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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.11 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232006000400033 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Márcia Furquim de Almeida

Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública, USP

 

 

 

Cesar CLG, Carandina L, Alves MCP, Barros MBA e Goldbaum M. Saúde e condição de vida em São Paulo. Inquérito multicêntrico de saúde no estado de São Paulo – ISA/SP. São Paulo: USP/FSP, 2005. 212p

O lançamento deste livro vem contribuir para preencher importante lacuna dos sistemas de informação em saúde no País, juntamente com os resultados apresentados neste número da Revista Ciência & Saúde Coletiva sobre o Suplemento Saúde da PNAD 2003 e os resultados da Pesquisa Mundial de Saúde no Brasil – 2003, publicados nos Cadernos de Saúde Pública. Os inquéritos de saúde geram informações complementares às informações provenientes dos sistemas de informação de fluxo contínuo e constituem-se em mecanismos indispensáveis para fornecer uma visão em maior profundidade das condições de vida e saúde da nossa população, assim como para a avaliação das ações de saúde.

Esta publicação expressa também o claro compromisso da área de saúde pública/coletiva das universidades públicas paulistas e da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo com o conhecimento das condições de vida e saúde da população do Estado. O ISA-SP envolveu docentes do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública/USP (Chester Luiz Galvão César), do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina/USP (Moises Goldbaum), do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas/Unicamp (Marilisa Berti de Azevedo Barros), do Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina/Unesp (Luana Carandina) e de pesquisadora do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (Cecília Goi Porto Alves).

O inquérito de saúde traz importante contribuição no conhecimento de condições de Saúde de duas regiões metropolitanas – Campinas e Grande São Paulo (Taboão da Serra, Embu e Itapecerica da Serra) –, município de São Paulo (distrito de saúde de Butantã) e incluiu um município de porte médio (Botucatu) no interior do Estado.

A introdução (Barros MBA) contempla discussão sobre a importância dos inquéritos de saúde na construção de indicadores de saúde, que utilizam conceitos como qualidade de vida em saúde, autopercepção do estado de saúde, e de indicadores sobre saúde mental e estilo de vida e morbidade referida, mostrando que este instrumental permite uma aproximação das condições de saúde da população maior que o emprego de indicadores de saúde tradicionais calculados com base em dados secundários. A metodologia e o plano de amostragem utilizados encontram-se bastante detalhados (Alves MCP) no capítulo I.

O capítulo II, Condições de Vida, mostra que as piores condições de vida foram encontradas nos municípios periféricos da Grande São Paulo, onde havia maior proporção de habitação e entorno com condições inadequadas, maior freqüência de chefes de família desempregados, pessoas originárias de outros Estados da federação, sendo que estes eram também mais jovens.

As doenças crônico-degenerativas hoje têm papel predominante no perfil epidemiológico do Estado de São Paulo, e o livro traz inovações na avaliação das condições de saúde, abordando várias facetas do estilo de vida da população, tais como avaliação da qualidade da dieta e hábitos alimentares de autoria de Fisberg e colaboradores, em que se identifica que apenas 4% da população estudada apresentaram dieta adequada, 74% tinham dieta em que havia necessidade de modificação e 22%, inadequada. Verificou-se ainda que as dietas inadequadas ou com necessidade de modificação eram mais freqüentes nos idosos e naqueles com menor escolaridade. Resultado semelhante foi obtido com relação à atividade física (Guimarães VMV e César CLG). Observou-se também que a prática de esporte ou atividade física regular era mais freqüente nos homens que nas mulheres. A caminhada foi a atividade física mais freqüente em ambos os sexos e a prática de futebol nos homens. Não se observou diferença estatisticamente significante na proporção de obesos nas áreas de estudo (Barros MBA), contudo há um aumento significativo da obesidade com a idade e uma redução com o aumento da escolaridade no sexo feminino. Porém, contrariando resultado observado em países desenvolvidos, onde a obesidade é mais freqüente na população de baixa renda, o estudo mostrou existir um aumento significativo com o aumento da renda familiar principalmente nos homens e entre esses a obesidade foi mais freqüente nos homens casados, já entre as mulheres havia maior prevalência no grupo de separadas.

