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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.9 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232004000400028 

RESENHAS REVIEWS

 

 

Martha Cristina Nunes Moreira

Departamento de Ensino / Saúde & Brincar – Programa de Atenção Integral à Criança Hospitalizada

 

 

A dádiva da sobriedade: a ajuda mútua nos grupos de alcoólicos anônimos. Leonardo Mota. Editora Paulus, São Paulo, 2004, 199pp. (Série Alternativa)

A relevância do problema do alcoolismo para a área de saúde pública e para o sub-setor de saúde mental é inegável conforme os dados compilados pela Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde (2003). Seis por cento da população brasileira apresenta transtornos psiquiátricos graves decorrentes do uso de álcool e outras drogas, e 10% da população mundial sofre com transtornos relacionados a esse uso. No Brasil, em 2001, foram internadas 84.467 mil pessoas por problemas relacionados ao uso de álcool, com um custo de mais de 60 milhões de reais para o Estado. No entanto, apesar desse quadro, das iniciativas profissionais e das políticas de saúde voltadas para esse segmento da população, ainda existe um vasto campo de preconceitos envolvendo a presença e organização de outras formas de apoio ao alcoolismo na sociedade. E daí cabe perguntar qual o espaço de interlocução possível entre o campo técnico e acadêmico e as possibilidades de recuperação de pessoas que sofrem com o alcoolismo que tem como base a força de um grupo cuja maior causa se funda sobre a "dádiva da sobriedade".

Partindo do cenário acima é que comentamos o livro de Leonardo Mota, apontando como um dos méritos de seu trabalho a aplicação do estudo sociológico a um problema social e de saúde reconhecido – o alcoolismo – pela perspectiva de análise dos grupos de AA (Alcoólicos Anônimos) que surgiram nos Estados Unidos em 1935 e no Brasil, em 1947. Baseado em uma rigorosa pesquisa empreendida, o autor assinala a possibilidade de rever a literatura laica sobre os grupos de AA e superar a superficialidade que acabam reservando na área acadêmica ao estudo sobre esses grupos. Associando a essa revisão as técnicas de observação participante, as entrevistas, os questionários e as histórias de vida com alguns dos membros dos grupos estudados, Mota tem acesso também aos conflitos e formas de construção de sociabilidade que propiciam uma estrutura de auto-ajuda e o enfrentamento do alcoolismo.

Sua pesquisa teve como campo a cidade de Fortaleza e dez grupos de AA da região metropolitana da cidade, contemplando um universo de cem pessoas participantes. Associando as vertentes qualitativa e quantitativa, o autor discute o campo das novas formas de solidariedade na modernidade, cuja presença dos grupos de AA é uma das formas organizativas de expressão mais conhecidas no mundo. O autor desenvolve seu estudo com base nos argumentos sociológicos sobre a presença da dádiva na modernidade. Para tanto ultrapassa as cosmovisões individualista e holista em sociologia e suas explicações acerca das motivações que residem nas formas de associação entre as pessoas. Dessa maneira a discussão contemporânea acerca do tema da sociabilidade, da estrutura das redes sociais de ajuda mútua, bem como da solidariedade, insere-se nas discussões sobre os sistemas de reciprocidade, e vai ao encontro da Teoria da Dádiva como uma terceira via de análise, que não se rende nem ao individualismo metodológico, nem ao holismo.

Ao buscar a Teoria da Dádiva, retornando a Marcel Mauss (1960) e a uma série de autores que a discutem no contexto moderno em face dos problemas atuais (Martins, 2002; Godbout, 1999; Caillé, 2002), o autor abre ao leitor uma perspectiva que vai ao encontro do contexto relacional daquilo que se dá no intervalo entre agência e estrutura, no dinamismo das relações sociais, das narrativas e ações comunicativas.

Muito embora situada em outro contexto e tratando de outro campo de interesses e tradições – no caso a produção do capital social na Itália moderna –, a obra de Putnam (1996) discute temas como confiança e compromisso recíproco tomando como exemplos as associações de crédito rotativo que se fazem presentes em diversas sociedades. Ao contrapor a prática dessas associações aos dilemas da ação coletiva, em que sobressai ao final o "homem egoísta" que visa a seu próprio bem, o autor se pergunta como essas associações prosperam, superando os receios das deserções. Ao contrário da deserção, o que comparece no cenário é o cumprimento das obrigações para com a contribuição e a reciprocidade. No caso da discussão empreendida por Mota sobre os grupos de AA também podemos nos perguntar sobre os elementos que produzem adesão, confiança, reciprocidade e solidariedade nesses grupos. Uma das respostas está no recurso à "teoria da dádiva" e ao argumento de que a filosofia dos AA e seu funcionamento coloca em operação a tríade dar / receber / retribuir e faz circular a sobriedade como um valor. Se o álcool, de certa maneira, é inicialmente um agente produtor de sociabilidade – um dos significados da bebida em nossa sociedade, e ao qual se atribui um valor positivo, é seu potencial de reunião, encontro e troca – ele se torna para uma parcela da população um agente de dissociação, um fator que gera rupturas no campo das relações sociais, na família e no trabalho.

