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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.12 n.3 Rio de Janeiro May./Jun. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232007000300030 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

Análise de correspondência como estratégia para descrição do perfil da mulher vítima do parceiro atendida em serviço especializado

 

Correspondence analysis as a strategy for describing the profiles of women battered by their partners and assisted by a specialized unit

 

 

Jurema Corrêa da MotaI; Ana Gloria Godoi VasconcelosII; Simone Gonçalvez de AssisII

IDepartamento de Informações em Saúde, Centro de Informação Científica e Tecnológica, Fundação Oswaldo Cruz. Avenida Brasil 4.365/Pavilhão Haity Moussatché/225, Manguinhos. 21.040-900. Rio de Janeiro RJ. jmota@cict.fiocruz.br
IIDepartamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz.

 

 


RESUMO

A violência doméstica contra a mulher praticada pelo parceiro íntimo pode ser considerada como um problema de saúde pública. O conhecimento do perfil de mulheres vitimadas contribui para geração de ações específicas que reduzam esse tipo de agressão. Buscou-se investigar as relações conjuntas entre grupos de violência e condições sociodemográficas da vítima e do agressor, utilizando a técnica de análise de correspondência múltipla na caracterização do perfil das mulheres atendidas no Centro Integrado de Atendimento à Mulher (CIAM). Os resultados apontaram um perfil diferenciado de mulheres vitimadas pelo parceiro no que se refere à gravidade da violência. As vítimas de lesão grave de origem sexual associaram-se ao ensino médio incompleto e com mais de três residentes trabalhadores. As vítimas de lesão grave de origem física e psicológica estão relacionadas ao ensino superior e pós-graduação e declaradas como chefes de família. O grupo das vítimas de lesões leves de origem física e psicológica se relaciona com tempo de união inferior a cinco anos, ensino médio completo da mulher, agressor mais novo, trabalhador e com até três residentes trabalhadores.

Palavras-chave: Violência doméstica, Serviços de atendimento, Análise de correspondência


ABSTRACT

Domestic violence perpetrated against women by their live-in partners may be rated as a public health problem. Knowledge of battered women's profiles helps shape specific actions that curtail this type of aggression. This paper examines the links between violence groups, and the socio-demographic status of aggressors and their victims, using the Multiple Correspondence analysis technique in order to profile the women helped by the Integrated Women's Assistance Center (CIAM). The findings showed different profiles for women assaulted by their partners in terms of the severity of the violence. Victims with severe sexually-related injuries were associated with incomplete high school educations and more than three workers resident in the home. Victims with serious physical and psychological injuries were related to university educations and graduate studies, declared as heads of families. Victims with minor physical and psychological injuries were related to relationships lasting less than five years, with high school diplomas for the women and younger aggressors, employed, and with up to three workers resident in the home.

Key words: Domestic violence, Assistance services, Correspondence analysis


 

 

Introdução

Em 1993, a Assembléia Geral das Nações Unidas conceituou a violência contra a mulher como todo ato que produz ou pode produzir dano, sofrimento físico, sexual ou psicológico, assim como ameaças de tais atos, a coerção ou a privação arbitrária da liberdade, independente se ocorre na instância pública ou privada1.

Freqüentemente utilizada como sinônimo de violência familiar ou violência de gênero2, a violência doméstica contra a mulher refere-se a agravos físicos, psicológicos e sexuais que tem como principal agressor o parceiro íntimo3,4. Essa agressão pode ser tratada como um problema de saúde pública, pois produz impacto no estado de saúde e qualidade de vida de quem a sofre4.

Entre as conseqüências na saúde da mulher estão relatados dores de cabeça, distúrbios grastintestinais, náuseas, distúrbios de sono, transtornos de humor, depressão, ansiedade e doenças sexualmente transmissíveis5,6,7,8.

Os serviços públicos especializados, tais como Conselhos de Direitos, Centros de Defesa, Delegacias Especializadas ou Casas Abrigo são importantes fontes de estimativas sobre maus tratos contra mulheres, principalmente para os estudos sobre fatores de risco associados à agressão, ainda que os dados não traduzam a realidade em virtude, sobretudo da subnotificação.

