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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.4 n.2 Rio de Janeiro Jan. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81231999000200001 

EDITORIAL

 

 

Este número temático, Gestão do SUS: problemas, desafios e avanços, reflete uma das mais urgentes preocupações do momento histórico em que vivemos, quando mudanças profundas no modo e nas relações de produção, na divisão internacional do trabalho e também no papel do Estado se fazem presentes. Em todo mundo se discute e se pratica uma reordenação produtiva e gerencial que vem ancorada nas novas tecnologias de informação, comunicação e informática, evidenciando outros referenciais de espaço e tempo. Sobre isso nos lembra Max Weber, as noções de espaço e tempo fazem parte dos mais relevantes esteios que estruturam e fundam as bases da cultura. Mudanças na sua concepção prenunciam grandes transformações na organização simbólica da sociedade.

O presente número da revista Ciência & Saúde Coletiva vem, portanto, trazer à tona muitos dos problemas sócio-políticos e organizacionais deste final de século que se refletem nos modos de organização e gestão das instituições de saúde, entendendo-os como uma síntese problemática do passado, do presente e dos movimentos de transformação. Em grande parte, as questões aqui tratadas pelos estudiosos da área fazem parte do processo de implementação do Sistema Único de Saúde, seguindo os preceitos constitucionais de 1988. Nesse sentido, é importante observar como aqui são analisados os impasses, as dificuldades, e também, as conquistas que a reforma do setor saúde, propiciou vivenciadas a partir da dinâmica macropolítica e dos processos locais. A descentralização, por exemplo, tem permitido que a maioria dos procedimentos assistenciais, de promoção e de prevenção aconteçam nos âmbitos mais próximos da população; ao mesmo tempo vem propiciando a criação de uma sofisticada rede de gestão, de controle social e de articulação entre as diferentes esferas de poder.

Aqui são tratados problemas conceituais, metodológicos, teóricos, de articulação da teoria com a prática, de avaliação e de melhoria de qualidade, evidenciando também um complexo processo de crescimento do conhecimento gerado no setor sobre os temas em pauta. Apresenta-se ainda uma excelente reflexão sobre as inter-relações que ocorrem na teoria e na prática da epidemiologia e do planejamento - hoje um espaço de construção interdisciplinar - e uma ampla revisão sobre a gestão de ciência e tecnologia dando ênfase aos problemas do setor saúde. Como não poderia deixar de acontecer, este número temático coloca em pauta, ainda, a revelância atual das transformações do mundo do trabalho e das reformas do Estado e setoriais. Analisa as tendências internacionais e ao mesmo tempo as compara com o que ocorre na América Latina e no Brasil, onde um certo açodamento e radicalismo na realização das mudanças têm provocado vários problemas, dentre eles os de precarização do trabalho, de desproteção social e de desregulamentação, mostrando uma grande fragilidade para contra-arrestar o poder das idéias e das práticas anti-sociais na condução histórica da globalização.

Com certeza, este novo número de Ciência e Saúde Coletiva traz aos seus leitores uma contribuição essencial para fundamentar a discussão dos rumos da reforma sanitária em curso, bandeira que sempre teve na Abrasco, uma de suas maiores lideranças.

 

Maria Cecília de Souza Minayo
Editora