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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.13 n.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232008000600036 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Claudia Abbês Baeta Neves

Departamento de Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Estudos da Subjetividade, Universidade Federal Fluminense

 

 

Deslandes SF, organizadora. Humanização dos cuidados em saúde: conceitos, dilemas e práticas. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2006. 414 p

De quando equivocar os conceitos/práticas de humanização dos cuidados em saúde faz emergir o inumano em nós

O importante livro Humanização dos cuidados em saúde: conceitos, dilemas e práticas, organizado pela professora Sueli Deslandes, funciona como um "guia de cego" que, como tal, não se propõe a guiar o outro, mas primordialmente faz um convite a se deixar "guiar com", a experimentar um mergulho por entre conceitos-práticas que convocam o inumano em nós. Inumano que, como dizia Clarice Lispector1 não significa 'desumano', pelo contrário: o não humano é o centro radiante de um amor neutro em ondas hertzianas [...] teremos o que mais se assemelha a uma atitude do que a uma idéia. Seremos a matéria viva se manifestando diretamente [...] Seremos inumanos como a mais alta conquista do homem.

Se aceitarmos o convite dos autores, podemos experimentar o desafio de nos deslocarmos dos lugares fixos que têm inscrito as práticas de humanização em saúde a partir de fronteiras disciplinares, de gênero e de idealização do humano. Estes deslocamentos nos possibilitam acessar um "não lugar", para além e aquém do humano, que nos liga a um plano em constante engendramento, o coletivo, onde construímos concretamente nossa singular humanidade. Deleuze, em seu livro sobre Foucault, afirma que O diagrama, enquanto expõe um conjunto de relações de forças, não é um lugar, mas um não-lugar: é lugar apenas para as mutações. [...] Certamente o diagrama se comunica com a formação estratificada que o estabiliza ou fixa, mas conforme um outro eixo; ele se comunica também com o outro diagrama, os outros estados instáveis do diagrama, através dos quais as forças perseguem seu devir mutante2.

Deslandes, na organização deste livro, constrói com os diferentes autores um diagrama de percursos e trilhas teórico-práticas da humanização do cuidado em saúde e nele expõe criticamente as linhas que fixam as práticas "autodenominadas de humanização" em linhas de força produtoras de banalização, naturalização e racionalidades tecnicistas, linhas estas que extraem a força de equivocação e invenção de modos outros de se experimentar e produzir dignamente o cuidado em saúde, mas traz fundamentalmente neste diagrama as linhas que se conectam com modos de produzir cuidado em saúde cuja aliança ético-política se faz numa ação crítica e tensionadora das práticas que se querem uniformes, homogêneas, exclusivas e desgarradas dos modos de gestão.

O que marca a densidade e a importância desta publicação é a clara opção da organizadora de trazer para o campo de discussão a polissemia que caracteriza as práticas de humanização em saúde na atualidade. Entretanto, é importante ressaltar que ela o faz sem transformar esta polissemia em compilação de textos díspares, sem uma clara opção ético-política. Mergulhamos na leitura dos textos tocados pela tensão constitutiva destas práticas in loco, experimentando a diversidade que constrói um comum - diferente do igual - que se faz no entendimento de que investir em práticas de cuidado humanizado implica reinventar a relação trabalhador de saúde-usuário/rede social, (re)inventando-se com ela. O que salta dos diferentes textos e abordagens é o entendimento de que saúde é um processo de produção de sujeitos autônomos e protagonistas e implica uma experimentação que requer atenção inclusiva para a multiplicidade de determinantes da saúde que não cabem mais na redução do binômio queixa-conduta. Falamos então de práticas de humanização como lócus de produção de novos territórios existenciais, alimentados numa experiência concreta de construção de vínculo, co-responsabilização, protagonismo dos sujeitos e co-gestão dos processos de trabalho. O que insiste e persiste por entre os textos é que o envolver-se com a produção do cuidado em saúde nos "lança" irremediavelmente no campo da complexidade das relações – entre os sujeitos trabalhadores, gestores e usuários dos serviços de saúde – no qual a opção excludente por um dos pólos não se sustenta para a afetiva alteração dos modelos de atenção e de gestão em saúde.

O livro se monta a partir de três vetores de discussão que se transversalizam; um primeiro vetor que reúne textos que se voltam para a exploração de conceitos e conexões disciplinares referentes à humanização dos cuidados, abordando as contribuições da sociologia médica, a perspectiva ontológica do cuidado, a complexidade da relação médico-paciente, os desafios do encontro profissional de saúde –usuário na atenção básica, as redes sociais de suporte a saúde, a centralidade do trabalho vivo nas discussões sobre processo de trabalho e saúde do trabalhador, a construção de grupalidade com trabalhadores de saúde e a perspectiva político comunicacional em saúde. Um segundo vetor que foca os trabalhos de humanização nos cuidados de saúde da criança, abordando experiências de trabalho com os pacientes, familiares e equipe de saúde no cotidiano do cuidado intensivo neonatal e pediátrico, os desafios do cuidado integral e humanizado pelo viés das relações estabelecidas entre os profissionais de saúde e os bebês e sua família, o brincar como tecnologia das relações capaz de interferir nos modos de se produzir a intervenção clínica e a importância da problematização da relação médico-paciente na assistência as vítimas de abuso sexual infantil. Um terceiro e último vetor, que se volta para humanização nos cuidados de saúde da mulher, abordando a questão da medicalização do corpo feminino através da problematização das questões de gênero e das políticas vigentes de assistência, os desafios da implementação de uma política de humanização de assistência ao parto nos serviços públicos de saúde através da historicização dos modelos médicos vigentes na atualidade, a violência institucional a mulheres em abortamento do ponto de vista da assistência inadequada e preconceituosa nas unidades de saúde, chamando atenção para a questão como um problema de saúde pública e a questão do acolhimento e da integralidade em saúde no trabalho da assistência às mulheres portadoras de HIV.

Para um leitor apressado e desavisado, esta organização poderia denotar uma separação entre teoria e prática, ou até mesmo uma reedição da humanização como restrita às questões da saúde da mulher e da criança, mas ao contrário disto, esta montagem já anuncia a riqueza do livro, desorganizar o senso comum, equivocar o instituído fazendo com que, na leitura dos textos, estas subdivisões se esfumacem e façam saltar o entendimento de que teorias são práticas, portanto, indissociáveis de um modo de estar e interferir nos verbos da vida - viver, trabalhar, amar, produzir saúde. O que ganha relevo nos diferentes textos é uma aposta na construção de modos de se fazer política pública de saúde para todos e qualquer um, trazendo a humanização das práticas de cuidado em saúde para o campo dos embates e tensionamentos das políticas públicas em sua transversalidade e indissociabilidade entre os modos de produzir saúde e subjetividade, ou seja, produção de novos sujeitos implicados em novas práticas de saúde.

Os autores deste importante livro nos presenteiam com suas indagações e experimentações. Aceitei o convite e recomendo aos possíveis leitores que embarquem nesta viagem fazendo nela a invenção de suas próprias trilhas por entre os caminhos da humanização dos cuidados em saúde. Boa viagem!

 

Referências

1. Lispector C. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco; 1998.         [ Links ]

2. Deleuze G. Foucault. São Paulo: Brasiliense; 1991.        [ Links ]