Embora os estudos sobre a temática utilizem diferentes metodologias quanto à definição de violência, desenhos de estudo e população pesquisada, os resultados apontam que as condições sociodemográficas freqüentemente relatadas em mulheres vítimas do parceiro íntimo são a baixa escolaridade9,10,11 e o menor status econômico, como, por exemplo, o baixo rendimento salarial da mulher, desemprego, trabalho de baixa qualificação, vítima dona-de-casa e menor rendimento familiar7,12,13. A presença de filhos, o tempo de união entre vítima e agressor e o maior número de pessoas residentes no domicílio onde a mulher reside também são características associadas à violência conjugal7,8,10,11,12.

Pesquisas apontam que a baixa escolaridade do homem e a ausência de trabalho remunerado são fatores associados ao aumento da violência doméstica9,14.

O objetivo deste estudo, de natureza descritiva, é explorar relações conjuntas entre agressões praticadas contra a mulher e condições sociodemográficas da vítima e do agressor, visando estabelecer o perfil dos grupos de vitimização na população analisada. Parte-se do pressuposto de que, apesar das mulheres analisadas apresentarem um certo grau de homogeneidade quanto ao nível socioeconômico, é possível identificar determinadas características mais relacionadas à ocorrência de um tipo de violência do que outro. A identificação de variáveis relacionadas a grupos de vitimização permite intervenções específicas relevantes para a população analisada.

 

Método

População e fonte de informação

O estudo foi realizado com informações das fichas de atendimento de um centro especializado no atendimento a mulheres vítimas de violência, sediado no município do Rio de Janeiro. Trata-se de um estudo descritivo, com dados seccionais de 684 mulheres que representam 79,2% do total de atendimentos no período de janeiro de 1999 a dezembro de 2000. Neste recorte, foram incluídas as vítimas do sexo feminino agredidas pelo cônjuge, ex-cônjuge, companheiro ou ex-companheiro, considerando-se o estado civil de fato. Excluíram-se mulheres cujos agressores foram familiares consangüíneos, namorados, conhecidos, desconhecidos, patrão e colega de trabalho, visando compreender a relação entre violência e características sociodemográficas a partir de relações estáveis. Considerou-se a totalidade das vítimas sob o critério de inclusão e período estabelecido.

Descrição das variáveis

Grupos de violência

As agressões selecionadas para formarem os grupos de violência foram definidas a partir dos crimes registrados nas fichas de atendimento do CIAM. São eles: lesão corporal leve e grave, ameaça, ameaça de morte, estupro e abuso sexual. A descrição detalhada da metodologia utilizada na identificação dos grupos pode ser encontrada em Mota15. De forma geral, essa metodologia buscou explorar as relações simultâneas entre os agravos e compor três variáveis que classificassem as vítimas em grupos de violência mutuamente excludentes.

Para compor o agrupamento, utilizou-se primeiramente a análise de correspondência múltipla aos crimes, retendo, para a descrição dos resultados, as três primeiras dimensões, que explicavam 65% da variabilidade dos dados. Entretanto, a análise de correspondência identifica padrões na relação entre as categorias dos crimes e não quantifica o número de mulheres em cada padrão. A técnica de classificação mista, ou análise de cluster, produz este tipo de informação de forma a complementar a análise de correspondência. Esta técnica foi utilizada a partir dos escores resultantes dos três primeiros eixos. Esses escores se configuram na medida de proximidade entre as mulheres a partir dos padrões identificados e foram utilizados para dividir e agrupar as vítimas em classes de violência mutuamente exclusivas.

Os grupos distinguem-se entre si por nível de gravidade das agressões e foram assim definidos:

(a) lesão leve de origem física e psicológica, com 308 mulheres (45,0%), cujos crimes mais característicos são a lesão corporal leve e ameaça;

(b) lesão grave de origem física e psicológica, com 213 vítimas (31,1%) com crimes característicos de lesão corporal grave e ameaça;

(c) lesão grave de origem sexual, com 163 (23,8%) mulheres e crimes mais prevalentes de estupro e abuso sexual.

