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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.5 n.2 Rio de Janeiro Jan. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232000000200001 

EDITORIAL

EDITORIAL

 

 

 

No último capítulo do seu livro A era dos extremos, Eric Hobsbawm registra: O breve século XX acabou em problemas para os quais ninguém tinha, nem dizia ter, soluções. Enquanto tateavam o caminho para o terceiro milênio em meio ao nevoeiro global que os cercava, os cidadãos do fin-de-siécle só sabiam ao certo que acabara uma era da história. E muito pouco mais.

Em realidade, a visão de um século carregado de problemas e violências - "o mais terrível da história" (Isaiah Berlin), de "massacres e guerras" (René Dumont) - é a tônica da análise de muitos pensadores, filósofos, cientistas e literatos que se debruçaram sobre os últimos cem anos da humanidade. Mas, se essa visão é verdadeira, há também que se pensar no que este século produziu, marcado em seu início por tantas conquistas que iriam revolucionar os paradigmas, indicando caminhos para um progresso e desenvolvimento sem precedentes. O avanço da ciência e das inovações tecnológicas, na esteira de uma era marcada pelo advento do aço, da eletricidade e do petróleo e de muitas das invenções - avião, automóvel -, tornar-se-ia referência para o século que se iniciava. Novos paradigmas revolucionavam tanto a física - a relatividade de Einstein, como as artes plásticas -, o cubismo de Picasso, ou a literatura de Joyce, assim como estabeleceram um divisor de águas no conhecimento biomédico, que se iniciara no século anterior e inaugurara, com a microbiologia de Pasteur e Koch, uma nova época para a saúde pública. Muitas outras seriam as descobertas e invenções que prenunciavam conquistas inimagináveis. Mas vieram duas grandes guerras com todas as suas conseqüências nos planos econômicos e políticos, as revoluções sociais e as promessas de uma sociedade socialista. O século caminhava e cada vez mais se acentuavam as diferenças entre as nações e os desequilíbrios entre os países capitalistas, num permanente contraste entre grandes conquistas (inclusive a espacial) e as mais contundentes desigualdades, acentuando o fosso entre os ricos e poderosos e os "deserdados da terra".

Em um contexto de muitos problemas, a saúde será, neste século objeto de infindáveis, mas necessárias, discussões. Não é tarefa fácil abordar a complexa rede de relações na compreensão do problema saúde, nos aspectos que nos interessam: o social, o coletivo e o público. Nesse sentido, é imprescindível a perspectiva interdisciplinar quando se cruzam conhecimentos históricos, sociológicos, antropológicos, políticos, biológicos, demográficos, estatísticos, ecológicos. E, para isso, somente a participação de um grupo de especialistas é que torna possível recuperar, mesmo que de forma incompleta, aquilo que vem constituindo a construção da saúde pública brasileira. Sem pretensão de cobrir o amplo espectro desse campo, esta incursão apresenta trabalhos que certamente irão se tornar consulta obrigatória na área. De forma polêmica, erudita e original os autores situam os saberes e as práticas que conformam o campo da saúde pública, revendo conceitos e teorias; reconstituem a história médico-higienista e do movimento pelo saneamento e do papel que tiveram na construção do Estado nacional; exemplificam com algumas doenças não somente os seus condicionamentos sociais e econômicos, mas como o próprio conhecimento foi social e institucionalmente produzido; traçam algumas trajetórias epidemiológicas que, mesmo circunscritas, são suficientes para se pensar na situação do país como um todo; retomam, no plano das políticas de saúde, a análise de alguns processos recorrentes na vida nacional - a centralização e a descentralização; revisitam parte da bibliografia; demarcam conquistas científicas como a "fluoretação" da água e seu papel na saúde das populações.

Muitos são os dilemas brasileiros, e a saúde pública constitui, sem dúvida, uma das principais questões postas para o Estado e para a sociedade como um todo, e os seus problemas fazem parte de um debate que envolve todas as nações no que se convencionou denominar da crise da saúde pública. Em uma perspectiva histórica, vemos que há muitas conquistas que nos orgulham e lutas a serem lembradas, mas também há, certamente, um longo caminho a percorrer. Firmamos um pacto social na década de 1980 - criamos um Sistema Único de Saúde; desenvolvemos com grande intensidade a formação de recursos humanos, incluindo a de pesquisadores em nível de mestrado e doutorado; temos formulações científicas e técnicas que são acatadas internacionalmente, mas, como parte da dinâmica da vida, a saúde continuará sempre a ser um desafio permanente. Conciliar pesquisas científicas avançadas e um projeto de sociedade mais humana e igualitária, com práticas de saúde adequadas, pode parecer um projeto utópico, mas necessário para que possamos vencer o "desencanto do mundo".

