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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.13  suppl.2 Rio de Janeiro Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232008000900009 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

Perfil do absenteísmo em um banco estatal em Minas Gerais: análise no período de 1998 a 2003

 

Absenteeism profile in a state bank in Minas Gerais between 1998 a 2003

 

 

Luiz Sérgio SilvaI; Tarcísio Márcio Magalhães PinheiroI; Emília SakuraiII

IDepartamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Prof. Alfredo Balena 190, Santa Ephigênia. 30130-100 Belo Horizonte MG. luizsergios@yahoo.com.br
IIDepartamento de Estatística, Instituto de Ciências Exatas, Universidade Federal de Minas Gerais.

 

 


RESUMO

O objetivo dessa pesquisa foi estudar o perfil do absenteísmo em uma empresa bancária estatal e estimar a prevalência de afastamentos pelas doenças que mais acometeram seus trabalhadores. Foi realizado um estudo transversal, descritivo e quantitativo abordando absenteísmo e prevalência de causas de afastamento em um banco estatal no estado de Minas Gerais, no período de 1998 a 2003. Os índices de absenteísmo apresentaram distribuição heterogênea, estando em queda no período estudado, exceto a taxa de freqüência, devido a modificações nos números que compõem seus numeradores e denominadores. As prevalências das doenças osteomusculares e dos distúrbios mentais e comportamentais foram 33,25 e 22,21 afastamentos por 1.000 trabalhadores, respectivamente. Houve predomínio de afastamentos de trabalhadores do sexo feminino, com idade entre 40 e 49 anos de idade, com tempo de empresa superior a 21 anos e com funções com menores valores de remuneração. O estudo indicou que as doenças osteomusculares e do tecido conjuntivo que antes predominavam na empresa estão em queda. Houve também ascensão dos distúrbios mentais e comportamentais, indicando possível mudança no perfil de adoecimento. Mais estudos são necessários para a explicação dos resultados observados.

Palavras-chave: Absenteísmo, Distúrbios osteomusculares, Transtornos mentais e do comportamento, Trabalho bancário


ABSTRACT

The purpose of this paper was to study the profile of absenteeism in a state bank and to establish the more frequent causes for sick leaves among the members of the staff. A cross-cut, descriptive and quantitative study was developed for approaching absenteeism and its most frequent causes in a state bank in the state of Minas Gerais between 1998 and 2003. The absenteeism rates were homogenous, with a decrease during the period of the study, except for the frequency rates, as a result of alterations in their numerators and denominators. The prevalence of musculoskeletal diseases and mental disorders was of 33,25 and 22,21 leaves per 1,000 workers respectively. Leaves of women and workers in relatively low-pay positions, aged between 40 and 49, married, working in the institution for over 21 years predominated. The study indicated that sick leaves due to musculoskeletal diseases that where predominating before in the company are decreasing. On the other hand, there was an increase of cases of mental and behavioral disorders, indicating a possible change in the health profile. However, further studies will be necessary to corroborate these results.

Key words: Absenteeism, Musculoskeletal diseases, Mental and behavioral disorders, Bank work


 

 

Introdução

Os trabalhadores compartilham os perfis de adoecimento e morte da população em geral em função de variáveis como idade, gênero, grupo social e outros, além daqueles derivados de sua inserção em um grupo específico de risco relacionado à sua atividade laborativa1. Nas últimas décadas, o setor bancário brasileiro vem passando por um processo de transformação sem precedentes, conhecido como reestruturação produtiva, através do trinômio demissões em massa, automação e terceirização, levando os bancários a viverem um modo singular de instabilidade e intensificação do trabalho2,3.

Esse cenário tem implicado rápidas e profundas modificações no processo e na organização do trabalho e no perfil de adoecimento da categoria4,5. Todavia, existem poucos estudos que descreveram e analisaram essas mudanças, especialmente no setor financeiro brasileiro. A dificuldade de acesso a bancos de dados de empresas e de órgãos públicos tem se mostrado um dos grandes limitadores na produção científica desta questão.