Neste estudo, utiliza-se análise de correspondência para explorar relações conjuntas entre os grupos de violência descritos acima e fatores sociodemográficos das vítimas e agressores representados através das seguintes variáveis:

Socioeconômicas e demográficas: idade da vítima e do agressor (até 40 e mais de 40), escolaridade da vítima e do agressor (até o fundamental, ensino médio e superior/pós-graduação), tempo de união em anos (até 5, de 6 a 10 e mais de 10), raça da vítima e do agressor (branca, não branca), vítima chefe de família (sim e não), tipo de residência (própria, alugada, cedida e outra condição), número de residentes (1 a 3 e mais de 3), número de residentes que trabalham (1 a 3 e mais de 3) e vítima possui filhos (sim e não) e, por fim, situação profissional da vítima (trabalha, desempregada e do lar) e do agressor (trabalha, desempregado e aposentado).

Análise estatística

O estudo foi realizado em duas etapas. A primeira incluiu a descrição bivariada das características socioeconômicas e demográficas da vítima e do agressor segundo os grupos de violência, comparando as proporções através do teste c2, considerando um nível de significância de 5%.

Na segunda etapa, buscou-se explorar relações conjuntas entre os fatores socioeconômicos e demográficos e os grupos de violência por meio da análise de correspondência múltipla.

A análise de correspondência é uma técnica estatística exploratória utilizada para verificar associações ou similaridades entre variáveis qualitativas16 ou variáveis contínuas categorizadas. A relação entre as categorias das variáveis é investigada sem que se precise designar uma estrutura causal nem assumir a priori uma distribuição de probabilidades, sendo apropriada no estudo de dados populacionais no sentido de uma técnica não inferencial17. É útil no estudo de fatores de risco que podem estar associados a determinadas características que se deseja analisar, bem como permite identificar grupos que possuem os mesmos fatores de risco.

Por meio de representação gráfica, as posições das categorias de cada variável no plano multidimensional podem ser interpretadas como associações18. Para obter planos que representem a configuração das categorias das variáveis no espaço, calcula-se um conjunto de eixos fatoriais, cada um maximizando uma parcela da variabilidade dos dados. O conjunto desses eixos define o espaço multidimensional e, usualmente, pode-se utilizar uma dimensão perceptível, de até três eixos, para analisar a posição dos pontos no espaço.

A importância de cada categoria de variável na construção dos eixos é medida através da contribuição absoluta. A análise da contribuição absoluta das categorias juntamente com a observação da posição dos pontos no gráfico, em relação aos eixos, auxilia a interpretação dos fatores e contribuem para caracterizar os eixos conceitualmente. A contribuição relativa de uma categoria mede o quanto da variabilidade da mesma está sendo explicado pelo eixo16.

Com o intuito de se identificar uma combinação de variáveis e categorias que apresentassem maior estabilidade no espaço multidimensional e explicasse o maior percentual de variabilidade do conjunto de dados, as variáveis que apresentaram, na primeira etapa, significância estatística menor ou igual a 0,10 foram selecionadas para compor a segunda etapa.

Variáveis que não atendessem ao critério estatístico de seleção para a fase multivariada, mas com justificativa teórica relevante para o entendimento da violência, foram também incluídas na análise. Este foi o caso do tempo de união entre vítima e agressor e da variável vítima chefe de família. Autores afirmam que as agressões entre os casais tendem a ser progressivamente mais graves ao longo do tempo de união8,10. Por outro lado, mulheres com trabalho remunerado e, por conseguinte, com contribuição para o orçamento familiar, possuem mais condições de não aceitarem a convivência agressiva e romper o ciclo violento5,8.

O tipo de residência foi excluído da fase multivariada pois, embora apresentasse significância estatística menor que 0,10, sua inclusão tornava instável a configuração dos pontos mostrada no gráfico de fatores. Tal comportamento pode ser resultante de um número reduzido de casos em algumas caselas da tabela de contingência multidimensional.

O número de residentes e número de residentes trabalhadores apresentaram significância estatística menor que 0,10 na fase bivariada. Considerando-se o elevado grau de correlação esperado entre essas características, foi dada preferência à inclusão, na fase multivariada, do número de residentes trabalhadores por conter informação adicional sobre renda familiar, variável não contemplada nesse estudo.

