Aplicação do saber científico: a translação do conhecimento em um instituto de ciência e tecnologia em saúde pública

Application of scientific knowledge: knowledge translation in an institute of science and technology in public health

Aplicación del saber científico: la traslación de conocimiento en un instituto de ciencia y tecnología en salud pública

Ângela Maria Andrade Scavuzzi Valdeyer Galvão dos Reis Marcelo Santos Ramos Maria Julia Alves de Souza Ingrid Winkler Camila de Sousa Pereira-Guizzo Sobre os autores

Resumo:

A translação do conhecimento (TC) tem como propósito a utilização prática dos resultados de pesquisas científicas e o monitoramento dos benefícios causados à saúde da população. Na área de saúde, o governo e, principalmente, a sociedade esperam que os investimentos em pesquisas obtenham resultados que vão além da produção e da publicação do conhecimento, e provoquem soluções como políticas públicas, sistemas, produtos e tecnologias para beneficiar a saúde da população. Contudo, verifica-se ainda a necessidade de superar diversos desafios para eliminar as lacunas existentes entre a investigação e a aplicação. O objetivo deste estudo é propor estratégias, com base na identificação de barreiras e fatores facilitadores de um instituto de ciência e tecnologia (ICT) em saúde, para fomentar o processo de transformação do conhecimento científico, gerado nas pesquisas, em ações e produtos que contribuam para a melhoria da saúde da população. Os relatos das entrevistas, realizadas com 16 pesquisadores, permitiram a identificação de 10 categorias de barreiras, tendo destaque: “financiamento em ciência, tecnologia e informação (CT&I) limitado” e “apoio técnico insuficiente para a translação do conhecimento”. “Infraestrutura e apoio institucional” foi a categoria de fatores facilitadores mais citada pelos participantes. Por fim, foi desenvolvido o artefato “estratégias e abordagens para superação de barreiras à implementação de resultados de pesquisa”. Entre as estratégias, sugere-se a inclusão de uma disciplina de TC nos programas de pós-graduação stricto sensu e a criação de uma instância na estrutura organizacional do ICT voltada à prestação de suporte técnico e gerencial à aplicação de resultados de pesquisa.

Palavras-chave:
Translação de Conhecimento; Gestão de Ciências, Tecnologia e Inovação em Saúde; Ciência da Implementação

Abstract:

Knowledge translation (KT) aims at the practical use of scientific research results and at the monitoring of the benefits caused to the population’s health. In health, the government and especially society expect that investments in research will produce results that go beyond the production and publication of knowledge, provoking outcomes such as public policies, systems, products, and technologies to benefit the health of the population. However, closing the gaps between research and application requires overcoming a number of challenges. This study aimed to propose strategies to foster the process of transforming the scientific knowledge generated in research into actions and products that contribute to improving the population’s health based on the identification of barriers and facilitating factors of a health science and technology institute. The reports of interviews conducted with 16 researchers showed 10 categories of barriers, especially: “limited funding to the science and technology institute” and “insufficient technical support for knowledge translation”. “Infrastructure and institutional support” was the facilitating factor category participants mentioned the most. Finally, we developed the artifact “strategies and approaches for overcoming barriers to implement research results”. Among the strategies, we suggest the inclusion of a knowledge translation discipline in stricto sensu graduate programs and the creation of an instance in the organizational structure of the science and technology institute to technically and managerially support the application of research results.

Keywords:
Knowledge Translation; Health Sciences, Technology, and Innovation Management; Implementation Science

Resumen:

La traslación del conocimiento (TC) tiene como propósito el uso práctico de los resultados de investigaciones científicas y el seguimiento de los beneficios causados a la salud de la población. En el área de la salud, el gobierno y, sobre todo, la sociedad esperan que las inversiones en investigaciones obtengan resultados que vayan más allá de la producción y publicación de conocimiento, y provoquen resultados, como políticas públicas, sistemas, productos y tecnologías en beneficio de la salud de la población. Sin embargo, se observa aun la necesidad de superar diversos desafíos para eliminar las brechas entre la investigación y la aplicación. El objetivo de este estudio es proponer estrategias con base en la identificación de barreras y factores facilitadores de un instituto de ciencia y tecnología (ICT) en salud, para fomentar el proceso de transformación del conocimiento científico generado en las investigaciones en acciones y productos que contribuyan a mejorar la salud de la población. Los relatos de las entrevistas a 16 investigadores permitieron identificar 10 categorías de barreras, con énfasis en: “financiación en CT&I limitado” y “apoyo técnico insuficiente para la traslación del conocimiento”. “Infraestructura y apoyo institucional” fue la categoría de factores facilitadores más citada por los participantes. Finalmente, se desarrolló el artefacto “estrategias y enfoques para la superación de barreras a la implementación de resultados de investigación”. Entre las estrategias, se sugiere la inclusión de una asignatura de TC en los programas de posgrado stricto sensu y la creación de una instancia en la estructura organizacional del ICT orientada a brindar apoyo técnico y gerencial a la aplicación de los resultados de la investigación.

