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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.12 n.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232007000200030 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Íris Fenner Bertani

Faculdade de História, Direito e Serviço Social, UNESP

 

 

 

Pimentel D. O sonho do jaleco branco: saúde mental dos profissionais da saúde. Aracaju: Fundação Oviedo Teixeira/Sociedade Médica de Aracaju; 2005. 226 p.

A Revista RADIS - Comunicação em Saúde trouxe, em seu número 44 do mês de abril, a divulgação do livro da médica psicanalista Déborah Pimentel, que trata da "saúde mental dos profissionais da saúde". Foi o que bastou para procurarmos conhecer de perto esta publicação, que apresenta os resultados de sua dissertação de mestrado em Ciências da Saúde, realizado na Universidade Federal de Sergipe em 2005. Pimentel com certeza se destaca entre os raros profissionais interessados no processo de trabalho em si e nos seres humanos que o executam. Tanto é verdade, que a orientadora, Profª. Dr.ª. Maria Jésia Vieira, profissional da enfermagem, o expressa claramente no Prefácio (p.13 - 18), quando se refere à autora enquanto orientanda, como "um presente dos céus".

A temática do trabalho - a saúde de quem cuida - se propõe a analisar o exercício das profissões de atendimento direto a usuários da área da saúde. A investigação é dirigida ao desempenho de médicos, psicólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, enfermeiras, odontólogos, fonoaudiólogos e nutricionistas.

Pimentel apresenta seu conteúdo dividido em três partes, e a primeira recebeu como título "a saúde mental e os profissionais de saúde" (destaque da autora), com ênfase na subjetividade dos sujeitos estudados. Nessa parte, além de fazer referências ao processo de escolha de uma profissão, a autora detém-se preferencialmente no curso de medicina, até pela "legião de vestibulandos" que correm atrás desse sonho "sem saber que a vida de médico implica em grandes custos pessoais" (p.26). Interessante notar a descrição do perfil dos bem sucedidos na área, como alunos com traços obsessivos compulsivos e perfeccionistas. Descreve a pressão exercida pela perda de autonomia dos médicos e conseqüente queda na qualidade do atendimento, com as restrições impostas pelos planos de saúde. Mais adiante, a autora se detém a analisar os demais profissionais da saúde, igualando-os em sofrimento aos médicos, quando "rompem com seus limites quer físicos e emocionais, quer éticos (p.36)". Desta postura resulta que, apesar do "objeto do trabalho tratar dos problemas apresentados pelos diversos profissionais da equipe" (p.38), a autora dá centralidade em seu estudo às condições de saúde e trabalho da categoria médica. Descreve a seguir os conceitos de saúde e sociedade e delineia as políticas públicas de saúde com destaque ao Programa de Saúde da Família (PSF), expondo, sem se aprofundar, a necessidade de "uma grande reforma social" (p.49). Traz informações sobre os problemas enfrentados por médicos e enfermeiros e, para caracterizá-los, empresta uma expressão da língua inglesa para definir viciados em mais-trabalho, workaholic (p.58). Comenta o onipresente stress e inclui algumas recomendações sobre "como lidar" com o desgaste pessoal no exercício da profissão (p.74-76), alertando que o agravamento desta situação pode chegar até o burnout (p.77-78).

Ao realizar a incursão pela questão social, busca o caminho para defesa da saúde mental do homem pela individualidade, utilizando como referencial teórico a psicanálise, "grande interlocutora com outros saberes", lembrando que é "essa centenária senhora" que melhor poderá ajudar nas "discussões éticas das metamorfoses que a nossa subjetividade sofre no mundo contemporâneo" (p. 97).

A pesquisa de campo deu-se com uma amostra de 670 profissionais de saúde de Sergipe, de um universo total de cerca de 4.000, estatisticamente distribuídos por freqüência de cada profissão no cenário, utilizando-se de questionário com 69 perguntas. Visando ampliar a discussão da temática escolhida, utilizou ainda o levantamento qualitativo de dados, realizando entrevistas orientadas por 41 questões abertas, com os líderes de classes profissionais e coordenadores dos cursos de graduação das profissões objeto de estudo naquela capital, sem destacar o seu número. Extraiu desse material uma visão panorâmica do atual estágio das preocupações demonstradas pelos responsáveis pela formação e condições do exercício profissional de cada categoria abordada.

