SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.12 issue4Knowledge of oral health and practices among mothers attending a mother-child dental care program author indexsubject indexarticles search
Home Page  

Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.12 n.4 Rio de Janeiro Jul./Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232007000400030 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Everardo Duarte Nunes

Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Ciências Médicas, Unicamp

 

 

 

Minayo MCS. O desafio do conhecimento. Pesquisa qualitativa em saúde. 9ª edição revista e aprimorada. São Paulo: Hucitec; 2006. 406 p.

Num momento em que a pesquisa em saúde atinge altos níveis de realização e produção, incluindo a publicação de muitos textos em âmbito nacional e internacional, cumpre destacar, no campo da pesquisa qualitativa, o livro de Cecília Minayo. Este livro, que atinge a sua nona edição, revelando uma marca importante no campo das publicações brasileiras, teve desde as suas origens, na tese de doutorado, defendida em 1989, na Escola Nacional de Saúde Pública, um trajeto marcado pelo sucesso. Este sucesso, que se manifesta pela sua presença obrigatória nos cursos na área da saúde pública/saúde coletiva/ciências sociais, deve-se a muitos fatores.

A lógica da construção do Desafio é a da pesquisadora que, profundamente envolvida com a sua formação no campo das humanidades, escreve um texto que se volta para o interior do campo legado pelos clássicos, sem perder a perspectiva da dinâmica científica que somente as pesquisas empíricas podem fornecer. Revisitar esta edição do livro é um prazer renovado. Se, desde o início, o desafio era a proposta no enfrentamento de um terreno árduo – o da pesquisa qualitativa, muitas vezes minado pelas visões positivistas – ele não desaparece, mas retoma com novo ímpeto quando a autora se propôs a rever o texto escrito há quase duas décadas. Não que ele tivesse envelhecido. Livros bons não são datados. Neste caso, a idéia central é a mesma; há acréscimos vindo de novos desafios temáticos e metodológicos.

Outro fator que marca este livro é a sua forma de apresentação: didática, sem apelar para a simplicidade dos manuais (ainda que a autora considere que "por vezes, meu trabalho beira a um manual"- p. 185), tratando de forma erudita diversos aspectos que percorrem a construção do conhecimento: a ciência, a metodologia das ciências sociais, a saúde como objeto central. Estes são aspectos presentes, que, nas palavras da autora: "Mesmo sendo uma obra voltada para o desenvolvimento de metodologias e práticas teóricas, julguei que ao leitor interessaria discutir os desafios do campo da ciência e da tecnologia que se tornaram nos mais importantes fatores produtivos e de geração de riqueza no mundo atual. A esse contexto denomino lado externo da ciência. O lado interno, que corresponde a um jargão específico e a torna passível de ser reconhecida e apropriada em todo mundo, é o objeto deste livro"" (p.12). Escolhi esta passagem como um ponto de referência desta obra, como definidora, embora em toda a Apresentação a autora revele a sua posição e exposição ao campo científico. Nesse sentido, assume a diferenciação da pesquisa qualitativa na produção de conhecimento, sem deixar de destacar que o processo de trabalho investigativo, lato sensu, vem sofrendo rápidas transformações, influenciado pelas mudanças socioestruturais, presença (ausência) do Estado, inovação na gestão científica, e pelas conquistas recentes da pesquisa básica biológica e da computacional. Lembre-se, ainda, que a pesquisa busca ultrapassar a antiga dicotomia ciência básica/ciência aplicada, em nome do conceito de pesquisa estratégica.

Neste livro, a historicidade do processo investigativo e a peculiar forma de investigar o social ao "levar em conta os níveis mais profundos das relações sociais" oferecidas pela pesquisa qualitativa são as garantias de um precioso e amadurecido trabalho. A amplitude do livro, em relação à pesquisa qualitativa, pode ser avaliada quando a autora escreve: "O investimento que faço neste livro diz respeito à pesquisa qualitativa que visa a compreender a lógica interna de grupos, instituições e atores quanto a (a) valores culturais e representações sobre sua história e temas específicos; (b) relações entre indivíduos, instituições e movimentos sociais; (c) processos históricos, sociais e de implementação de políticas públicas e sociais" (p. 23).

