade homens/mulheres que em 1980 era de 3,2 passou a 1,7 em 2010. De fato, o movimento na tendência das taxas de todo o país nos últimos 30 anos, diferentemente do que ocorre entre os homens, indica aumento marcante entre mulheres em todo o período, tanto nas capitais quanto no interior. Tendo em vista o longo período de latência entre a exposição ao tabagismo e o aparecimento do tumor maligno de pulmão, este quadro, indiretamente, sugere que houve uma queda do tabagismo entre os homens a partir da década de 1980, a qual foi maior nas capitais do país. Ao mesmo tempo, a expansão de fumantes mulheres a partir da década de 1970 parece ter tido início nas capitais, atingindo rapidamente mulheres residentes em municípios do interior. A epidemia de tabagismo no Brasil sofreu, portanto, forte influência da acentuada interiorização do estilo de vida urbano, o que parece ser mais facilmente identificado entre as mulheres.

Particularmente importante são os achados dos estudos nacionais que analisaram a evolução do câncer de pulmão por faixa etária, mostrando declínio entre homens com menos de sessenta anos, o que sugere que a queda na iniciação do tabagismo foi maior se comparada com a queda da cessação de fumantes.

A política de controle do tabagismo no Brasil iniciada nos anos 1980 tem alcançado reconhecimento internacional com resultados muito positivos. A prevalência de fumantes com 15 anos ou mais no país passou de 40,3% em homens e 26,2% em mulheres em 1989 segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN) para 21,6% e 13,1%, respectivamente, em 2008 com base na Pesquisa Especial sobre Tabagismo (PETab); configurando uma redução consistente e sustentada por um período de quase 20 anos. Não obstante, ainda existem grandes diferenças entre os percentuais de fumantes segundo a escolaridade, o que exige estratégias específicas para atingir as populações de menor nível socioeconômico.

Desafios ainda se colocam e esforços adicionais são necessários para garantir reduções ainda maiores especialmente entre comunidades de baixa renda. A intensificação das ações de cessação de tabagismo no Sistema Único de Saúde (SUS), assim como a proibição de fumo em ambientes fechados se colocam como importantes avanços que devem ser assegurados e defendidos em todo o território nacional.