Palabras-clave:
Traslación del Conocimiento; Gestión de Ciencia, Tecnología e Innovación en Salud; Ciencia de la Implementación

Introdução

O Brasil foi responsável por uma crescente produção de artigos científicos ao longo do período de 2000 a 2020, atingindo, no ano de 2020, a quantidade de 89.241 publicações, o que representa 2,76% da produção mundial. Esse número leva o país a ocupar a 13ª posição na produção de publicações científicas, sendo a área de Ciências da Saúde seu principal campo de estudo, representando 33% das publicações 11. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Indicadores nacionais de ciência, tecnologia inovação - 2021. https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/indicadores/paginas/publicacoes/arquivos/Indicadores_CTI_2021.pdf (acessado em 11/abr/2022).
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. Considerando a relação publicação-patentes como um dos indicadores de capacidade de inovação, o depósito e concessão de patentes demonstram que a competência de utilizar o conhecimento produzido leva o país a ocupar a 64ª colocação no ranking de países inovadores, de acordo com o índice global de inovação (GII) de 2018, entre 126 países avaliados; e a 57ª posição entre os 132 países incluídos no GII de 2021 22. Dutta S, Lanvin B, Wunsch-Vincent S. The Global Innovation Index 2018: energizing the world with innovation. Genebra: Cornell University/INSEAD: The Business School for the World/World Intellectual Property Organization; 2018.,33. World Intellectual Property Organization. Global Innovation Index 2021: tracking innovation through the COVID-19 crisis. Genebra: World Intellectual Property Organization; 2021.. Os dados apresentados corroboram a literatura sobre o tema ao afirmar que criar, gerir e compartilhar tais conhecimentos por meio de publicações em periódicos ou apresentações em eventos científicos, apesar de necessário, não é suficiente para melhorar a prestação de serviços na área da saúde ou para efetuar um processo de tomada de decisão mais adequado 44. Graham I, Harrison MB. Ilustrating the knowledge to action cycle: an integrated knowledge translation research approach in wound care. In: Straus SE, Tetroe J, Graham ID, editores. Knowledge translation in health care. Nova York: John Wiley & Sons; 2013. p. 249-62.,55. Dias RISC, Barreto JOM, Vanni T, Candido AMSC, Moraes LH, Gomes MAR. Estratégias para estimular o uso de evidências científicas na tomada de decisão. Cad Saúde Colet (Rio J.) 2015; 23:316-22.,66. Martinez-Silveira MS, Silva CH, Laguardia J. Conceito e modelos de 'knowledge translation' na área de saúde. RECIIS 2020; 14:225-46..

Em 2008, Montagner 77. Montagner MA. Pierre Bourdieu e a saúde: uma sociologia em Actes de la Recherche en Sciences Sociales. Cad Saúde Pública 2008; 24:1588-98., citando Bourdieu, afirmou que as pesquisas devem seguir a lógica do mundo acadêmico e científico, porém as necessidades da sociedade devem ser consideradas. Nessa lógica, a pesquisa científica deve ser planejada para ser utilizada e aplicada. Neste estudo, a utilização dos resultados de pesquisa é assumida como a aplicação do conhecimento produzido ou, ainda, a utilização de evidências científicas para superar a lacuna entre a criação e a transformação do conhecimento em ações que provoquem benefícios à saúde da população. De acordo com os autores Lavis & Mattison 88. Lavis JN, Mattison CA. Ontario's health system key insights for engaged citizens, professionals and policymakers. Hamilton: McMaster Health Forum; 2016., as investigações devem ser focadas não apenas na descoberta, mas também na ação e na inovação. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a inovação em saúde consiste em desenvolver e fornecer políticas, sistemas, produtos, tecnologias, serviços e métodos de saúde, novos ou melhores, para aprimorar a saúde das pessoas. Além disso, tais inovações podem ser consideradas em cuidados preventivos, promocionais, terapêuticos, de reabilitação e/ou assistivos 99. World Health Organization. Health innovation for impact. https://www.who.int/teams/digital-health-and-innovation/health-innovation-for-impact (acessado em 11/Jan/2023).
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Nos países desenvolvidos, as organizações de saúde estão sendo incentivadas a implementar práticas inovadoras baseadas em evidências científicas 1010. Persaud DD. Enhancing learning, innovation, adaptation, and sustainability in health care organizations. Health Care Manag (Frederick) 2014; 33:183-204.. A evidência científica é definida por Rycroft‐Malone & Stetler 1111. Rycroft-Malone J, Stetler CB. Commentary on evidence, research, knowledge: a call for conceptual clarity: Shannon Scott-Findlay & Carolee Pollock. Worldviews on Evidence-Based Nursing 2004; 1:98-101. como o conhecimento que é produzido sistematicamente, isto é, obtido de tal forma que é replicável, observável, acreditável, verificável ou basicamente sustentável. Na visão dos autores Lavis et al. 1212. Lavis JN, Boyko JA, Oxman AD, Lewin S, Fretheim A. SUPPORT Tools for evidence-informed health Policymaking (STP) 14: organising and using policy dialogues to support evidence-informed policymaking. Health Res Policy Syst 2009; 7 Suppl 1:S14., as evidências científicas são fontes de novos conhecimentos gerados e que devem ser utilizadas para apoiar as ações e procedimentos relacionados à saúde.

Buscando superar as dificuldades da trajetória entre o conhecimento produzido nas pesquisas e sua aplicação, surgem as teorias da translação do conhecimento, termo originado no Canadá como knowledge translation, adotadas pela OMS e por outros países e instituições 1313. Straus SE, Tetroe JM, Graham ID. Knowledge translation is the use of knowledge in health care decision making. J Clin Epidemiol 2011; 64:6-10.. Ainda que essa abordagem possa estar associada a termos como “tradução do conhecimento”, “gestão do conhecimento”, “gestão do desempenho”, “incorporação de tecnologias”, “construção de capacidade organizacional”, entre outros, optou-se, neste estudo, por translação do conhecimento (TC).

Um número significativo de barreiras a serem ultrapassadas nesse processo é descrito por diversos autores encontrados na literatura sobre o tema. Dobbins et al. 1414. Dobbins M, Rosenbaum P, Plews N, Law M, Fysh A. Information transfer: what do decision makers want and need from researchers? Implement Sci 2007; 2:20. destacam os seguintes limitadores da TC: falta de acesso a evidências de pesquisa atualizadas; habilidades limitadas de avaliação crítica por parte daqueles que decidem; excessiva quantidade de revisões; ambiente de trabalho que não facilita a transferência e a apropriação dos resultados de pesquisa; falta de autoridade na tomada de decisões para implementar resultados de pesquisa; resistência a mudanças; e recursos limitados de implementação.

