SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.12 issue2Health and political reform: is the Brazilian National Health Care System sustainability in question? author indexsubject indexarticles search
Home Page  

Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.12 n.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232007000200001 

EDITORIAL EDITORIAL

 

Há pedras no meio do caminho do SUS!

 

 

Fui convidado para organizar um número temático sobre o Sistema Único de Saúde. Senti-me agradecido e honrado. A eleição do assunto é oportuna, pois, de fato, precisamos repensar o SUS também sob uma ótica objetiva, sistemática e científica. Que nossos desejos e utopias não sirvam como venda a ocultar o óbvio: há pedras no meio do caminho!

Por isso, é importante este número temático que tem objetivo de atualizar e difundir diferentes interpretações sobre o SUS. Ele focaliza o SUS na prática, suas realizações e limites e busca contextualizar seus problemas no marco histórico das políticas sociais brasileiras.

Vivemos em uma época em que há imensos obstáculos estruturais (pedras) à construção do bem-estar social. Talvez essa seja a marca que irá caracterizar no futuro esse nosso tempo: a incapacidade, apesar da produção exponencial de riqueza, de assegurar bem-estar às pessoas. As políticas públicas estão em crise, são consideradas fora de moda. Construiu-se um discurso bastante difundido, repetido como um cantochão sinistro, sobre a quase auto-suficiência do mercado. E essa é uma pedra no caminho do SUS.

O SUS é um sistema público, descentralizado e com gestão participativa, mas é integrado por uma rede intricada de serviços e de servidores públicos, ainda que bastante penetrada por componentes da sociedade civil: conselheiros, prestadores, organizações não governamentais, opinião pública, etc. Boa parte das sugestões sobre como organizar e gerir esse sistema parte do discurso único - em decorrência, é pobre e reduzido de construir "agenda", "regulação" e "avaliação", na suposição de que com esses conceitos estaria dada a boa "governança". Infelizmente, esses termos tecnocráticos não dão conta da gestão de um sistema público, não privatizado, ainda que com interações importantes com entidades privadas. Faltam-nos elementos para a tarefa concreta de planejar e gerir diretamente uma rede complexa, falta-nos política de pessoal, falta-nos incorporar avaliação à gestão e falta-nos subordinar a avaliação aos objetivos e metas do sistema.

Falta um mundo de coisas! Falta pensar outra estrutura administrativa para o SUS: continuar a reforma política para dentro do Sistema, criar uma nova legislação sobre suas organizações e sobre o modo como poderiam se relacionar. Há o obstáculo do financiamento, há projetos pelo meio do caminho, mas, sobretudo, há, creio, uma falha entre nós, atores sociais, usuários, governantes e sujeitos ou vítimas desse processo: no fundo, no duro da batata, não pensamos e agimos como se o SUS fosse nosso espaço vital encarregado de co-produzir saúde. A classe média e as empresas fogem pela saúde suplementar; os governantes, para programas focais; a mídia, raramente nomeia o SUS: fala em fila, hospitais, entretanto ignora o sistema, sequer menciona o controle social e a gestão participativa; os pesquisadores são segmentados e empurrados para temas da moda: governança, avaliação, integralidade, promoção, humanização. Raramente logramos realizar alguma "meta-análise" que articule alhos com bugalhos.

Mesmo assim, há esse número da revista Ciência & Saúde Coletiva, houve o XII Congresso de Saúde Coletiva e está havendo a "refundação" do CEBES. Pedras e obstáculos no meio do caminho são para serem contornados ou destruídos, desde que se almeje seguir pela trilha da não-violência, da solidariedade, da defesa da vida e do planeta.

 

Gastão Wagner de Sousa Campos
Editor convidado