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Revista Panamericana de Salud Pública

Print version ISSN 1020-4989

Rev Panam Salud Publica vol.16 n.5 Washington Nov. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1020-49892004001100003 

INVESTIGACIÓN ORIGINAL ORIGINAL RESEARCH

 

Epidemiologia do sobrepeso e da obesidade e seus fatores determinantes em Belo Horizonte (MG), Brasil: estudo transversal de base populacional

 

Epidemiology of overweight and obesity and its determinants in Belo Horizonte (MG), Brazil: a cross-sectional population-based study

 

 

Gustavo Velásquez-MeléndezI, *; Adriano M. PimentaI; Gilberto KacII

IUniversidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Escola de Enfermagem, Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública, Belo Horizonte (MG), Brasil
IIUniversidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Instituto de Nutrição, Departamento de Nutrição Social e Aplicada, Rio de Janeiro (RJ), Brasil

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Determinar a prevalência do sobrepeso e da obesidade e investigar os fatores de risco na população maior de 18 anos residente na região metropolitana de Belo Horizonte, Brasil.
MÉTODOS: Foram analisados dados obtidos pela pesquisa sobre padrões de vida realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística entre 1996 e 1997 a partir de uma amostra probabilística de 1 105 indivíduos. Medidas de peso e altura foram realizadas por equipes treinadas. O sobrepeso (índice de massa corporal >25,0 kg/m2) e a obesidade (índice de massa corporal > 30,0 kg/m2) foram definidos como variáveis dependentes. Os potenciais fatores associados foram estudados a partir de análises bivariadas e da técnica de regressão logística multivariada.
RESULTADOS: A prevalência do sobrepeso e da obesidade foi de 31,1% (IC95%: 27,3 a 35,2) e 5,7% (IC95%: 4,0 a 8,1) nos homens e 25,9% (IC95%: 22,4 a 29,8) e 14,7% (IC95%: 11,9 a 17,9) nas mulheres. Na análise multivariada, a idade e o estado marital permaneceram como fatores de risco independentes para o sobrepeso, enquanto a idade, o sexo e a escolaridade permaneceram como fatores independentes para a obesidade. A interação entre o sexo feminino e a alta escolaridade constituiu-se em fator protetor para o sobrepeso (OR = 0,52; IC95%: 0,33 a 0,83), mas não para a obesidade. As mulheres de baixa escolaridade apresentaram alto risco (OR = 5,95; IC95%: 2,51 a 14,12) de desenvolver obesidade em comparação aos homens.
CONCLUSÕES: Os resultados indicam que o sobrepeso e a obesidade podem vir a se tornar um sério problema de saúde pública na região metropolitana de Belo Horizonte. É importante desenvolver estudos que enfoquem a relação entre o sobrepeso e a obesidade e variáveis comportamentais, como o fumo e o consumo de álcool.

Palavras-chave: Adulto, escolaridade, índice de massa corporal.


ABSTRACT 

OBJECTIVE: To determine the prevalence of overweight and obesity and to study potential risk factors for these conditions in persons over 18 years of age in the metropolitan area of Belo Horizonte, Brazil.
METHODS:. Data were obtained from a population-based study conducted in 1996 and 1997 by the Brazilian Institute of Geography and Statistics (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE) with a random sample of 1 105 individuals. Height and weight were measured by trained personnel. Overweight (body mass index [BMI] > 25.0 kg/m2) and obesity (BMI > 30.0 kg/m2) were the dependent variables. Bivariate analysis and multivariate logistic regression were used to identify potential risk factors for overweight and obesity.
RESULTS: The prevalence of overweight and obesity was 31.1% (95% confidence interval [95% CI]: 27.3 to 35.2) and 5.7% (95% CI: 4.0 to 8.1), respectively, in men, and 25.9% (95% CI: 22.4 to 29.8) and 14.7% (95% CI: 11.9 to 17.9), respectively, in women. Multivariate analysis revealed that age and marital status were independent risk factors for overweight, whereas age, sex, and education were independent risk factors for obesity. Being female and well-educated showed a protective effect against overweight (odds ratio [OR] = 0.52; 95% CI: 0.33 to 0.83), but not against obesity (OR = 3.01; IC 95%: 1.14 to 7.94). Women with low education had a significantly greater risk (OR = 5.95; 95%CI: 2.51 to 14.12) of developing obesity than men having a high educational level.
CONCLUSIONS: These results suggest that overweight and obesity may be serious public health problems in the metropolitan area of Belo Horizonte, Brazil. It is important to carry out further studies in order to explore the potential relationship between overweight and obesity on the one hand, and behavioral variables, such as smoking and alcohol consumption, on the other.


