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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.28 n.9 Rio de Janeiro Sep. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012000900017 

NOTA RESEARCH NOTE

 

Confiabilidade teste-reteste de escalas de silhuetas de autoimagem corporal no Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto

 

Test-retest reliability of the scale silhouettes figures of body image in Brazilian Longitudinal Study of Adult Health

 

 

Rosane Härter GriepI; Estela M. L. AquinoII; Dóra ChorIII; Idalina Shiraishi KakeshitaIV; Andrea Lizabeth Costa GomesV; Maria Angélica Antunes NunesVI

IInstituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil
IIInstituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil
IIIEscola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil
IVFaculdades da Fundação de Ensino de Mococa, Mococa, Brasil
VEscola de Nutrição, Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil
VIFaculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

Aplicou-se a escala de figuras de silhuetas que avalia a imagem corporal em duas oportunidades, com intervalos de 7 a 14 dias, em 281 participantes do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil). O coeficiente de correlação intraclasse (CCI) foi usado para medir a confiabilidade teste-reteste. O item "como os participantes veem seu tamanho corporal atual" apresentou CCI entre 0,92 e 0,97, sem diferenças por sexo, idade ou escolaridade. "O tamanho corporal que gostariam de ter" apresentou CCI entre 0,86 e 0,92, sendo menor entre os homens. A estabilidade temporal foi adequada, possibilitando sua utilização em estudos sobre a imagem corporal no ELSA-Brasil e populações semelhantes.

Imagem Corporal; Autoimagem; Reprodutibilidade dos Testes; Índice de Massa Corporal


ABSTRACT

We applied silhouette scales for assessing body image on two occasions with a 7 to 14 day interval in 281 participants in the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil). Intraclass correlation coefficient (ICC) was used to measure test-retest reliability. The item "how participants see their current body size" showed ICC from 0.92 to 0.97, with no difference by gender, age, or schooling. "Ideal body size" showed ICC from 0.86 to 0.92 and was lower among men. Temporal stability was satisfactory, allowing for use of the scales in studies on body image in the ELSA-Brasil and similar populations.

Body Image; Self Concept; Reproducibility of Results; Body Mass Index


 

 

Introdução

A autoimagem corporal diz respeito à percepção da imagem que uma pessoa tem do seu próprio corpo e dos sentimentos gerados por esta percepção 1. Trata-se de um constructo que envolve crenças, representações, sentimentos, sensações, atitudes e comportamentos relativos ao corpo. É fortemente condicionada por padrões sociais e esta influência se prolonga por toda a vida, interferindo no comportamento, particularmente nas relações interpessoais 1,2,3.

Nas últimas décadas, o expressivo aumento dos valores do índice de massa corporal (IMC) parece ter contribuído para a insatisfação com a percepção do peso ou forma corporal 1,3. Os resultados de um estudo realizado entre mulheres brasileiras sugerem que a percepção do peso corporal influencia fortemente o comportamento alimentar, sobrepondo-se ao efeito do IMC medido 4. A imagem corporal também está relacionada com a adoção de práticas de autocuidado, controle de peso, atividade física e com os transtornos alimentares 1,3,4.

A escala de figuras de silhuetas 1,2,5 é uma das técnicas de avaliação da imagem corporal, e é considerada bastante eficaz para avaliar o grau de satisfação com o próprio corpo, definido a partir da diferença entre a percepção da forma e peso corporal atual, e daquele que a pessoa gostaria de ter idealmente 2. Tem como vantagens adicionais o baixo custo, a facilidade, rapidez no manuseio e a boa aceitação 1,5.

Trabalhos que avaliem adequadamente as qualidades psicométricas da escala de silhuetas têm sido defendidos 6. A confiabilidade é etapa importante dessa avaliação, reflete a qualidade da mensuração e a variabilidade do evento investigado, e deve ser medida de acordo com a dinâmica ocorrida no processo de coleta dos dados de cada estudo 7. Quando um mesmo instrumento utilizado em diferentes situações apresenta consistentemente boa confiabilidade, tem sua "imanente qualidade" atestada 7.

A confiabilidade da escala de silhuetas foi medida em amostra de voluntários de 18 a 59 anos, da região de Ribeirão Preto e Mococa, interior do Estado de São Paulo, e apresentou resultados apenas de acordo com o sexo e estado nutricional em suas análises 1,5. A avaliação psicométrica, considerando pessoas com mais de 60 anos de idade e de acordo com estratos de idade e níveis de escolaridade, um dos indicadores mais importantes de posição socioeconômica, não foi avaliada anteriormente. Assim, o objetivo deste artigo é apresentar as estimativas de confiabilidade teste-reteste da escala de silhuetas de avaliação da autoimagem corporal segundo sexo, idade e escolaridade em uma subamostra dos participantes do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil) em seis capitais do país.