 

Resultados

As mulheres apresentaram idade média de 37 anos (DP = ±9,7) e mediana de 36. Para o agressor, observou-se idade média de 40 anos (DP = ±10,3) e mediana de 39 e o tempo médio de união entre vítima e agressor foi de doze anos, aproximadamente.

A Tabela 1 mostra a distribuição das condições socioeconômicas e demográficas das vítimas de acordo com os grupos de violência. As variáveis escolaridade da vítima e número de residentes trabalhadores associaram-se significativamente com os tipos de violências. Prevalece maior freqüência de mulheres com baixa escolaridade (até o ensino médio incompleto) em todos os grupos. Cabe destacar o aumento desses percentuais com o nível de gravidade dos grupos (62,7%, 64,6% e 71,7%), embora mulheres vítimas de agressões graves de origem física e psicológica (15,5%) e de lesões graves de origem sexual (13,7%) ostentem percentuais maiores de instrução superior ou pós-graduação quando comparados ao grupo de agressões leves de origem física e psicológica (11,2%).

Com relação ao número de residentes trabalhadores, o grupo de lesões leves de origem física e psicológica é composto de 4,7% de mulheres residentes em domicílios nos quais mais de três familiares exercem atividade remunerada. Esse percentual aumenta nos grupos das lesões graves cuja proporção é de 6,3% e aproximadamente o dobro (10,1%), no grupo de lesões graves de origem sexual.

A faixa etária do agressor e a sua situação profissional associaram-se significativamente com os tipos de violência (Tabela 2). No grupo de lesões leves, nota-se que 35,6% dos agressores possuía mais de 40 anos, enquanto nas lesões graves de origem física e psicológica a proporção é de 43,0% e no grupo de lesões de origem sexual, 47,1%.

Em relação à situação profissional do agressor, observou-se que nas lesões leves de origem física e psicológica 14,6% encontravam-se desempregados e 9,2% aposentados. Nas lesões graves de origem física e psicológica, essas características se invertem, uma vez que 8,6% encontravam-se desempregados e 19,2% aposentados. No tipo de lesão grave de origem sexual as proporções são similares (12,6% e 11,1%, respectivamente).

Os resultados da análise de correspondência mostraram que os três primeiros fatores explicam 33% da variabilidade total. Considerando-se as contribuições absolutas de cada variável na composição de cada fator, mostradas na Tabela 3, observa-se que o primeiro eixo é formado prioritariamente por agressores aposentados, tempo de união maior que dez anos e idade do agressor (até 40 anos e mais de 40 anos). As categorias que mais contribuem para a formação do segundo fator são: vítima chefe de família ou não e lesões graves de origem sexual. A terceira dimensão é formada por agressores desempregados, mulheres com ensino médio completo e tempo de união inferior a cinco anos.

A Figura 1 mostra a representação gráfica das categorias das variáveis no primeiro plano fatorial, com duas dimensões. A primeira dimensão, que explica 14,2% da variabilidade dos dados, separa as mulheres segundo a gravidade da agressão, características do agressor e tempo de união. No lado negativo do eixo 1 estão o grupo das lesões leves de origem física e psicológica, agressores empregados e desempregados, com idade até 40 anos e com tempo de união de até dez anos. Posicionadas no lado positivo do eixo 1 estão as características opostas: lesão grave de origem física e psicológica, lesão grave de origem sexual, agressor aposentado, com idade superior a 40 anos e tempo de união com a vítima superior a dez anos.

A segunda dimensão separa as mulheres segundo a natureza da agressão e condições socioeconômicas e demográficas da vítima. No lado negativo desse eixo posiciona-se a lesão grave de origem sexual e as características da mulher não chefe de família e mais de três residentes trabalhadores. No lado oposto situam-se a lesão leve e grave de origem física e psicológica, vítima chefe de família, com escolaridade superior e pós-graduação.