Este número da revista Ciência & Saúde Coletiva, que tive o privilégio de coordenar, somente foi possível com a colaboração dos autores cujos trabalhos testemunham o especial desenvolvimento da pesquisa histórica e social em saúde neste país. A todos, os meus agradecimentos. Para Maria Cecília Minayo um especial muito obrigado, pelo convite para organizar esta edição e pela orientação e acompanhamento durante todo o trabalho.

 

Everardo Duarte Nunes
Editor convidado

 

 

According to Eric Hobsbawm in the last chapter of The Age of Extremes: A History of the World, 1914-1991, the "Brief 20th Century ended with problems to which no one had (or even pretended to have) the solutions. While end-of-the-century citizens groped their way towards the Third Millennium in the midst of a global fog, they only knew for certain that an age in history had ended. And that was about all".

In fact, the view of a century full of problems and violence (the most terrible century in history according to Isaiah Berlin, or one of massacres and war according to René Dumont) has set the tone for the way many thinkers, philosophers, scientists, and writers have analyzed humankind's last one hundred years. Although such a view is true, we should not overlook what the last century produced. It was an age marked at its beginning by numerous breakthroughs leading to revolutionary paradigms shifts, pointing the way to unprecedented progress and development. Scientific advancement and technological innovation came in the wake of an age marked by the advent of steel, electricity, oil, and countless inventions like the airplane and the automobile, providing the framework for the emerging 20th century. Such new paradigms saw a revolution in physics, with Einstein's relativity; the visual arts, with Picasso and his cubism; and literature, with James Joyce. They also created a watershed in biomedical knowledge, which had begun in the 19th century with Pasteur and Koch's microbiology launching a new age for public health. Other discoveries and inventions foreshadowed unimaginable breakthroughs. But two great wars scourged humankind with their devastating economic and political consequences. Meanwhile, there were social revolutions and the promise of a socialist society. The century marched forward while differences increased between nations and imbalances deepened within the capitalist countries. The 20th century witnessed a persistent contrast between major scientific achievements (including the conquest of outer space) and stark inequalities, highlighting the chasm between the rich and powerful and the disinherited of the earth.

In the context of many problems, health was the object of an endless yet necessary debate in the 20th century. It is no easy task to approach the complex network of relations involved in understanding the health issue, including the social, collective, and public aspects that interest us. In this sense, an interdisciplinary perspective is indispensable for cross-analyzing historical, sociological, anthropological, political, biological, demographic, statistical, and ecological knowledge. And for this to happen, a group of experts is necessary to be able to recover (albeit partially) what has been the construction of the field of public health in Brazil. Without intending to cover the field's entire scope, this foray includes studies that are destined to become obligatory reference reading for the area. In a controversial, scholarly, and original way, the authors set the contexts of the knowledge and practices that have shaped the field of public health, reviewing concepts and theories. They reconstruct medical/hygienist history, the pro-sanitation movement, and the role public health physicians played in building the Brazilian national state. Illustrating the discussion with approaches to various diseases, they discuss both social and economic conditioning factors and how the respective knowledge was socially and institutionally produced. They trace several specific epidemiological trajectories that stimulate reflection on Brazil's health situation as a whole. At the health policy level, they resume an analysis of recurrent processes in Brazilian national life, namely centralization and decentralization. They revisit part of the bibliography. They situate scientific advances like water fluoride treatment and their role in the health of populations, retelling the saga of public health experts from the 1930s to the 1970s.

Brazil faces many dilemmas, and public health is certainly one of the key issues for government and society as a whole. Public health problems are part of a debate involving all nations in what has come to be known as the public health crisis. Analyzing the issue from a historical perspective, there have been many victories to be proud of and struggles to recount, but there is doubtless a long way to go. We joined in a social pact in the 1980s by creating Brazil's Unified Health System, stepping up the training of human resources, including researchers at the Master's and Ph.D. levels. We have scientific achievements that are adopted worldwide. Still, as part of life's dynamics, health is and will continue to be a permanent challenge. To reconcile advanced scientific research with a commitment to build a more human and egalitarian society, with adequate health practices, may sound utopian, but it is necessary for us to overcome the disenchantment of the world.

This issue of Revista Ciência & Saúde Coletiva, which I had the privilege to coordinate, was made possible by the collaboration of the authors, whose work bears witness to the special development of historical and social research in health in Brazil. I thank them all. Special thanks go to Maria Cecília Minayo for the invitation to organize this issue and for her invaluable suggestions and support throughout the task.

 

Everardo Duarte Nunes
Guest editor