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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.28 no.10 Rio de Janeiro Out. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012001000017 

NOTA RESEARCH NOTE

 

Equivalências semântica e de itens da edição em português do Vécu et Santé Perçue de l'Adolescent: questionário de avaliação da qualidade de vida do adolescente

 

Semantic and item equivalences of the Brazilian Portuguese version of the Vécu et Santé Perçue de l'Adolescent: an adolescent quality-of-life questionnaire

 

 

Mariana Tschoepke AiresI; Guilherme Loureiro WerneckII

IUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
IIUniversidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

No Brasil, não há instrumentos genéricos de avaliação da qualidade de vida relacionada à saúde em adolescentes desenvolvidos com base em seus pontos de vista. A utilização de instrumento concebido em outro contexto sociocultural deve ser precedida de adaptação transcultural, envolvendo avaliação das equivalências semântica, de itens e conceitual. Vécu et Santé Perçue de l'Adolescent (VSP-A) é um instrumento genérico desenvolvido na França para avaliar a qualidade de vida relacionada à saúde de adolescentes. O objetivo deste trabalho foi verificar as equivalências semântica, de itens e conceitual da versão em português do VSP-A. Foram realizadas tradução e retradução do VSP-A, apreciação das equivalências, pré-teste e proposição de versão final a partir de discussão com especialistas. A edição em português do VSP-A mostrou ser semanticamente equivalente à original, apesar da necessidade de modificar alguns itens para facilitar seu uso. Resultados do pré-teste mostraram que o instrumento é facilmente compreendido e respondido pelos adolescentes. Para uso no Brasil, suas propriedades psicométricas necessitam ser avaliadas.

Adolescente; Qualidade de Vida; Estudos de Validação; Questionários


ABSTRACT

In Brazil, no instruments evaluating adolescents' health-related quality of life (HRQoL) have been developed from the adolescents' point of view. The use of an instrument developed in another socio-cultural context requires prior cultural adaptation, including conceptual, item, and semantic equivalence in the process. Vécu et Santé Perçue de l'Adolescent (VSP-A) is a French generic instrument developed to evaluate adolescents' HRQoL. The objective of the study was to evaluate the semantic, item, and conceptual equivalence of a Brazilian Portuguese version of the VSP-A. VSP-A was translated into Portuguese, back-translated (with steps evaluated by experts), and pre-tested in a group of 14 adolescents. Discussion with experts resulted in a final version of the questionnaire, considered semantically and conceptually equivalent to the original, despite the need to modify some items to facilitate use. Pretest results showed that the instrument is easy for adolescents to understand and answer. For use in Brazil, its psychometric properties need to be evaluated.

Adolescent; Quality of Life; Validation Studies; Questionnaires


 

 

Introdução

O Brasil carece de instrumentos genéricos para determinar a qualidade de vida relacionada à saúde de adolescentes, desfecho útil na avaliação de intervenções terapêuticas e programas de promoção da saúde. Vários instrumentos genéricos estão disponíveis na literatura, destacando-se os seguintes com versões específicas para adolescentes (10-18 anos), abordando qualidade de vida relacionada à saúde como um construto multidimensional: German Quality of Life Questionnaire (KINDL); Pediatric Quality of Life Inventory (PedsQL); Kidscreen e Vécu et Santé Perçue de l'Adolescent (VSP-A)1. Até o momento, há versões para uso no Brasil do PedsQL2 e Kisdscreen3. KINDL, PedsQL, Kidscreen e VSP-A apresentam concepções sobre qualidade de vida relacionada à saúde e propriedades psicométricas similares, mas VSP-A apresenta peculiaridades que justificam sua escolha.

O VSP-A foi desenvolvido para investigar qualidade de vida relacionada à saúde de adolescentes saudáveis ou doentes, com base em entrevistas e grupos focais, fundamentado no conceito de qualidade de vida como um construto multidimensional a ser apreendido a partir da percepção dos próprios adolescentes sobre sua vida e saúde4,5. As dimensões do VSP-A contemplam aspectos relevantes para adolescência, período marcado por profundas mudanças nos relacionamentos interpessoais, como menor participação dos pais nas atividades diárias e maior intimidade nos relacionamentos com pares da mesma idade. VSP-A é o único desses instrumentos que inclui domínios relacionados à vida sexual, aspecto relevante para a qualidade de vida relacionada à saúde nessa faixa etária (Tabela 1). É também o único originalmente desenvolvido em língua latina (francês), o que pode contribuir para maior identidade cultural do construto de qualidade de vida relacionada à saúde entre a população na qual o instrumento foi desenvolvido e os adolescentes brasileiros.

