SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.13 issue2Synthesis of the reflections of the meeting on ethics in qualitative health research, Guarujá, São Paulo StateHypertension in impoverished social segments in the state of São Paulo author indexsubject indexarticles search
Home Page  

Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.13 n.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232008000200022 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

Corpos e prazeres nos circuitos de homossociabilidade masculina do Centro do Rio de Janeiro

 

Bodies and pleasures in male homosocial circuits of Downtown Rio de Janeiro

 

 

Luis Felipe Rios

Programa de Pós-graduação em Antropologia, UFPE. Av. Acadêmico Helio Ramos CFCH, 13º andar, Cidade Universitária. 50670-901 Recife PE. Lfelipe-rios@uol.com.br

 

 


RESUMO

O artigo apresenta resultados de pesquisa etnográfica sobre as bases culturais que orientam a formação de eventos corporais, em especial os relacionados ao sexo-erotismo, no circuito de homossociabilidade do Centro do Rio de Janeiro. A coleta de dados envolveu a realização de observações participantes, entrevistas com enfoque biográfico e pesquisa-intervenção entre integrantes do circuito mencionado. O principal argumento apresentado neste texto é que os diferentes eventos corporais da comunidade investigada se alicerçam em uma mesma estrutura conceptual, que foca numa transgressão ao "corpo-carne", nos moldes da filosofia de São Paulo. Uma exaltação do 'tesão', o prazer erótico proibido, que só deveria ser "utilizado" para fins reprodutivos. 'Carne' que, em vez de sublimada, é exaltada; constantemente insuflada e encantada por acréscimos de mais 'tesão'.

Palavras-chave: Homossexualidade, Corpo, Erotismo, Identidades sociais


ABSTRACT

This paper presents the results of an ethnographic research investigating the cultural bases that guide the construction of corporeal events, especially those related to sex/eroticism, in the homosocial circuits of downtown Rio de Janeiro. Data were gathered by means of biographic narrative interviews, direct observations and research-interventions. The main argument presented in this paper is that the diverse corporeal events in the studied community are based on the same conceptual structure that focuses on transgression of the "body/flesh" in the sense of St. Paul's concept: an exaltation of forbidden 'tesão', erotic pleasure only admissible for the purpose of reproduction. 'Flesh' instead of sublimated being exalted, constantly inspired and attracted to more and more erotic pleasure.

Key words: Homosexuality, Body, Eroticism, Social identities


 

 

Introdução

Este trabalho apresenta uma compreensão sobre as bases culturais que orientam a formação de eventos corporais, em especial os relacionados ao sexo-erotismo, entre homens que fazem sexo com homens (HSH). Os dados e argumentos aqui apresentados são frutos de uma pesquisa etnográfica que teve por objetivo investigar o modo como jovens HSH organizam suas parcerias sexuais e práticas eróticas, na perspectiva de oferecer subsídios para compreender e intervir no fenômeno de juvenilização da epidemia do HIV/AIDS entre esta categoria populacional1. A investigação foi realizada considerando dois contextos comunitários: terreiros de candomblé da periferia do Rio de Janeiro e o circuito de homossociabilidade do Centro desta mesma cidade.

Neste artigo, faço um recorte e foco a discussão no último contexto, deixando para outra oportunidade uma apresentação das análises referentes ao candomblé. Do mesmo modo, me deterei, menos nos roteiros de interação identificados2, e mais no que conceituarei adiante como corporeidade, nos moldes como esta se configura no circuito/comunidade em foco.

A importância de reflexões com as aqui apresentadas reside no fato de que os diferentes sistemas de entendimento do mundo (como os de gênero, os de sexualidade, os raciais e outros) tendem a convergir e marcar as desigualdades sociais através de diferenças remetidas ao corpo. Ainda que tais desigualdades não sejam intrinsecamente naturais, mas fruto de um trabalho de socioconstrução, de atribuição de valores a aspectos físicos, psicológicos e sociais das pessoas3, 4. Desse modo, compreender como os grupos dão sentido aos acontecimentos corporais pode oferecer subsídios para construir estratégias em respostas a diferentes agravos sociais, em especial àqueles fortemente marcados por processos de estigmatização5, 6.

Le Breton3, buscando avançar o projeto de Mauss7 de examinar as diferentes concepções deste artefato cultural, o corpo, assinala que o próprio termo que lhe nomeia já carrega em si as marcas de sentido próprias à sociedade ocidental, no qual foi forjado. Grosso modo: ferramenta e invólucro de uma mente/razão; instrumento de labor; integrante dos arsenais postos a serviço da reprodução da espécie e da produção do capital; corpo-forma, constantemente moldado para adequar-se a modelos estéticos, e significado para servir como demarcador de status e prestígio social; anatomo-fisiologia incessantemente investigada pelas ciências médicas que vêm buscando estratégias para mantê-lo saudável e funcionando; corpo-carne formado de instintos que precisam ser controlados para que a ordem natural e/ou sagrada seja mantida8, 7, 3, 9, 10.

Concordando com Le Breton3 e Fougeray10, acredito ser necessário redefinir o próprio objeto de estudo. Que se caminhe do corpo-carne8, modo como a sociedade ocidental se sente enraizada, para se investigar como os diferentes grupos culturais percebem, nos seus próprios termos, o enraizamento de seus atores no mundo. Na conceitualização de Le Breton3, investigar as corporeidades, as quais ele define como matrizes de pensamento e ação; e que, conforme Fougeray10, se expressam em distintas corporalidades.

Assim, enquanto utilizo corporeidade para me referir às estruturas que orientam as práticas, as corporalidades devem ser entendidas como os modos pelos quais estas estruturas se atualizam no cotidiano10. Neste sentido, incorporo às proposições de Le Breton3 e Fougeray10, a perspectiva de Antropologia Histórica de Sahlins11, que conceitua evento como resultante da relação entre um acontecimento e a estrutura: uma atualização única de um fenômeno geral, uma realização contingente do padrão cultural. Assim, um acontecimento se transforma em evento através daquilo que lhe é dado como interpretação; adquirindo, desse modo, uma significância histórica. Nessa perspectiva, busquei trabalhar sobre a síntese situacional entre eventos e estruturas, de certa forma, sobre o que Sahlins11 denominou "estrutura de conjuntura", a realização prática das categorias culturais em contextos históricos específicos – uma análise sociocultural e situacional do significado.