 

 

A obesidade é uma doença que se caracteriza pelo acúmulo excessivo de gordura corporal. Sua gravidade pode ser medida por suas complicações como entidade mórbida, assim como por sua associação com diversas doenças e agravos à saúde, tais como dislipidemia, doenças cardiovasculares (1), diabetes melito tipo 2, certos tipos de câncer (2), dificuldades respiratórias, problemas dermatológicos e distúrbios do aparelho locomotor (3). Atualmente, a obesidade é um grave problema de saúde pública nos países desenvolvidos, e um crescente problema nos países em desenvolvimento (4–6).

No Brasil, vários estudos baseados na comparação entre inquéritos de base populacional mostram que, em um período de 15 anos (1975 a 1989), a prevalência do sobrepeso, definido como índice de massa corporal (IMC) > 25 kg/ m2, aumentou 53% entre os adultos brasileiros com mais de 18 anos de idade, passando de 17 para 27% entre os homens e de 26 para 38% entre as mulheres (7). As análises realizadas considerando um período mais prolongado (1975 a 1997) mostraram uma tendência de aumento diferenciado da obesidade (IMC > 30 kg/m2) segundo o nível socioeconômico, o sexo e a região estudada. Verificou-se incremento secular da obesidade em mulheres de nível socioeconômico mais baixo em todas as regiões estudadas e decréscimo nas mulheres de nível socioeconômico mais alto nas regiões mais desenvolvidas. Nos homens, essa variação foi apenas menos intensa, sem diminuição nos estratos de maior nível socioeconômico (8).

O aumento na prevalência da obesidade tem sido explicado por fatores como sedentarismo e mudanças nos padrões de consumo alimentar, por exemplo, maior ingestão de alimentos de alta densidade energética (9). O nível de escolaridade e a renda têm sido identificados como variáveis que podem interferir na forma como a população escolhe seus alimentos, na adoção de comportamentos saudáveis e na interpretação das informações sobre cuidados para a saúde, podendo, portanto, influenciar a magnitude da prevalência do sobrepeso e da obesidade. No Brasil, tem diminuído a associação positiva entre a obesidade e o nível socioeconômico (10).

Dentro desse contexto, o presente estudo pretendeu identificar fatores potencialmente associados à distribuição do sobrepeso e da obesidade em uma amostra probabilística de adultos da região metropolitana de Belo Horizonte, Brasil, utilizando dados de um inquérito de base populacional.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Foi realizado um estudo observacional do tipo transversal e analítico. A fonte de dados consistiu na pesquisa sobre padrões de vida (PPV) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no período de março de 1996 a março de 1997, com amostra probabilística investigada por meio de inquérito domiciliar (11, 12). A PPV foi desenvolvida apenas nas regiões Nordeste e Sudeste do Brasil, e considerou 10 estratos geográficos: região metropolitana de Fortaleza, região metropolitana de Recife, região metropolitana de Salvador, restante da área urbana do Nordeste, restante da área rural do Nordeste, região metropolitana de Belo Horizonte, região metropolitana do Rio de Janeiro, região metropolitana de São Paulo, restante da área urbana do Sudeste e restante da área rural do Sudeste.

Para o presente trabalho, selecionou-se a população de indivíduos com 18 anos ou mais residente na região metropolitana de Belo Horizonte. A seleção da amostra foi realizada em duas etapas; na primeira foram sorteados 62 setores censitários divididos proporcionalmente por estratos de renda e, na segunda, foram sorteados 504 domicílios (unidades secundárias) (11, 12). A amostra selecionada foi composta por 1 215 pessoas. Desse conjunto, foram excluídas mulheres grávidas (n = 19; 1,56%), as que tiveram filhos entre janeiro de 1995 e março de 1997 (n = 58; 4,77%), por encontrarem-se em período pós-parto, e pessoas que não tiveram o peso aferido (n = 33; 2,72%), resultando em uma amostra final composta por 1 105 indivíduos, ou seja, 90,9% da amostra originalmente selecionada.