Haines et al. 1515. Haines A, Kuruvilla S, Borchert M. Bridging the implementation gap between knowledge and action for health. Bull World Health Organ 2004; 82:724-9. identificaram as barreiras potenciais à TC em sete diferentes ambientes: sistema de saúde (falta de recursos financeiros, incentivos financeiros inapropriados); recursos humanos (inadequações referentes à quantidade e qualidade); ambiente de prática (limitações de tempo, falta de organização dos registros); ambiente educacional (currículo escolar falho, educação continuada inapropriada ou inexistente, falta de incentivo para participar de atividades educacionais); ambiente social (influência da mídia criando demandas ou crenças inapropriadas, modismos e tendências, desvantagens de acesso e de competência informacional e comportamentos de saúde); ambiente político (ideologia inconsistente com evidências científicas, corrupção, pensamento de curto prazo); profissional médico (conhecimento obsoleto, influência da opinião de especialistas importantes, crenças e atitudes); pacientes (demanda de cuidados ineficazes, percepções e crenças culturais sobre o cuidado).

Nutley et al. 1616. Nutley SM, Walter I, Davies HTO. Using evidence: how research can inform public services. Bristol: Bristol University Press; 2007. afirmam que, além das evidências não serem acessíveis para os tomadores de decisão, eles não têm tempo disponível para realizar buscas, avaliações e aplicação dos resultados de pesquisa. Dias et al. 55. Dias RISC, Barreto JOM, Vanni T, Candido AMSC, Moraes LH, Gomes MAR. Estratégias para estimular o uso de evidências científicas na tomada de decisão. Cad Saúde Colet (Rio J.) 2015; 23:316-22. referem-se à escassa comunicação e colaboração entre os pesquisadores e os que tomam decisões como uma dificuldade que precisa ser ultrapassada. Pearson et al. 1717. Pearson A, Jordan Z, Munn Z. Translational science and evidence-based healthcare: a clarification and reconceptualization of how knowledge is generated and used in healthcare. Nurs Res Pract 2012; 2012:792519. destacam como dificuldades a distância entre: a pesquisa teórica, epidemiológica e de laboratório e a pesquisa clínica; a aplicação clínica dos resultados da pesquisa e a adoção de condutas, ações e políticas de saúde; a necessidade de conhecimento dos pacientes, dos profissionais de saúde, dos governos e das instituições e o trabalho que fazem os pesquisadores.

Em estudo realizado por Mahendradhata & Kalbarczyk 1818. Mahendradhata Y, Kalbarczyk A. Prioritizing knowledge translation in low- and middle-income countries to support pandemic response and preparedness. Health Res Policy Syst 2021; 19:5., foi verificado que, especialmente nos países de baixa e média renda, as instituições acadêmicas estão enfrentando grandes desafios para realizar o processo de TC no enfrentamento da pandemia provocada pela COVID-19. Os autores afirmam que, embora tenham sido apresentados, em alguns estudos, as barreiras e os fatores facilitadores para a utilização prática do conhecimento em ambientes de poucos recursos, pouco foi discutido sobre as atividades de TC conduzidas por instituições acadêmicas durante uma emergência de saúde global complexa e sobre como essas instituições podem estar mais preparadas no futuro para conduzir o processo de utilização do conhecimento em outras situações, sejam emergenciais ou não. Para os autores, além da falta de conhecimento sobre o que é TC e como fazê-la, a limitação de recursos, a insuficiência de apoio institucional e a falta de adesão de líderes fazem com que esses países enfrentem barreiras adicionais, como a necessidade de habilidades sociais e os desafios no desenvolvimento de redes robustas, tanto internas quanto externas. Sendo assim, os autores concluem que a pandemia de COVID-19 aumentou a demanda por conhecimento para apoiar a tomada de decisão em vários aspectos e revelou o baixo nível de prontidão das instituições acadêmicas para realizar atividades de TC.

Oelke et al. 1919. Oelke ND, Lima MADS, Acosta AM. Knowledge translation: translating research into policy and practice. Rev Gaúcha Enferm 2015; 36:113-7. afirmam que existem muitos desafios para se implementar a TC no Brasil, incluindo a falta de familiaridade com o tema, dificuldades em identificar problemas de pesquisa relevantes, pouco envolvimento dos principais interessados, falta de parceria entre pesquisadores e usuários do conhecimento no processo de investigação, baixos orçamentos para pesquisa e pouco enfoque em TC pelas agências de financiamento. Os autores afirmam, também, que são necessárias pesquisas futuras para adaptar modelos teóricos de TC para o contexto brasileiro e para estudar as suas abordagens inovadoras, a fim de fomentar a utilização de resultados de pesquisa. Além desses desafios, os autores defendem que é preciso maior alinhamento entre as necessidades do sistema de saúde e as pesquisas que geram conhecimento científico, bem como maior direcionamento dos investimentos para problemas relevantes à saúde. Dessa forma, os autores concluem que, no Brasil, a TC é um ponto crítico devido à pouca disponibilidade de informação sobre o tema.

Somada aos desafios já apresentados, a fragmentação do conhecimento produzido em uma quantidade de pesquisas cada vez mais crescente, o custo de decisões inadequadas e a lentidão no processo de transformação do conhecimento em prática tornam a TC um campo primordial para a saúde pública 2020. Ellen ME, Lavis JN, Horowitz E, Berglas R. How is the use of research evidence in health policy perceived? A comparison between the reporting of researchers and policy-makers. Health Res Policy Syst 2018;16:64.. Ainda no contexto nacional, existem questões complexas e enormes iniquidades que causam a perda de oportunidades de colocar o conhecimento em prática e geram consequências indesejáveis na assistência à saúde 2121. Miranda ES, Figueiró AC, Potvin L. Are public health researchers in Brazil ready and supported to do knowledge translation? Cad Saúde Pública 2020; 36:e00003120..