O principal argumento para o qual conflui minha análise neste texto é o de que os diferentes eventos corporais, ou corporalidades, da comunidade investigada – os relacionados aos sistemas de sexualidade quando apreendidos pelas classes populares, como a repartição dos homens entre 'homens-sexuais' e 'homens mesmo'; os relacionados ao gênero, como os personagens 'bichas' (efeminados) e 'bofes' (masculinizados); os relacionados ao sistema erótico, enfocando nas fontes privilegiadas de prazer, repartindo homens em 'ativos' (insertivos) e 'passivos' (receptivos); ou ainda os atravessamentos relacionados às hierarquias etárias, raciais e outros – se alicerçariam em uma mesma corporeidade, que pode ser percebida como uma construção social com uma densidade própria, e que alinhavaria as demais (hierarquias de gênero, raciais e de idade/geração, dispositivos de sexualidade, vivências eróticas, etc.12-14 ).

 

Método

A coleta de dados foi realizada entre os anos de 2000 e 2003, envolvendo a realização de observações participantes, entrevistas com enfoque biográfico e pesquisa-intervenção entre integrantes do circuito mencionado.

No que se refere à pesquisa-intervenção, esta se consistiu em um projeto de prevenção do HIV/AIDS entre jovens HSH de classes populares no Rio de Janeiro15, e tinha como uma de suas principais atividades oficinas semanais de conscientização sobre os fatores que poderiam vulnerabilizá-los ao HIV. A perspectiva reflexiva que orientava a condução dos encontros se desdobrava na mobilização dos participantes ao desvelamento de suas histórias, seguida por uma análise e conscientização coletivas, o que possibilitou um rico acervo de dados. Entre 2001 e 2003, cada encontro reuniu entre 10 a 25 homens, em sua grande maioria jovens ou adultos jovens, residentes nos subúrbios do Rio de Janeiro, de Niterói ou dos municípios que compõem a Baixada Fluminense.

Além da condução do supracitado projeto, tive a oportunidade de entrevistar, entre 2002 e 2003, seis jovens de idade variando entre 18 e 26 anos. Destes, dois rapazes eram de classe média, e os outros de classes populares; um possuía o curso superior completo, outro, o segundo grau incompleto e os quatro restantes, o segundo grau completo. No que diz respeito à raça/cor, e considerando a minha atribuição, três eram negros e três brancos. Todos eles eram participantes do circuito em processo de investigação e constituíram uma amostra composta por conveniência e saturação. Vale também ressaltar que, nas observações, realizadas entre 2000 e 2003, o estudo privilegiou as interações sexuais, e as interpretações que faziam sobre elas, de HSH de idade variando entre 16 e 26 anos, em diferentes espaços que constituem o circuito em foco2.

A análise dos dados foi feita a partir da perspectiva de uma "dupla hermenêutica", como sugerida por Giddens16; ou seja, busquei desvelar os sentidos que os próprios sujeitos constroem de suas ações, balizado com o sentido que eu, enquanto analista, munido de meu referencial teórico-metodológico, construí das ações e interpretações de meus interlocutores17.

A pesquisa seguiu as recomendações das Normas de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos18, sendo submetida e aprovada pelo Comitê de Ética do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Neste sentido, quando apresentar as falas dos meus interlocutores, sublinho que, para garantir seus anonimatos, utilizo-me de pseudônimos. Vale ainda salientar que, nas citações, o parêntese indica uma explicação de um termo ou contextualização de uma fala e os colchetes assinalam a fala do entrevistador no processo de interlocução.

 

Resultados

Os entendidos

Um primeiro ponto a ser observado, em relação ao campo que investiguei, diz respeito à diversidade de posicionamentos (e nomeações para tais posicionamentos) no que concerne às experiências relacionadas à imbricação entre gênero e erotismo dos homens com práticas homossexuais, e que vão rebater na possibilidade de conceitualizar os homens investigados como integrados por uma vivência comunitária, nos modos como assinalada por Haraway19.

Não obstante, bastava que eu percorresse, com um olhar mais atento, a vida urbana do centro do Rio de Janeiro para ver se constituir lugares de homossociabilidade, ainda que dispersos entre a hegemonia heterossexual e, muitas vezes, se imbricando com as chamadas "regiões morais", onde, imaginariamente, se ajuntam marginalizados de todos os naipes20. Reitero, bastava adentrar por estes lugares para ver se configurar uma série de códigos, práticas e sentidos compartilhados pelas pessoas que os freqüentam, e que, a despeito de muitas delas quererem se dizer gays, homossexuais ou outro termo "nativo" correlato, as faziam se marcar enquanto não só integrantes de um circuito que lhes era muito próprio – porque colaboram para a sua constituição – mas também como "entendidas" (sic) no que resulta de suas práxis nestes lugares: sistemas de significados e práticas que estruturam a sexualidade e, mais amplamente, a vida social nesses contextos21.

De fato, os homens que freqüentam o circuito que investiguei pareciam compartilhar uma cultura sexual, fruto de uma organização comunitária, que os permitiam se enredar e se conectar19 dentro de certo campo de desejo e de poder21, a partir do fato de serem sexualmente afins. Por mais que, em certas circunstâncias, e frente à heteronormatividade estigmatizante hegemônica, tudo isso ocorresse muito discretamente22.

Assim, foi no próprio campo que me deparei com "entendido" enquanto uma categoria nativa, ampla, utilizada para dar conta (e dar sentido) da pluralidade de posicionamentos de gênero-erotismo dos homens, e que acenava, pelo próprio sentido do nome ("entendido", alguém que sabe dos códigos), como um indicativo de unidade, de marcação comunitária entre os homens que investiguei.

Categoria, antiga, recorrente nas primeiras investigações acadêmicas20, 23, 24, mas que, nos últimos anos, caiu em certo desuso, em privilégio do termo médico homossexual e do termo político gay.

Onde tudo começa: homens-sexuais

Retomando as diferentes histórias que me foram narradas no correr da pesquisa, quero sugerir que os sentidos oferecidos pelos 'entendidos' para os seus enraizamentos no mundo passam, sobretudo, pelo 'tesão': o 'frisson', a 'quentura', o impulso desejante que leva uma pessoa a querer experimentar e brincar com os corpos (seu e alheios) em busca de prazeres14.