Peso e altura foram obtidos por equipes previamente treinadas. No treinamento foram enfatizados cuidados básicos, como observar que os indivíduos estivessem sem sapatos e com roupas leves durante a medição. Foram utilizadas balanças microeletrônicas portáteis (marca Seca 890), que permitiram o registro do peso com precisão de 0,1 kg, e réguas antropométricas, que permitiram o registro da altura com precisão de 0,1 cm. A partir dessas medidas, calculou-se o IMC (peso em kg dividido pelo quadrado da altura em m), que foi categorizado da seguinte forma (4, 13): eutrofia (18,5 > IMC < 24,9), sobrepeso (IMC > 25,0) e obesidade (IMC > 30,0). O sobrepeso e a obesidade foram definidos como as variáveis dependentes no presente estudo.

As covariáveis disponíveis para análise foram: idade, sexo, estado marital, cor da pele, escolaridade e prática de atividade física. A idade foi calculada a partir da data de nascimento. Quando o entrevistado não sabia a data de nascimento e não possuía um documento, pediu-se para que estimasse a idade em anos completos. No caso onde o informante não conseguiu estimar a idade, coube ao entrevistador realizar tal tarefa. Categorizou-se a idade em quatro faixas etárias (18 a 25; 26 a 35; 36 a 50; e > 51 anos). A escolaridade foi aferida em graus de instrução e dividida em duas categorias: baixa, que compreendeu as pessoas analfabetas, com níveis elementar e fundamental de instrução (< 8 anos); e alta, que agrupou as pessoas com nível médio e superior de instrução (> 9 anos). A cor da pele foi obtida a partir de autodefinição, sendo os participantes categorizados em brancos e não brancos. A variável estado marital foi analisada de forma dicotômica: com cônjuge e sem cônjuge. Já a prática de atividade física foi avaliada considerando a resposta à pergunta "você pratica exercício físico ou esporte?".

O banco de dados foi analisado utilizando os programas Epi-Info versão 6.04 e Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 8.0. As análises estatísticas foram realizadas em etapas. Inicialmente foram apresentadas as distribuições das covariáveis de interesse com dados de freqüência. Em seguida, foram calculadas as taxas de prevalência do sobrepeso e da obesidade segundo as covariáveis de interesse, e estabelecidas as associações entre as diversas covariáveis e o sobrepeso e a obesidade, por meio do teste do qui-quadrado (c2). A etapa seguinte envolveu a análise bivariada com estimativa de razão de chances (odds ratio, OR) não ajustada e intervalo de confiança de 95% (IC95%) para as duas variáveis dependentes. As covariáveis que apresentaram significância inferior a 0,20 (P < 0,20) foram consideradas como candidatas ao modelo final. Na última etapa foi realizado o ajuste de variáveis potencialmente confundidoras por meio da utilização da técnica de regressão logística multivariada passo a passo, com a inclusão no modelo final das variáveis significativamente associadas na análise bivariada. Após a inclusão simultânea de todos os efeitos principais, foram testadas as interações plausíveis. Para uma melhor compreensão da interação entre sexo e escolaridade, criou-se a variável sexo/ escolaridade, incorporando como categorias as diversas possíveis combinações entre elas: masculino com alta escolaridade (categoria de referência), masculino com baixa escolaridade, feminino com alta escolaridade e feminino com baixa escolaridade. A força das associações foi avaliada pelo cálculo da OR e dos respectivos IC95%.

 

RESULTADOS

A tabela 1 apresenta a distribui- ção das variáveis de interesse da pesquisa. A distribuição etária da amostra concentrou-se entre 26 e 50 anos. Já a distribuição entre as categorias de cor de pele e estado marital foi bastante homogênea, o que não ocorreu para as covariáveis prática de atividade física e escolaridade. O sobrepeso foi observado em 38,7% da população, e a obesidade, em 10,2%. Em relação aos homens, 31,1% apresentaram sobrepeso e 5,7% obesidade. Nas mulheres essas freqüências foram de 25,9 e 14,7%, respectivamente.

 

 

As maiores prevalências do sobrepeso foram observadas nos grupos etários maiores de 36 anos, nos indivíduos que viviam com cônjuge, que não realizavam atividade física e que apresentavam baixa escolaridade. O padrão de distribuição da obesidade foi semelhante ao do sobrepeso para a faixa etária, o estado marital e a escolaridade (tabela 2).