 

Métodos

O ELSA-Brasil 8 (aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa; CONEP nº 13065) é um estudo multicêntrico envolvendo seis instituições de pesquisa, e tem como objetivos principais determinar a incidência de doenças cardiovasculares e seus determinantes biológicos e sociais. Fizeram parte da linha de base (2008-2010) 15.105 funcionários públicos de 35 a 74 anos, que deverão ter o estado de saúde acompanhado por cerca de 15 anos.

O estudo de confiabilidade teste-reteste foi realizado em subamostra de participantes do ELSA-Brasil que eram convidados a responder novamente ao questionário, aplicado pelo mesmo entrevistador, no período de 7 a 14 dias após ter respondido pela primeira vez. Foram estimados tamanhos amostrais que variaram entre 224 e 287 participantes (para o conjunto dos Centros de Investigação), considerando-se cotas previamente estabelecidas segundo sexo, idade e categoria profissional, definidas no ELSA-Brasil. A amostra final do trabalho foi constituída por 281 participantes dos seis centros ELSA-Brasil.

A escala de silhuetas incluída no ELSA-Brasil, desenvolvida e validada por Kakeshita 1,5, é composta por duas perguntas: (1) Qual a figura que melhor representa o seu corpo hoje?, e (2) Qual a figura que melhor representa o corpo que gostaria de ter? As respostas eram fornecidas pela escolha de uma entre 15 silhuetas apresentadas em cartões individuais, dispostas em série ascendente, com variação progressiva na escala de medida da figura mais delgada à mais larga, às quais correspondiam o IMC médio variando entre 17,5 e 47,5kg/m 1,5.

Consideraram-se valores médios de IMC correspondentes a cada figura proposta 1,5, cujas diferenças no teste e reteste foram testadas por meio de análise de variância (ANOVA). Para as análises da confiabilidade dos escores das perguntas foi utilizado o coeficiente de correlação intraclasse (CCI) estratificado por sexo, idade e escolaridade, e respectivos intervalos de 95% de confiança. Os critérios de Landis & Koch 9 foram considerados na avaliação dos níveis de estabilidade temporal: pobre < 0; fraca, de 0 a 0,20; provável, de 0,21 a 0,40; moderada, de 0,41 a 0,60; substancial, de 0,61 a 0,80; e quase perfeita, de 0,81 a 1,00).

Os dados foram digitados de forma dupla e independente no programa Epi Info (Centers for Disease Control and Prevention, Atlanta, Estados Unidos) e após a correção de inconsistências as análises foram realizadas no programa SPSS, versão 18 (SPSS Inc., Chicago, Brasil).

 

Resultados

A amostra abrangeu proporção semelhante de homens e mulheres: 15,3% tinham entre 35 e 44 anos; 37,4% entre 45 e 54; 35,2% entre 55 e 64; e 12,1% entre 65 e 74 anos. Mais da metade deles tinham nível superior completo ou mais (54,4%); 31,3% tinham nível médio completo e 13,5% dos participantes tinham nível fundamental.

As médias de IMC correspondentes às figuras em cada pergunta foram semelhantes no teste e no reteste, tanto no cômputo geral quanto nos estratos de sexo, idade e escolaridade (Tabela 1). No entanto, em cada estrato, as médias foram mais baixas na pergunta relativa à representação do corpo que gostariam de ter quando comparadas às médias de IMC do corpo atual, tanto no teste quanto no reteste (p < 0,001).

Todos os CCI ficaram acima de 0,80 (corpo atual e corpo que gostariam de ter). De maneira geral, os valores foram mais baixos para a escala das figuras da representação do corpo que gostariam de ter do que para o corpo atual. Não foram observadas variações consistentes da confiabilidade segundo os estratos de escolaridade. Por outro lado, a confiabilidade da informação fornecida pelas mulheres foi maior do que a dos homens. No item "corpo atual", a confiabilidade diminuiu na medida em que a idade aumentou. Além disso, no item "corpo que gostaria de ter" identificou-se confiabilidade mais baixa entre os mais velhos (65 a 74 anos de idade) e entre aqueles com idades entre 45 e 54 anos.

 

Discussão

Neste estudo, as informações a respeito da representação da autoimagem corporal apresentaram níveis de confiabilidade quase perfeitos. Resultados semelhantes, utilizando o mesmo instrumento, foram estimados em população do interior do Estado de São Paulo 5, assim como, de forma semelhante aos nossos resultados, os autores identificaram confiabilidade mais elevada entre as mulheres, refletindo entre elas maior regularidade na preocupação com o próprio corpo, conforme já relatado em trabalhos anteriores 6.

