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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.9 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232004000400018 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

As mensagens sobre drogas no rap: como sobreviver na periferia

 

Messages about drugs from rap: how to survive in the periferia

 

 

Vinícius Gonçalves Bento da Silva; Cássia Baldini Soares

Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar 419, 05403-000, São Paulo SP. nagre@ig.com.br

 

 


RESUMO

O objetivo é analisar as mensagens sobre drogas nas letras de rap de grupos com representatividade e influência entre jovens da periferia de São Paulo. O rap é um gênero musical que faz parte de um movimento cultural – o hip hop –, que difunde uma visão social de mundo, principalmente nas periferias das grandes cidades. Por meio da Análise de Discurso estudaram-se 11 letras de 9 grupos. O tema marcante é a vida na periferia retratada pelo tráfico e consumo de drogas, pela violência e pela discriminação. O uso de drogas é compreendido por alguns grupos como conseqüência do modo de produção, e por outros, pelas características individuais, pela influência da família e dos amigos. As propostas para o enfrentamento e para a superação dos problemas estão voltadas à responsabilização do sujeito que, através de um esforço pessoal, não se envolveria com o tráfico e consumo de drogas consideradas perigosas e destrutivas como o crack e a cocaína. O fortalecimento de laços familiares e de amizade e a educação são também vistos como saídas para os problemas advindos do envolvimento com as drogas. As propostas invocam um discurso que, além de denunciar a situação dos jovens da periferia, propõe mecanismos de proteção para criar uma alternativa de "vida possível" – de convivência com a violência, com o tráfico e consumo de drogas.

Palavras-chave: Periferia, Rap, Consumo de drogas


ABSTRACT

The objective was to analyze the messages about drugs of the rap lyrics from representative and influential groups among the youth living in the periferias of São Paulo. It understands that rap is a kind of music that is part of cultural movement – the hip hop – that disseminates a particular set of ideas, mainly in the periferias of the big cities. Through Discourse Analysis 11 lyrics of 9 rap groups were taken as a sample. The outstanding theme of the lyrics is the situation of the segregated areas of the city, including the presence of drug trafficking and consumption, as well as violence and discrimination. The problem of drug consumption is understood by a few rappers as a consequence of capitalism, and by others as individual characteristics and the influence of family and friends. The rap proposal to confront and to overcome those problems is making a personal effort to keep a distance from drug trafficking and consumption, especially from crack and cocaine, considered risky and potentially destructive. Family empowerment, friendship and formal education are also listed as important to prevent drug problems. Therefore, the rap proposal relies strongly on individual power, making a discourse that goes beyond denunciation, it proposes developing protection mechanisms to live with violence, drug trafficking and consumption.

Key words: Deprived areas, Rap, Drug of abuse


 

 

Introdução

O artigo analisa as mensagens sobre drogas nas letras de rap, manifestação cultural juvenil bastante difundida em grandes centros urbanos. O rap será analisado como uma cultura produzida por jovens, negros e pobres de periferia, que se torna produto de consumo e de influência para os jovens da cidade de São Paulo.

Esse estilo musical faz parte de uma vertente cultural mais ampla denominada de cultura hip hop, estruturada em três pilares principais, que constituem sua expressão artística ideológica: a dança representada pelo break; a pintura pelo grafite; e finalmente a música expressa através do rap (Guasco, 2001; Oliveira, 1999; Sposito, 1994). Atualmente o hip hop adquire importância de movimento artístico e fenômeno sociocultural, refletindo transformações econômicas e sociais das últimas décadas (Guasco, 2001).

A música rap, criação tecnológica feita a partir de elementos acústicos e fragmentos de diversos outros padrões musicais, com batidas rítmicas influenciadas principalmente pelo funk, começou como uma música para dançar o break e para servir de base rítmica para uma improvisação poética que tem como conteúdo principal o protesto social e o retrato da vida dos jovens negros de periferia envolvidos no movimento hip hop. Tem suas origens no bairro do Bronx em Nova York por volta de 1970 (Andrade, 1996; Sposito, 1994).

O rap não se reduz somente a um estilo musical ou mecanismo habitual da sociedade de consumo, mas adquire caráter de instrumento de comunicação do jovem que expressa seu cotidiano e critica o mundo que o cerca. Sposito (1994) confirma a característica do rap como um produto da sociabilidade juvenil (...) capaz de mobilizar jovens excluídos em torno de uma identidade comum. Os rappers vêm utilizando esse estilo não somente como forma de comunicação e de expressão, mas também como forma de lazer, posicionando-se diante de seus pares e de toda a cidade.

Sposito (1994) vem destacando a condição do rap como uma manifestação cultural da periferia que se caracteriza por dois tipos de fenômenos: o primeiro diz respeito ao RAP enquanto gênero musical, consumido pela juventude, em especial negra e trabalhadora, (...) o segundo (...) envolve a disseminação do RAP enquanto prática de produção cultural.

O rap utiliza uma forma particular de expressão para alcançar o jovem: a gíria, materialização de uma nova norma da lingüística. Pretti (1984) analisa que os hábitos lingüísticos estão ligados de maneira indissolúvel ao modo de viver e encarar a vida. A sociedade, portanto, rege o uso da linguagem e cria o que o autor denomina de norma lingüística. A criação de uma linguagem especial pode atender ao desejo de originalidade, mas também pode ter outras finalidades como servir de código a ser entendido apenas por indivíduos de um grupo ou como elemento de auto-afirmação.