A identificação dos fatores que impactaram e que continuam impactando, de forma positiva ou negativa, a TC gerada nas pesquisas realizadas em um instituto de ciência e tecnologia (ICT) em saúde, pertencente à estrutura organizacional de uma fundação ligada ao Ministério da Saúde, contribuirá para responder à questão de partida deste estudo: como ampliar a capacidade do ICT de transformar os conhecimentos gerados em práticas inovadoras que possam beneficiar a saúde da população brasileira. Andrade & Pereira 2222. Andrade KRC, Pereira MG. Knowledge translation in the reality of Brazilian public health. Rev Saúde Pública 2020; 54:72. apontam que um maior investimento na capacitação de pesquisadores brasileiros em implementação do conhecimento é considerado relevante para a melhoria desse campo. Essa preocupação é reforçada quando analisamos que cada instituição apresenta um contexto distinto que afeta de forma positiva ou negativa o processo e os resultados da TC 2323. Nilsen P. Making sense of implementation theories, models and frameworks. Implement Sci 2015; 10:53.. Apesar do crescente interesse em estudos sobre como transformar o conhecimento em prática, poucas ideias e recomendações foram disponibilizadas na última década 2424. Wensing M, Grol R. Knowledge translation in health: how implementation science could contribute more. BMC Med 2019; 17:88..

Diante do exposto, o objetivo geral deste estudo foi, portanto, propor estratégias, com base na identificação de barreiras e facilitadores de um ICT em saúde, para fomentar o processo de transformação do conhecimento científico, gerado nas pesquisas, em ações e produtos que contribuam para a melhoria da saúde da população.

Método

Neste estudo, foi utilizada a abordagem Design Science Research (DSR), que tem como finalidade a construção de artefatos inovadores que se traduzam em benefícios para as organizações 2525. Pimentel M, Filippo D, Santoro FM. Design Science Research: fazendo pesquisas científicas rigorosas atreladas ao desenvolvimento de artefatos computacionais projetados para a educação. In: Jaques P, Pimentel M, Siqueira S, Bitencourt I, editores. Metodologia de pesquisa científica em informática na educação: concepção de pesquisa. v. 1. Porto Alegre: Editora SBC; 2019. p. 1-29.. O conceito de artefato utilizado nessa abordagem vai além de objetos físicos, uma vez que um artefato pode ser algo projetado, um engenho, uma artificialidade etc. Em princípio, qualquer coisa projetada para alcançar um objetivo pode ser considerada um artefato 2626. Peffers K, Tuunanen T, Rothenberger MA, Chatterjee S. A design science research methodology for information systems research. J Manag Inf Syst 2007; 24:45-77.. A DSR é uma metodologia para se alcançar uma solução para diversos problemas de pesquisa. Essa forma de produção científica encontra-se situada entre as abordagens tradicionais, de caráter prescritivo, e o conhecimento prático para a solução de problemas em contextos reais 2727. Dresch A, Lacerda DP, Antunes JAV. Design science research: método de pesquisa para avanço da ciência e tecnologia. Porto Alegre: Bookman; 2014., adequando-se ao propósito deste estudo.

A abordagem DSR tem diferentes etapas, iniciando com a identificação e conscientização do problema; proposição de artefatos para resolver o problema específico; projeto e desenvolvimento do artefato; avaliação; e contemplando, inclusive, a comunicação dos resultados 2727. Dresch A, Lacerda DP, Antunes JAV. Design science research: método de pesquisa para avanço da ciência e tecnologia. Porto Alegre: Bookman; 2014.,2828. Yin RK. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5º Ed. Porto Alegre: Bookman; 2015.,2929. Damschroder LJ, Aron DC, Keith RE, Kirsh SR, Alexander JA, Lowery JC. Fostering implementation of health services research findings into practice: a consolidated framework for advancing implementation science. Implement Sci 2009; 4:50.,3030. Bardin L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70; 2011.,3131. Siewert Junior V, Parisotto IRS. Financiamento à pesquisa: a vantagem competitiva analisada sob a ótica da Visão Baseada em Recursos. Revista GUAL 2019; 12:235-56.,3232. Waters L. Inimigos da esperanc¸a publicar, perecer e o eclipse da erudicão. São Paulo: Editora UNESP; 2006.,3333. Powell BJ, Waltz TJ, Chinman MJ, Damschroder LJ, Smith JL, Matthieu MM, et al. A refined compilation of implementation strategies: results from the Expert Recommendations for Implementing Change (ERIC) project. Implement Sci 2015; 10:21.,3434. Grimshaw JM, Eccles MP, Lavis JN, Hill SJ, Squires JE. Knowledge translation of research findings. Implement Sci 2012; 7:50.,3535. Schmidt B-M, Cooper S, Young T, Jessani NS. Characteristics of knowledge translation platforms and methods for evaluating them: a scoping review protocol. BMJ Open 2022; 12:e061185.,3636. Turato ER. Métodos qualitativos e quantitativos na área da saúde: definições, diferenças e seus objetos de pesquisa. Rev Saúde Pública 2005; 39:507-14.,3737. Godoy AS. A pesquisa qualitativa e sua utilização em administração de empresas. Revista de Administração de Empresas 1995; 35:65-71.,3838. Gregor S, Hevner AR. Positioning and presenting design science research for maximum impact. MIS Q 2013; 37:337-55.. Neste estudo, apresentam-se os resultados relacionados às fases iniciais de identificação e conscientização do problema, bem como a proposição de artefatos, que foram denominadas, aqui, de estratégias.