Acho que tudo começou quando eu tinha doze anos. Foi quando eu comecei a sentir que eu [...] Uma coisa diferente, porque era aquela fase que nosso corpo tá em ebulição. E eu comecei a ler livros, um determinado livro que falava muito sobre o assunto. [...] Eu li a respeito do sexo. Sobre pessoas que sentem um prazer esfregando-se nos outros. Então comecei a fazer isso com almofada. Me dava prazer aquilo. Eu tava fazendo alguma coisa – às vezes até de repente –, dever de casa, aí parava e fazia isso por que estava com vontade. Da almofada, eu já comecei a fazer com meninos. Eu gostava daquilo. Até um primo meu, a gente fazia isso de vez em quando: um se esfregava no outro. Um esfrega o sexo no outro. (Márcio, 21 anos, branco, homossexual, classes populares, segundo grau.)

No caso dos 'entendidos', o objeto de desejo marca a diferença. O heterossexismo e reprodutivismo hegemônicos fazem com que eles logo sejam percebidos como divergentes. Goffman5 observa como, freqüentemente, o que seria uma categoria de pessoas marcadas por um estigma, é percebida, entre os próprios estigmatizados e pelos outros, como grupo. Assim acontece com os 'entendidos', que, indo um pouco mais adiante, se organizam comunitariamente para fazer resistência à heterossexualidade normativa e à masculinidade hegemônica, que os define e os valora enquanto desviantes: 'homens-sexuais'.

Mais que erro de linguagem, no meu olhar, esta se constitui em uma reveladora reapropriação da categoria médica pelas classes populares, que, na minha interpretação, se dirige, diretamente, ao mecanismo que criou as sexualidades ocidentais. Como bem lembra Foucault25, remete a um dispositivo que, em vez de reprimir, incita-nos a falar sobre o sexual; mecanismo que elevou o sexo ao estatuto de rei: uma das principais matrizes para se pensar no lugar do ser humano na ordem do mundo (a vida social ocidental). As classes populares fazem emergir um elemento que, ainda que dado, não é muitas vezes lembrado nas suas conseqüências: os 'entendidos' são definidos pelo sexual.

O "povo", ao seu modo, se utiliza desta categorização, ainda que sem que se dê conta de que classificar diferenças enquanto "desvios da natureza" é uma forma de controlar e forjar uma "normalidade" que esteja a favor das exigências sociopolíticas (leia-se reprodutivas e produtivas) da hegemonia. O certo é que o erotismo/'tesão', inscrito no discurso de sexualidade, vai servir de elemento diacrítico, no momento mesmo em que desiguala socialmente e hierarquiza os homens.

Assim, ainda no seio das classes populares, e no outro lado da moeda, surge o que denominam de 'homens mesmo'. Estes são valorizados positivamente pelos seus comportamentos sexuais (supostamente insertivos), são considerados como portadores da sexualidade da norma, ainda que, vez por outra, façam sexo com homens.

Reitero, os 'entendidos' parecem construir sua corporeidade com base nesta norma, que serve, na categorização de onde saiu, enquanto marca e estigma, alerta para os homens da possibilidade de trilhar um caminho contrário ao instituído4. Na verdade, a entrada desse discurso na realidade brasileira é recente24, ganhando a "boca do povo", sobretudo, com a chegada do HIV/AIDS no Brasil, a disseminação do discurso médico na imprensa e através das ações de prevenção21. Ainda assim, no Brasil, homossexual e seu correlato político, gay, ganharam logo, volto a sublinhar, colorações generizadas:

Eu nunca tinha me apaixonado por uma pessoa como eu. [...] E foi a partir daí, da casa de um primo meu, que eu comecei a conhecer o mundo gay; e vi que era possível gostar de uma pessoa como eu. Já voltei no consultório (psicólogo) com essa certeza, já melhorou bastante, porque eu sofria muito, eu acreditava que só poderia ser feliz com um homem. Eu desconhecia um relacionamento com uma outra pessoa como eu. [Não entendi.] Eu desconhecia o que é o gay se relacionar com o gay, até aquele momento ali. Antes de ir pra casa de meu primo, eu só conhecia o interesse por homens, acreditava que só com homens seria possível. [E qual é a diferença, do homem e do gay?] Que é uma coisa que pode ser recíproca, pode acontecer muitas coisas entre nós dois, o que não pode acontecer entre eu e um homem. [Mas, pode acontecer alguma coisa?] Poder, pode [...] Aconteceu comigo e com o Carlos (primeiro relacionamento, quando tinha onze anos). [O Carlos pra você era homem? Não era gay?] Não. Mesmo ele tendo me chupado uma vez, não quer dizer que ele seja gay. Ele quis experimentar, mas ele deve tá por aí, namorando com alguém (mulheres). (Márcio)

O certo é que, no Brasil e outros países latinos, ter práticas homossexuais se desdobra em um estigma que, como sugere a fala de Márcio, funde elementos de duas ordens de pensar o sexual: sexualidade/orientado para o mesmo sexo e gênero/efeminado12, 13, 4, 14. De outro modo, há uma imbricação entre gênero e sexualidade na separação entre 'bichas' e 'bofes' ou 'homens-sexuais' e 'homens mesmo', ou ainda, como na categorização empregada por Márcio, 'gays' e 'homens'.

'Assumir-se': o enraizar-se 'entendido'

Apontado os fundamentos da estigmatização e discriminação em relação às homossexualidades, aprofundarei mais um pouco a resposta dos jovens, rumo à ressignificação do estigma e a constituição comunitária que os permite interagir sexualmente, afetivamente e fraternalmente em meio à hegemonia homofóbica.

Assim, reconhecer o 'tesão' é reconhecer-se diferente, e muito cedo os homens aprendem, graças à violência física e moral, que vivenciá-lo fora de certo anonimato pode implicar um alto ônus pessoal.