Os grupos de AA produzem uma série de possibilidades de rupturas biográficas na relação da pessoa dependente com o álcool e com seu campo de relações, reestruturando-as. Primeiramente a lógica dos grupos segundo o autor, não visam reproduzir o papel de "algoz" que o álcool ocupa na vida do alcoolista, assim a coerção não deve ser a marca da ruptura biográfica representada pela alteração da visão de mundo de uma pessoa dependente do álcool quando se filia ao AA. A filosofia do grupo se constrói pelas duas vertentes: aquela referida aos doze passos – que vai marcar a vivência de cada pessoa filiada ao AA; e a das doze tradições – que vai marcar as relações de convivência no grupo. É, portanto a abordagem plural do AA associada a uma cultura de recuperação, que não deixa de evocar a religiosidade representada em um "ser superior", que vai caracterizar o surgimento e a difusão dos alcoólicos anônimos no mundo. Dessa maneira, a dádiva da sobriedade identificada por Mota como algo que foi recebido gratuitamente, e gratuitamente tem de ser oferecido, se concretiza nas formas de abordagem, nas finanças (que devem estar referidas sempre à idéia de que o AA é uma organização materialmente pobre), no apadrinhamento, no serviço e na solidariedade.

Mauss, no Ensaio sobre o dom, afirma que a tríade dar / receber / retribuir refere uma obrigação que estrutura as sociedades arcaicas, e remonta a uma certa universalidade que se traduz como um fenômeno social total. Ou seja, diz respeito ao conjunto das dimensões da ação e exerce profunda repercussão em toda a sociedade (p. 192). Por essa afirmação o dom pode ser entendido como um símbolo. E o paradigma da dádiva transforma o dom, na qualidade de símbolo, no operador específico para a criação e surgimento do vínculo social. A diferença é que nas sociedades arcaicas e/ou nas pequenas sociedades a dádiva representa o ato político por excelência, discriminando o amigo do inimigo, o interior do exterior. Essa ambivalência reconhecida por Mauss originariamente permitia que os amigos de ontem se tornassem os inimigos de amanhã. No interior, nas relações familiares, dos pais, e entre os próximos predomina a dádiva da partilha. A pequena sociedade se funda no interconhecimento, enquanto nas sociedades modernas a aliança se estabelece para além das relações interpessoais. A dádiva nas sociedades pequenas é agonística, ou seja, refere-se às relações pessoa a pessoa, relações primárias. Já nas sociedades modernas, a dádiva tem um análogo que é o político: a possibilidade de perda da pessoalidade, e a possibilidade de, ao mesmo tempo, que se dá a todos não se dá a ninguém. Segundo Caillé (2002) o paradigma da dádiva e do simbolismo corresponde ao paradigma do político.

Mota consegue realizar uma recuperação adequada e criativa da "teoria da dádiva", deixando claro o argumento já anteriormente desenvolvido por Godbout (1999) de que o AA tem no sistema da dádiva um ingrediente fundamental para o estabelecimento de redes de ajuda mútua. E a partir da análise do autor podemos repensar outras tantas formas de associação de base voluntária que tem no grupo a função de apoio social, e a crença na capacidade religante que contribui para a produção de um conhecimento emancipado, e formas de "religião secularizada" (Moreira & Souza, 2002). Nesse sentido, compartilhar, apoiar, produzir e fazer circular valores tornam-se motores para a produção de redes de sociabilidade, em que afetos e relações têm a oportunidade de serem ressignificados, contribuindo para a produção de vínculos sociais.

 

Referências bibliográficas

Caillé A 2002. Antropologia do dom. Editora Vozes, Petrópolis.

Godbout J 1999. O espírito da dádiva. Editora Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro.

Martins PH (org.) 2002. A dádiva entre os modernos: discussão sobre os fundamentos e as regras do social. Editora Vozes, Petrópolis.

Mauss M 1960. Sociologie et anthropologie. Presses Universitaires de France, Paris.

Moreira MCN & Souza WS 2002. A microssociologia de Erving Goffman e a análise relacional: um diálogo metodológico pela perspectiva das redes sociais na área de saúde. Teoria & Sociedade 9(jun):38-61.

Putnam RD 1996. Comunidade e democracia: a experiência da Itália Moderna. Editora Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro.