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Cadernos de Saúde Pública

versión impresa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.28 no.9 Rio de Janeiro sep. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012000900023 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

HIV/AIDS: enfrentando o sofrimento psíquico

 

 

Roger Flores CecconI; Stela Nazareth MeneghelII

IUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil. Universidade de Cruz Alta, Cruz Alta, Brasil roger.ceccon@hotmail.com
IIUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil stelameneghel@gmail.com

 

 

HIV/AIDS: ENFRENTANDO O SOFRIMENTO PSÍQUICO. Kahhale EP, Christovam C, Esper E, Salla M, Anéas T. São Paulo: Editora Cortez; 2010. 144p.

A AIDS, desde sua descoberta, constituiu-se como uma doença que ultrapassa os limites da dimensão biomédica: caracterizada como uma patologia clínica incurável, que leva à morte, adentrou também nos campos psicológico e social. Isso significa que a experiência do adoecer é carregada de preconceito, discriminação, medo, violência, solidão, incertezas, desemprego, pobreza, prostituição e desigualdades de gênero. Trata-se, pois, de um importante problema de saúde pública e de grandes proporções.

HIV/AIDS: Enfrentando o Sofrimento Psíquico discorre, de maneira inquietante e profunda, sobre as problemáticas cotidianas experienciadas pelas pessoas que vivem com HIV e debruça-se, primordialmente, sobre questões relacionadas a desigualdades de gênero entre homens e mulheres. Muitos desses dramas são velados no dia-a-dia, tornados invisíveis, e compete apenas a quem os vive um sofrimento mudo como forma de enfrentamento cotidiano. A obra não se assenta sobre modelos clínicos de intervenção; vai além, denuncia e propõe, instiga e procura compreender essas pessoas que, apesar de criarem estratégias de resistência, são marcadas por esse drama social.

O livro é fruto da pesquisa intitulada Relações de Gênero e Sexualidade: a Transversalidade com a Adesão ao Trabalho em HIV/AIDS, a qual objetivou apresentar o contexto das pessoas que vivem com HIV em duas cidades brasileiras - São Paulo e Recife -, de modo a apreenderem-se as relações que instituem com os familiares, com os serviços de saúde e entre os gêneros. Os autores são psicólogos e fazem parte do Laboratório de Estudos de Saúde e Sexualidade (LESSEX), vinculado ao Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; por sua vez, o LESSEX integra o Grupo de Pesquisa Psicossomática e Psicologia Hospitalar. O laboratório desenvolve pesquisas nos parâmetros da psicologia sócio-histórica da saúde, sexualidade e relações de gênero, tendo produzido, ao longo dos anos, estudos interinstitucionais com diversas universidades no país.

A obra, em sua completitude, compreende sete capítulos, que se interligam, fazendo uma abrangente leitura da problemática em questão. O texto mescla "teoria/prática/literatura", possibilitando ao leitor o entendimento e a ideia do fenômeno em diferentes dimensões.

O primeiro capítulo, Panorama do HIV/AIDS: Uma Leitura Crítica, contextualiza a epidemia desde seu início, reforçando a rápida evolução e apresentando parâmetros para trabalhar com pessoas que vivem com HIV. O restante do capítulo é centrado em questões de gênero, na feminização da AIDS e nas assimetrias masculino versus feminino. A análise evidencia que as relações desiguais de gênero fazem com que as mulheres abdiquem da prevenção ao HIV em favor da manutenção do relacionamento amoroso e os homens aumentem sua vulnerabilidade ao exercer padrões de comportamento considerados masculinos e viris, como o não uso do preservativo.

No segundo capítulo, Inserção Social: Condições de Vida e Trabalho, os autores problematizam o drama vivenciado pelos contaminados por HIV na esfera do trabalho, tendo, muitas vezes, o desemprego como desenlace final. O adoecer no trabalho, mostrando no corpo a simbologia das múltiplas faces físicas da AIDS, associada ao preconceito e ao medo dos que o cercam, é exemplo clássico. Atrelado a isso, a pessoa com HIV ainda vivencia o diagnóstico da soropositividade e as mudanças acarretadas no mundo do trabalho, como o preconceito, o estigma e o medo do desemprego, com graves repercussões na autonomia social e no significado dado ao trabalho.