Principalmente lá em casa, meus pais diziam que era errado e ficavam sacaneando essas coisas. E o pessoal do colégio também, sacaneava quem era [...] Eu não queria ser sacaneado também. [...] Eles (os pais) não sabem. Quer dizer, não oficialmente, que sou homossexual. Minha mãe, ela desconfia, mas tenta sempre tampar o sol com a peneira e meu pai é super-preconceituoso. Quando passa alguma coisa na televisão sobre gay, ele fica já [...] Aquelas atitudes babacas, né? Fica, assim, com preconceito mesmo; uma coisa horrível! [...] As pessoas dizem que você tem uma doença. Não, não achava que era uma doença, mas que isso ia passar, que era só uma fase da minha vida, entendeu? Aí eu fazia, achava que não devia ter feito, ou às vezes que devia ter feito. Mas pensava sempre que isso ia passar. Não devia ter feito pra não ficar alimentando, até [...] Alimentando isso, e eu fazer mais e mais, e começar a levar uma vida, entre aspas, anormal, né? Das outras pessoas, pelo menos que conviviam comigo. (João, 23 anos, branco, homossexual, classe média, pré-universitário, em parceria fixa, não coabitando.)

Contudo, os homens, também muito cedo, se beneficiam de uma outra norma social: o livre trânsito que é concedido aos machos.

Pô, eu tava conhecendo pessoas super-legais. Eu não freqüentava lugares gays, eu conhecia na rua mesmo. Às vezes até passeando na praia. Eu trabalhava em Ipanema e às vezes eu ia andar e conhecia, na praia ou na rua, esbarrava e acontecia, né? (João)

Eles podem facilmente caminhar através dos espaços privados do mundo familiar e também pelos espaços públicos – e à medida que vão galgando as idades vão podendo alargar os espaços de trânsito e facilitar os seus anonimatos. E não é à toa, como se tem mostrado, que o centro das cidades é sempre um lugar muito bom para certo enraizamento geográfico dos 'entendidos'20, 12.

Aí começou direto. Eu tinha curso aqui na cidade, na Escola de Música. Toda semana eu vinha pra cá e, geralmente, toda semana eu encontrava alguém pela rua e fazia alguma coisa. (João, referindo-se à idade de 16 anos)

Munidos do 'tesão' e transitando por diferentes espaços do mundo social, os homens podem eventualmente perceber outros homens que também se encantam por pessoas de corpos semelhantes. Os sentidos, em alerta, se deixam informar dos códigos necessários para interagir de modo que a realização dos desejos se dê. Na verdade, apenas ocorre um ajustamento dos sinais já vigentes na cultura sexual hegemônica.

[Mas como é que tu percebia que ele era do babado ('entendido')?] Ah, eu não sei, eu sei que eu olhava [...] É porque eu comecei a olhar pra ele, ele começou a olhar pra mim, então percebi na hora, entendeu? [E, assim, quando tu queres paquerar, ficar com a pessoa, quais são os códigos, assim, que tu usa pra indicar que tu é gay?] O olhar, só o olhar. Eu olho direto no olho da pessoa, se a pessoa ficar olhando pra mim direto, fixamente, é porque eu sei que ela é. Tá querendo alguma coisa. Então[...] (João)

O olhar, a paquera heterossexual, metamorfoseia-se (no acréscimo de cuidados e discrição para não "ferir suscetibilidades" alheias) em 'azaração'. Em muitos dos casos a 'azaração' é a porta de entrada para a cultura 'entendida'.

Não obstante, preciso retroceder mais um pouco no tempo para não esquecer que são as brincadeiras na infância, antes da estabilização pessoal dos valores sociais, que, em muitos casos, fornecem o substrato que possibilita a entrada neste "outro mundo".

Apagavam a luz e iam pra debaixo da cama. Aí, lá embaixo eu não cheguei nem a ir [...] Os dois iam pra debaixo da cama, e dois ficavam sentados em cima, assim, da cama, de escuta. Apagavam a luz, que diziam que, no escuro, o ferreiro (pássaro) ficava mais calmo e tal [...] Desculpa, assim! Os dois iam pra debaixo da cama. Aí, lá dentro, um colocava o pau pra fora pro outro segurar, não sei o quê. Mas fingindo que nada acontecia. Mas nem cheguei a isso. Fiquei só sabendo das paradas assim. [Isso era mais ou menos [...] Tinha qual idade?] Tinha dez, onze anos. [...] Eu recebia propostas, às vezes. Sabem, assim, parece que sentem, que você tem desejo. Coisa estranha! Tanto que se aproximavam de mim querendo me comer, uma coisa assim [...] (Chico, 26 anos, negro, homossexual, classes populares, formação superior)

A história do 'assumir-se', relatada por João, pode ser paradigmática para pensar o processo de 'conversão', do enraizar-se 'entendido'. Vejamos o que ele nos conta quando pergunto a respeito de relacionamentos fixos:

Acho que pra esses namoros eu já estava aberto, assim [...] Eu já estava querendo alguém pra, pra namorar, pra não ter que ficar todo dia, sair com um pra transar. Eu queria uma pessoa pra transar regularmente, pra ter carinho, que eu tava precisando de carinho, essas coisas [...] Essa que era a diferença, né? (João)

João lembra que, dada a opressão familiar e da sociedade mais ampla, não foi nada simples associar erotismo e afetividade. Na sua narrativa, a possibilidade de namoro com pessoas do sexo masculino foi relacionada ao processo de 'se assumir', se reconhecer gay, homossexual:

Têm pessoas, assim, que eu falei: 'Ah, eu deveria!' Hoje eu achava que se tivesse assumido, naquela época, eu teria aproveitado muito mais, essas pessoas que passaram. Que eu era muito preso mesmo, entendeu? Então só deixava as pessoas fazerem em mim e nem tocava nas pessoas, então não mantinha muito. Eu não queria manter uma relação, entendeu? Ligar, essas coisas, eu não queria. (João)

Resumindo, por causa dos conflitos decorrentes da valorização social imputada aos desejos que sentia, antes de se assumir, João relata que levava uma vida dupla, namorava com garotas e ficava com rapazes. No seu trajeto de vida – um crescente processo de 'assumir-se' ainda não inteiramente completado – aos poucos ele vai ressignificando sua posição no mundo (sentir 'tesão' por homens) a partir dos contatos sexuais (com mulheres e homens); re-experimentando brincadeiras que tinha na infância (memoráveis 'chupações'/ sexo oral); vai dando novos sentidos às posições sexuais ('ativo'/'passivo', quem introduz e quem recebe partes dos corpos) e prazeres corporais.

