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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.9 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232004000400031 

RESENHAS REVIEWS

 

 

Elaine Ferreira do Nascimento

IFF/Fiocruz

 

 

Sociologia da sexualidade. Michel Bozon. Editora Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2004, 172pp

Michel Bozon é sociólogo, diretor de pesquisa responsável pela unidade Demografia, Gênero e Sociedades do Instituto Nacional de Estudos Demográficos (Ined), em Paris. É especialista em comportamentos sexuais e autor de diversos livros e artigos sobre família, gênero e sexualidade, além de pesquisas sobre sexualidade, comportamento e sociabilidade realizadas na França, no Brasil e em outros países em parcerias com pesquisadores locais.

O livro de Michel Bozon representa um avanço na incorporação pelo campo da sociologia em tomar para si como objeto de investigação a sexualidade, como ele próprio assinala no início de sua introdução "... a sociologia da sexualidade não existe". Nesse sentido o livro se constitui um produto que busca organizar conhecimento para problematizar a contribuição que a sociologia pode dar a este campo, ou seja, o papel central que a construção social tem na elaboração da sexualidade humana. Assim, a sexualidade tem uma função fundamental na legitimação da ordem estabelecida entre os sexos, como também na representação da ordem das gerações, sendo esta forjada pelo contexto cultural.

O autor estruturou a organização do livro em três partes, que são subdivididas também em três. A primeira parte – "Transformações da sexualidade e emergência da subjetividade moderna" – é um balanço histórico sobre a organização social e sexual dos gêneros, trata, mais especificamente, da ordem dos sexos e das coisas vistas como imutáveis. Classificação dualista e binária dos sexos. Em torno da reprodução, oposição entre feminino e masculino, masculino ativo x feminino passivo. Reforço da dependência social e sexual das mulheres em relação aos homens. Esfera da reprodução, para tal o autor analisa as organizações sócio-familiares contextualizando historicamente diversas sociedades na Antiguidade e na contemporaneidade passando pela Grécia, África e Europa. Aponta o processo de normatização dos corpos e a importante influência da biologia nesse processo. O final da primeira parte fala do que o autor chama de a "segunda revolução contraceptiva" ou o que comumente denominamos de "revolução sexual", a partir do final dos anos 60, nos então países desenvolvidos. Esta se caracteriza por uma reorganização e rédea do controle do corpo, ampla difusão de métodos contraceptivos médicos, associado a uma maior autonomia e controle do processo reprodutivo por parte da mulher. A fecundidade passa a ser vista como projeto individual. Articulação destes acontecimentos em países desenvolvidos e sua comparação com os chamados países em desenvolvimento. O impacto da adoção destes métodos contraceptivos modernos na vida sócio-familiar contemporânea. A redução das uniões oficiais, com casamentos no civil e no religioso; o planejamento no número de filhos; e a racionalização do prazer, associadas ao direito ao prazer, liberação das minorias e maior igualdade sexual entre homens e mulheres.

A segunda parte intitulada "Sexualidade e relações sexuais" trata da organização sexual em relação às idades, com destaque especial para a adolescência e juventude, e como tem sido administrada pelas diversas organizações societárias. Reorganização de hábitos e costumes em relação ao exercício da sexualidade. Em tempos de Aids, aumento da adoção de preservativo masculino e recuo de contraceptivo oral, pelo menos no início das relações sexuais. Nos adultos, fala da vida em comum do casal, da queda na freqüência das relações sexuais, associadas à procriação, parentalidade e influência do investimento na trajetória profissional. Em relação aos idosos o autor aponta o aumento significativo da atividade sexual neste segmento; em particular das mulheres, o que está vinculado ao oferecimento no mercado das modernas técnicas científicas contra impotência e outros. Em termos de práticas sexuais, a homossexualidade ainda aparece relacionada à dificuldade da aceitação institucional e os conflitos internos / privados, como a família; e os externos / públicos, como os amigos, escola e trabalho. Juventude e homossexualidade, e os conflitos familiares e outros advindos desta orientação. Tendência de aproximação das trajetórias e atitudes sexuais de homens e mulheres em países desenvolvidos e manutenção e distanciamento destas mesmas trajetórias e atitudes sexuais em países de origem latina ou considerados em desenvolvimento. De acordo com o autor ... a sexualidade não revolucionou as relações de gênero e nem modificou radicalmente os lugares de cada um, as experiências sexuais continuam estruturadas por pares de oposição, em tensão permanente (p. 94).

A terceira e última – "As construções do desejo e do prazer" – assinala que com o declínio do discurso religioso, tanto a medicina quanto a psicologia são cada vez mais utilizadas como suporte de uma nova normatividade, mais técnica, das condutas e funcionamentos sexuais. Nesta parte o autor faz uma análise sociológica da organização da sexualidade através dos tempos, o surgimento dos escritos eróticos, da pornografia e a libertinagem francesa; está última como uma ruptura nas representações e nos códigos de sexualidade vigente. Aqui o autor defende que todas as experiências sexuais são construídas como scripts sexuais, ou seja, foram apreendidas, codificadas e inscritas na consciência, estruturadas e elaboradas como relatos (p. 130). Os scripts podem ser distinguidos em três: os intrapsíquicos, os interpessoais e os culturais, que se manifestam respectivamente no plano subjetivo da vida mental, no plano da organização das interações sociais e no plano de prescrições culturais mais gerais ou cenários culturais, estes funcionam como esquemas de interpretação. Os scripts culturais têm uma função estruturante para o imaginário sexual de grupos, para os relacionamentos e para os indivíduos. O principal efeito da estruturação dos scripts é inscrever a sexualidade em uma dramaturgia. Esta investigação culmina na elaboração da teoria da orientação íntima, que são lógicas sociais de interpretação de construção da sexualidade. Essa teoria apresenta três modelos: rede sexual; desejo individual; e sexualidade conjugal.

O autor faz uma ampla revisão da literatura e articula basicamente pesquisas do campo da antropologia e sociologia que investigam as organizações sócio-familiares e a sexualidade ao longo da história ocidental, mergulha também em romances históricos e literários, produções artísticas que definiam uma dada contextualização, além de produções televisivas sobre comportamentos e sociabilidades. O estudo faz uma comparação entre avanços e recuos de constituição da sexualidade na França e nos demais países.

Este livro, como Bozon salienta, é a tentativa da incorporação da sociologia no campo da sexualidade; é, portanto, de extrema originalidade; apresenta uma riqueza histórica; é envolvente e oferece elementos pertinentes aos profissionais do campo da saúde, da docência, da educação, em particular aqui para aqueles que lidam com jovens, com adultos e idosos. O livro nos brinda e ao mesmo tempo nos estimula a rever nossos scripts sexuais e nossa capacidade de interpretação do mundo sexual.