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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.28 no.10 Rio de Janeiro Out. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012001000016 

NOTA RESEARCH NOTE

 

Versão brasileira do Instrumento de Avaliação da Dor em Paciente Não Comunicativo (NOPPAIN): equivalência conceitual, de itens e semântica

 

Brazilian version of the Non-communicative Patient's Pain Assessment Instrument (NOPPAIN): conceptual, item, and semantic equivalence

 

 

Raquel Soares De Araujo; Lilian Varanda Pereira

Faculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

A mensuração da dor em pessoas com déficit cognitivo grave, inábeis em comunicar verbalmente o que estão sentindo, tem sido um desafio. O Instrumento para Avaliação da Dor em Paciente Não Comunicativo (NOPPAIN) é um instrumento que propõe a mensuração da dor por meio do julgamento de comportamentos observados, que expressam tal experiência. A inexistência de instrumentos desse tipo em nossa cultura levou ao desenvolvimento deste estudo, que teve como objetivo: adaptar culturalmente o NOPPAIN para o idioma português brasileiro. Trata-se de estudo metodológico, realizado com base no referencial de Guillemin et al. Foram percorridos quatro passos: tradução para o português brasileiro, obtenção de uma versão de consenso, retradução e avaliação das versões traduzidas e retraduzidas por um comitê de especialistas. Nesta abordagem inicial, o NOPPAIN-Br apresentou equivalência semântica com o original e está disponível no idioma português brasileiro para validação complementar.

Medição da Dor; Demência; Idoso


ABSTRACT

The evaluation and measurement of pain in individuals with dementia and unable to communicate verbally has been a challenging experience. The Non-communicative Patient's Pain Assessment Instrument (NOPPAIN) is an instrument that evaluates this phenomenon by observing behaviors that express pain. Considering the lack of instruments for this purpose in Brazil, the current study was designed to translate the NOPPAIN instrument into Brazilian Portuguese and culturally adapt it to the Brazilian reality. This was a methodological study, with Guillemin et al. as the theoretical reference. The study included four steps: translation; obtaining a consensus version; back-translation; and evaluation of the translation and back-translation by an expert panel. In this initial approach, the NOPPAIN-Br showed semantic equivalence to the original instrument and is now available in Brazilian Portuguese for further validation.

Pain Measurement; Dementia; Aged


 

 

Introdução

A mensuração da experiência dolorosa é tarefa desafiadora para aqueles que procuram manejá-la adequadamente, quer pela complexidade do fenômeno doloroso ou falta de um instrumento de medida ideal, que possibilite acesso preciso e acurado ao que o outro está sentindo1,2,3.

Nos casos de incapacidade cognitiva grave e impossibilidade de comunicação verbal das sensações, soma-se a impossibilidade de utilizar o autorrelato, padrão-ouro para reconhecer, avaliar a tratar a dor nas populações. Nestes casos, os instrumentos que se valem da observação de comportamentos que expressam dor, como a expressão facial, as verbalizações e vocalizações, os movimentos corporais, as mudanças nas interações interpessoais, nas atividades, rotinas e no estado mental4,5,6,7, ajudam a reduzir riscos de interpretação errônea de mais ou de menos daquilo que a pessoa está vivenciando2,3.

Instrumentos para a medida da dor por meio de comportamentos observáveis, que estão no domínio involuntário e não intencional, dependendo mais de formas automáticas de expressão da dor, estão sendo propostos5,8,9,10,11,12, como o Non-communicative Patient's Pain Assessment Instrument (NOPPAIN), original do inglês, elaborado por Snow et al.1.

O NOPPAIN é um instrumento simples e clinicamente útil para mensurar a dor a partir do julgamento de comportamentos que a expressam, acessível aos profissionais de diferentes áreas e níveis de formação11,12,13,14,15. Foi traduzido para o italiano por Ferrari et al.13 e validado por Novello et al.14 e Horgas et al.15. Consiste de quatro seções, que encampam nove figuras de situações de cuidados diários; seis figuras que indicam comportamentos de dor; e a figura de uma escala descritiva de intensidade subjetiva de 11 pontos (0-10), onde 0 (zero) significa "sem dor" e 10 (dez) "a pior dor" associados a cinco descritores: "nenhuma dor", "dor leve", "moderada", "forte" e "pior dor". Inicialmente o observador deve indicar os cuidados realizados; após, os comportamentos de dor observados durante os cuidados e a intensidade de cada um deles; e por fim, a intensidade global da dor no pior momento. O somatório dos escores de cada seção indicará o escore NOPPAIN de dor.

Instrumentos de medida elaborados na cultura de origem ou adaptados culturalmente do idioma original para o da população-alvo possibilitam a obtenção de dados referentes à dor em diferentes culturas, viabilizando comparações transculturais sobre a experiência dolorosa, avançando nessa área do conhecimento16. Ademais, a avaliação da dor é fundamental para tratamento precoce e eficaz, um dos direitos humanos17.

Assim, este estudo foi proposto e teve como objetivo: descrever os resultados da equivalência conceitual, de itens e semântica entre o NOPPAIN original em inglês, e a versão em português brasileiro para avaliação da dor em pacientes não comunicativos.

 

Metodologia

Estudo de adaptação transcultural do Instrumento de Avaliação da Dor em Paciente Não Comunicativo (NOPPAIN), para o português brasileiro, que recebeu parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Goiás (protocolo nº. 0122010) e consentimento de seus proponentes.

O referencial utilizado foi o proposto por Guillemin et al.16, sendo percorridos quatro dos cinco passos propostos:

•  Passo 1: tradução do NOPPAIN para o português brasileiro, língua-mãe das duas bilíngues que trabalharam de forma independente;

•  Passo 2: as duas versões no português brasileiro foram analisadas por uma equipe de bilíngues e pesquisadores, surgindo a Versão de Consenso do NOPPAIN para o idioma-alvo – o NOPPAIN-Br-VCLP. Os termos, frases e palavras do NOPPAIN foram categorizados em 64 elementos, listados na primeira coluna da Tabela 1;

•  Passo 3: foram feitas quatro retraduções do NOPPAIN-Br-VCLP, por quatro bilíngues, com língua-mãe no inglês, de forma independente. Todos eram ingênuos quanto aos objetivos do estudo. Resultaram as versões RT1, RT2, RT3 e RT4;

•  Passo 4: o NOPPAIN-Br-VCLP e as quatro retraduções foram analisadas pela comissão de especialistas, composta por seis bilíngues, incluindo profissionais da área de saúde (médicos neurologistas e enfermeiros) e linguistas, conhecedores do assunto em questão (medida de dor, comportamento de dor, idoso, demência e processo de adaptação transcultural de instrumentos para o português brasileiro). Para análise da concordância sobre a adequação dos elementos do NOPPAIN-Br-VCLP utilizou-se uma escala de 0 (zero) a 10 (dez), onde o escore 0 (zero) significava nenhuma concordância; escores 1 (um), 2 (dois), 3 (três) e 4 (quatro), pouca concordância; escores 5 (cinco) e 6 (seis), média concordância; escores 7 (sete), 8 (oito) e 9 (nove), concordância boa; e escore 10 (dez), concordância muito boa. O resultado foi explorado pela média aritmética dos escores atribuídos a cada elemento. Na análise das retraduções a porcentagem de concordância entre os especialistas foi o direcionador da escolha da melhor versão. Desse processo resultou a Versão de Consenso Retraduzida (NOPPAIN-Br-VCRT) e a Versão Pré-Final do NOPPAIN para o idioma-alvo (NOPPAIN-Br-VPF), denominada NOPPAIN-Br.

 

Resultados

Os elementos do NOPPAIN-Br-VCLP foram descritos na segunda coluna da Tabela 1. Houve correções, como "Did you see pain?", traduzido como "Você viu dor?", substituído por "Você notou dor?" e finalmente por "Você observou dor?".

O termo "sponge bath", traduzido como "banho de esponja", que significa dar banho no indivíduo em sua própria cama, foi traduzido como "banho de leito", expressão utilizada na cultura brasileira.