O conhecimento do absenteísmo-doença em suas múltiplas determinações torna-se fundamental para a organização e planejamento das ações dos Serviços de Atenção à Saúde do Trabalhador6 e a determinação de seu perfil permite a identificação de excessos de ocorrências de casos de determinadas morbidades7. A decisão de avaliar os índices de absenteísmo partiu das dificuldades encontradas no diagnóstico da situação de saúde dos trabalhadores de um grande banco estatal no estado de Minas Gerais, além da observação preliminar de que a ocorrência de afastamentos por licenças-saúde indicavam mudança no perfil de adoecimento.

O objetivo central desta pesquisa foi estudar o perfil do absenteísmo nessa empresa, estimando a prevalência de afastamentos pelas doenças que mais acometeram seus trabalhadores e descrevendo a morbidade ao longo do tempo. O absenteísmo pode ser uma expressão do impacto negativo do trabalho na saúde dos trabalhadores, o que leva a conjeturar que ele, como um todo, e principalmente por motivo de doença, pode ser apenas um sintoma de que algo não vai bem na relação capital/trabalho e, como tal, deve ser encarado3.

 

Material e métodos

Foi realizado um estudo transversal, descritivo e quantitativo, abordando absenteísmo e prevalência de causas de afastamento em um banco estatal no estado de Minas Gerais, no período de 1998 a 2003.

A população estudada foi composta do universo anual dos trabalhadores de um banco do setor público, distribuídos pelas suas 492 dependências no estado de Minas Gerais (agências e órgãos regionais). Um mesmo trabalhador podia ter produzido vários eventos, havendo, portanto, repetições.

Os dados sobre afastamentos foram fornecidos pela Caixa de Assistência dos funcionários desse banco, que é uma empresa terceirizada responsável pela realização do programa de controle médico de saúde ocupacional do mesmo. Todos os afastamentos por licença-saúde são apresentados a essa Caixa, que realiza a avaliação da pertinência, registro, comunicação e estatística. Os afastamentos registrados foram disponibilizados aos pesquisadores sob a forma de arquivo no formato Access, contendo nome e matrícula do trabalhador, local de trabalho, período de afastamento e codificação internacional de doenças, 10ª revisão. A seguir, esses dados foram agrupados às informações sociodemográficas obtidas no sistema de ARH (Administração de Recursos Humanos) da empresa, para a realização das análises estatísticas.

A pesquisa foi submetida, em sua fase de projeto, à aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (COEP), sendo aprovada e solicitada autorização da empresa para a utilização e divulgação dos dados e resultados.

Adotou-se o conceito de absenteísmo de causa médica da Organização Internacional do Trabalho8, ou seja, "o período de ausência laboral que se aceita como atribuível a uma incapacidade do indivíduo, exceção feita para aquela derivada de gravidez normal ou prisão". Entende-se por ausência laboral o período ininterrupto de falta ao trabalho, contado desde seu começo, independentemente de sua duração.

Utilizaram-se as recomendações do Subcomitê de Absenteísmo da Sociedade Internacional de Saúde Ocupacional8, abordando-se os índices de freqüência, gravidade, percentual de absenteísmo e duração média das ausências, como indicadores de absenteísmo, representados pelas fórmulas:

. Índice de freqüência = Σ Nº de casos/ Número de trabalhadores

. Índice de gravidade = Σ Dias perdidos/Número de trabalhadores

. Percentual de absenteísmo = Σ Dias perdidos X 100 Σ/Dias trabalhados

. Duração média das ausências = Σ Dias perdidos/ Σ Nº de casos

As prevalências de afastamentos foram abordadas por grupamentos da Codificação Internacional de Doenças, 10ª revisão (CID 10)9, sendo discriminados por morbidades específicas os maiores destaques em termos de dias perdidos (grupamentos V e XIII) e em número de ocorrências (grupamentos V e XIII, X e XIX)9, distribuídos, ainda, por sexo, idade, estado civil, escolaridade, tempo de empresa e função.

As variáveis dependentes foram o número de dias de afastamento e o número de eventos. Foram considerados afastamentos de curta duração aqueles de até cinco dias, de média duração entre seis e quinze dias e grandes afastamentos os superiores a dezesseis dias.

Como variáveis independentes, foram usadas: sexo, estado civil, escolaridade, idade, tempo de empresa, função e natureza médica do agravo.

Para a análise estatística, utilizou-se o pacote estatístico SPSS versão 11 (edição e análise).