Dessa forma compreende-se que a gíria é um fenômeno que é construído por um determinado grupo, que a utiliza como um signo de grupo. Pretti (1984) afirma que quanto maior o sentimento de união entre as pessoas de um grupo mais a linguagem servirá como elemento identificador e de auto-afirmação.

No Brasil, o movimento hip hop teve como berço a cidade de São Paulo, na década de 1980, manifestando-se primeiramente através do break, dançado nos bailes blacks e na Estação São Bento do Metrô, zona central da cidade.

O movimento hip hop no Brasil se estruturou também em organizações comprometidas com a formação do jovem através de atividades comunitárias, seja shows de grupo de rap, mídia escrita ou convivência promovidos na periferia, com intuito de formar junto do jovem de periferia uma consciência política, de cidadania, artística e cultural. As posses promovem atividades envolvendo conteúdos que não são abordados pela escola formal com a profundidade desejada pelo movimento hip hop – como por exemplo, a questão racial (Sposito, 1994).

 

O rap como visão de mundo da periferia

Em primeiro lugar, compreende-se aqui que os rappers tendem a expressar artisticamente um conjunto de idéias que fazem parte da visão social de mundo da classe a que pertencem (Lowy, 2002), engendrando, a partir do lugar que expressam, dimensões inovadoras e subjetivas da condição humana, da aspiração que os homens têm de se completarem, de exercer sua criatividade. No capitalismo essa inquietude da criação é lida como subversiva da ordem dominante sendo solapada por outro conjunto de idéias: a ideologia dominante (Konder, 2002).

Nesse sentido, o rap, no contexto específico da periferia, poderia estar contribuindo para o processo de emancipação humana, no sentido marxista, que vai se conformando pela capacidade de adquirir cidadania plena, ou seja, participar socialmente, desenvolvendo as potencialidades de realização humana abertas por essa forma de expressão e apropriando-se dos bens materiais e culturais construídos socialmente pelos homens (Coutinho, 2000).

Em segundo lugar, o estudo toma também como referência teórica a compreensão de que a problemática do consumo de drogas na contemporaneidade deve necessariamente passar por uma análise de âmbito estrutural, ou seja, pela concepção de que este processo é determinado socialmente, a partir do modo de produção dominante. De acordo com Baratta (1994), as drogas diferenciam-se no capitalismo por assumir as características de uma mercadoria. Sabe-se que o tráfico de drogas é por excelência um negócio capitalista, uma vez que se vale de uma organização e ideários empresariais, sendo estimulado pelo lucro e regulado pelas leis do mercado e do consumo (Coggiola, 2001).

Embora o consumo prejudicial de drogas possa afetar todas as classes sociais, Kaplan (1997), ao analisar o narcotráfico nos países latino-americanos, chama a atenção para o fato de que os mais prejudicados são os que vivem em condições precárias e por isso se envolvem também com o tráfico, como é o caso de muitos jovens na periferia, que se tornam vítimas da droga e da criminalidade ao cometerem delitos para poder consumir a droga.

No caso brasileiro, a periferia atual das grandes metrópoles tem suas origens nas décadas de 1930 e 1940 como conseqüência do processo de industrialização e urbanização que não foi acompanhado de uma política de reforma agrária. A periferia paulistana se constituiu num primeiro momento pela ocupação desordenada dos espaços acessíveis da metrópole pelos imigrantes que buscavam uma alternativa de vida na região e procuravam trabalho nas indústrias. Num segundo momento, após a crise estrutural dos anos 70 e 80, com a globalização econômica apoiada pelo projeto neoliberal, a periferização se ampliou para incluir setores da cidade cujos moradores foram atingidos por um processo de proletarização (Maricato, 2002; Santos, 1996).

A ausência de políticas públicas de educação e saúde, saneamento, entre outras, aliada aos altos índices de desemprego tornam a periferia um espaço privilegiado de pobreza e marginalidade. A violência e o tráfico de drogas tornaram-se portanto problemas que a afligem de maneira especial.

 

Procedimentos metodológicos

Para delimitar o objeto de estudo, em primeiro lugar, procedeu-se à identificação dos grupos através dos critérios de influência e penetração no meio juvenil, principalmente entre os jovens das periferias da cidade de São Paulo, onde o movimento hip hop aglutina diversos grupos.

Para tanto, os grupos foram selecionados através de duas revistas especializadas em rap: a RAP Brasil e a RAP Rima, que circulam entre os rappers. O critério de escolha levou em consideração a freqüência com que o grupo foi citado em entrevistas, matérias ou propagandas, que ocuparam no mínimo uma página. Para essa seleção foram consultados os números 1, 2, 3, 4, 5, 7, 8 e 15 (de um total de 15 números editados) da revista RAP Brasil e os números 1, 2 e 3 (de um total de 5 números editados) da revista RAP rima. A partir da seleção dos grupos, procedeu-se a um primeiro levantamento das letras, utilizando como critério a presença direta ou indireta de mensagens sobre drogas. As letras dos grupos selecionados foram levantadas a partir da discografia encontrada no comércio de CDs e revistas, e sites da internet.