No capítulo seguinte, são abordadas as questões inerentes às relações familiares de pessoas que vivem com HIV. São trazidas à tona as mudanças negativas que a doença acarreta no núcleo familiar e a piora na qualidade da relação do casal após a contaminação, quando ocorre a culpabilização da mulher pela doença. As relações familiares entre homens e mulheres não se baseiam em vínculos de confiança e comunicação necessárias para igualdade entre os sexos, o que vulnerabiliza ainda mais a mulher e a expõe a violência. Mesmo que os homens tenham infectado as companheiras, observa-se que elas são acusadas pela transmissão da doença e por suposta traição, isentando-os da responsabilidade. O capítulo enfatiza ainda os porquês do não uso do preservativo nas relações sexuais, sendo este entendido pelos indivíduos como um objeto que dificulta a intimidade sexual, situação reforçada pela falta de diálogo sobre o corpo, o sexo, os desejos e as preferências. Para as mulheres, o não uso do preservativo está associado a desigualdades veiculadas pela ideologia de gênero, agravadas pelas dificuldades de oportunidades de escolaridade, que limitam o seu poder de negociação de sexo seguro.

O quarto capítulo - Condições de Saúde e a História do Adoecimento - é centrado nos significados que o adoecimento representa na vida do doente, ocasionando rupturas nos projetos, na perspectiva de futuro e na necessidade de buscar formas de enfrentamento para essas novas situações. No quinto capítulo, Relações Sociais e Viver com HIV/AIDS, discute-se a desestruturação da rede de relações sociais, devido, principalmente, ao estigma e ao preconceito. São abordados os sentidos de viver com HIV/AIDS, que traz mudanças significativas no modo de levar a vida e implicações importantes no cotidiano do existir.

No sexto capítulo - Adesão e Vulnerabilidade -, os autores explicitam o quanto as consequências negativas das desigualdades entre os sexos contribuem para o sofrimento das pessoas infectadas por HIV, principalmente das mulheres, vítimas de ampla violência: a de viver com HIV e a de ser mulher. O restante do capítulo aborda a terapêutica, ainda centrada em complexos esquemas medicamentosos, acarretando inúmeros e graves efeitos colaterais que alteram a imagem corporal, como a lipodistrofia - distribuição anormal de gordura corporal -, manchas na pele e adenopatias. O estigma também é outro comportamento social que induz a pessoa com HIV a percorrer uma trajetória silenciosa e solitária, rumando para o isolamento social. O trabalho evidencia a ausência de parceiro amoroso em 23% das pessoas investigadas como resultado desse isolamento.

O sétimo capítulo, Construção de Novas Práticas e a Formação para Atuar Integrando Assistência e Pesquisa, discorre acerca da importância de práticas assistenciais qualificadas e integradas a pesquisas relacionadas à temática em questão. Estudos que estimulem a construção de outros modos de subjetivação individuais e sociais pelas pessoas que vivem com HIV. Propõem-se ações voltadas para as mulheres, de modo que estas sejam levadas a refletir conjuntamente suas vulnerabilidades, apropriação de direitos humanos e meios mais assertivos de viver, que não as coloquem em situações de risco, criando espaços de discussão em comunidades de mulheres sobre autoestima, relação com o parceiro, sexualidade, trabalho e relações sociais igualitárias.

O livro, enfim, reflete quão urgentes são as questões sociais e psicológicas que norteiam a AIDS, principalmente as questões de gênero, em que a mulher ocupa um lugar de submissão ao homem em todas as fases de vivência da doença, seja na transmissão, no intercurso, ou no desfecho. Acreditamos que a leitura de HIV/AIDS: Enfrentando o Sofrimento Psíquico possa aproximar o leitor da triste realidade acerca das determinações presentes na AIDS, proporcionando reflexões sobre as práticas assistenciais, não centradas apenas no olhar clínico, mas ampliadas para os aspectos psicossociais e, principalmente, para as desigualdades de gênero dos que vivenciam a doença. A obra é, sem dúvida, uma importante contribuição para o campo da saúde coletiva.