VSP-A foi adaptado para Espanha e Colômbia mostrando boa equivalência conceitual, de itens e semântica, após discussão com especialistas e adolescentes6,7,8. Na Espanha, mostrou boa validade (comparando-se com outro instrumento de qualidade de vida relacionada à saúde) e confiabilidade (consistência interna/reprodutibilidade)6,8.

Instrumentos elaborados para avaliar qualidade de vida relacionada à saúde, antes de aplicados em outro meio, devem ser submetidos a processo de adaptação transcultural a fim de se obter medidas válidas e confiáveis, comparáveis às do instrumento original9. O objetivo deste estudo é verificar as equivalências conceitual, de itens e semântica da edição em português do VSP-A, etapas iniciais do processo de adaptação transcultural para seu uso em adolescentes brasileiros.

 

Métodos

A metodologia adotada, discutida previamente com os autores do VSP-A, compreendeu cinco etapas: tradução, retrotradução, avaliação de equivalência semântica, discussão com especialistas e pré-teste.

VSP-A, anônimo e autopreenchível, contempla dez dimensões, possuindo 36 itens com cinco opções de respostas (Tabelas 2 e 3)4,5. A validade de construto foi investigada utilizando-se análise de fatores, que gerou dez fatores coerentes com as dimensões originalmente propostas4,5. Os itens apresentaram boa validade convergente (cada um correlacionando-se fortemente com sua dimensão) e discriminante (itens correlacionando-se mais com sua dimensão do que com outras). A validade externa foi confirmada mostrando que meninas e adolescentes mais velhos apresentaram escores mais baixos, em acordo com a literatura. A consistência interna das escalas variou de 0,76 a 0,86 e a confiabilidade teste-reteste de 0,6 a 0,74,5. É um instrumento aceitável (dados faltantes < 5%, pouco efeito piso/teto) e útil para discriminar entre adolescentes saudáveis e doentes4,5. Escore de dois itens da dimensão escolar e escore do bem-estar psicológico foram calculados em reverso, de forma que escores mais altos indicam melhor qualidade de vida relacionada à saúde. Os escores das dimensões e do VSP-A variam de 0 (pior qualidade de vida relacionada à saúde) a 100 (melhor qualidade de vida relacionada à saúde). A pontuação global é obtida como média de todos os itens4,5.

Avaliação das equivalências conceitual e de itens

Realizada presencialmente por dois pediatras, um hebiatra e dois especialistas em saúde pública, experientes na adaptação transcultural de instrumentos de qualidade de vida relacionada à saúde e vivência clínica com adolescentes, que analisaram as dimensões que compõem o instrumento e a capacidade dos itens em refleti-las.

Avaliação da equivalência semântica

O VSP-A foi traduzido para o português por tradutor juramentado fluente em português e francês (idioma materno: português). A edição em português foi retraduzida para o francês por outro tradutor juramentado (idioma materno: francês), sem conhecimento do instrumento original.

As edições em português e francês foram confrontadas para avaliar a correspondência entre os significados geral e referencial dos itens. A equivalência com ênfase no significado geral foi avaliada por pediatra fluente em francês e português, confrontando-se o instrumento original e a tradução para português (avaliação: inalterado, pouco alterado, muito alterado e completamente alterado). Outro pediatra, também fluente em francês e português, avaliou o significado referencial dos itens comparando o instrumento original e a retradução para o francês utilizando escalas análogas visuais, posteriormente interpretadas em percentuais.

Três pediatras e dois especialistas em saúde pública discutiram os resultados das etapas anteriores. As questões não resolvidas foram levadas aos autores do instrumento original. Atenção especial foi dada ao vocabulário, sua adequação à idade, origem e nível educacional dos participantes.

Pré-teste

Quatorze adolescentes do nono ano de escola pública do Município de São Gonçalo, Rio de Janeiro, responderam anonimamente à edição proposta em português do VSP-A. Essa escola estava inserida em programa de saúde escolar; os alunos participavam, há 4 anos, de atividades de promoção da saúde sobre higiene, autocuidado, sexualidade e prevenção de acidentes. Os jovens foram orientados a fazer sugestões/críticas/observações sobre o instrumento. Para avaliar a aceitabilidade foi aferido o tempo de preenchimento e analisadas as respostas abertas.

Os participantes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

Resultados

Os especialistas concordaram que itens e dimensões do VSP-A são relevantes e aplicáveis ao nosso meio. Na apreciação da equivalência semântica (significado geral) nenhum item foi considerado muito ou completamente alterado. Na avaliação da equivalência semântica concernente ao significado referencial, observou-se equivalência superior a 80%, excetuando-se o item "avez-vous eu le moral?", traduzido como "estava animado/a?" e retraduzido para "étiez en pleine forme?" (Tabela 3). Na proposição final, esse item ficou como "teve ânimo?", termo mais empregado no nosso meio.