Os grupos, autores das letras pré-selecionadas, foram estudados, apreendendo-se características como: tempo de existência; importância quantitativa da produção artística; reconhecimento no cenário do rap e popularidade no meio juvenil. Para essa tarefa utilizaram-se como principal fonte de dados sites da internet, revistas, jornais e os próprios encartes dos discos. Foram utilizados diferentes revistas e jornais como Rap Rima e Rap Brasil, revista Trip e revista Raça e o jornal a Folha de S. Paulo.

Das várias letras encontradas que fazem alusão às drogas, nos diferentes grupos selecionados, finalmente, priorizaram-se as letras que trazem a droga como tema central para, em seguida, dar lugar às letras que tratam das drogas sem que este seja seu tema central. Quando havia mais de uma letra por grupo, o critério de escolha foi a popularidade da música verificada através do site <www.usinadosom.com.br>.

No total, foram analisadas onze letras dos nove grupos selecionados, sendo: Crime vai e vem, Mágico de Oz e Mano na porta do bar, do grupo Racionais MCs; Paranóia delirante do grupo XIS; A lei do grupo RZO; Malandragem dá um tempo do grupo Thaide e DJ Hum; Olha o menino do grupo 509 E; Gangsta Joe do grupo Doctors MCs; Nada é mais como antigamente do grupo Facção Central; Cavando sua própria cova do grupo SNJ e finalmente Cocaína do grupo Sabotage.

Dessa forma e procurando contemplar todos os períodos históricos do rap paulistano, foram analisadas uma letra de cada grupo, com exceção dos Racionais MCs que tiveram três letras analisadas, sendo uma de 1993 – primeiro período do grupo, outra de 1997 e a terceira do último disco de 2002.

Os Racionais MCs constitui o grupo mais popular e mais antigo entre os selecionados. Esse grupo, bem como, o RZO e o Facção Central adotam um discurso de denúncias sobre como o capitalismo destrói a vida de jovens negros e pobres da periferia. Já o Thaíde & DJ Hum, o XIS e o Doctor's MC's têm seu foco nas experiências individuais, familiares e de relacionamento interpessoal. O grupo 509 E está preocupado em denunciar mais especificamente os caminhos da criminalidade (509 E se refere à cela na qual os integrantes do grupo se conheceram). Já o grupo SNJ define seu trabalho como "rap futurista", procurando disseminar mensagens "positivas", desvalorizando toda postura pessimista.

Procurou-se, empírica e aprioristicamente, apreender a ideologia nas letras do rap através dos temas: problemas relacionados às drogas e propostas de superação da realidade. A análise do discurso revelou a recorrência de um outro tema – a vida na periferia – configurando-se na verdade como categoria empírica central nas letras analisadas. Para tratar especificamente dos encaminhamentos operacionais da análise de discurso propriamente dita utilizou-se Pêcheux (1990) e Fiorin (1990).

Para colocar em evidência a relação entre discurso e ideologia recorreu-se a Fiorin (1990) que resgata primeiramente a relação entre linguagem e discurso. A linguagem pode ser lida através de um discurso que, em si, diz respeito a uma formação historicamente situada, havendo um campo de expressão através de símbolos da linguagem (sintaxe) e um campo de expressão dos significados (semântica). É a semântica discursiva que constitui o campo da determinação ideológica. A cada discurso, portanto, existe uma determinada visão de mundo que pode ser ideológica ou utópica.

Assim, o discurso relaciona-se com a ideologia na medida em que materializa um conjunto de idéias correspondentes a uma determinada visão de mundo (Fiorin, 1990).

O sujeito do discurso é, nessa concepção, representativo de um determinado contexto histórico exterior ao próprio sujeito – respondendo a determinações sociais singulares –, mas não só, o sujeito teria possibilidade de construir um discurso diferente das idéias dominantes, em espaços de conflitos e contradições que permitem rupturas, discussões e interpretações da realidade diferenciados, constituindo a crítica da ideologia existente (Pêcheux, 1990).

A apreensão dos significados das letras e a análise, através dessa metodologia, pretenderam entender como o enunciador vê o mundo e, portanto, reconhecer, interpretar e reinterpretar as concepções sobre determinado objeto (Car, Bertolozzi, 1999).

Do ponto de vista operacional a primeira coisa a ser feita para conhecer um discurso é a consideração das condições em que esse dizer foi produzido. Neste caso, em particular, saber quem fala (rapper), para quem fala (jovens), de que forma (rap) e de que lugar da sociedade (de uma classe social que integra a periferia das grandes cidades) são elementos fundamentais no processo de comunicação estabelecido pela linguagem (Oliveira, 1992).

 

Resultados e discussão

O rap em suas letras procura denunciar os problemas da periferia, principalmente a exclusão social, as injustiças e a discriminação do jovem negro e pobre. Pretende também alertar o jovem para as possíveis situações perigosas e criar uma identidade comum de proteção entre eles. Para a sociedade o rap se apresenta como um discurso de enfrentamento, de ameaça, como se chamasse a atenção: olhem o que a sua sociedade produziu, estamos de olho em vocês! Oliveira (1999) reitera esta percepção: é um discurso de revolta, de denúncia da realidade, e que para os rappers é um importante instrumento de catarse, de descarga emocional da violência e da cólera. O grupo Facção Central exemplifica essa afirmativa, na letra Nada é mais como antigamente:

Bem humilde esquecido como toda a quebrada
Um detento em formação
Um cadáver, as coisas boas não foram
ensinadas
Ninguém é santo, mas também não tem
demônio aqui, morô?
Se têm dois 157 121 eu se atiro na cabeça
do boy
É só o fruto da semente que o Brasil plantou
Desde pivete, choque, no DP
Polícia, barulho de tiro, cadáver no chão
Com miolo em volta e tiazinha gritando:
ajuda meu filho
Ninguém nunca respeitou nossos direitos
Deram o crack uma glock 22 de pente cheio
A mesma que usam pra roubar o seu rolex
no sinal
Ou a mesma do assalto a banco
Que passa batida pelo seu detector de metal
Em Alphaville é piscina
. . . . . . . . .
Tá aqui a receita
O Brasil dá o revólver
Põe no seu cachimbo uma pedra e adiciona
a cinza
Depois um, dois, três, pá
Mais um caixão na coleção da polícia

O rap procura também levar conhecimento ao jovem a respeito dos mecanismos de sobrevivência na periferia. Cria informações que contrapõem a ideologia veiculada através da mídia – da importância do status econômico e dos meios para conquistá-lo – principalmente televisa, que é considerada um dos maiores vilões na conformação das mentalidades e do imaginário juvenil (Sposito, 1994).

A análise das letras mostrou que se trata de uma forma de expressão marcada predominantemente pela gíria. Dessa forma, de um lado, a gíria imprime a marca da particularidade de um grupo, defendendo sua identidade – a de jovens pobres de periferia. De outro lado, vai se afirmando como símbolo de denúncia das condições de vida. Um e outro aspecto do duplo caráter da gíria (Pretti, 1984) somam-se para alertar a sociedade sobre a existência de um grupo que se forma no seio da marginalidade social.

A preocupação central dos rappers com a periferia, com suas tensões e problemas, estava de certa forma anunciada, uma vez que além de sua origem estar vinculada à própria periferia, de aí ter sua força, é ao falar dela que o rap ganha visibilidade e carisma diante de seu público (Guasco, 2001), criando uma identidade que está profundamente arraigada à experiência local (Rose, 1997). Portanto, os rappers, ao denunciarem os problemas de seus pares, remetem-se imediatamente ao espaço ocupado por eles. Espaço que não pode ser compreendido como local geográfico em contraposição a um local central, mas que deve ser compreendido no seio da contradição inclusão e cidadania (econômica e política dos bairros ricos) versus exclusão ou impossibilidade de acessar os bens que são socialmente produzidos (bairros pobres ou periféricos).

Os rappers assumem portanto a periferia como espaço de exclusão, seja pela ausência de Estado, seja pela presença perniciosa do crime, do tráfico, da corrupção policial e da discriminação social e racial. Mas a descrevem também como espaço de igualdade e de solidariedade, compartilhados no "lar" da exclusão social. É compreendida então como uma categoria social com características comuns aos bairros pobres com problemas semelhantes. Diferencia-se dos bairros ricos justamente pela exclusão e discriminação. O rap denuncia a ausência de Estado na periferia o que contribui também para caracterizar o que seria a vida na periferia, informação também disseminada pela mídia. Essa generalização acaba por reforçar a noção de periferia como um determinado meio social e não como um lugar espacial (Guasco, 2001). A qualificação negativa do discurso dos rappers sobre a periferia homogeneíza as diversas periferias. Esse fato faz com que os rappers dos diferentes bairros em condição de periferia construam identidades iguais, aproximando-se independentemente do lugar de origem. É por isso que os rappers valorizam a solidariedade e a lealdade entre os moradores da periferia.

Assim para os rappers as influências negativas ou positivas da família e dos amigos são compreendidas como fatores preponderantes para que o jovem ingresse no crime e no consumo de drogas. Portanto as propostas que ficam mais evidentes nos seus discursos são as de valorização individual e familiar. O estudo, a prática de esporte, a música e o bom relacionamento com as pessoas que vivem na periferia, bem como a religiosidade e a compreensão das conseqüências "da vida do crime e da droga" tornam-se instrumentos potentes para a superação dos problemas em contraposição ao poder do consumo e do tráfico como meio de obtê-lo. Zaluar (1996) elucida tal invocação dos rappers, teorizando sobre sua reação em recorrer a referências como a família e os amigos, pois na periferia desaparecem outras figuras masculinas até então valorizadas, respeitadas e influentes (...) como o bom jogador de futebol, o bom sambista, o bom pai de família, o trabalhador habilidoso, o malandro esperto (...). O poder do bandido armado e montado na grana é incontestável (...) o adolescente que procura seus espelhos vê cada vez mais apenas essa figura.

Dessa forma a periferia aparece nas letras através de dualidades que são marcantes em seu cotidiano. Pode ser retratada como lugar que valoriza os talentos individuais, principalmente da música e esportes, mas que pode se tornar empecilho, devido à dificuldade de acesso e desvalorizar a condição humana devido à violência e às drogas. Possibilita portanto a ascensão individual e a destruição, a amizade e a discórdia, uma vida comum ou de criminalidade.

Conforme relatado, a ausência do Estado na periferia e a corrupção são denunciadas pelos rappers, sendo que o governo e a polícia são as instituições públicas com maior descrédito e ao mesmo tempo são tidas como indispensáveis para a melhoria das condições de vida. A maneira como essas instituições se apresentam na periferia é vista pelos rappers como uma má influência para os jovens que acabariam por tomá-las como exemplo. A polícia, por exemplo, no caso do porte de drogas, tem o poder de classificar o infrator como usuário ou traficante, apoiando-se na subjetividade interpretativa do delito (...) para julgar os que cometem um crime de maior ou menor gravidade (Zaluar, 1996).