Associações entre categorias de variáveis e formação de conglomerados podem ser avaliadas analisando-se a proximidade entre os pontos nas Figuras 1 e 2. Desta forma, verifica-se, na Figura 1, que o grupo das mulheres vítimas de lesões leves de origem física e psicológica, localizado no quadrante superior esquerdo, são aquelas com tempo de união inferior a cinco anos, ensino médio completo, agressor mais novo, trabalhador e com até três residentes trabalhadores.

No grupo de lesão grave de origem física e psicológica, localizado no quadrante superior direito, predominam mulheres referidas como chefes de família e com maior grau de escolaridade.

O grupo de lesão grave de origem sexual, localizado no quadrante inferior direito, caracteriza-se por apresentar vítima referida como não chefe de família, baixa escolaridade e com mais de três residentes trabalhadores.

Há um grupo, localizado no quadrante superior direito da Figura 1, que se caracteriza, principalmente, por agressor com idade superior a 40 anos, aposentado e com tempo de união com a vítima superior aos dez anos. Essas condições sociodemográficas não se relacionam com os grupos de violência, porém encontram-se relativamente mais próximas e no mesmo quadrante do grupo de lesões graves de origem física e psicológica.

No quadrante inferior direito encontra-se a variável mais de três residentes trabalhadores posicionada relativamente mais próxima às lesões graves de origem sexual.

A Figura 2 mostra os três eixos resultantes da análise de correspondência e corrobora alguns aspectos encontrados na análise da Figura 1. O grupo de lesão grave de origem sexual posiciona-se relativamente mais distante dos outros dois grupos de lesão leve e grave de origem física e psicológica. Esse aspecto pressupõe que esses dois últimos grupos tendem a possuir perfis menos diferenciados do que a agressão sexual.

Na situação profissional do agressor desempregado que, na análise da Figura 1, associava-se ao grupo de lesões graves de origem física e psicológica, mostrou-se distanciado deste observando-se seu posicionamento em relação ao terceiro eixo. A categoria do agressor aposentado não se associou a nenhum grupo de violência, pois nas Figuras 1 e 2 verifica-se seu distanciamento em relação aos três grupos e as características analisadas.

 

Discussão

Neste estudo, foram identificadas associações entre características socioeconômicas e demográficas da vítima e do agressor com os grupos de violência. O método proposto da análise de correspondência múltipla distinguiu a relação dos grupos, localizados em quadrantes separados, com determinadas características, estabelecendo um perfil diferenciado de mulheres vitimadas pelo parceiro no que se refere à gravidade da violência.

Em análise de correspondência não há definido um procedimento de seleção de variáveis para compor o modelo final da análise multivariada, a exemplo dos procedimentos de seleção automáticos para modelos de regressão múltipla. A seleção é realizada, muitas vezes, com base na subjetividade do pesquisador e também no conhecimento teórico acerca do assunto analisado. Portanto, buscou-se identificar uma combinação de variáveis e categorias que apresentassem maior estabilidade quando representadas no espaço multidimensional (gráfico de fatores) e que explicasse o maior percentual de variabilidade do conjunto de dados. O método não permite estabelecer a significância estatística das associações nem avaliar o efeito independente de cada característica, porém combina as vantagens de métodos não lineares e de métodos multidimensionais19.

O estudo da situação sociodemográfica da vítima e do agressor permitiu avaliar que as lesões graves de origem sexual, cujos crimes mais característicos são os de estupro, abuso sexual e ameaça de morte, foram referidas por mulheres com o ensino médio incompleto e declaradas como não chefes de família. Comportamento oposto em relação à escolaridade da vítima foi observado no grupo de lesões graves de origem física e psicológica, cujos resultados mostraram que mulheres com o ensino superior ou pós-graduação e referidas como chefes de família foram características associadas a esse grupo.