Foram acrescentadas atividades como "ir ao shopping" e "jogar futebol e vôlei" nos itens referentes a lazer/diversão. Nos itens que avaliam relacionamento com amigos, acrescentamos o termo "colegas", utilizado entre nós.

No item referente ao desempenho escolar, a tradução foi "resultados escolares", modificada para "notas na escola". No item que avalia vitalidade, a tradução foi "estava inclinado(a) a ver o lado bom da vida?", modificada para "estava disposto a ver o lado bom da vida?".

Nos itens concernentes ao relacionamento com pais, os especialistas sugeriram a substituição do termo "pais" por "responsáveis", pois comumente o lar fica sob a responsabilidade da mãe ou outro adulto. Essa questão foi levada aos autores do questionário original que orientaram manter o termo "pais", pois ao final do questionário os jovens poderiam informar quem são os seus responsáveis.

Participaram do pré-teste 14 alunos, pertencentes à classe social pouco favorecida, com idades entre 13 e 17 anos (média 14,1 anos), 57% sexo feminino. Dois consideraram longo; todos acharam de fácil compreensão, contendo itens pertinentes. O tempo de preenchimento foi de 15 minutos, em média.

 

Discussão

Instrumentos válidos e confiáveis sobre qualidade de vida relacionada à saúde de adolescentes são necessários em nosso meio, motivando a adaptação do VSP-A. A apreciação das equivalências conceitual, de itens e semântica é pré-requisito para obtenção de ferramenta válida e confiável, permitindo comparações internacionais9.

Discussões com especialistas mostraram que os itens do VSP-A são aplicáveis ao nosso meio e captam conceitos importantes na adolescência. Observou-se que a grande maioria dos itens apresentava boa equivalência semântica. O item "avez-vous eu le moral?" também mostrou dificuldades no processo de adaptação do VSP-A na Colômbia. Nesse país, como no presente trabalho, foram inseridos exemplos no item relativo às atividades ao ar livre. Na Espanha e Colômbia, os itens foram discutidos em entrevistas cognitivas com adolescentes; a dimensão que gerou maior dificuldade foi "vida sexual/sentimental". Os jovens propuseram inserir como opção de resposta "não tenho", aceita pelos autores em ambos os países6,7,8. Entre nós, como não houve esse tipo de discussão, tal questão não foi levantada.

Uma limitação deste estudo é que os adolescentes não participaram da apreciação da equivalência conceitual e de itens. Discussões com os adolescentes poderiam acrescentar muito à interpretação dos itens/conceitos do VSP-A e contribuir para versão em português mais adequada. Outra limitação foi a impossibilidade de realizar duas traduções e retraduções, como preconizado. Entretanto, as apreciações satisfatórias dos processos de tradução e retradução, os resultados favoráveis do pré-teste e o aval dos especialistas devem ter contribuído para minimizar esses problemas.

No presente estudo foram obtidas com sucesso as equivalências conceitual, de itens e semântica do VSP-A. As equivalências de mensuração, operacional e funcional estão descritas em outra publicação10.

 

Colaboradores

M. T. Aires idealizou o estudo, selecionou o questionário a ser adaptado, coletou os dados, analisou os resultados e redigiu o manuscrito. G. L. Werneck idealizou o trabalho, discutiu a metodologia, analisou os resultados e redigiu o manuscrito.

 

Agradecimentos

Agradecemos aos autores do instrumento original, Marie-Claude Siméoni, Pascal Auquier e Grupo de Investigação de Qualidade de Vida da Faculdade de Medicina da Universidade do Mediterrâneo por orientação nas diversas etapas de adaptação do instrumento ao nosso idioma. Agradecemos aos Professores Antonio J. L. Costa, Arildo Franco, Luciane Guedes, Marcelo Land e Peter Liquornik pelas valiosas contribuições ao questionário. Somos gratos aos adolescentes e professores da escola participante.

 

Referências

1. Rajmil L, Herdman M, Fernandez-de-Sanmamed MJ, Detmar S, Bruil J, Ravens-Sieberer U, et al. Generic health-related quality of life instruments in children and adolescents: qualitative analysis of content. J Adolesc Health 2004; 34:37-45.         [ Links ]

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Correspondência
M. T. Aires
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Rua Bruno Lobo 50, Rio de Janeiro, RJ 24360-020, Brasil.
marianataires@gmail.com

Recebido em 26/Nov/2011
Versão final reapresentada em 18/Jul/2012
Aprovado em 23/Jul/2012