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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.12 n.3 Rio de Janeiro May./Jun. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232007000300031 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Miguel Murat Vasconcellos

Departamento de Administração e Planejamento em Saúde, ENSP

 

 

 

Gómez MNG, Orrico, EGD. Políticas de memória e informação: reflexos na organização do conhecimento. Natal: Editora da UFRN; 2006. 266 p

Em boa hora chega-nos o livro organizado por Maria Nélida González de Gómez e Evelyn Goyannes Dill Orrico. Não só pela busca da superação de lacunas referentes ao entendimento contemporâneo sobre Organização do Conhecimento e suas relações com Informação e Interdisciplinaridade mas, também, por incorporar a dimensão política nesse debate. Tendo sua concepção originada em seminários denominados 'Informação, Conhecimento e Linguagem: cruzando fronteiras de identidade', coordenados pelas organizadoras, a estruturação final da coletânea Políticas de memória e informação: reflexos na organização do conhecimento acabou sofrendo reformulações em função da ênfase dada aos estudos de Organização do Conhecimento. Essa ênfase é justificada pela compreensão de que a Organização do Conhecimento é um dos domínios em que se manifestam com maior intensidade as questões epistemológicas, lingüísticas, antropológicas e, sobretudo, políticas. Sendo assim, o livro foi organizado em três eixos temáticos que espelham as questões norteadoras das discussões durante os seminários.

O primeiro eixo temático trata das conexões entre Interdisciplinaridade com as questões contemporâneas de Organização do Conhecimento. Centra-se na discussão epistemológica a respeito das problemáticas teórico-metodológicas de pesquisa, questionando as novas configurações como "temas" ou como remissiva a "grandes narrativas epistemológicas", focando na discussão da relação entre conhecimento e informação. No primeiro dos três artigos que compõem este eixo, González de Gómez debate a informação como expressão do domínio em que se resolveriam problemas de integração - de conhecimentos, de práticas de pesquisa, de meios e linguagens. Lembra que, dependendo do contexto de sua representação, a integração ora será de cunho epistemológico (interdisciplinaridade), ora de cunho tecnológico (convergência, digitalização, interoperabilidade), ora de cunho regulatório e normativo (codificação, padrões, gestão).

Comentando duas tradições modernas da informação, que a associam preferencialmente ao conhecimento e a estruturas de significado, as autoras questionam pelas conseqüências de tendências contemporâneas que enfatizariam as instâncias de integração tecnológica e regulatória. Esse tema impregna o debate atual da Saúde Pública, desde a integralidade da atenção, até os modelos regulatórios, passando pela interoperabilidade da miríade de sistemas de informações em saúde existentes. O livro lança luz nesse debate que ora supõe uma solução tecnológica centralizadora capaz de superar a fragmengtação dessa miríade de sistemas, ora supõe a possibilidade de um marco regulatório capaz de prover uma atenção à saúde efetiva. É, portanto, de leitura obrigatória para aqueles que lutam para a consolidação de avanços na qualidade dos serviços de saúde, pois contribui para a superação da restrição do debate a aspectos tecnocráticos.

No segundo artigo, Aragão trata da Gestão do Conhecimento, decompondo-a numa diversidade temática e discute as possibilidades de sua aplicação em parcerias público-privadas. Este bloco finaliza com Pinheiro apresentando um mapa atual da Ciência da Informação, inserido em um debate da Interdisciplinaridade.

O segundo eixo temático elabora, no dizer das organizadoras, a relação entre informação, memória e organização do conhecimento, tomando por base as mediações discursivas e tecnológicas aí envolvidas na contemporaneidade. Compreende três artigos, iniciando pela apresentação de Orrico e Oliveira de considerações sobre a construção metafórica e o papel que a linguagem desempenha na Organização do Conhecimento. Tendo o discurso da construção do significado nas comunicações humanas como centro do debate, tratam as intercorrências das novas tecnologias nessa construção, oferecendo algumas perspectivas para pensar a Organização do Conhecimento.

No artigo seguinte, Marteleto apresenta estudo empírico das configurações de comunicação e informação em redes de movimentos sociais na região da Leopoldina, na cidade do Rio de Janeiro, tendo como referência de intervenção social os princípios da educação popular em saúde. Para tal, inova ao desenvolver Modelo Interpretativo de Análise, partindo da espacialidade das relações entre os agentes (ou estrutura social) de modo a situar cada informante em relação ao seu lugar e papel nas redes de contato, tendo como plano básico da análise a arquitetura das redes. Este eixo termina com o artigo de Moraes, onde é defendida a luta pela construção de uma Política Nacional de Informação e Informática em Saúde voltada, prioritariamente, para atender aos interesses dos representantes populares e não aos do mercado do complexo industrial das tecnologias de informação. Este eixo reforça, ainda mais, a importância do livro para os interessados pelos temas da saúde e, também, para aqueles que tratam de educação popular.

O terceiro eixo temático volta-se para a Organização do Conhecimento na configuração interdisciplinar, tomando por base a construção das redes de pesquisa. É constituído por dois artigos. No primeiro, Huertas analisa a interdisciplinaridade no contexto geral e do ponto de vista da representação e organização do conhecimento, considerando que existem dois paradigmas de conhecimento científico: o disciplinar e o interdisciplinar. Conclui propondo a Análise de Domínio como etapa prévia na construção de sistemas de recuperação de informação, sensível às diferenças entre campos disciplinares e interdisciplinares. No segundo e último trabalho, Guimarães apresenta uma discussão sobre os aspectos éticos envolvidos no desempenho do profissional da informação a partir das mudanças que vêm ocorrendo na área de Ciência da Informação, fruto das condições atuais, como a globalização e uso de novas tecnologias.

É criativa a abordagem que perpassa todo o livro: interdisciplinaridade. Destaca-se o empenho dos autores em não apenas enfatizarem a importância da interdisciplinaridade mas, também, usarem referenciais interdisciplinares para o próprio desenvolvimento das análises, ou seja, consistem em trabalhos interdisciplinares, denotando a coerência metodológica como um dos méritos dessa obra. Contribui para as discussões sobre a forma como o conhecimento e a informação se organizam e são produzidas, onde a saúde não foge dessas práticas e disputas. Evidencia a amplitude do campo do conhecimento relacionado ao debate da informação. Essa perspectiva é ainda pouco debatida e trabalhada no âmbito da produção de conhecimento que circula com maior vigor na Saúde. Desvenda a complexidade crescente nas sociedades contemporâneas que envolve a Informação.

De leitura obrigatória para os profissionais que se interessam pela diversidade das questões originadas no debate da Informação e da Interdisciplinaridade e suas relações com a Organização do Conhecimento, a coletânea mais do que supera o objetivo a que as organizadoras se propuseram: apresentar concepções diferenciadas, mas congruentes, para as atuais condições do fazer científico e, conseqüentemente, das práticas informacionais e comunicacionais envolvidas.