Esta investigação enquadra-se como uma pesquisa qualitativa do tipo estudo de caso, que responde às perguntas sobre “como” e “por que”, a partir de um problema de pesquisa 2828. Yin RK. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5º Ed. Porto Alegre: Bookman; 2015.. Coerente com as características dos métodos qualitativos de pesquisa, buscou-se a compreensão do significado da TC para uma amostra específica de pesquisadores experientes a fim de entender profundamente as percepções desse grupo e os aspectos centrais para o desenvolvimento dos artefatos em um determinado contexto, permitindo, ainda, que o conhecimento produzido possa ser testado com outros grupos e em novos casos em estudos futuros 3636. Turato ER. Métodos qualitativos e quantitativos na área da saúde: definições, diferenças e seus objetos de pesquisa. Rev Saúde Pública 2005; 39:507-14.. Embora não haja forte tradição de métodos qualitativos e da DSR em pesquisas na área da saúde, nota-se aumento no interesse por essas abordagens em investigações que buscam recomendações daqueles que vivenciam o objeto de estudo para introduzir inovações em suas organizações ou atividades 2525. Pimentel M, Filippo D, Santoro FM. Design Science Research: fazendo pesquisas científicas rigorosas atreladas ao desenvolvimento de artefatos computacionais projetados para a educação. In: Jaques P, Pimentel M, Siqueira S, Bitencourt I, editores. Metodologia de pesquisa científica em informática na educação: concepção de pesquisa. v. 1. Porto Alegre: Editora SBC; 2019. p. 1-29.,3636. Turato ER. Métodos qualitativos e quantitativos na área da saúde: definições, diferenças e seus objetos de pesquisa. Rev Saúde Pública 2005; 39:507-14.,3737. Godoy AS. A pesquisa qualitativa e sua utilização em administração de empresas. Revista de Administração de Empresas 1995; 35:65-71.,3838. Gregor S, Hevner AR. Positioning and presenting design science research for maximum impact. MIS Q 2013; 37:337-55..

Definição da população e caracterização da amostra

Em um universo de 47 servidores em atividade de pesquisa no ICT, 25 integraram a população deste estudo, pois atenderam a pelo menos um dos dois critérios de inclusão descritos a seguir: critério 1 - pesquisadores que recebem bolsa de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); e critério 2 - pesquisadores que estão desempenhando a função de líder de laboratório de pesquisa.

Dessa população, 15 pesquisadores participaram do estudo e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (projeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do SENAI CIMATEC - parecer nº 5.096.148). Esses indivíduos têm, majoritariamente, formação em Medicina, correspondendo a 47% da população. Os pesquisadores com formação em Ciências Biológicas (20%) e Farmácia (20%) também se destacam na representatividade e, junto aos formados em Medicina, compreendem 87% dos servidores em atividade de pesquisa aptos a participarem deste estudo. Destaca-se que a participação na pesquisa foi voluntária e confidencial, respeitando todas as diretrizes e normativas vigentes sobre a realização de pesquisas com seres humanos no Brasil.

Coleta e análise de dados

O roteiro de entrevista foi inspirado no modelo proposto na estrutura consolidada para pesquisa de implementação, desenvolvida por Damschroder et al. 2929. Damschroder LJ, Aron DC, Keith RE, Kirsh SR, Alexander JA, Lowery JC. Fostering implementation of health services research findings into practice: a consolidated framework for advancing implementation science. Implement Sci 2009; 4:50.. Foram considerados e adaptados três dos cinco domínios propostos pelos autores: características dos resultados de pesquisa (Domínio I - DI), cenário interno (Domínio II - DII) e cenário externo (Domínio III - DIII). Foram elaboradas 15 questões distribuídas entre esses três domínios, buscando-se identificar, na percepção dos entrevistados, quais fatores vêm atuando, positiva ou negativamente, na implementação dos resultados obtidos nas pesquisas realizadas no ICT.

Neste estudo, o DI representa a busca por informações relativas às especificidades de cada pesquisa finalizada que teve seus resultados efetivamente aplicados em benefício da população, bem como daquelas que, apesar de terem gerado conhecimento com potencial de causar impacto positivo imediato na saúde da população, deixaram de ser implementadas (exemplo de questão: Houve tentativa de implementação dos resultados obtidos nesta pesquisa? Descreva as dificuldades que impediram a implementação). O DII concentra-se no cenário interno do ICT estudado (exemplo de questão: Indique quais são as principais dificuldades à implementação dos resultados obtidos nas pesquisas relacionadas ao ambiente interno do ICT tais como infraestrutura, cultura, apoio etc.); enquanto o cenário externo do ICT é tratado no DIII (exemplo de questão: Indique as principais dificuldades encontradas no ambiente externo para a implementação dos resultados obtidos nas pesquisas, tais como, agências de fomento, ambiente político, órgãos reguladores etc.). É importante comentar que houve um estudo piloto do roteiro de entrevista, antes da coleta de dados para esta pesquisa, buscando verificar a clareza das perguntas e encadeamento do roteiro, propiciando a experiência da primeira autora nessa técnica de coleta de dados.