Para ambos os sexos foram identificadas médias de IMC mais baixas no item que se refere à representação do corpo desejado, comparado ao corpo atual. Esse resultado confirma a extensa literatura da área 6 sobre o componente atitudinal da imagem corporal que reflete a insatisfação corporal generalizada.

Entre os idosos a confiabilidade foi mais baixa, no entanto, o instrumento não foi delineado especificamente para esta faixa etária, cuja morfologia corporal pode ser diferente. Assim, estudos adicionais sobre a confiabilidade da escala nesse grupo são desejáveis.

Análises que considerem diferentes estratos de gênero e cada centro de pesquisa poderiam enriquecer os resultados. No entanto, não puderam ser realizadas em função de limitações do tamanho amostral. Estudos em andamento complementarão a avaliação psicométrica no que se refere aos aspectos da validade das informações sobre a imagem corporal dos participantes.

Considerando-se a magnitude e amplitude do ELSA-Brasil e a importância dos coeficientes de confiabilidade dos instrumentos utilizados, este trabalho contribui para a avaliação da qualidade dos dados coletados. Além disso, apresenta pela primeira vez resultados da confiabilidade da imagem corporal de acordo com estrato de idade e de escolaridade, inclui população entre 60 e 74 anos de idade de seis cidades diferentes do país. Portanto, amplia a avaliação da qualidade do instrumento, tanto geograficamente quanto em relação à faixa etária e posição socioeconômica, tendo a escolaridade como seu indicador. Nesse sentido, os resultados deste trabalho preenchem lacunas importantes na validação inicial de um instrumento novo, dando mais garantia a outros pesquisadores brasileiros para que possam utilizá-lo.

As mudanças ambientais e socioculturais das últimas décadas influenciaram o quadro atual de prevalência da obesidade. Investigar o universo simbólico e os aspectos subjetivos que ajudam a condicionar hábitos de vida, com destaque para os comportamentos alimentares, é essencial para entender o complexo fenômeno da obesidade 1. Do ponto de vista da confiabilidade, os altos coeficientes identificados no presente estudo sugerem que a escala de figuras de silhuetas é um bom instrumento para essas investigações. Assim, a incorporação desse instrumento em um estudo longitudinal como o ELSA-Brasil representa um grande potencial de produção de conhecimentos em âmbito nacional para o controle da obesidade, o que é particularmente relevante em um contexto de aumento da sua prevalência.

 

Colaboradores

R. H. Griep participou da concepção e projeto, análise e interpretação dos dados, redação do artigo e aprovação final da versão a ser publicada. E. M. L. Aquino e D. Chor participaram da concepção e projeto, análise e interpretação dos dados, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e aprovação final da versão a ser publicada. I. S. Kakeshita, A. L. C. Gomes e M. A. A. Nunes participaram da análise e interpretação dos dados, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e aprovação final da versão a ser publicada.

 

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Edital MCT/CNPq 14/2009 - Universal, Processo nº 475489/2009-8).

 

Referências

1. Kakeshita IS. Adaptação e validação de escalas de silhuetas para crianças e adultos brasileiros [Tese de Doutorado]. Ribeirão Preto: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo; 2008.         [ Links ]

2. Gardner RM, Brown DL. Body image assessment: a review of figural drawing scales. Pers Individ Dif 2010;48:107-11.         [ Links ]

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4. Nunes MA, Olinto MT, Barros FC, Camey S. Influência da percepção do peso e do índice de massa corporal nos comportamentos alimentares anormais. Rev Bras Psiquiatr 2001;23:21-7.         [ Links ]

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7. Reichenheim ME, Moraes CL. Operacionalização de adaptação transcultural de instrumentos de aferição usados em epidemiologia. Rev Saúde Pública 2007;41:665-73.         [ Links ]

8. Aquino EM, Sandhi MB, Bensenor IM, Carvalho MS, Chor D, Duncan BB, et al. Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil): objectives and design. Am J Epidemiol 2012;175:315-24.         [ Links ]

9. Landis JR, Koch GG. The measurement of observer agreement for categorical data. Biometrics 1977;33:159-74.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
R. H. Griep
Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde, Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz
Av. Brasil 4365, Pavilhão Lauro Travassos
Rio de Janeiro, RJ 22240-000, Brasil
rohgriep@ioc.fiocruz.br

Recebido em 17/Jan/2012
Versão final reapresentada em 19/Mai/2012
Aprovado em 25/Jun/2012