Ah! Uma coisa que até lembrei. Acho interessante de contar. Quando eu tive vontade de ser passivo, né? Já tive vontade! Foi no ano passado também. Eu tava começando a sentir vontade. Pensando assim: 'Poxa! Porque eu acho que os caras podem fazer em mim: podem chupar, posso comer e eu não posso fazer nada disso? Ah! Fala sério! Eu também quero experimentar, pra saber por que eles gostam tanto'. Aí, tava numa vontade, numa vontade, não sei o quê [...] Aí teve um dia, isso foi em março, aniversário da Maria, né? Porque era aniversário dela, aí tava puto que já tinha discutido lá em casa. Fui na rua [...] cortar meu cabelo e na hora que eu tava, quando tava saindo, vejo um cara, todo fortão, assim [...] Me chamou logo a atenção e eu fiquei olhando pra ele e ele olhou pra mim. E ele ficou olhando pra mim, então já sabia que [...] Que ele também gostava! Aí saí, continuei olhando, saí do cabeleireiro, continuei olhando de fora, aí saiu [...] Nós fomos conversando. Aí foi conversando, não sei o quê [...] Só que, ali em São Cristóvão, era muito ruim de rolar alguma coisa, né? Mas eu tava louco pra que acontecesse alguma coisa, que eu tava com muito tesão, tava sentindo muito tesão pelo cara. Aí falei: 'Vamos aqui no banheiro'. Aí eu entrei num banheiro ali, num bar daqueles [...] Aí nós ficamos lá dentro. Eu entrei primeiro e ele comprou um negócio e entrou logo em seguida, né? Aí nós ficamos lá dentro, um tocando (masturbação) no outro. Nunca tinha beijado homem nesse nível [...] Tava com a maior vontade de beijar. Agarrei ele e beijei. Aí peguei ele e agarrei, agarrei [...] Eu tava morrendo de vontade, aí dei um beijo nele de língua. Só que eu tava com muita vontade de chupar também. Eu falei: 'Ai meu Deus, eu to [...]' Aí falei pra ele, que eu tava com vontade de chupar, mas não sei se tinha coragem, que é [...] Pô! Não tinha feito isso ainda, de homem, essas coisas, né? Não sabia se tinha coragem, né? Aí (ele) falou: 'Mas é tão simples!' E ele se abaixou e me chupou. Aí falou: 'Vai lá!' Aí eu fui e chupei. Mas foi super-rápido, que tava no banheiro, e teve que ser uma coisa super-rápida, né? Aí foi [...] Aconteceu isso e depois a gente saiu, nos encontramos lá fora. Ele me deu o telefone dele. Só que, aí, eu não queria ligar. Só que eu não parava de pensar, que eu tava [...] Não matou a vontade que eu tava, né? Que foi muito rápido. Eu liguei pra ele depois, só que não cheguei a marcar nada [...] Até que teve um dia, neste mês mesmo, em março. [...] Não tava agüentando mais de tanto tesão, estava subindo pelas paredes, já. [...] Passei direto no trabalho dele, sem avisar, nem nada. Aí a gente conversou, não sei o que, e ele falou: 'Passa aqui lá pras sete horas que eu vou estar sozinho.' [...] Cheguei lá umas sete horas, mais ou menos, e aí rolou. A gente ficou, nós dois sozinhos lá, e aí rolou chupada. Ele me chupou, eu chupei ele. Nós dois gozamos, nenhum chegou a comer o outro não. Mas foi super-legal [...] Eu pelo menos matei a vontade que eu tava. Só que eu, em tese, não matei toda. Tava com vontade de dar também. Só que eu não dei pra ele, eu dei no outro dia, pra um outro cara. (João)

É interessante notar como as diferentes partes e interações corporais, generizadas em uma topografia de 'passividades'/feminilidade e 'atividades'/masculinidade, vão sendo ressignificadas; muitas delas transformando-se, de lugares intocáveis, em possibilidades prazerosas de interação. É constante, nos diferentes relatos que ouvi, referências ao corpo-carne8, formado de instintos a serem domados, que, e em negação ao controle, vai se encantando por acréscimos de 'tesão' e à medida mesmo que as interações vão se dando.

Processo que para se consolidar exige a presença de pares, de 'entendidos' com quem compartilhar as intimidades.

Mas aí, o único lugar gay que eu freqüentava, no início do ano passado, era a praia. [...] Porque eu não tinha amigos pra ir, entendeu? Era muito fechado em relação a amigos. Não sabia pra quem contar, não tinha amigos da minha idade. Eu queria ter amigo da minha idade, pra poder conversar. Poder falar, né? Aí tinha um amigo meu, que fazia teatro comigo; que ele já tinha perguntado pra mim, mas eu tinha negado. E eu também achava que ele era. O Gilberto achava que era, tinha a maior pinta, mas jurava de pés juntos que não era, que não era, que não era. Até que um dia, ele chegou, numa brincadeira, naquele jogo da verdade, ele bateu na mesa e: 'Sou gay, sou homossexual sim! E eu sei que você é!' Aí acabei falando. Ele falou pra mim, então acabei falando pra ele, que também era, não sei o que [...] Aí que nossa amizade começou a ficar melhor, que já tinha uma pessoa pra contar, pra poder confiar, né? Aí foi que comecei a freqüentar os lugares gays. [...] Os lugares gays eu só comecei a freqüentar quando realmente eu já sabia que isso não ia mudar, que já tinha assumido a homossexualidade pra mim, né? (João)

Como desvela e exemplifica o relato de João, no processo de 'assumir-se' dos rapazes que entrevistei são necessários não apenas homens que lhes provoquem e/ou realizem os prazeres corporais, mas também pessoas com quem compartilhar sentidos, amigos. Talvez tenhamos aqui, e já pontuava Guimarães26, o verdadeiro 'troca-troca' da igualdade, mediado por afinidades19, 21.