A polícia acaba por ter um papel discriminatório com uma atuação confusa que é percebida e denunciada pelo rap. Zaluar (1996) lembra ainda que muitas vezes o efeito esperado da atuação policial torna-se oposto, terminando freqüentemente na antipedagogia da corrupção e da violência arbitrária. Assim como os rappers, a autora entende que a presença do Estado através da escola – de um projeto pedagógico que valorize o diálogo, os meios verbais de negociação do conflito, em detrimento da força bruta (...) – são atributos importantes para a melhoria da criminalidade e conseqüentemente das condições de vida na periferia.

Os rappers compreendem que a criminalidade e o envolvimento com o "mundo" das drogas podem levar a conseqüências desastrosas para os jovens e suas famílias, como a morte, a prisão e a violência. Com isso também concorda Zaluar (1996), assinalando que o tráfico pode ocasionar a morte dos jovens e a conseqüente diminuição das rendas das famílias da periferia. Kaplan (1997), assim como os rappers, associa o tráfico de drogas à violência como uma das conseqüências da conexão entre a droga e a estrutura montada pelo crime.

Um dos aspectos marcantes nas letras é a dupla possibilidade de o jovem ter uma vida comum e respeitosa permeada por valores familiares de amizade e com poucos bens materiais (longe dos aspectos negativos da periferia) ou de ter uma vida de tráfico e criminalidade. O cotidiano retratado nas letras exige dos jovens comportamentos e atitudes necessários para sua sobrevivência e para uma "vida do bem", baseados nas próprias contradições apresentadas na vida da periferia. Se o jovem não tiver certas qualidades pode ser atraído pelo tráfico, uso de drogas ou criminalidade. Tais qualidades positivas são encaradas pelos grupos como uma maneira de compensar os aspectos negativos da periferia.

Dessa forma, o jovem é responsabilizado com muita veemência pelos seus caminhos e escolhas. As letras assumem, portanto, duas possibilidades de resposta às condições desfavoráveis da periferia: sucumbir e morrer através da violência ou das drogas ou se adaptar e enfrentar as "armadilhas da sociedade".

Os que não permanecem firmes são compreendidos como vítimas das condições sociais a que foram submetidos (Guasco, 2001).

Na periferia não é proibido sonhar, mas os sonhos de ascensão social parecem passar pela mesma dualidade: a satisfação de desejos de consumo pode ser encontrada pelo envolvimento com o tráfico ou, por outro lado, pelo desenvolvimento de talentos individuais notadamente a música (rap) ou o futebol.

O tráfico de drogas e o crime apresentam-se concretamente como meios para satisfazer ambições e anseios de uma vida material com mais bens e mais prestígio. Zaluar (1996) reitera essa percepção afirmando que a vontade de enriquecimento é um grande estímulo que leva o jovem ao crime. A autora também aponta que a mera existência de opções informais do mercado ilegal de drogas e demais crimes contra a pessoa e contra o patrimônio minou a perspectiva da profissionalização e da educação como saídas para a pobreza.

Dessa forma, mesmo que as dificuldades do jovem da periferia sejam explicadas pela sua impossibilidade como classe social de acessar os bens que são socialmente produzidos – mediadas por dificuldades de reprodução social das famílias, pela violência doméstica, pela falta de oportunidades e perspectivas futuras, ou pela insatisfação e inconformismo gerados pela vida cotidiana da periferia –, a disposição individual aparece como fator preponderante na escolha de vida do jovem.

Os rappers compreendem que a omissão do Estado se manifesta também na ausência de infraestrutura urbana, tornando a vida ainda mais difícil e o lazer ficando a cargo dos bares e das esquinas.

Para os rappers o estudo também é considerado um dos fatores que promovem a superação dos problemas dos jovens na periferia. Apresenta-se aqui também outra contradição no discurso. Os rappers cultuam o ensino escolar como um importante valor e o apontam como uma saída para a transformação social. Ao mesmo tempo o estudo formal é considerado um conhecimento distante da realidade, omitindo informações úteis para as transformações propostas. Guasco (2001) afirma que para os rappers a grande diferença é que aquilo que se observa é experimentado na prática cotidiana das ruas e essa seria a única possibilidade efetiva de contato com a realidade.

Adorno (1991) fala da socialização incompleta explicando porque os jovens pobres acabam por evadir-se da escola. De um lado associam trabalho (geralmente no mercado informal) a estudo para poder contribuir com a renda familiar ou para prover seus novos agrupamentos familiares. De outro lado sentem a humilhação de fracassos freqüentes a que são submetidos pelo não-saber, pela falta de tradição de freqüência escolar da sua família ou pela sua origem pobre. Refere também um certo ceticismo proveniente da equação entre "se dar bem" e estudar. Adorno (1991) em pesquisa biográfica retrata que mesmo entre os jovens que param de estudar por motivos econômicos (...) não há firmes convicções a propósito da utilidade da escola. Esta é vista de forma negativa pela imposição de um aprendizado estranho ao seu universo cultural.

Para Adorno (1991) o trabalho infantil proporciona um bloqueio na escolarização e na profissionalização do jovem. O autor argumenta que a incorporação precoce ao mercado de trabalho, longe de amenizar a pobreza, cumpre o papel de preservá-la.

