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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.13  suppl.0 Rio de Janeiro Apr. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232008000700001 

EDITORIAL EDITORIAL

 

Medicamentos, profissionais e atenção a saúde

 

 

Nos últimos anos, os estudos sobre medicamentos vêm aumentando em quantidade, qualidade e diversidade. Isso se deve não apenas à importância decisiva que os fármacos assumiram no controle de algumas doenças, mas também à percepção da necessidade de rever seu uso no contexto das sociedades de consumo e seu peso no orçamento doméstico, em particular das famílias mais pobres.

Um campo de estudos e de ação que emerge - e se qualifica - é o da interface entre fabricantes e sociedade. Tal interface traduz os interesses comerciais dos primeiros e expressa a reação da sociedade às informações veiculadas , seja por meio da propaganda na mídia laica, em congressos e consultórios de especialistas ou ainda nas embalagens, bulas e compêndios. O impacto produzido pelas informações veiculadas pela indústria farmacêutica evidencia que o valor atribuído aos medicamentos, pelos usuários, vai muito além do que recomendam os ensaios clínicos e os protocolos de tratamento, e cai no campo cultural.

Nesse sentido, o papel de médicos, farmacêuticos e odontologistas vem sendo estudado, problematizado e revisitado. Reconhece-se hoje que, assim como o emprego de medicamentos pela população é revestido por valores extracientíficos, há valores simbólicos atrelados ao comportamento dos profissionais de saúde, diante da necessidade de usar, ou não, produtos farmacêuticos, e de como fazê-lo. Não obstante a proeminência da dimensão antropológica nos dias atuais, a elaboração de estatutos legais, a fiscalização do cumprimento das normas e a punição dos infratores têm contado com engajamento teórico e prático crescente dos profissionais.

As abordagens qualitativas voltadas às explicações dos fenômenos trazem embutidas preocupações com a qualidade da atenção à saúde. E, portanto, para aumentar a eficácia das formulações nesses campos, é imprescindível lançar mão das ferramentas oferecidas pela epidemiologia e pela estatística, para compreender os benefícios que os fármacos possam trazer e diminuir seu dano potencial. Os desenhos seccionais têm sido empregados nos estudos de utilização de medicamentos para conhecer o perfil dos usuários e as características do uso de medicamentos, mas também para captar a percepção dos profissionais de saúde sobre as relações de consumo.

Desta forma, o uso racional de medicamentos se estrutura em múltiplas esferas disciplinares e exige esforço coletivo.

Os temas acima citados são abordados pelo conjunto dos autores que colaboraram nesse número especial. Ao pretender contribuir para o traçado das políticas públicas em nosso país, não se poderia deixar de fora os problemas relacionados ao desabastecimento de medicamentos na rede SUS, ao acesso dificultado pelos preços que a população sem emprego regular tem que pagar e à incapacidade de cumprir a prescrição do médico ou do dentista. Estratégias como a fabricação de genéricos e a criação de rede de farmácias para a venda de medicamentos a preços menores têm sido testadas no contexto das nossas inúmeras carências.

 

Suely Rozenfeld
Editora convidada