A ANOVA (análise de variância) e o teste t de Student foram empregados para a verificação das diferenças entre as médias da quantidade de dias de afastamento e do número de eventos, adotando-se como nível de significância alfa de 5%.

 

Resultados

Entre 1998 e 2003, ocorreram, no banco estatal objeto deste estudo, 6.445 afastamentos, totalizando 302.893 dias de ausências ao trabalho. Esses afastamentos e respectivos números de dias foram produzidos por 2.386 trabalhadores, sendo de 8.156 pessoas a população de bancários que compôs o denominador desta pesquisa. Fizeram parte dela o conjunto de trabalhadores ativos, os afastados por licença de saúde e os aposentados durante o período de 1998 a 2003. Não houve perda de dados e um mesmo trabalhador pode ter produzido vários eventos, havendo, portanto, repetições.

No grupo de funcionários presentes na empresa nesse período, houve predomínio de trabalhadores do sexo masculino (60,43%), com média de idade de 40,16 anos, sendo a faixa etária predominante a de 40 a 49 anos (45,42%).

Também predominaram os funcionários casados (66,60%). Em relação ao tempo de empresa, preponderou aquele grupo com tempo de serviço entre 11 e 30 anos (68,95%), com média de 15,61 anos de empresa.

Quanto ao grau de instrução, houve grande concentração de trabalhadores com curso superior (41,37%); entre as funções, destacaram-se os escriturários (37,41%), seguidos pelos caixas executivos (17,04%).

 

 

Notaram-se algumas mudanças no comportamento do absenteísmo na empresa com queda praticamente constante na maioria dos indicadores (número de dias de afastamento, percentual de absenteísmo, índice de gravidade e duração média das ausências), porém, com aumento do número de casos e do índice de freqüência (Tabela 2). Esse comportamento refere-se a uma população praticamente constante, com baixo rodízio de pessoal, com média de desligamentos e aposentadorias em torno de 31 e 26 por mês, respectivamente.

Quando se analisaram os afastamentos relacionando-os ao gênero, houve predomínio do sexo feminino, tanto em número de afastamentos (56,97%) quanto em número de dias de afastamento (58,37%). Na análise de afastamento por faixa etária, predominou a de 40-49 anos, responsável por 52,83% dos afastamentos e pelo maior número de dias de afastamento (58,84%). Em relação ao estado civil, o grupo dos casados foi o que mais se afastou do trabalho (62,64%).

Para a variável tempo de empresa, os afastamentos concentraram-se no grupo de trabalhadores com mais de 21 anos de empresa (61,85). Considerando-se o nível de instrução, o grupo de afastamentos que mais se destacou foi o de indivíduos com formação superior ou mais (69,70%), porém com significância estatística apenas para o número de dias de afastamento (p =.000).

Pode-se observar pela Tabela 3, que os escriturários (44,93%, 50,99%), os assessores (19,38%, 41,67%), a gerência média (16,72%, 31,20%) e os caixas executivos (13,81%, 51,37%) foram, nessa ordem, as funções predominantes em termos de afastamentos e de número de dias de afastamento, ambos com significância estatística.

Existem, também, grandes diferenças entre homens e mulheres quando se analisam as funções. A maior diferença ocorreu no caso da gerência geral de agência, com os homens ocupando 87% e as mulheres com apenas 13%. Entre os escriturários, existiu também diferença considerável: 45% eram homens e 55%, mulheres. Para
a gerencia média, os homens responderam por 49,8% e as mulheres, por 50,2%. Dos caixas executivos, 51,6% eram homens. Na gerência de administração, homens e mulheres ocuparam cerca de 50% dos cargos, cada. Nos cargos de assessoria, 42% estavam ocupados por homens.

Analisando-se as morbidades responsáveis pelos afastamentos (Tabela 4), destacam-se primeiramente as referentes ao sistema osteomuscular e tecido conjuntivo e, a seguir, as relacionadas aos transtornos mentais e comportamentais. Neste estudo, esses dois agrupamentos da CID são os mais prevalentes e os que mais dias de afastamento do trabalho geraram (55,7% e 19,28%, respectivamente). As doenças do aparelho respiratório têm expressiva participação no número de afastamento (13,81%), mas baixa contribuição quanto ao número de dias de afastamento (1,36%). Quase todos (99%) os afastamentos ocorreram com intervalo de até quinze dias.