Amizade que também é prazerosa, e sexual (no sentido de trazer esta ordem ao discurso), mas que não implica as interações de 'sarração' (fricção dos corpos mediada pela roupa em busca de prazer sexual) e de 'baco' (introdução de partes côncavas em convexas, com ênfase em práticas sexuais não reprodutivas, também em busca dos prazeres corporais)2, mas funda-se na troca de impressões, intenções, códigos, projetos, afeto. Lembro, junto com João, e também Parker21 e Green24, que as redes de amizades foram, e são, fundamentais para o apoio psicossocial para homossexuais, na ausência e/ou quebra das ligações familiares, dados os valores impingidos às homossexualidades.

'Entendidos', cyborgs e outros seres pós-identitários, e o conto do armário

Quero enfatizar que, frente ao estigma e com base nele, os 'entendidos' constroem menos uma identidade e mais posições de sujeito – posições que, muitas das vezes, podem se desdobrar até a estabilização requerida para ser percebida enquanto uma identidade social. Aqui, assumo a perspectiva sugerida por Hall27 de utilizar o conceito de identidade sob rasura, uma vez que, embora ele seja insuficiente para dar conta dos processos políticos e de agências envoltos nas estratégias que possibilitam cambiar as posições (pois foi construído dentro de um paradigma totalizante, substancializador e essencialista), ainda não temos um novo conceito que o supere dialeticamente. Reitero, posições estratégicas que se processam via agências dos diferentes traços socialmente valorados. Afinal, em meio às políticas culturais e de identidades que se processam, em alguns momentos se descrever com base em determinadas identidades pode ser questão de vida ou de morte.

Aí ela (a mãe) perguntou: 'Você não é gay não, né? Não, você não é gay?' Aí eu falei: 'Não, mãe, por quê?'. Porque eu senti que ela não tava preparada pra ouvir. Tanto que, na própria pergunta, ela negou: 'Você não é!' Então, senti que ela não tava preparada pra ouvir, e eu também não quero falar agora, antes de poder me sustentar. Porque depois vai que eu falo, e ela dá com a língua nos dentes, e fala pro meu pai? Então como é que eu vou ficar? Não tô podendo me sustentar agora, bancar conta, essas coisas todas, né? Então, quando eu falar – se precisar falar! –, vou falar quando eu já tiver condições financeiras de sair de casa e poder viver minha vida, né? Acho que aí que eu vou falar. (João)

Assim, por mais que os sujeitos, nos processos de interpelação social, sejam instados a assumir identidades, sendo falados pelas formações ideológicas em que se inserem, os fragmentos de histórias apresentados acima podem mostrar que eles têm a possibilidade de articular, a depender de contextos e interlocutores, os elementos variados das muitas enunciações disponíveis28, 29 – ainda que a escolha não seja inteiramente aleatória, mas se realize dentro de um conjunto de repertórios oferecidos culturalmente30, 14, 21.

Como propõe Hall27, no foco das construções identitárias estão os processos de identificação com as categorias oferecidas culturalmente – afinidades com características que são partilhadas com grupos ou pessoas; em certos níveis, solidariedade com o grupo em questão. É certo que, como todas as práticas de significação, ela está sujeita ao jogo da diferença, havendo no trabalho discursivo uma tendência para o fechamento e marcação de fronteiras. Contudo, o supracitado autor lembra que a identificação se configura como um processo de articulação onde nunca há um ajuste completo à totalidade. As identidades individuais, resultantes dos múltiplos processos de identificação, serão, portanto, sempre pontos de sutura cambiantes, momentâneas e contextuais, ainda que, quando os sujeitos utilizem-se da narração para configurá-las, elas se apresentem com um efeito integrador e estabilizante (e de verdade)31.

A metáfora do 'armário', bastante utilizada para se falar do processo descrito por João como 'assumir-se', pode ilustrar esta minha proposição: 'sair do armário' vai além do fato de se estar simplesmente dentro ou fora dele (que por si só já remete a uma posição, pois não há uma destruição do armário; há uma saída e, quem sabe, em alguns momentos, uma volta), envolve muitas outras possibilidades performáticas, na medida em que os armários guardam mais que roupas, fantasias: mil possibilidades de se 'apresentar' no mundo. No abrir e no fechar das portas, posições diversas podem ser 'assumidas'.

Aqui estou lembrando do que Simon e Gagnon30 denominaram "ensaio interno", onde o conjunto de roteiros sexuais aprendidos seria, através da capacidade de fantasiar, reorganizados simbolicamente. Por meio deste processo, o sexual seria antecipadamente e imaginariamente experienciado em relação aos vários posicionamentos possíveis para o ator e frente aos diferentes anseios multivocais da vida social. Vivenciar antecipadamente os diferentes posicionamentos, dizem, é especialmente importante quando o ator é integrante de sociedades onde a complexidade, os conflitos e a ambigüidade tornam-se endêmicos; sociedades pós-paradigmáticas na terminologia dos autores, ou, como tem preferido a Antropologia, sociedades complexas.

Ainda que em resistência32, é importante que eu deixe claro, e os relatos até aqui apresentados e analisados argumentam nesse sentido, os 'entendidos' se constituem não tanto em contrário à sociedade englobante e sua cultura, mas embasados nela. Na passagem que realizam, reeditam muitos dos sistemas que são opressores tanto lá, na sociedade englobante, como cá, na comunidade. O sistema de gênero, por exemplo, surge em diferentes matizes.

Eu nunca me prendi a esse lance de ser pintosa (efeminado), ser passivo. Eu sei que, quando você é pintosa, é um pouquinho mais difícil você arrumar namorado, entre aspas, né? Porque, ah, não sei por que, até no meio gay tem aquele lado meio latino, aquele lado de o másculo, de ser o tal. Tem um pouco essa dificuldade e o lance de ser passivo. Eu nunca me prendi a isso não. Eu sempre curti uma sacanagem, assim sempre uma sacanagem. Independente de ser passivo, ativo. Mas, essa cultura, eu fui aprendendo com uns amigos meus, que diziam: 'Ah, fulano é passivo. Tem que ser ativo, que não sei o quê'. Entendeu? Isso foi mais, assim, imposto por alguns amigos meus. De ser passivo, ser ativo. Que eu mesmo, como pessoa, nunca me liguei nisso não. Eu sempre me liguei em sentir prazer, sempre me permiti sentir prazer. Era o que eu queria. Era gozar e pronto, independente de ser passivo ou ativo. Eu acho que isso foi a minha referência. [Mas e essa associação que muita gente faz entre a pintosa e ser passiva?] É por que tem aquele lado né, assim [...] De ver a pintosa e achar que é mulher. Eles também acham que na cama ela também quer ser, né? Têm muitas que são assim! Mas também já saí com algumas que não. Já saí com algumas pintosas – pintosas, pintosas, que são uma mancha – que chega na cama era um homem, é um ativo. Foi as melhores transas algumas foram as melhores! Agora têm outras, não! Têm outras que são pintosas mesmo, que são mulher, mulher, mulher, pronto e acabou. Não pode nem encostar no pau, que não gosta. Já aconteceu de eu sair com caras, assim, que não podia nem encostar a mão (no pau), que acabava o "tesão" na hora. (Ronald, 22 anos, negro, homossexual, classes populares, 2.º grau incompleto.)