Utilizando as técnicas recomendadas no modelo de análise de conteúdo de Bardin 3030. Bardin L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70; 2011., a gravação do conteúdo das entrevistas passou por um minucioso processo de categorização. Inicialmente, os relatos foram analisados e agrupados de acordo com a semelhança da ideia central das respostas. Posteriormente, cada agrupamento recebeu uma denominação, permitindo a categorização e a definição de cada uma delas. Após esse processo, foi possível identificar em qual dos três domínios - apresentados por Damschroder et al. 2929. Damschroder LJ, Aron DC, Keith RE, Kirsh SR, Alexander JA, Lowery JC. Fostering implementation of health services research findings into practice: a consolidated framework for advancing implementation science. Implement Sci 2009; 4:50. - cada categoria se enquadra. Na fase final da análise de conteúdo, as categorias identificadas foram refinadas considerando a ponderação entre os pesquisadores. As categorias, como ficaram definidas na versão final, representam um consenso entre os pesquisadores deste estudo e dois avaliadores externos, especialistas na área de gestão em saúde com mais de 10 anos de experiência no assunto.

O processo de categorização dos determinantes contextuais, que foram citados pelos pesquisadores como fatores que influenciam, positiva ou negativamente, a implementação dos resultados de pesquisas, exigiu um esforço de abstração a partir de fatos da realidade estudada que são únicos em si. Isto é, muitos fatos específicos e individuais foram agrupados e transformados em um número reduzido de conceitos. Foram definidas categorias referentes aos desafios (barreiras) que precisam ser ultrapassados na implementação de resultados de pesquisa; fatores facilitadores utilizados pelos servidores em atividade de pesquisa entrevistados nesse processo e que poderão ser potencializados; estratégias encontradas e sugeridas por esse público para serem utilizadas em maior escala no ICT. Assim, a categorização dos determinantes contextuais (barreiras e facilitadores) foi uma etapa fundamental na construção das estratégias propostas ao final deste estudo.

Resultados e discussão

Os determinantes contextuais identificados e apresentados nas Tabelas 1 e 2 podem influenciar a implementação de resultados de pesquisa no contexto estudado, permitindo a construção e adequação de estratégias e abordagens (Quadro 1). Essas estratégias buscam diminuir as lacunas entre a pesquisa e a ação, possibilitando a ultrapassagem das barreiras e o fortalecimento dos fatores facilitadores 2323. Nilsen P. Making sense of implementation theories, models and frameworks. Implement Sci 2015; 10:53.. A Tabela 1, referente às dificuldades mencionadas pelos pesquisadores entrevistados, apresenta 10 categorias de barreiras à TC, agrupando a ideia central extraída dos relatos das entrevistas. Ainda na Tabela 1, é possível visualizar a definição de cada categoria, um exemplo de relato e a frequência de relatos em cada categorização e sua distribuição por domínio. No total, 291 relatos referentes às barreiras foram mencionados pelos participantes.

Tabela 1
Categorias de barreiras à translação do conhecimento (TC) por domínio.
Tabela 2
Categorias dos fatores facilitadores à translação do conhecimento por domínio.

Quadro 1
Proposta de estratégias e abordagens de translação do conhecimento.

Os relatos das entrevistas permitiram a identificação das categorias de barreiras apresentadas na Tabela 1, lideradas pelas categorias “financiamento em CT&I limitado” e “apoio técnico insuficiente para a translação do conhecimento”. No DI, observa-se que os entrevistados consideram nove categorias de barreiras, das quais a “falta de formação e desenvolvimento de competências para TC no ICT” teve maior frequência. O DII (ambiente interno) apresenta todas as 10 categorias de barreiras e o maior número de citações dos entrevistados, portanto, é o contexto com maior necessidade de intervenções. Ao analisar os desafios relatados pelos entrevistados referentes ao ambiente externo do ICT, percebe-se a força da barreira referente à “necessidade de gestão das relações institucionais e governamentais”, que se destaca com a maior quantidade de citações do DIII. Esses resultados são sustentados pela literatura que, de fato, pontua diversas dificuldades para a TC, desde formação de recursos humanos até políticas governamentais 1414. Dobbins M, Rosenbaum P, Plews N, Law M, Fysh A. Information transfer: what do decision makers want and need from researchers? Implement Sci 2007; 2:20.,1515. Haines A, Kuruvilla S, Borchert M. Bridging the implementation gap between knowledge and action for health. Bull World Health Organ 2004; 82:724-9.,1616. Nutley SM, Walter I, Davies HTO. Using evidence: how research can inform public services. Bristol: Bristol University Press; 2007.,1717. Pearson A, Jordan Z, Munn Z. Translational science and evidence-based healthcare: a clarification and reconceptualization of how knowledge is generated and used in healthcare. Nurs Res Pract 2012; 2012:792519.,1818. Mahendradhata Y, Kalbarczyk A. Prioritizing knowledge translation in low- and middle-income countries to support pandemic response and preparedness. Health Res Policy Syst 2021; 19:5.,1919. Oelke ND, Lima MADS, Acosta AM. Knowledge translation: translating research into policy and practice. Rev Gaúcha Enferm 2015; 36:113-7.,2020. Ellen ME, Lavis JN, Horowitz E, Berglas R. How is the use of research evidence in health policy perceived? A comparison between the reporting of researchers and policy-makers. Health Res Policy Syst 2018;16:64.,2121. Miranda ES, Figueiró AC, Potvin L. Are public health researchers in Brazil ready and supported to do knowledge translation? Cad Saúde Pública 2020; 36:e00003120.,2222. Andrade KRC, Pereira MG. Knowledge translation in the reality of Brazilian public health. Rev Saúde Pública 2020; 54:72.,2323. Nilsen P. Making sense of implementation theories, models and frameworks. Implement Sci 2015; 10:53.,2424. Wensing M, Grol R. Knowledge translation in health: how implementation science could contribute more. BMC Med 2019; 17:88..