 

 

Os valores de OR não ajustados, estratificados por sexo, revelaram que a faixa etária, o estado marital e a prática de atividade física foram significativamente associados ao sobrepeso entre homens. Entre as mulheres, as variáveis associadas ao sobrepeso incluíram a faixa etária, a cor da pele, o estado marital e a escolaridade (tabela 3). As variáveis significativamente associadas à obesidade foram, para os homens, a faixa etária, o estado marital e a atividade física, e para as mulheres, a faixa etária, a cor de pele e a escolaridade (tabela 4).

 

 

 

 

Na tabela 5 são apresentados os resultados da análise multivariada para o sobrepeso e a obesidade. Esses modelos foram propostos para a amostra como um todo, sem divisão por sexos. A faixa etária e o estado marital permaneceram independentemente associadas ao sobrepeso no modelo multivariado. Verificou-se interação significativa (P = 0,0059) entre sexo e escolaridade. O efeito modificador da escolaridade foi significativo apenas entre as mulheres com baixa escolaridade (OR = 0,52; IC95%: 0,33 a 0,83). Dessa forma, o risco de desenvolver sobrepeso em mulheres com alta escolaridade foi a metade do observado para homens com alta escolaridade.

 

 

Em relação à obesidade, não foi verificada modificação de efeito da escolaridade no modelo multivariado. Nesse modelo, as mulheres de baixa escolaridade (<8 anos de estudo) (OR = 5,95; IC95%: 2,51 a 14,12) e de escolaridade mais alta (> 9 anos) (OR = 3,01; IC95%: 1,14 a 7,94) apresentaram maior chance de desenvolver obesidade do que os homens com alta escolaridade. A chance de os homens de baixa escolaridade desenvolverem obesidade foi semelhante àquela dos homens de mais alta escolaridade (OR = 2,14; IC95%: 0,85 a 5,35) (tabela 5).

A prática de atividade física foi comparada entre as quatro categorias decorrentes da combinação das variáveis sexo e escolaridade. Verificou-se que apenas 12,6% das mulheres de baixa escolaridade realizavam atividade física, enquanto no grupo de homens de baixa escolaridade e de alta escolaridade essa freqüência foi de 28,1 e 43,7%, respectivamente. No grupo de mulheres de escolaridade mais alta essa proporção foi de 40%. Apesar desses resultados, a variável atividade física não permaneceu no modelo final (resultados não mostrados).

 

DISCUSSÃO

Os resultados do presente estudo, obtidos a partir de uma amostra probabilística, evidenciam que o sobrepeso e a obesidade se constituem em um potencial problema de saúde pública na região metropolitana de Belo Horizonte, Brasil. Foram encontradas taxas de prevalência do sobrepeso superiores a 40% nos grupos etários acima de 36 anos em indivíduos com cônjuge e naqueles de baixa escolaridade. A análise estratificada mostrou associação do sobrepeso com a idade e o estado marital em ambos os sexos; e da obesidade com a idade e o estado marital nos homens, e apenas com a idade nas mulheres.

Vários estudos brasileiros mostram claras tendências regionais e temporais que situam a obesidade no Brasil como sério problema de saúde pública. Assim, os inquéritos populacionais de tendência da obesidade nos últimos 25 anos mostram aumento secular da prevalência da obesidade no Brasil (8, 14— 16). Os resultados da PPV para a região metropolitana de Belo Horizonte, aqui apresentados, são similares aos observados em estudos com amostras probabilísticas de outras áreas urbanas do Brasil, embora a magnitude e certos fatores determinantes do sobrepeso e da obesidade possam ser diferentes entre as regiões analisadas (8).

Diversos fatores têm sido relacionados ao sobrepeso e à obesidade a partir de estudos de associação, sendo os fatores mais comumente registrados os socioeconômicos e, entre eles, a renda e a escolaridade (10, 16). Um aspecto interessante que deve ser ressaltado em relação a esses estudos (incluindo o presente trabalho) diz respeito à magnitude e à direção das associações. Verificou-se, na presente análise, que as mulheres apresentaram maior risco de desenvolver sobrepeso e obesidade quando comparadas aos homens. No entanto, a direção e a intensidade dessa associação foi modificada pelo efeito da escolaridade apenas para o sobrepeso. Não se verificou efeito modificador da escolaridade para o risco de obesidade. Assim, as mulheres com escolaridade maior do que 8 anos apareceram como estando mais protegidas do sobrepeso quando comparadas aos homens. Por outro lado, mulheres de qualquer grau de escolaridade apresentaram maior prevalência da obesidade do que homens. Adicionalmente, em análises complementares (dados não apresentados), as mulheres de baixa escolaridade tiveram, em média, maior IMC do que aquelas de maior escolaridade. Essas diferenças não foram observadas entre os grupos de escolaridade no sexo masculino.