Contudo, o que se tem observado é que, em vez de, entre os 'entendidos', se reeditar ipsis litteris a hierarquia dominante, muitas vezes eles a reviram de ponta-cabeça. As categorizações bipolares, como as de 'bofe' (hiper-masculino) e 'bicha' (hiper-feminino), relacionadas às performances de gênero, e do 'ativo' (penetrador) e 'passivo' (receptor), relacionadas às fontes de obtenção de prazer erótico, são questionadas quando são performadas no cotidiano, na medida em que são forçadas a significar corpos masculinos em interação sinalizando que a natureza que a elas se atribui não é tão natural assim.

Argumento, a vida, por si só, é "queer", é "camp". Na paródia da paródia que dela fazem, exagerando as contradições, estes homens, como bem já apontou Edward MacRae33, trazem para o interior de suas comunidades – que, por sua vez têm um pé lá, na sociedade mais ampla – a possibilidade transformadora das transgressões para as relações sociais34. Aqui temos a transgressão da ironia e da blasfêmia própria aos cyborgs de Haraway19: A blasfêmia implica sempre uma seriedade em relação aos fatos. Não conheço melhor posição a adotar com relação às tradições seculares-religiosas e evangélicas da política dos Estados Unidos, incluindo aí a política referente ao feminismo socialista. A blasfêmia evita que sejamos arrastados pela maioria moralista; ao mesmo tempo em que valoriza a relação comunitária, a blasfêmia não é apostasia. A ironia opera com contradições que não se resolvem em grandes espaços, nem mesmo dialeticamente; a ironia se constitui na tensão entre elementos incompatíveis, porque ambos ou todos são necessários e verdadeiros. A ironia tanto se refere ao humor quanto à seriedade. É também uma estratégia retórica e um método político, que eu gostaria de ver mais privilegiado dentro do feminismo socialista. No centro de minha fé irônica, minha blasfêmia, encontra-se a imagem do cyborg.

Sobre estes, os cyborgs, e brincando com as palavras de Haraway19, direi: são seres híbridos, "que não têm medo de seus parentescos com animais e máquinas, nem de suas identidades permanentemente parciais e pontos de vistas contraditórios" , "não sonham com a comunidade a partir do modelo da família orgânica", mas que optam em se enredar no mundo. Afinal, "necessitam de conexão". Eles formam uma "identidade política chamada 'consciência oposicional', nascido da habilidade de identificar redes de poder pelos marginalizados das categorias de raça, sexo e classe", em meio à "desordenada polifonia emergente da descolonização" da sexualidade e do gênero. Os 'entendidos' que estudei fazem coro a outros cyborgs, demonstrando para a sociedade mais ampla que "as ideologias da reprodução sexual não podem mais considerar as noções de sexo e papel sexual como aspectos orgânicos em objetos naturais, tais como organismos e famílias".

 

Discussão

Cosendo a colcha de relatos: "corpo-carne" + 'tesão' = 'entendido'

Em meio a essa "confusão de fronteiras", à qual alude Haraway19, ao falar do enraizamento dos 'entendidos', não posso me permitir elencar os eventos que lhes são próprios em termos de categorias bipolares como tradição e modernidade, subúrbio e zona sul, casa e rua, etc., sem considerar que, na verdade, as possibilidades de experiências e de performances são múltiplas. A bipolaridade e os modelos ideais muito bem logicamente organizados parecem não mais caber neste "mundo em descontrole"35. Em vez de oferecer possibilidades explicativas (ou, mesmo, criativas, como quer Fry23), mais escamoteiam que revelam.

As vivências apresentadas nos relatos que transcrevi, e muitas vezes à minha revelia – e por mais que as exigências da escrita etnográfica acadêmica tenham me forçado para encontrar uma lógica que costurasse a colcha de retalhos (ou de relatos) que é o mundo social – vão mostrando as contradições dos sistemas.

Pensando em registro e transformação, já nos lembrava Sahlins11 que as mudanças se inscrevem em meio às recorrências, pois que o sentido que se dá para ambas está calcado nas interpretações. Permanências e mudanças estão acontecendo simultaneamente e cabe aos atores, os "nativos" (e também os pesquisadores, porque humanos), construírem narrativas, performativas e/ou prescritivas, para dar sentido ao que viveram ou estão vivendo (e/ou viverão)31. Nós, desavisados pesquisadores, temos uma tendência, ou o mau hábito, de tomar o prescritivo como o real (quando não queremos, nós mesmos, prescrever o que acontece). Temos um retrato (lembro, constituído com base em um ângulo, uma pose e uma lente) e pensamos que capturamos a essência das coisas, ou simplesmente tomamos uma dada conjuntura como a estrutura.

Em fim, mas ainda não finalmente – e ainda temendo tomar por estrutura a conjuntura, mesmo que apenas querendo falar de uma estrutura de conjuntura – ouso dizer que, para o 'entendido', a sua materialidade é o "nosso" corpo físico: o "corpo-carne" da hegemonia – a carne Paulina que é 'tesão' proibido e, quando muito, só deve ser "utilizada" para fins reprodutivos8. "Carne" que, em vez de sublimada, é exaltada; constantemente insuflada e encantada por acréscimos de mais 'tesão'.