O grupo das lesões leves de origem física e psicológica associou-se, prioritariamente, a uma união, entre vítima e agressor, de até cinco anos, com mulheres que possuíam o ensino médio completo, agressores trabalhadores com até 40 anos e até três residentes trabalhadores no domicílio da vítima. Essas relações podem indicar que as mulheres, com menor tempo de relacionamento com o agressor, tomaram a iniciativa de cessar o ciclo agressivo mais cedo do que as mulheres pertencentes aos grupos de lesão grave de origem física e psicológica e o grupo de lesão sexual. Uma vez que os estudos sugerem que os episódios de violência se tornam mais graves ao longo do tempo de união8,10 e, por ser a violência física doméstica uma agressão que possui caráter de rotinização2, constata-se que as mulheres do grupo de lesão física e psicológica mais leve não estiveram expostas a condutas violentas mais graves. A relação do grupo de agressões leves de origem física e psicológica com um relacionamento entre vítima e agressor menor que cinco anos evidencia que os maus tratos tendem a ocorrer nos primeiros anos de união e que a atitude da mulher em buscar ajuda para o fim da relação conflituosa favorece a que os agravos não se tornem mais crônicos.

A associação observada no grupo das lesões leves de origem física e psicológica com a presença de agressores trabalhadores mostra que as mulheres estiveram expostas a maus tratos de ordem menos grave de parceiros trabalhadores e esse aspecto sugere a importância do trabalho remunerado como condição inibidora da violência.

Os resultados obtidos mostram que o baixo status econômico, o nível de instrução e, conseqüentemente, o acesso à informação podem ter sido condições facilitadoras para a ocorrência dos tipos de crimes na população analisada. O fato de a agressão sexual associar-se a nível inferior de escolaridade pode levar a supor que as mulheres com instrução inferior podem não ter reconhecido o tipo de violência que sofreram. Outro aspecto relacionado ao grupo de lesão grave de origem sexual foi o da vítima declarar mais de três residentes trabalhadores no seu domicílio. Conforme destacado por Menezes et al.9, famílias mais pobres tendem a ser mais numerosas, gerando incapacidade por parte dos pais em cuidar dos filhos, tanto do ponto de vista da geração de recursos como pela baixa escolaridade, resultando em insatisfação e frustração, que aliadas ao comportamento de risco, como o alcoolismo, dão inicio ao ciclo violento.

Declarar-se como chefe de família e, possivelmente, responsável pela residência, pode ter favorecido a não admissão da agressão sexual por parte do companheiro. Por outro lado, as agressões físicas mais graves associadas a mulheres com maior escolaridade podem ter sido desencadeadas pelo fato da mesma não ter aceitado a violência e revidar a agressão, gerando um conflito de maiores proporções e agressões físicas mais graves.

Em relação ao nível educacional, os achados do presente estudo foram concordantes com outras pesquisas pertinentes ao tema que, apesar de guardarem diferenças metodológicas, apontam a baixa escolaridade como condição sociodemográfica relatada em mulheres vítimas de violência doméstica do cônjuge4,9,10,11,13,20.

Embora a escolaridade esteja associada à violência familiar do parceiro, uma vez que pode determinar dificuldades na relação interpessoal entre homens e mulheres e interferir na resolução de problemas cotidianos, gerando violência9, a estreita relação do nível de instrução com a situação empregatícia faz parte de um intricado conjunto de condições que contribuem para o não rompimento da relação conflituosa e violenta.

O menor nível de instrução desfavorece a aquisição de melhor qualificação profissional, gerando, em algumas situações, o desemprego. Decorrente desse panorama, há maiores chances da mulher exercer atividade laborativa desqualificada e tornar-se dependente financeiramente do cônjuge ou até do ex-cônjuge. Conseqüentemente, o rendimento salarial da mulher pouco acrescenta à já reduzida renda familiar, não garantindo a manutenção do lar sem a presença do companheiro. Essa situação, apesar de gerar estresse econômico, não pode contribuir como fatores diretos isolados para a violência doméstica, porém pode ser facilitadora na decisão da mulher permanecer com o companheiro e ambos na vivência violenta.

Estudos mostram que a violência familiar do cônjuge é mais freqüente em mulheres mais jovens4,5,13. Castro & Ruíz20 não encontraram associação da idade da vítima com a violência do cônjuge. Neste estudo, não foi detectada associação entre faixa etária da vítima e a violência do parceiro. As mulheres incluídas neste trabalho possuem, em média, 36 anos e a idade mais avançada observada nessas vítimas é relativamente semelhante ao descrito por outros estudos5,8.