As variáveis relacionadas ao estilo de vida, como a prática de atividade física, não foram suficientes para explicar a modificação do efeito da variável escolaridade no sobrepeso e na obesidade, embora tenha-se observado, neste estudo, um baixo percentual de prática de atividade física no grupo de mulheres de baixa escolaridade (dados não apresentados). Entretanto, estudos sugerem que a melhora do nível de escolaridade e a prática de atividade física podem ajudar a prevenir tendências crescentes à obesidade (17). Considerando que neste estudo não foram aferidas outras variáveis indicadoras do estilo de vida da população estudada, tais como o consumo de álcool, o tabagismo e o consumo alimentar, não foi possível aprofundar esse tipo de análise.

O nível de escolaridade pode ser entendido como uma característica importante da forma de inserção dos indivíduos na sociedade, que pode ser decisiva para a qualidade do autocuidado e para a capacidade de interpretar informações relativas a comportamentos preventivos para proteção da saúde. Uma ampla revisão de 144 artigos (18) revelou que o nível socioeconômico está fortemente associado, de forma inversa, à obesidade nas mulheres de sociedades desenvolvidas, sendo essa relação inconsistente entre homens e crianças. Entretanto, em países em desenvolvimento, essa relação foi positiva nos três grupos (18). Segundo Monteiro et al. (10), as relações entre a obesidade e o nível socioeconômico, inicialmente verificadas em países em desenvolvimento, podem hoje ser contestadas com base em dados recentes. Esses dados têm demonstrado a consolidação da relação inversa entre a escolaridade e a obesidade em mulheres e a diminuição da relação positiva entre homens. No presente estudo, observou-se sinergismo apenas entre o sobrepeso, o sexo e a escolaridade.

São escassos os estudos relacionando o estado marital e o sobrepeso/obesidade (19—23). Observou-se, na presente investigação, um risco potencial 1,60 vez maior para o sobrepeso em mulheres com cônjuge quando comparadas a mulheres sem cônjuge, enquanto os valores das OR foram apenas limítrofes para a obesidade. Não existe consenso entre os trabalhos que investigaram o tema no que diz respeito à direção da associação entre o estado marital e o sobrepeso/obesidade. Nossos resultados são concordantes com os observados por Kac et al. (23) para mulheres no pós-parto; no entanto, diferem dos relatados por Janney et al. (19) e por Wolfe et al. (20), que relataram maior risco entre mulheres solteiras. Alguns outros estudos não observaram efeito do estado marital no desenvolvimento do sobrepeso ou da obesidade (21, 22).

Algumas limitações metodológicas do presente estudo devem ser destacadas, entre elas o fato de que a PPV não foi desenhada com objetivo exclusivo de estudar determinantes do sobrepeso e da obesidade. Adicionalmente, deve ser considerada a ausência de um elenco mais completo de covariáveis que possam descrever melhor o padrão de sobrepeso e da obesidade. Devemos considerar também potenciais vieses no uso das variáveis IMC e escolaridade.

Em síntese, observou-se, neste estudo de base populacional, que a idade, o estado marital e a interação entre a escolaridade e o sexo atuaram como fatores associados ao sobrepeso e à obesidade. É importante que estudos futuros investiguem de forma mais precisa as relações do sobrepeso e da obesidade com variáveis comportamentais, como por exemplo, o hábito de fumar e o consumo de álcool. É necessário ainda implementar, em todas as esferas, programas governamentais com impacto potencial na diminuição do sobrepeso e da obesidade e na incidência e prevalência de doenças potencialmente letais.

Agradecimentos. Gustavo Velásquez- Meléndez e Gilberto Kac são bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq.

 

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Manuscrito recebido em 28 de outubro de 2003. Aceito em versão revisada em 14 de julho de 2004.

 

 

Como citar: Velásquez-Meléndez G, Pimenta AM, e Kac G. Epidemiologia do sobrepeso e da obesidade e seus fatores determinantes em Belo Horizonte (MG), Brasil: estudo transversal de base populacional. Rev Panam Salud Publica 2004;16(5):308—14.
* Enviar correspondência para Gustavo Velásquez-Meléndez no seguinte endereço: Escola de Enfermagem da UFMG, Avenida Alfredo Balena 190, CEP 30130-100, Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: guveme@ufmg.br