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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.28 n.11 Rio de Janeiro Nov. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012001100019 

NOTA RESEARCH NOTE

 

Adaptação transcultural da versão brasileira do Hospital Survey on Patient Safety Culture: etapa inicial

 

Translation and cross-cultural adaptation of the Brazilian version of the Hospital Survey on Patient Safety Culture: initial stage

 

 

Claudia Tartaglia ReisI; Josué LaguardiaII; Mônica MartinsIII

ISecretaria Municipal de Saúde de Cataguases, Cataguases, Brasil
IIInstituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil
IIIEscola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

A avaliação da cultura de segurança do paciente permite aos hospitais identificar e gerir prospectivamente questões relevantes de segurança em suas rotinas de trabalho. Este artigo descreve a adaptação transcultural do Hospital Survey on Patient Safety Culture (HSOPSC) para a Língua Portuguesa e contexto brasileiro. Adotou-se abordagem universalista para avaliar a equivalência conceitual, de itens e semântica. A metodologia incluiu os seguintes estágios: (1) tradução do questionário para o Português; (2) retradução para o Inglês; (3) painel de especialistas para elaboração da versão preliminar; (4) avaliação da compreensão verbal pela população-alvo. O questionário foi traduzido para o Português e sua versão final incluiu 42 itens. A população-alvo avaliou todos os itens como de fácil compreensão. O questionário encontra-se traduzido para o Português e adaptado para o contexto brasileiro, entretanto, faz-se necessário avaliar sua equivalência de mensuração, validade externa e reprodutibilidade.

Segurança do Paciente; Cultura Organizacional; Questionários; Tradução


ABSTRACT

Patient safety culture assessment allows hospitals to identify and prospectively manage safety issues in work routines. This article aimed to describe the cross-cultural adaptation of the Hospital Survey on Patient Safety Culture (HSOPSC) into Brazilian Portuguese. A universalist approach was adopted to assess conceptual, item, and semantic equivalence. The methodology involved the following stages: (1) translation of the questionnaire into Portuguese; (2) back-translation into English; (3) an expert panel to prepare a draft version; and (4) assessment of verbal understanding of the draft by a sample of the target population. The questionnaire was translated into Portuguese, and the scale's final version included 42 items. The target population sample assessed all the items as easy to understand. The questionnaire has been translated into Portuguese and adapted to the Brazilian hospital context, but it is necessary to assess its measurement equivalence, external validity, and reproducibility.

Patient Safety; Organizational Culture; Questionnaires; Translating


 

 

Introdução

A cultura de segurança tem recebido crescente atenção no campo das organizações de saúde. Os cuidados de saúde, cada vez mais complexos, elevam o potencial para ocorrência de acidentes, erros ou falhas. Lesões ou danos decorrentes do cuidado prestado constituem grave problema relacionado ao desempenho dos serviços de saúde; cuidados de saúde inseguros causam morbidade e mortalidade significantes por todo o mundo1.

A cultura de segurança, aspecto específico da cultura organizacional geral, é definida como o produto de valores, atitudes, competências e padrões de comportamento individuais e de grupo, os quais determinam o compromisso, o estilo e a proficiência da administração de uma organização saudável e segura2. Organizações com uma cultura de segurança positiva são caracterizadas pela comunicação fundada na confiança mútua, pelas percepções partilhadas da importância da segurança e pela confiança na efetividade de ações preventivas3.

Avaliar cultura de segurança permite identificar e gerir prospectivamente questões relevantes de segurança nas rotinas e condições de trabalho. Esta abordagem permite acessar informações dos funcionários sobre suas percepções e comportamentos relacionados à segurança, identificando pontos fracos e fortes de sua cultura de segurança e as áreas mais problemáticas para que se possa planejar e implementar intervenções. Avaliar cultura de segurança pode ter múltiplas propostas: (i) diagnóstico da cultura de segurança e conscientização dos funcionários acerca do tema; (ii) avaliação de intervenções para a segurança do paciente implementadas na organização e o acompanhamento ao longo do tempo; (iii) comparação com dados internos e externos à organização; e (iv) verificação do cumprimento de necessidades regulatórias4.

A maioria dos estudos que avaliam cultura de segurança em organizações de saúde utilizam questionários como instrumento de coleta de dados. Esses questionários baseiam-se em uma combinação de dimensões e são considerados estratégia eficiente, por ser anônima e com custos mais reduzidos que abordagens qualitativas para coletar dados sobre cultura de segurança5.

O Hospital Survey on Patient Safety Culture (HSOPSC), criado pela Agency for Healthcare Research and Quality (AHRQ) é um instrumento amplamente utilizado no mundo para mensurar cultura de segurança entre profissionais de hospitais, cujo trabalho influencia direta ou indiretamente a terapêutica do paciente, sejam eles profissionais de saúde ou de outras áreas, como a administrativa, de gestão, dentre outras6.