Adicionalmente, foram relatadas dificuldades decorrentes do desconhecimento das regulamentações e requisitos definidos e da demora no processo de análise da demanda, realizado pelos órgãos reguladores. A inexistência de uma instância com a missão de prestar apoio técnico especializado aos pesquisadores do ICT nas atividades necessárias à implementação dos resultados das pesquisas foi constatada como um grande desafio. O suporte à pesquisa é essencial, visto que libera o pesquisador da parte burocrática dos seus projetos, conforme salientado pelos entrevistados, e o tempo efetivamente gasto para realizar pesquisa, analisar os dados e publicar os resultados é bastante reduzido. De acordo com Siewert Junior & Parisotto 3131. Siewert Junior V, Parisotto IRS. Financiamento à pesquisa: a vantagem competitiva analisada sob a ótica da Visão Baseada em Recursos. Revista GUAL 2019; 12:235-56., é necessário que os pesquisadores tenham acesso a essa estrutura, o que possibilita que haja um esforço maior na investigação. A dificuldade de acesso a evidências de pesquisa atualizadas, a escassa comunicação e colaboração existente entre as instituições de pesquisa e os que tomam decisões, e a distância entre as necessidades de conhecimento (dos pacientes, dos profissionais de saúde, dos governos e das instituições) e o trabalho dos pesquisadores ilustram os desafios que precisam ser ultrapassados, conforme percepção dos participantes deste estudo e coerente com os achados da literatura 1414. Dobbins M, Rosenbaum P, Plews N, Law M, Fysh A. Information transfer: what do decision makers want and need from researchers? Implement Sci 2007; 2:20..

A categoria de barreira intitulada, neste estudo, como “produtivismo acadêmico” é caracterizada pelo autor Waters 3232. Waters L. Inimigos da esperanc¸a publicar, perecer e o eclipse da erudicão. São Paulo: Editora UNESP; 2006. como uma excessiva valorização da quantidade de produção científica-acadêmica. Como o autor afirma, existe uma ligação entre a demanda pelo aumento da produtividade e o esvaziamento de qualquer significado que não seja aumentar o número de publicações. No cenário brasileiro, o produtivismo acadêmico é alimentado por um processo de competição envolvendo universidades, docentes e pesquisadores, e pelo modelo de avaliação da ciência e do pesquisador, adotado pelo CNPq e outras agências de fomento, que têm no Currículo Lattes seu principal instrumento indicador de produtividade. O equilíbrio entre a produção e a recepção do conhecimento gerado foi perdido. Nesse sentido, considerando o foco da TC, é necessário que a interseção entre produção, aceitação e aplicação do novo conhecimento se torne cada vez mais integrada.

A Tabela 2 apresenta oito categorias de fatores que, de acordo com os pesquisadores entrevistados, facilitam a implementação dos resultados das pesquisas. Entre essas oito, a categoria relacionada à infraestrutura do instituto é considerada um fator facilitador principalmente pela existência do escritório de projetos, responsável pela gestão dos projetos de pesquisa, pelo núcleo de inovação tecnológica e por disponibilizar plataformas e serviços tecnológicos multiusuários. De acordo com as recomendações de Nilsen 2323. Nilsen P. Making sense of implementation theories, models and frameworks. Implement Sci 2015; 10:53., esses facilitadores estão sendo considerados nas estratégias propostas para que sejam intensificados, a exemplo da criação de uma solução automatizada para suporte à aplicação dos resultados de pesquisa e à implantação de nova instância na infraestrutura, contendo as competências de apoio à pesquisa, o que fomenta as ações de capacitação defendidas por Andrade & Pereira 2222. Andrade KRC, Pereira MG. Knowledge translation in the reality of Brazilian public health. Rev Saúde Pública 2020; 54:72..

Fundamentando-se em modelos teóricos de TC, este estudo buscou construir uma proposta - aplicável ao contexto de uma instituição pública de pesquisa no Brasil - que, combinando estratégias de governança e aplicação do conhecimento, resulta num modelo prático para favorecer a inovação em saúde. Os caminhos propostos nesta pesquisa pretendem aumentar a capacidade institucional de identificação e alinhamento às reais necessidades do sistema de saúde, facilitando a obtenção de resultados práticos decorrentes dos investimentos voltados à geração de conhecimento científico para solução de problemas de saúde da população. Com base nos dados coletados e analisados, foram desenvolvidas propostas de estratégias e abordagens para tratar os determinantes contextuais. O Quadro 1 apresenta essas sugestões com detalhamento de orientações para cada uma.

As estratégias propostas buscam contribuir para a superação das dificuldades e fortalecimento dos fatores facilitadores, e encontram fundamentação em Powell et al. 3333. Powell BJ, Waltz TJ, Chinman MJ, Damschroder LJ, Smith JL, Matthieu MM, et al. A refined compilation of implementation strategies: results from the Expert Recommendations for Implementing Change (ERIC) project. Implement Sci 2015; 10:21., Lavis et al. 1212. Lavis JN, Boyko JA, Oxman AD, Lewin S, Fretheim A. SUPPORT Tools for evidence-informed health Policymaking (STP) 14: organising and using policy dialogues to support evidence-informed policymaking. Health Res Policy Syst 2009; 7 Suppl 1:S14. e Grimshaw et al. 3434. Grimshaw JM, Eccles MP, Lavis JN, Hill SJ, Squires JE. Knowledge translation of research findings. Implement Sci 2012; 7:50.. Elas envolvem tanto a instituição e seus macroprocessos, como a atividade direta do pesquisador. Muitas das estratégias sugeridas já foram apontadas por outros estudos 1818. Mahendradhata Y, Kalbarczyk A. Prioritizing knowledge translation in low- and middle-income countries to support pandemic response and preparedness. Health Res Policy Syst 2021; 19:5.,3333. Powell BJ, Waltz TJ, Chinman MJ, Damschroder LJ, Smith JL, Matthieu MM, et al. A refined compilation of implementation strategies: results from the Expert Recommendations for Implementing Change (ERIC) project. Implement Sci 2015; 10:21., como a “criação de redes de relacionamento” internas e externas e a “promoção do engajamento de partes interessadas” nos resultados de pesquisa. Algumas delas também vão ao encontro das tendências de inserção de tecnologias nos processos, como a “implantação de ferramenta de suporte automatizada”, adotada no modelo integrated de Lavis et al. 1212. Lavis JN, Boyko JA, Oxman AD, Lewin S, Fretheim A. SUPPORT Tools for evidence-informed health Policymaking (STP) 14: organising and using policy dialogues to support evidence-informed policymaking. Health Res Policy Syst 2009; 7 Suppl 1:S14., que permite a integração de esforços, por meio da adoção de uma plataforma de TC, e reforçada por recomendações feitas no estudo de Schmidt et al. 3535. Schmidt B-M, Cooper S, Young T, Jessani NS. Characteristics of knowledge translation platforms and methods for evaluating them: a scoping review protocol. BMJ Open 2022; 12:e061185.. Destaca-se, também, a sugestão de estratégias que envolvem a formação e o desenvolvimento de competências para a TC, conforme já sinalizado em estudo realizado por Andrade & Pereira 2222. Andrade KRC, Pereira MG. Knowledge translation in the reality of Brazilian public health. Rev Saúde Pública 2020; 54:72..