As lesões, envenenamentos e algumas outras causas externas começam a ganhar destaque, principalmente quanto ao número de dias de afastamento (terceira causa).

Pelo realce dos grupamentos dos transtornos mentais e comportamentais (TMC) e dos distúrbios osteomusculares (DOTC)), a Tabela 5 oferece a possibilidade de realizarem-se algumas comparações entre eles. Ambos apresentaram redução do número de dias de afastamento durante o período, bem como da representação percentual no total de dias. Considerando-se a representação percentual nos diversos anos, o grupamento DOTC apresentou queda (69,69% em 1998 para 36,43% em 2003), enquanto o grupamento TMC apresentou aumento (15,19% em 1998 para 23,10% em 2003). Para o número de eventos, o grupamento DOTC continuou apresentando queda (30,20% em 1998 para 13,79% em 2003), enquanto o grupamento TMC manteve-se estável (15,56% em 1998 para 15,58 em 2003).

Os dois grupamentos apresentaram queda nas médias anuais da quantidade de dias de afastamento durante todo o período. Como a população se manteve estável no período, com média de 7.429 trabalhadores, considerando-se as médias da quantidade de afastamentos, 247 para o grupamento DOTC e 165 para o grupamento TMC, obteve-se prevalências de 33,25 e 22,27 afastamentos por 1.000 trabalhadores, respectivamente.

 

Tabela 6

 

Ainda comparando-se os dois grupamentos, os afastamentos com intervalos superiores a noventa dias representaram 88% no grupamento do DOTC e 80% no TMC.

Quanto aos subgrupos de doenças do grupamento DOTC que acometeram os trabalhadores da empresa no período, os transtornos musculares, das sinóvias e dos tendões (M60) totalizaram 80% (125.743) da quantidade de dias de afastamentos, seguidos pelas lombalgias e cervicalgias (M50) com quase 14% (24.206). Quando se considerou o número de eventos, os transtornos musculares, das sinóvias e dos tendões (M60) representaram 57% (846) dos afastamentos e as lombalgias e cervicalgias (M50) 25% (368), restando aos demais subgrupos o percentual aproximado de 18%.

Os subgrupos que se destacaram no grupamento TMC foram os transtornos do humor F30, com 55,27% da quantidade de dias de afastamentos e 45,41% dos afastamentos, e os transtornos neuróticos relacionados ao estresse e transtornos somatoformes F40, com 31,77% dos dias de afastamentos e 44,40% dos afastamentos.

 

Discussão

Neste estudo, ocorreram dificuldades para a obtenção de outras informações referentes à saúde, organização do trabalho e recursos humanos da empresa, o que limitou as possibilidades de inferências explicativas para as mudanças e alterações verificadas durante o período de análise.

Nogueira e Azevedo10 sugeriram que os estudos epidemiológicos que permitem conhecer as diferentes variáveis que afetam o absenteísmo (como sexo, idade, estado civil, entre outros) podem auxiliar na prevenção do absenteísmo-doença, na medida em que ajudam na elucidação de possíveis causas, e sugerir soluções.

Na atualidade, existe crescente aumento da força de trabalho feminina na categoria de bancários. Segundo o DIEESE2, em pesquisa realizada entre 1986 e 1997, a participação feminina na categoria aumentou. Em 1986, elas representavam 36% dos bancários, atingindo 42% em 1994. Já em 1997, eram 47%. Nessa empresa pesquisada, a população feminina representava 40% dos trabalhadores. Em relação às funções, apesar do avanço no sentido da igualdade de sua distribuição, ainda existe o predomínio do sexo masculino na ocupação das funções gerenciais de mais poder e melhores remunerações11,12. Nessa empresa, as mulheres ocupam cerca de 20,7% das funções gerenciais.

A variável sexo é realçada na literatura, principalmente a partir da discussão do porquê das mulheres se afastarem mais6,13,14. No presente estudo, corroborou-se esse fenômeno e constatou-se a real diferença entre os sexos quanto ao se afastar do trabalho por motivo de licença-saúde, principalmente em relação ao número de afastamentos. Os afastamentos de indivíduos do sexo feminino representaram 56% dos eventos, consumindo 58% do número de dias de afastamento.