No Brasil, a avaliação da cultura de segurança em hospitais é incipiente e desconhece-se a existência de estudos publicados acerca da validação de questionários para avaliar cultura de segurança entre profissionais de hospitais. O objetivo desse estudo é descrever as etapas iniciais do processo de adaptação transcultural do HSOPSC para o português e contexto hospitalar brasileiro, as quais compreendem a equivalência conceitual, de itens e semântica.

 

Métodos

A escolha do instrumento HSOPSC baseou-se na livre disponibilidade sem ônus por via eletrônica, no uso extenso em diferentes contextos culturais e em suas propriedades psicométricas.

O HSOPSC é constituído por nove seções, dispostas da letra A à I, somando 42 itens; é estruturado em 12 dimensões da cultura de segurança, avaliadas no âmbito individual, das unidades e hospitalar, além de avaliar variáveis de resultado (Figura 1). Ele avalia o grau de concordância dos profissionais sobre questões relativas à cultura de segurança, por meio de uma escala Likert, cujas possibilidades de resposta variam entre "discordo totalmente" a "concordo totalmente".

Este estudo considerou, sob a perspectiva universalista7, que os constructos não são os mesmos quando muda o contexto de aplicação de um instrumento originário de outra cultura. Para avaliar a equivalência conceitual e de itens, realizou-se uma revisão da literatura para investigar os construtos "cultura organizacional", "cultura de segurança", "clima de segurança", "cultura de segurança do paciente", seus conceitos, sua dimensionalidade e formas de mensuração. Foi realizada análise minuciosa do material bibliográfico disponível sobre a construção do instrumento original, de estudos que utilizaram o instrumento na cultura de origem e em outros contextos culturais e de material bibliográfico disponível no contexto brasileiro. Complementaram essa etapa discussões entre grupo de especialistas em segurança do paciente e população-alvo do estudo, composta por profissionais que trabalham em hospitais.

A avaliação semântica do instrumento envolveu cinco etapas: tradução, retrotradução, apreciação de equivalência, crítica por especialistas na área temática e pré-teste junto à população-alvo.

O instrumento foi traduzido do original, em inglês, para o português, por dois tradutores independentes, de nacionalidade brasileira; um deles possuía conhecimento sobre o fenômeno avaliado pelo instrumento, gerando duas traduções (T1 e T2). Posteriormente, procedeu-se à apreciação formal de equivalência de T1 e T2, realizada por três pesquisadores, os quais elaboraram uma síntese das traduções (T12) após decisões consensuais. Essa equipe era composta por pesquisador da área de Avaliação de Serviços de Saúde, Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente; médico epidemiologista, com expertise na área de Informação em Saúde e Avaliação Psicométrica de Questionários; e enfermeira sanitarista, com experiência na área de Epidemiologia. A versão T12 foi enviada para retrotradução por dois tradutores independentes, nativos da língua inglesa, que desconheciam o instrumento original, gerando duas versões retrotraduzidas para o inglês (R1 e R2). As versões retrotraduzidas (R1 e R2) foram comparadas por um único avaliador. A avaliação das versões traduzidas, retrotraduzidas e elaboração das versões síntese foram documentadas por meio de relatórios.

A equivalência semântica foi avaliada por um painel de especialistas tendo como base as versões: original, T1, T2, T12, R1, R2 e respectivos relatórios gerados nas etapas de tradução e síntese. O comitê de especialistas, constituído pelos três pesquisadores envolvidos no estudo, uma especialista linguista, um dos tradutores, um especialista em gestão hospitalar e dois especialistas em segurança do paciente, elaborou a versão do instrumento a ser submetida ao pré-teste.

Para avaliar a compreensão verbal e clareza das questões o pré-teste foi realizado com amostra não aleatória de 31 profissionais que trabalham em diversos hospitais na cidade do Rio de Janeiro. Foi-lhes solicitado que indicassem o quanto compreenderam de cada item, através de uma escala Likert: 0 (não entendi nada); 1 (entendi só um pouco); 2 (entendi mais ou menos); 3 (entendi quase tudo, mas tive algumas dúvidas); 4 (entendi quase tudo) a 5 (entendi perfeitamente e não tive dúvidas). As respostas 0, 1, 2 e 3 indicariam compreensão insuficiente8. Foi-lhes encorajado descrever qualquer tipo de incompreensão das questões.

Foram realizadas análises descritivas dos dados do pré-teste utilizando o software SPSS versão 17.0 (SPSS Inc., Chicago, Estados Unidos).

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (parecer nº. 177/11).

 

Resultados

À luz da literatura e a partir das discussões com especialistas e população-alvo, constatou-se que a mensuração da cultura de segurança do paciente constitui prática emergente no Brasil. A dimensão relacionada ao relato de eventos foi assinalada pela população-alvo como não hegemônica nos hospitais brasileiros. Embora a população-alvo tenha relatado que alguns hospitais no Brasil já adotam esta prática, o relato de eventos (acidentes, incidentes, falhas ou erros) não se constitui, ainda, uma prática dominante. Especialistas e população-alvo concordaram que os itens componentes do instrumento original relacionam-se às dimensões da cultura de segurança no contexto hospitalar brasileiro. Não foi encontrada publicação sobre achados de estudos de adaptação transcultural e avaliação psicométrica de instrumentos que avaliam cultura de segurança no contexto hospitalar traduzidos para o português e uso no Brasil.