Ainda que essas estratégias tenham sido propostas por uma amostra restrita de pesquisadores de um ICT, suas recomendações, vindas de profissionais experientes, favorecem a identificação de informações referentes ao problema e ao contexto em que ele se encontra, ampliando a conscientização do que pode ser feito para uma resolução mais efetiva. Essas sugestões possibilitam implicações práticas para o desenvolvimento dos artefatos e implementação de inovações. Mesmo que outros estudos sejam necessários para o desenvolvimento e aprimoramento dos artefatos, inclusive com amostras ampliadas, os resultados aqui levantados são estruturantes e fundamentais para as próximas etapas da DSR, até que seja possível alcançar a meta final: fomentar a transformação do conhecimento científico gerado nas pesquisas em ações e produtos que contribuam para a melhoria da saúde populacional.

Conclusão

A identificação das barreiras que, na visão dos pesquisadores, impedem a implementação do conhecimento resultante das pesquisas viabilizou a proposição de estratégias para diminuir a lacuna entre a criação do conhecimento e a sua aplicação prática. Os fatores facilitadores também foram importantes para o aprimoramento dessas estratégias. Os resultados contribuíram para ampliar a capacidade do ICT de transformar os conhecimentos gerados em práticas inovadoras que beneficiem a saúde da população brasileira

A disponibilização de uma instância organizacional dotada de visão estratégica e voltada ao apoio técnico especializado em inovação é uma estratégia indispensável para o aumento da contribuição dos institutos de pesquisa para a saúde. Essa instância, que deverá dispor de integrantes com as competências requeridas no processo de implementação de resultados de pesquisa, permitirá a liberação dos pesquisadores de funções burocráticas e políticas, possibilitando que esses profissionais dediquem mais tempo ao processo de criação de conhecimento.

Sendo assim, recomenda-se a implantação de um curso de formação em TC voltado ao público interno e externo do ICT, seja ele produtor ou consumidor de conhecimento científico, com o objetivo de formar profissionais para atuarem nos processos inerentes à conversão dos conhecimentos produzidos em inovação. No sentido de desenvolver a cultura da TC, sugere-se, ainda, a inclusão de um componente curricular nos programas de pós-graduação oferecidos pelo ICT, fortalecendo a familiaridade dos discentes e docentes com o tema já no processo de formação científica.

A criação de indicadores que demonstrem a capacidade de aplicação das evidências adquiridas nas investigações pode fortalecer o potencial de inovação dos pesquisadores, universidades e instituições de pesquisa, servindo como passo inicial para que seja revisto o modelo de avaliação da ciência, atualmente baseado fundamentalmente em dados bibliométricos, que incentivam o produtivismo acadêmico. Este estudo de caso também demonstra que as características dos resultados de pesquisa e o contexto interno do ICT afetam a adoção do processo de TC independentemente das restrições de recursos financeiros, em vista da diversidade de desafios apresentados.

Apesar de contar com uma amostra expressiva de 60% da população convidada para participar da entrevista, o fato de o estudo ter sido realizado em um único contexto pode ser considerado como uma limitação. Ampliar o número de contextos estudados e, consequentemente, a amostra é recomendado. Sendo assim, pesquisas futuras poderiam expandir os critérios de inclusão da amostra de pesquisadores, não restringindo apenas a bolsista de produtividade ou líderes de laboratório. A categorização realizada aqui pode ser usada com amostra ampliada, a fim de verificar se esses resultados se confirmam na percepção de diferentes pesquisadores e de outros ICT ou se novas estratégias podem ser adicionadas para o fomento da TC. Sugere-se, por fim, que sejam realizados estudos com o objetivo de conhecer o encaminhamento dado pelas agências de fomento aos conhecimentos produzidos nas pesquisas que financiam.

Por fim, grupos focais confirmatórios são bem recomendados na abordagem DSR e podem ser aplicados para análise da utilidade e replicabilidade dos artefatos (estratégias) em outras instituições. Além disso, como os artefatos aqui propostos não foram ainda implementados, destaca-se a continuidade deste estudo, avançando no desenvolvimento e aplicação das estratégias, seguindo, desse modo, com as demais etapas da DSR.

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Instituto Gonçalo Moniz, Fundação Oswaldo Cruz, e ao Programa de Pós-graduação em Gestão e Tecnologia Industrial do Centro Universitário SENAI CIMATEC.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Dez 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    13 Jan 2023
  • Revisado
    21 Jul 2023
  • Aceito
    23 Jul 2023
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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