Após situar na Introdução que a problemática deste livro é discutir as metodologias qualitativas, "entendidas como aquelas capazes de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais, sendo essas últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação, como construções humanas significativas" (p. 22-23), a autora divide o livro nas seguintes partes: Parte I – Conceitos básicos sobre metodologia e sobre abordagens qualitativas; Parte II – Teoria, epistemologia e métodos: caminhos do pensamento; Parte III – Construção do projeto de pesquisa: fase exploratória; Parte IV – Trabalho de campo: teoria, estratégias e técnicas; Parte V – Fase de análise do material qualitativo.

Não vou me deter detalhadamente em cada capítulo – os próprios títulos encaminham o leitor para um conjunto de idéias que trazem para o campo da metodologia em pesquisa uma perspectiva que o articula ao campo maior da ciência e das relações com os pólos básicos da pesquisa: o teórico, o epistemológico, o técnico e o morfológico, respeitando a especificidade das ciências sociais quando investigam o domínio da saúde. Farei alguns comentários gerais, tentando situar o que me parece central em cada um deles.

Nas questões conceituais, destaca-se o caráter histórico, processual, ideológico das ciências sociais e que elas trabalham no nível da identidade entre o sujeito e o objetivo; o controvertido conceito de metodologia, sendo que neste livro não há separação entre teoria e metodologia, sem esquecer que em toda a pesquisa a "criatividade do pesquisador" é indispensável; o conceito de pesquisa como um caminho para se entender a totalidade, livrando-a, inclusive, das amarras disciplinares. Um ponto sobre o qual a autora reflete de forma crítica é as dimensões quantitativas e qualitativas na pesquisa, destacando as peculiaridades da pesquisa qualitativa, incluindo as possibilidades da combinação de método, discutindo como essas questões apresentam-se no campo da saúde – não são métodos incompatíveis e não se opõem.

De forma brilhante, os capítulos dedicados aos "caminhos do pensamento" trazem ao leitor uma visão abrangente e atualizada das correntes teóricas herdadas do final do século XIX – teorias positivistas, funcionalistas, compreensivas, marxistas - não se esquecendo das perspectivas que se abriram com o pensamento sistêmico quando elas propõem "formas alternativas de tratar os objetos, de investigação, a vida, o mundo, as práticas sociais e, sobretudo, as implicações do investigador com seu objeto de pesquisa" (p. 132). Neste sentido, inclui o pensamento sistêmico em saúde, apontando para sua incipiente presença neste campo. Da mesma forma, são tratadas as abordagens compreensivas, destacando a fenomenologia sociológica, a etnometodologia, o interacionismo simbólico, a investigação participante e investigação-ação, história de vida, narrativa de vida, história oral e etnobiografia, investigação participante e investigação-ação, o estudo de caso, a hermenêutica-dialética, como modalidades que interessam particularmente à pesquisa qualitativa.

Completado esse amplo e consistente pano de fundo, Cecília irá trabalhar a construção do projeto de pesquisa em todos os seus passos, seguida das bases teóricas, das estratégias e das técnicas de trabalho de campo, finalizando com as várias técnicas de análise empregadas. Cecília incluiu, também, uma reflexão sobre a validação e fidedignidade em investigação qualitativa e uma proposta para triangulação de métodos qualitativos e qualitativos.

Se o livro, como diz Jorge Luís Borges, é uma extensão da memória e da imaginação, ele é também um produto da posição que o (a) autor (a) assume perante o mundo e a vida. Este livro de metodologia, ao estender a compreensão deste campo além das fronteiras da tecnicidade da pesquisa social, é um excelente exemplo de como é possível entender e ensinar a pesquisa como uma construção social e humana.