Diante dessa realidade, apesar da negação da educação formal, os rappers ainda apostam na escola como um espaço de mediação entre eles e os jovens. Sposito (1994) aponta que os rappers percebem a importância da utilização das dependências da escola para reuniões e ensaios e como via de acesso aos alunos, realizando apresentações e debates para divulgar sua mensagem.

Os rappers, ao tratarem da problemática das drogas, evidenciam a questão do tráfico como uma preocupação central, porém não deixam de qualificar negativamente também o consumo de drogas, principalmente o de crack e cocaína. Essas drogas são compreendidas como substâncias que trazem desgraça ao indivíduo e que realmente causam dependência e alienação. Há uma ênfase especial nos danos causados pelo crack. Às demais drogas não são atribuídas as mesmas características de destruição do crack ou da cocaína. É considerado viciado quem é usuário dessas drogas. Este acaba por ter um comportamento inconsciente perdendo o controle da situação, tornando-se violento, uma pessoa anormal, e dominada pela droga. Muitas vezes perde o respeito em sua "área".

A visão que os rappers têm a respeito do crack e da cocaína como drogas que incitam a violência e levam à morte ou ao envolvimento com o tráfico é explicada por Zaluar (1996). Essas drogas contribuem para um clima de desconfiança entre todos na medida em que produz uma paranóia em que o jovem se imagina cercado de inimigo por todos os lados. Para sair da depressão causada após o consumo e da vontade incontrolável de repetir a dose (...) o usuário cria dívidas com o traficante ou com policiais corruptos e passa a furtar, roubar e até matar para manter seu vício, não morrer por falta de pagamento ou não ser preso quando apanhado (Zaluar, 1996).

Os rappers, em geral (pois somente parte dos grupos adotam essa noção), fazem também uma outra distinção entre as drogas. Algumas são consideradas "naturais", como a maconha e outras "químicas", como o cigarro, o álcool, o crack e a cocaína. As drogas "naturais" podem estar associadas à noção de paz, felicidade e socialização, não trazendo prejuízos ao jovem. Na direção oposta, as drogas "químicas" podem assumir um poder metafísico capaz de controlar o indivíduo, levando-o à dependência e possivelmente à morte e à prisão. Nota-se que o rap parece fortalecer uma outra classificação, equivocada do ponto de vista científico, drogas "leves" – como a maconha e o álcool – e drogas "pesadas" – crack e cocaína. As drogas "leves e naturais" são associadas à periferia da paz e as drogas "pesadas e químicas" à periferia perigosa. Ocorre uma ambigüidade em relação ao álcool que pode ser considerado destrutivo ou socializador. O Grupo Sabotagem exemplifica essa percepção na letra de Cocaína:

Mesmo estando ausente haverá sempre
quem critique
Cerveja, uísque, um trago, uísque
Dos manifestos maléficos o homem
é o próprio fim
A química é o demo e quer então nos destruir
Vários da função só sangue bom que viciaram
Do Brooklin ao Canão tem branca pura
em Santo Amaro
Muitos que estão com o pensamento
ao contrário
Quem não se aposentou só se tá preso
ou é finado
Alguns pedindo nos faróis, desnorteados
Tem química na fita, contamina os brasileiros
Criança de seis anos com o cigarro nos dedos
Só no descabelo como disse o sem cabelo
eu creio
Que o poder quer atitude e respeito
Mas observe os pretos sendo tirado no Brasil inteiro
Então prefiro sim um fininho do que me diz
Do que a pedra no cachimbo e o pó no nariz
Afinal é tipo assim, pretendo usufruir
Já vi vários lutarem contra o vício e consegui

Basta saber esperar, ligeiro e não vacilar
Na moralina toda estrela sei que há
de brilhar por que
Cá cocaína vou parar
Eu sei coca eu sei que mata
Por isso eu tenho que parar de cheirar
Dessas eu não posso desandar

Os grupos têm uma preocupação em mostrar os aspectos internos à realidade do pequeno tráfico, procurando alertar o jovem para as conseqüências do envolvimento. Nas letras não existe menção às conexões do pequeno tráfico com os grandes esquemas de produção e distribuição dessa mercadoria.

Embora o rap não se preocupe em relacionar o tráfico no espaço da periferia com o grande tráfico, os problemas dos bairros e particularmente do consumo de drogas são relacionados com o lugar que a periferia ocupa no modo de produção capitalista. Compreendem que quem vive na periferia faz parte de uma classe social duplamente submetida, às relações de produção capitalistas e, na sua forma contemporânea, às condições da globalização e do projeto neoliberal. Assim como os países da periferia do capitalismo, a periferia circunscrita em si mesmo serve aos interesses de reprodução do capital, ocupando a função de prover uma força de trabalho mal remunerada, a quem a formação social destina muito pouco.

As teorias explicativas para o consumo de drogas entre os jovens apresentadas pelo rap oscilam das compreensões de cunho microssocial, como apresenta o grupo Thaíde & DJ Hum (envolvendo o contexto social mais próximo – família e amigos – e o próprio usuário), até as de cunho macrossocial, exemplificado pelo grupo Racionais MC's, que atribui o consumo às relações que se estabelecem no modo de produção capitalista contemporâneo.