Na segunda parte do livro, a autora trata da "saúde mental dos profissionais da saúde" (destaque da autora, p. 99) com a apresentação de resultados sobre sua pesquisa de campo. É quando apresenta uma longa relação dos problemas que os adoecem, identificados pelos altos índices de transtornos psicopatológicos, problemas familiares, falta de lazer, uso abusivo do álcool e de drogas, automedicação, problemas nos relacionamentos afetivos e sexuais, distúrbios do sono, síndrome do pânico, dificuldades de concentração, depressão e até casos de suicídio. Há aí uma profusão de informações, o que demonstra a tentativa de não deixar de fora nem uma só das pontas dessa complexa teia. Estas, pela densidade e consistência, são questões que poderiam ser mais aprofundadas no estudo de Pimentel. É possível que a falta de sensibilidade demonstrada pela sociedade com as dificuldades do "jaleco branco" deva-se ao fato dos médicos ainda hoje se encontrarem num plano de destacado status profissional, considerado o topo da escala funcional da saúde. Nas atuais condições de fragmentação do mundo do trabalho e de exploração generalizada dos trabalhadores, em que o drama do trabalho escravo ainda coexiste com os avanços tecnológicos, tratar de uma escolha profissional, a poucos acessível, baseada na realização de um sonho (do "jaleco branco"), dificilmente deve despertar a solidariedade do restante da população. E, talvez justamente pela consciência do privilégio de poder escolher qual caminho trilhar, não lhes parece permitido lamentar-se. Este comportamento, que segundo a autora relembra o traço compulsivo dos melhores alunos (workaholic), encontra-se não só entre os médicos, mas também no relato dos demais profissionais investigados. A aparente oscilação entre certo "heroísmo" no desempenho e "vitimização" no abandono de auto-cuidados, poderia ser objeto de futuras investigações por parte da autora, estudiosa do assunto. Esta é uma questão que fica latente durante todo o livro - ao se detectarem como insatisfatórias as condições de organização do trabalho, a falta de autonomia, as jornadas "loucas" - por que elas não são resolvidas por estas categorias de reconhecida visibilidade social? O poder de cura dos profissionais da saúde exige deles que olhem para dentro de si mesmos e se cuidem dentro dos preceitos legitimados pela ciência. Esse aspecto nos faz pensar na necessidade de se rever as estratégias utilizadas na vigilância sanitária: a informação tem-se provado insuficiente como alavancadora da mudança de atitudes, o que pode justificar a relativa adesão da população às práticas de prevenção de doenças como a AIDS, ou enfisema pulmonar, por exemplo. Quadros reduzidos de profissionais em todas as áreas diante de exigências e demandas crescentes denotam total falta de previsão e preparo da sociedade para a adoção do conceito amplo de saúde que escolheu, ou diz que escolheu. Pimentel não explica o porquê dos profissionais, notadamente os médicos, aceitarem este estado de coisas com redução tão drástica da margem de manobra em suas reivindicações sobre as desumanas condições de trabalho. Parece haver quase uma competição, na área da saúde, sobre quem sofre mais para trabalhar. Não são analisadas as razões que fazem com que o cuidador aceite a contrapartida do esforço no auto-sacrifício, em que desrespeita os próprios limites físicos e emocionais. Lidar com a própria impotência diante da morte em condições desfavoráveis de sobretrabalho com certeza é o que vai sendo construído aos poucos no livro que apresenta como proposta falar de um "sonho".

A seguir, a autora continua a análise dos aspectos comuns às profissões estudadas, com constatações sobre a ausência de preparo para o auto-cuidado durante a formação acadêmica. Verifica as perspectivas do mercado de trabalho e ressalta as dificuldades relatadas pelos profissionais no cotidiano, tais como "relacionamento com os pacientes e seus respectivos familiares, baixa remuneração, excesso de trabalho, dificuldades com os credenciamentos com planos de saúde." (p.169).

Na terceira parte do livro, com o título "Algo precisa ser feito" (p. 170 e subseqüentes), a autora muda de tom e propõe alterações neste estado de coisas. Apresenta propostas específicas direcionadas a identificar os fatores de stress entre os profissionais da saúde, "em especial, dos médicos" (p.173), como a redução da carga horária nas residências médicas e plantões. Volta a se referir às políticas públicas, citando as estratégias de reorganização das ações da saúde por meio das iniciativas de educação permanente. Discorre com mais detalhes sobre a utilidade dos grupos Balint aos médicos, recorrendo novamente às soluções individuais e não coletivas para a busca da transformação social. A bibliografia utilizada também não ajuda a encontrar soluções que, ao não serem localizadas no indivíduo, nem nos cursos de graduação, são remetidas às associações de classe, para que desenvolvam ações voltadas ao preparo profissional-pessoal.

Pimentel encerra seu estudo com uma proposta de instituição de programa de prevenção de doenças mentais para todos os profissionais da saúde. Acena para o desafio de se apostar na psicanálise como possibilidade do surgimento do sujeito autônomo, após trazer a interrogação ao homem, sobre o sentido de sua existência.

De uma maneira geral, o conteúdo do livro fornece ao leitor farto material para que se repense a questão das profissões da saúde. Estas, ao serem exercidas na negação dos problemas do cuidador, resultam insatisfatórias tanto aos profissionais como aos usuários, tornando-se um "sonho" que não se realiza e, infelizmente, consolidando um sistema de saúde que se apresenta universal apenas no "não-cuidado".