É o 'tesão' a energia que promove as interações ('azarações', 'sarrações', 'bacos' e 'relacionamentos') entre os 'entendidos', em espaços e em corpos mimetizados, para (e muitas vezes simultaneamente) disfarçá-los e desvelá-los (difusamente), em jogos posicionais de agências. 'Tesão' que os permite, e à revelia dos 'caretas', se enraizarem no mundo!

 

Agradecimentos

Os dados e análises aqui apresentados foram fruto da pesquisa para a elaboração de minha tese de doutoramento, defendida em 2004 no Instituto de Medicina Social da UERJ, e teve diferentes financiamentos: da FAPERJ, através de bolsa concedida para a realização do curso; do VI Programa Regionalizado de Metodologia de Pesquisa em Gênero, Sexualidade e Saúde Reprodutiva (NEPO/UNICAMP) e do Programa GRAL - Gênero, Reprodução, Ação e Liderança (Fundação Carlos Chagas). A pesquisa também contou com o apoio da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, meu engajamento no projeto Juventude e Diversidade Sexual possibilitou muito da compreensão apresentada neste texto. A estas instituições vão os meus agradecimentos.

 

Referências

1. Barreira D. Tendências Epidemiológicas. In: Programa Nacional de DST e AIDS, organizador. Novos desafios da prevenção da epidemia pelo HIV/AIDS junto aos homens que fazem sexo com homens. Brasília: Ministério da Saúde; 2002.         [ Links ]

2. Rios LF. Parcerias e práticas sexuais de jovens homossexuais no Rio de Janeiro. Cad Saúde Pública 2003; 19(Supl 2): S223-S232.         [ Links ]

3. Le Breton D. La Sociologie du corps. Paris: Presses Universitaires de France; 1992.         [ Links ]

4. Lancaster R. 'That we should all turn queer?': homosexual stigma in the making of manhood and the breaking of a revolution in Nicaragua. In: Parker R, Aggleton P, organizadores. Culture, society and sexuality: a reader. London: UCL; 1999.         [ Links ]

6. Goffman E. Estigma. Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC; 1988.         [ Links ]

7. Elias N, Scotson J. Os estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro: Zahar; 2000.         [ Links ]

8. Mauss M. Sociologia e Antropologia. Rio de Janeiro: EDU; 1974.         [ Links ]

9. Ariès P. São Paulo e a carne. In: Ariès P, Béjin A, organizadores. Sexualidades ocidentais. São Paulo: Brasiliense; 1985.         [ Links ]

10. Turner B. El cuerpo y la sociedad: exploraciones en teoria social. México: Fondo de Cultura Economica; 1989.         [ Links ]

11. Fougeray S. Do corpo na Antropologia à Antropologia do Corpo. Anais do V encontro de antropólogos do Norte-Nordeste. Recife: Ed. Universitária; 1998.         [ Links ]

12. Sahlins M. Ilhas de História. Rio de Janeiro: Zahar; 1990.         [ Links ]

13. Rubin G. O tráfico de mulheres: notas sobre a 'economia política' do sexo. Recife: SOS Corpo; 1993.         [ Links ]

14. Rubin G. Thinking sex: notes for a radical theory of the politics of sexuality. In: Nardir P, Schneider B, organizadores. Social perspectives in lesbian and gay studies: a reader. London: Routledge; 1998.         [ Links ]

15. Parker RG. Corpos, prazeres e paixões: a cultura sexual no Brasil contemporâneo. São Paulo: Best Seller; 1991.         [ Links ]

16. Almeida V, Rios LF, Parker RG. Ritos e ditos de jovens gays. Rio de Janeiro: ABIA, 2002.         [ Links ]

17. Giddens A. The constitution of society: on outline of the theory of structuration. Cambridge/Berkeley: University of California Press; 1984.         [ Links ]

18. Geertz C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara; 1987.         [ Links ]

19. Conselho Federal de Medicina. Normas de pesquisa envolvendo seres humanos. Resolução CNS 196/96. Bioética 1996; 4(Supl 2):15-25.        [ Links ]

20. Haraway D. Um manifesto para o cyborgs: ciência, tecnologia e feminismo socialista na década de 80. In: Hollanda HB, organizadora. Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco; 1994.         [ Links ]

21. Perlongher N. O negócio do michê: a prostituição viril em São Paulo [dissertação]. Campinas (SP): Unicamp; 1986.         [ Links ]

22. Parker RG. Abaixo do Equador. Rio de Janeiro: Record; 2002.         [ Links ]

23. Pecheny M. Identidades discretas. In: Rios LF, Almeida V, Parker RG, Pimenta C, Terto Jr V, organizadores. Homossexualidade: produção cultural, cidadania e saúde. Rio de Janeiro: ABIA; 2004.         [ Links ]

24. Fry P. Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Zahar; 1982.         [ Links ]

25. Green J. Além do Carnaval. A homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: UNESP; 2002.         [ Links ]

26. Foucault M. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal; 1993.         [ Links ]

27. Guimarães CD. Casos e acasos. Anais do IV Encontro da ABEP, Vol 1; 1984.         [ Links ]

28. Hall S. Quem precisa da identidade? In: Silva T, organizador. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes; 2003.         [ Links ]

29. Bakhtin M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec; 1997.         [ Links ]

30. Pêcheux M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp; 1988.         [ Links ]

31. Simon W, Gagnon J. Sexual Scripts. In: Parker R, Aggleton P, organizadores. Culture, society and sexuality: a reader. London: UCL; 1999.         [ Links ]

32. Terto Jr. V. As histórias de vida na pesquisa sobre homossexualidade e Aids. Sexualidade, gênero e sociedade 2000; 14.         [ Links ]

33. Castells M. O poder da identidade. A era da informação: economia, sociedade e cultura II. São Paulo: Paz e Terra; 2000.         [ Links ]

34. MacRae E. Os respeitáveis militantes e as bichas loucas. In: Vogt C, organizador. Caminhos cruzados. São Paulo: Brasiliense; 1982.         [ Links ]

35. Augras M. O que é tabu. São Paulo: Brasiliense; 1989.         [ Links ]

36. Giddens A. O mundo em descontrole. Rio de Janeiro: Record; 2000.        [ Links ]

 

 

Artigo apresentado em 28/03/2006
Aprovado em 03/07/2007