Veja-se por exemplo alguns trechos da letra de Malandragem dá um tempo do grupo Thaíde e DJ Hum:

Crescemos juntos sempre quis te ver numa boa
Mais parece que você não quer se ajudar
o que que há?
Você não era de dar sopa pro azar, de repente ficou diferente
Não troca mais idéia com a gente
Só te vejo correndo pra cima e pra baixo
angustiado descarregando pente
Às vezes nem me reconhece no meio da rua outro dia até me estranhou
Qual é a sua?
E você não precisa mentir pra mim dizendo que sua família tá bem a pampa
Faz uma cara que você não da noticias
em casa
E se acaba de graça com os manos
da sua banca
O que fazer se você escolheu assim revólver
pó pedra covardia enfim
Uma vida perigosa pra você e pros outros
que certamente lhe trará o fim
. . . . . . . . .
Na brincadeira de criança você nunca
queria ser o bandido
Hoje dá perdido em uns vende pedras
pra outros
Se você sai do buraco te expulsam do morro
Muitos dos seus camaradas só colam na sua quando você tá com dinheiro pra bancar
várias cervejas
Ou então também quando a grana fácil
não vem você é o cara que tem como
completar a seda

E trechos da música Crime vai e vem dos Racionais MCs:

Dinheiro, segredo palavra-chave
Manipula o mundo e articula a verdade
Compra o silêncio, monta a milícia
Paga o sossego, compra a política
Aos olhos da sociedade mais um bandido
E a bandidagem paga o preço pela vida
Vida entre o ódio, traição e o respeito
Entre a bala na agulha e uma faca cravada no peito
Daquele jeito ninguém ali brinca com fogo
Perdedor não entra nesse jogo
É como num tabuleiro de xadrez
Xeque-mate vida ou morte um dois três
Vê direito, pare pensa nada a perder
O réu acusado já foi programado pra morrer
Quem se habilita a debater
Quem cai na rede é peixe não tem pra onde correr
O crime vai o crime vem
A quebrada tá normal e eu tô também
O movimento dá dinheiro sem problema
O consumo tá em alta como manda o sistema
. . . . . . . . .
Eu tô aqui com uma nove na mão
Cercado de droga e muita disposição ladrão
Fui rotulado pela sua sociedade
Um passo a mais para ficar na criminalidade
O meu cotidiano é um teste de sobrevivência
Já tô na vida então paciência

É possível que a ênfase dada por alguns rappers ao sujeito e ao contexto social mais próximo na explicação do consumo de drogas se deva a uma necessidade de chamar a atenção para aspectos da realidade que poderiam ser "controlados", uma vez que modificações na estrutura e dinâmica do modo de produção significariam ações mais distantes e mais globais. Sabe-se que a desconsideração de qualquer dos elementos presentes no consumo de drogas macro ou microssocial – o sujeito, os contextos mais próximos e a droga propriamente dita – pode levar à uma supervalorização da droga, sua demonização (Zaluar, 1994) ou à atribuição de um peso excessivo ao indivíduo (Soares, Jacobi, 2000).

Esse processo é acompanhado pela relação entre drogas e violência difundida socialmente com facilidade tanto pela mídia (Noto et al., 2003) quanto por produções de caráter científico e que como chama a atenção Minayo e Deslandes (1998) necessita ser desmistificada. Quase sempre a violência é produto da droga; a droga é produto da periferia ou dos bairros pobres, fechando-se um círculo que se esgota em si mesmo, sem que explicações estruturais sejam invocadas (Minayo & Deslandes, 1998).

Para completar, parece haver um descompasso entre os perfis epidemiológicos relacionados ao consumo de drogas e a atenção dada pela mídia a drogas como o tabaco e derivados de coca (Noto et al., 2003).

Rodrigues (2003), Coggiola (2001) e Kaplan (1997) concordam com a explicação macroestrutural dada por alguns rappers que aponta a droga como uma mercadoria. Coggiola (2001) e Kaplan (1997) chamam a atenção para o caráter perverso desse comércio que vai recrutar consumidores privilegiadamente nos cinturões e bolsões de pobreza, como a periferia. Os grandes traficantes utilizam-se da força de trabalho dos bairros pobres para a comercialização da droga e dos moradores como um grande mercado consumidor.

As propostas dos rappers consistem em enfrentamentos individuais, familiares, religiosos ou pela abstinência das drogas "pesadas" – do crack e cocaína que, conforme visto anteriormente, constituem as grandes vilãs na opinião dos rappers. A proposta mais evidente é a de valorização individual e familiar e no caso dessas drogas a abstinência. O estudo, a prática de esporte, a música e o bom relacionamento com as pessoas que vivem na periferia também são propostas recorrentes. A maconha na visão de alguns grupos não representa perigo para o jovem da periferia, sendo que o uso é tolerado. Não há propostas relativas a outras drogas. Toma-se o exemplo do grupo SNJ em Cavando sua própria cova para exemplificar essa abordagem:

Pare, pense, tente se conscientizar
Palavras apenas não, não adiantará
Agir com perfeição pode lhe ajudar por que então oha
Faca cravada na sua garganta
Irá explodir nas suas veias
Você não prevê seu futuro se não quiser

As propostas do rap para a superação dos prejuízos que podem advir do envolvimento com o tráfico e o consumo de drogas refletem um conjunto de proposições relacionadas à concepção de "guerra às drogas", propondo a abstinência de algumas drogas como um fator de proteção para os jovens. Consideram que o consumo, principalmente, da cocaína e do crack está diretamente ligado à violência e à desgraça do jovem, portanto, o não envolvimento com essas drogas no mundo da periferia seria fundamental para a resolução dos problemas relacionados à violência e a fins trágicos.