O livro traz dados importantes sobre o tabagismo (Barros MBA), verificando-se que este foi mais freqüente nos municípios periféricos da Grande São Paulo, onde o consumo de cigarros era praticamente igual entre homens e mulheres, sendo que nas demais áreas o consumo sempre foi mais elevado nos homens que nas mulheres; os dados apresentados mostram inequivocamente que há um gradiente de tabagismo e escolaridade, conforme já evidenciado em estudos realizados em outros países. Verificou-se também existir uma associação entre o consumo de álcool (Barros MBA) e cigarros. Para avaliação da prevalência de dependência de consumo de álcool foi utilizado o teste CAGE, observando-se existir uma associação com o sexo masculino, baixa escolaridade e estado conjugal, sendo que o consumo foi menos freqüente entre os solteiros e mais elevado nos homens com união consensual ou separados.

A análise da morbidade referida reforça a importância das doenças crônicas no perfil epidemiológico das áreas estudadas, verificando-se um aumento de prevalência de doenças crônicas com a redução da escolaridade; apenas as alergias apresentaram comportamento oposto. O estudo mostra que a adesão ao seguimento de rotina no tratamento da hipertensão e diabetes está associada ao aumento da idade e que as recomendações sobre a realização de atividades físicas são seguidas apenas por uma parcela reduzida dos que referiram apresentar estas afecções (Barros MBA).

As condições de vida diferenciadas nas quatro áreas de estudo estão presentes na diferença estatisticamente significante da proporção de entrevistados que referiram apresentar problemas de saúde nos últimos 15 dias, sendo mais freqüente na área dos municípios periféricos da Grande São Paulo (34,9%) e menor em Botucatu (16,6%). Houve também um diferencial significativo na procura de serviços de saúde, sendo que a procura foi menor nas áreas que apresentaram maior freqüência no relato de problemas de saúde. A procura de médicos ou outros profissionais de saúde também apresentou um gradiente de aumento com o aumento da escolaridade do chefe da família (César CLG e Goldbaum M) .

Os dados obtidos revelam ainda a importância do SUS na utilização de serviços de saúde, principalmente para a população de baixa escolaridade (menos de 4 anos de estudo), na qual estes serviços respondem por 96% das atividades de seguimento na assistência pré-natal e puericultura e por cerca de 84% no atendimento de problemas de saúde; a menor proporção ficou com o tratamento odontológico (77%). Os resultados mostram que a rede básica pública de saúde é mais utilizada para atividades de seguimento, como assistência pré-natal e puericultura do que para resolver problemas de saúde. Porém, ela desempenha importante papel no atendimento dos problemas de saúde nas áreas com piores condições de vida (municípios periféricos da Grande São Paulo). Por outro lado, os dados também revelaram que persistem desigualdades na realização de atividades regulares de prevenção, como a realização de exames de mamografia, papanicolau e exame de próstata, observando-se um aumento da realização desses exames com o aumento da escolaridade.

Por fim, os resultados obtidos mostram que o consumo de medicamentos genéricos na população estudada é ainda relativamente baixo (14%), sendo menor nas duas áreas da região metropolitana da Grande São Paulo do que em Campinas e Botucatu. Há um maior desconhecimento do que é medicamento genérico na população com menor escolaridade, porém seu consumo é freqüente também nesta parcela da população.

No conjunto, o livro traz importantes contribuições. De um lado, mostra que as desigualdades sociais se refletem nos problemas de saúde, que foram mais freqüentes na população de menor escolaridade e renda, porém aponta que o SUS é um instrumento importante na promoção da equidade de acesso aos serviços de saúde para a população mais desfavorecida, apesar de persistirem desigualdades na utilização dos serviços de saúde. De outro lado, ao detalhar vários aspectos do estilo de vida os resultados mostram que o maior consumo de cigarros está associado à escolaridade, porém há outras dimensões da sociabilidade que também precisam ser tomadas em conta nas atividades de promoção de saúde. Os resultados mostram também a necessidade de busca de estratégias mais eficazes para o incentivo de realização de atividades físicas, melhoria das dietas e redução do consumo de álcool e tabaco nos serviços de saúde.