O fator cultural também é uma característica associada à violência doméstica do parceiro que favorece a permanência da mulher na relação agressiva. Segundo a Organização Mundial de Saúde21, o maior risco de a mulher sofrer agressão do cônjuge está em sociedades nas quais o homem, via de regra, detém o poder econômico e decisório frente aos demais residentes do domicílio. Neste sentido, a mulher estaria subordinada à autoridade masculina e esse quadro se agravaria se a mesma não dispusesse de acesso à informação que favoreça o entendimento de sua posição como sujeito de direitos capaz de mediar o conflito sem que haja, necessariamente, uso da força física.

As instituições de atendimento especializadas em mulheres vitimadas pelo cônjuge lidam, muitas vezes, com a falta de articulação entre os diferentes serviços disponíveis e a escassez de parcerias que poderiam oferecer assistência para que a mulher desenvolvesse condições de decidir qual a melhor solução para seu problema. Nesse sentido, o acesso aos diversos serviços como, por exemplo, cursos de qualificação profissional, cuidados com a saúde, inclusive atendimento psicológico, segurança e justiça, além de serviços direcionados para os demais membros familiares e envolvidos nas circunstâncias da agressão, produzem uma rede de amparo que cria alternativas viáveis para o rompimento da convivência violenta, uma vez que as mulheres alegam manter a relação com o agressor por falta de apoio familiar e social.

Entretanto, merece importante destaque o papel das instituições no encaminhamento das mulheres para a resolução judicial da violência. Os serviços de atendimento encontram dificuldades no que tange a questão jurídica da agressão e se deparam, muitas vezes, com mulheres que não desejam, necessariamente, a prisão do companheiro, mas almejam apenas o fim da violência, razão porque a elaboração de perfis de mulheres vitimadas é um recurso para o fomento a políticas públicas que direcionem um melhor atendimento aos envolvidos.

Conforme assinalado por Paula22, a identificação de grupos, com perfil associado a determinados episódios de violência conjugal, é relevante para o desenvolvimento de ações precoces, tanto por parte da Justiça quanto dos serviços de saúde e outras instituições que se interessam pela questão. Nesse sentido, o CIAM, como órgão vinculado ao CEDIM, adquire caráter de um serviço primordial para subsidiar políticas públicas que assegurem o direito da não violência conjugal.

Por se tratar de um estudo de natureza transversal, a relação de causalidade, a partir das relações observadas, não pôde ser estabelecida. Entretanto, foi possível identificar inter-relações entre as características socioeconômicas e demográficas e destas com os tipos de violência. Devido à técnica estatística utilizada ser de caráter exploratório e a população de estudo não ser representativa da população de mulheres vitimadas em geral, não é permitido, a partir dos resultados obtidos neste estudo, gerar inferências para a população de mulheres vitimadas em geral, já que se acredita que uma parcela dessas vítimas sequer procura atendimento.

Os grupos de violência analisados no presente estudo para a caracterização do perfil diferem das classificações mais comumente utilizadas que separam as vítimas em tipos de violência física, psicológica e sexual somente. Ressalta-se que a inter-relação entre os tipos de agressões é ainda pouco utilizada e a proposta de classificação considera uma existência natural de grupos na estrutura dos crimes, devendo-se ser entendida como ponto de partida para posteriores aplicações em serviços que atendam mulheres em situação de violência.

Para o CIAM, o conhecimento do perfil de sua clientela é um importante instrumento para que a instituição possa direcionar suas ações em pontos estratégicos. De certa forma, esse conhecimento gera subsídios para o aperfeiçoamento de propostas de atendimento e encaminhamento das vítimas a serviços que melhor se adequem a cada situação de violência, garantindo assim maior valorização dos direitos das mulheres.

 

Colaboradores

JC Mota trabalhou na coleta de dados, metodologia, concepção do artigo, análise estatística e revisão crítica do texto. AGG Vasconcelos na metodologia, concepção do artigo e revisão crítica do texto. SG Assis na metodologia, concepção do artigo e revisão crítica.

 

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Artigo apresentado em 25/08/2005
Aprovado em 15/12/2005
Versão final apresentada em 01/12/2006