A instrução "Rate the resident's pain at the highest level you saw it today" foi traduzida como "Avalie a dor do paciente, no nível mais alto que você a notou hoje" e substituída por "....você a observou durante a realização dos cuidados", pois os comportamentos de dor serão julgados após a realização desses cuidados.

O resultado da comparação dos elementos do NOPPAIN-Br-VCLP com o NOPPAIN original, e desse com as retraduções, resultaram na Versão Retraduzida de Consenso (NOPPAIN-Br-VCRT) e Versão Pré-Final no Português Brasileiro (NOPPAIN-VPF), cujos elementos estão listados nas colunas dois e três da Tabela 1, respectivamente.

Dos 64 elementos de cada retradução, 59,4% elementos alcançaram 100% de concordância entre os especialistas; 16 (25%) alcançaram 83,3% de concordância, 14,1% 66,6%. O elemento "Transferred resident (bed to chair, chair to bed, standing or wheelchair to toilet)" teve concordância de 50%, permanecendo a versão "Transferred the patient from the bed to the chair, from the chair to the bed, picked the patient up, or took the patient in a wheelchair to the bathroom".

Quanto ao NOPPAIN-Br-VCLP, dos 64 elementos, 56,3% alcançaram média 10 (dez), equivalente à concordância "muito boa" e 43,7%, média entre 7,0 e 9,9 – concordância "boa".

A tradução do termo "check list", de "Activity chart check list" foi "verificação", alcançando 50% de concordância entre os juízes.

O NOPPAIN-Br-VPF foi nomeado Instrumento de Avaliação da Dor em Pacientes Não Comunicativos (NOPPAIN-Br) (Figura 1).

 

Discussão

A mensuração da dor em pessoas com déficit cognitivo e de comunicação tem sido uma realidade nos últimos 15 anos, em países da Europa, Austrália e Estados Unidos da América3,5,8,9,10,11,12,13,14, no entanto, ainda não estão disponíveis no idioma português brasileiro, o que faz deste estudo pioneiro na adaptação e disponibilização de um instrumento para medir dor em brasileiros com demência avançada.

No processo de obtenção do NOPPAIN-Br-VCLP e NOPPAIN-Br-VCRT observou-se que as traduções e retraduções foram muito semelhantes. Algumas palavras foram apenas substituídas por sinônimos, outras corrigidas gramaticalmente.

O processo de equivalência conceitual e de itens do NOPPAIN não exigiu mudanças na ordem dos elementos, retirada ou acréscimo de itens. Trata-se de escala de fácil entendimento, com desenhos simples e frases curtas, que foram traduzidas e retraduzidas mantendo equivalência com a nova versão, fundamental para a introdução de instrumentos em novas culturas16.

Novas pesquisas, com amostras representativas, estão sendo conduzidas para complementar esta primeira abordagem da adaptação transcultural do NOPPAIN para o idioma português brasileiro, incluindo os processos de equivalência operacional, de mensuração e funcional do instrumento. Estes estudos serão necessários para que um instrumento de mensuração da dor em pessoas com déficit cognitivo grave e incapacidade de comunicação possa ser disponibilizado na cultura brasileira.

 

Conclusão

Durante as etapas percorridas nesta abordagem inicial, o NOPPAIN-Br atingiu os critérios de equivalência conceitual, de itens e semântica, fundamentais para a continuidade do processo de adaptação transcultural desse instrumento.

 

Colaboradores

R. S. De Araujo e L. V. Pereira participaram do processo de planejamento da investigação, coleta e análise de dados e redação do artigo.

 

Referências

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Correspondência
R. S. De Araujo
Faculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Goiás.
Av. Dom Pedro II, Qd. 19, Lt. 10, Setor Vila Jardin São Judas, Goiânia, GO  74685-210, Brasil.
dearaujor@gmail.com

Recebido em 22/Ago/2011
Versão final reapresentada em 27/Jun/2012
Aprovado em 13/Jul/2012