Além das inferências apontadas pela literatura15, acrescentam-se as diferenças entre os cargos ocupados nessa empresa. Nas funções nas quais houve maior índice de afastamentos, como entre os escriturários e os assessores, havia predominância das mulheres. Há que se ressaltar, ainda, que essas funções são submetidas às altas pressões do ponto de vista ergonômico16.

Este estudo constatou, também, que quanto mais idade tinha o trabalhador bancário dessa empresa, mais ele se afastou. Tanto o número de ocorrências quanto o número de dias de afastamentos foi maior na faixa etária de 40-49 anos de idade, o que era de se esperar, haja vista ser essa a faixa etária predominante entre os trabalhadores da empresa durante o período considerado no estudo. Não foram obtidos dados da literatura entre bancários para comparação e, em dados levantados em outros setores, como o da indústria e o hospitalar, alguns autores13,17 relatam que quanto mais jovem o trabalhador, mais ele se afasta do trabalho.

A empresa demitiu mais de 50.000 trabalhadores em todo o país de julho de 1995 até o final do ano de 1998 (para Minas Gerais, esse dado não foi obtido). Só voltou a realizar concursos e contratações no final do ano de 1999, assim mesmo para admissões a partir de 2000 e com política restritiva, apenas de substituição do efetivo desligado e aposentado. Essa atitude permitiu o aumento da média de idade que, no período pesquisado, foi de 40 anos entre os presentes na empresa, enquanto que entre os bancários do país, a faixa etária predominante situava-se entre 25 e 40 anos de idade18.

A observação do fator tempo de trabalho mostrou que tanto a quantidade de dias de afastamento quanto o número de afastamentos apresentaram concentração entre os trabalhadores com mais de seis anos de empresa (96,93, 85,25%, respectivamente) e principalmente entre aqueles com mais de 21 anos de empresa (68,72, 52,21%, respectivamente). Novamente não foram conseguidos dados sobre trabalhadores bancários para a comparação. Em outros setores, como o da indústria, o trabalhador com menos tempo de empresa é aquele que mais se ausenta do trabalho10,19. No caso do banco estatal em estudo, a hipótese é de que a existência de um período probatório de noventa dias e de um grande contingente de candidatos classificados nos concursos aguardando ser contratado seja o motivo principal pelo qual o trabalhador com menos tempo de serviço na empresa, portanto, menos estável, evite se afastar do trabalho.

Analisando-se conjuntamente as variáveis idade e tempo de empresa, os resultados reforçaram a hipótese de que o envelhecimento dessa população de trabalhadores bancários associado ao seu maior tempo de exposição aos riscos ocupacionais explicam melhor a maior ocorrência de afastamentos por licença-saúde observada nas faixas etárias mais elevadas.

O estudo também demonstrou que, quando se considerou o estado civil do trabalhador, os casados afastaram-se por mais dias que os solteiros (69,45% e 20,21%, respectivamente). Alguns autores20,14 relatam que o estado civil é fator de grande influência nos níveis de absenteísmo, principalmente quando o trabalhador possui filhos. Fischer19 descreveu que um grande absenteísmo é observado entre os casados quando associados a um grande número de dependentes. Na população de bancários dessa empresa, 67% eram casados e 28%, solteiros. A maior quantidade de afastamentos é coincidente com esse predomínio de casados na população de trabalhadores, conforme relatado pela literatura.

O grau de instrução influenciou marcantemente a ocorrência de afastamentos entre os funcionários dessa empresa. Os trabalhadores com nível superior ou mais geralmente mantêm-se afastados por maior período - as médias aumentam proporcionalmente ao grau de instrução.

Segnini4 diz que a categoria bancária distingue-se, há muito tempo, de outras categorias profissionais no Brasil, por ser altamente escolarizada, crescendo, na conjuntura atual, o número de bancários com terceiro grau completo e decrescendo a percentagem daqueles com apenas primeiro e segundo graus. Mesmo não fazendo parte das exigências do conteúdo próprio de trabalho, o grau de escolaridade é cada vez mais elevado. Nessa empresa, 42% dos trabalhadores possuem curso superior completo contra apenas 32% dos que detêm apenas o ensino médio.