Tal proposta, no limite, pode ser considerada idealista, uma vez que, como se viu, a periferia é o centro privilegiado do tráfico de crack. Pedir ao jovem que não se deixe alistar no exército de traficantes e consumidores é certamente desconsiderar o peso da trama formada pelo tráfico na periferia, propondo uma resistência praticamente irreal ao sujeito.

Isso talvez explique também o fato de que, apesar do envolvimento dos rappers com instâncias políticas de atuação como as posses (Sposito, 1994), não foram observadas propostas políticas como a participação dos jovens em movimentos sociais, por exemplo.

 

Considerações finais e implicações para as políticas públicas de saúde

As mensagens do rap fazem a denúncia dos problemas relacionados à periferia, principalmente a exclusão e a violência, alertam o jovem para tais problemas e pretendem criar informações desvinculadas da mídia – ideologia dominante – para que os jovens construam mecanismos de enfrentamento das adversidades. Os rappers compreendem periferia como bairros que apresentam problemas de exclusão social e discriminação – principalmente policial –, mas também como lugar de amizade e ascensão social. Dessa forma a periferia pode ocupar qualquer espaço geográfico na cidade.

Os rappers apontam duas possibilidades de vida na periferia: a de se corromper pelo "sistema" ou por influências familiares e de amizade ingressando no mundo da criminalidade e/ou no consumo de drogas ou, por méritos pessoais, adaptar-se e enfrentar a dinâmica social imposta tendo assim uma vida respeitosa. As relações de amizade, família e religião são valorizadas pelo rap e entendidas como fundamentais para um convívio social saudável, longe da criminalidade e das drogas. Portanto as propostas estão sempre associadas à valorização individual, familiar e de laços de amizades.

Em relação aos problemas relativos ao consumo contemporâneo de drogas pelos jovens, pode-se concluir que no campo explicativo há uma tendência de alguns grupos em expressar através do rap uma compreensão estrutural do consumo de drogas, localizando-as como mercadoria cuja produção, distribuição e consumo envolvem os jovens da periferia numa teia perversa que acaba muitas vezes na criminalidade quando não na morte. No campo propositivo, as práticas se conformam em propostas de fortalecimento do sujeito através de um esforço de não envolvimento com o tráfico e de abstinência das drogas consideradas problemáticas como o crack e a cocaína, drogas às quais é atribuído um poder quase sobrenatural, capaz de "dominar" e alienar a vida do jovem.

Nesse caminho o peso dado ao indivíduo pode parecer espetacular. Tal tarefa deve ser compreendida no contexto da periferia, uma vez que não há no horizonte mudanças radicais para essa condição e uma vez que o comércio da droga que parasita os jovens da periferia é a primeira mais lucrativa empresa produzida pela globalização e pelo neoliberalismo e não vem sendo honestamente combatido (Coggiola, 2001; Kaplan, 1997). Ou seja, nos três pólos envolvidos na equação do consumo de droga, o indivíduo, a droga e o contexto, os rappers têm potência para buscar a atenção dos sujeitos para que façam escolhas mais saudáveis para si e sua família.

Uma das características da arte é a expressão de insatisfação, questionamento, freqüentemente de revolta, em face do modo como está organizada a sociedade (Konder, 2002), contrapondo-se à visão social de mundo dominante e o rap o faz na denúncia das condições de vida na periferia, mostrando-se potente também para fazer proposições que tenham como objeto a transformação desse contexto. Ao negarem as informações produzidas pela mídia e pela "sociedade não periférica" sobre os problemas da periferia, o rap poderia veicular uma proposição utópica, ou seja, transformadora em relação àquela por eles criticada.

O rap assume a "função a que veio", trazendo um discurso que além da denúncia, propõe uma alternativa de vida possível na periferia, de convivência com a violência, com o tráfico e com o consumo de drogas. No contexto da exclusão, do desemprego, da agressão policial, da descriminação e da violência do tráfico, o rap torna-se uma referência e cria uma identidade através da qual o jovem de periferia pode se (re)estruturar.

Este estudo reitera a necessidade, já apontada em outros trabalhos, de ampliar a qualificação da força de trabalho em saúde na área de drogas, para além do que tradicionalmente vem sendo ensinado – o tratamento de dependentes –, procurando superar preconceitos, socialmente disseminados e que compõem a ideologia dominante, que faz recair sobre o indivíduo todo o peso relacionado ao consumo e às suas conseqüências (Soares, Campos, 2004).

A prevenção ao consumo prejudicial de drogas demanda do setor saúde a tarefa de recolocar a complexidade dessa discussão, evidenciando a sua dimensão estrutural, politizando os diferentes setores sociais e em especial a juventude negra e pobre sobre os determinantes desse processo e oferecendo apoio e acolhimento para o jovem, inclusive adotando práticas de redução de danos, que possam fortalecer os jovens e evitar desfechos trágicos (Soares, Jacobi, 2000).

 

Colaboradores

VG Bento da Silva elaborou o artigo a partir da dissertação de mestrado de sua autoria. CB Soares foi orientadora do estudo, tendo colaborado também na elaboração do artigo.

 

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Artigo apresentado em 3/3/2004
Aprovado em 14/6/2004
Versão final apresentada em 14/7/2004