Comparando as traduções para o português, divergências foram discutidas pelos pesquisadores e decisões tomadas por consenso. As etapas de tradução e versão final do instrumento produzida pelo painel de especialistas são apresentadas na Figura 2. As principais alterações estão destacadas em negrito. Conforme o comitê de especialistas, em torno de 70% das questões foram consideradas "inalteradas" e 30% "pouco alteradas".

No pré-teste, as questões mostraram ser de fácil compreensão. A média global de compreensão alcançada foi 4,83 (valor máximo = 5). Os graus médios de compreensão verbal (Tabela 1) demonstram valores médios superiores a 4,1.

 

 

Discussão

Com base no que foi apontado na revisão da literatura e nas discussões técnicas, cumpriram-se satisfatoriamente, neste estudo, as etapas iniciais e essenciais da adaptação transcultural do HSOPSC para a língua portuguesa e contexto hospitalar brasileiro. O HSOPSC traduzido e adaptado apresentou valores satisfatórios de compreensão verbal. O processo de tradução e adaptação em curso envolveu algumas questões complexas, tais como a adequação conceitual das palavras medical error e mistake, adaptações de expressões idiomáticas, na intenção de garantir a equivalência semântica e, por conseguinte, a compreensão do conteúdo expresso no instrumento original (Figura 2).

Não foram necessárias exclusões de itens; na análise conceitual e de itens, o instrumento comprovou ser pertinente ao seu propósito, ou seja, avaliar características da cultura de segurança no contexto hospitalar brasileiro. A compreensão e clareza dos itens foram confirmadas e a participação do painel de especialistas e população-alvo enriqueceu este processo. A modificação mais extrema realizada foi com relação às categorias dos profissionais de saúde, pois algumas delas, previstas no questionário original, não se aplicam à realidade brasileira (Figura 2).

Para que se possa disponibilizar o instrumento traduzido e adaptado, faz-se ainda necessário avaliar sua equivalência operacional e de mensuração, para comprovar suas propriedades psicométricas. Com esse estudo, cumpriu-se uma etapa crucial para disponibilizar um instrumento válido para mensurar cultura de segurança do paciente entre profissionais de hospitais no Brasil.

 

Colaboradores

C. T. Reis participou na elaboração do projeto, coleta e análise dos dados, redação e discussão do artigo. J. Laguardia e M. Martins contribuíram na elaboração do projeto, na coleta e análise dos dados, na redação e revisão do artigo.

 

Agradecimentos

À Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, pelo apoio financeiro na fase de tradução realizada no presente estudo. Apoio financeiro do Ministério da Ciência e Tecnologia e do Ministério da Ciência e Tecnologia e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq 471764/2011-6).

 

Referências

1. Jha AK, Prasopa-Paizier N, Larizgoitia I, Bates DW. Patient safety research: an overview of the global evidence. Qual Saf Health Care 2010; 19:42-7.         [ Links ]

2. Health and Safety Comission. Third report: organizing for safety. ACSNI Study Group on Human Factors. London: Health and Safety Commission; 1993.         [ Links ]

3. Advisory Committee for the Safety of Nuclear Installations. Human Factors Study Group Third Report: organising for safety. Sheffield: HSE Books; 1993.         [ Links ]

4. Sorra JS, Nieva VF. Hospital survey on patient safety culture. Rockville: Agency for Healthcare Research and Quality; 2004.         [ Links ]

5. Flin R. Measuring safety culture in healthcare: a case for accurate diagnosis. Saf Sci 2007; 45: 653-67.         [ Links ]

6. Halligan M, Zecevic A. Safety culture in healthcare: a review of concepts, dimensions, measures and progress. BMJ Qual Saf 2011; 20:338-43.         [ Links ]

7. Herdman M, Fox-Rushby J, Badia X. A model of equivalence in the cultural adaptation of HRQoL instruments: the universalist approach. Qual Life Res 1998; 7:323-35.         [ Links ]

8. Conti MA, Latorre MRDO, Slater B. Tradução, validade e reprodutibilidade da EEICA – Escala de Evaluación da Insatisfación Corporal para Adolescentes – no Brasil. Rev Saúde Pública 2009; 43: 515-24.         [ Links ]

 

 

Correspondência
C. T. Reis
Secretaria Municipal de Saúde de Cataguases.
Rua José Gustavo Cohen 70, Cataguases, MG
36770-000, Brasil.
clautartaglia@gmail.com

Recebido em 02/Abr/2012
Versão final reapresentada em 20/Jul/2012
Aprovado em 07/Ago/2012