Ao se analisarem os níveis de escolaridade relativamente à idade dos trabalhadores, percebe-se que os trabalhadores mais velhos possuem mais escolaridade: funcionários com escolaridade de nível superior chegam a 51% entre aqueles na faixa etária entre 40 e 49 anos de idade, o mesmo acontecendo com os pós-graduados.

Quando comparados escolaridade e tempo de empresa, o comportamento é semelhante ao verificado quando se comparou a idade do trabalhador e a escolaridade. Cerca da metade dos que têm entre seis e vinte anos de empresa possui escolaridade superior ou mais.

O presente estudo é concordante, pelo menos em parte, com a literatura, quando se aborda a questão função exercida6,14,21. Os trabalhadores nas funções menos categorizadas, como os escriturários, foram os que mais se afastaram, tanto em número de eventos (aproximadamente 45%) quanto em número de dias de afastamentos (aproximadamente 51%). São seguidos por outras funções que, apesar de comissionadas, como os cargos de assistentes e caixas executivos, recebem os menores valores na referência (comissão) da carreira nesse banco. Nota-se também mudança no perfil das atividades exercidas pelo bancário que, com o advento da reestruturação produtiva no setor, passa a ser um funcionário polivalente, comprometido com a organização, de alta qualificação técnica, participação criadora, capaz de realizar atividades administrativas, gerenciais, além de ter que ser um excelente vendedor.

Voltando o olhar para os agravos que acometeram os trabalhadores da empresa, principalmente as doenças do sistema osteomuscular, em queda durante todo o período, poder-se-ia, então, pensar que estaria havendo mudança para melhor nas condições de trabalho nessa empresa, o que seria responsável pela redução na quantidade de dias de afastamento e, por conseqüência, nos números do absenteísmo. Isso traduz uma simplificação não cabível nesse caso, principalmente quando se leva em conta que o número de afastamento não foi homogêneo, até aumentou para algumas doenças.

Dos indicadores de absenteísmo abordados, a freqüência elevou-se, devido basicamente ao aumento do número de afastamentos, uma vez que no período analisado houve estabilidade no seu denominador, isto é, no número de trabalhadores. Ele tem grande importância, tendo em vista que, apesar da redução da média de dias de afastamentos no período do estudo, o número de afastamentos por trabalhador aumentou. É, portanto, indicativo de que mais trabalhadores estão adoecendo e se afastando.

Diante desse cenário, pode-se levantar algumas questões: estaria havendo melhoria das condições de trabalho? Estaria em curso uma política de redução dos grandes afastamentos, com dezesseis ou mais dias?

Seria bastante incoerente, então, acreditar que as condições de trabalho estariam melhorando significativamente, uma vez que o número de afastamentos continua aumentando. A empresa adotou, durante a década de noventa, programas agressivos de adequação e redução de seu quadro de pessoal, diminuindo seu contingente em mais de 50.000 trabalhadores. Somente no mês de julho de 1996, o banco demitiu em torno de 14.000 trabalhadores. Nessa mesma década, os salários permaneceram congelados, só retomando alguma reposição salarial no final do ano de 2003.

Na realidade, a única mudança expressiva ocorrida na empresa no início desse período foi a implantação progressiva, a partir de 1997, do novo mobiliário, com características mais adequadas do ponto de vista ergonômico, apesar de se ter em conta, conforme informa a literatura, que as doenças do trabalho vinculadas ao sistema osteomuscular são de origem multifatorial22-24.

Quanto à política de redução do número de dias de afastamentos, a empresa faz acompanhamento direto dos grandes afastamentos, gerenciando junto à Previdência Social para que se aposentem funcionários com mais de dois anos de afastamento e sem perspectivas de retorno. Os trabalhadores em condições de serem reabilitados retornaram à atividade após a reorientação de suas funções e adequação de suas condições de saúde.

Observando-se os distúrbios mentais e comportamentais, pela alta prevalência apresentada, associada aos altos percentuais de dias de afastamento e de eventos, 19% e 15%, respectivamente, pode-se notar a importância que eles têm entre os trabalhadores da instituição. Esse grupamento de morbidades apresentou aumento no número de ocorrências, em que pese à queda no número médio de dias de afastamento, mostrando sua tendência de crescimento e cada vez mais se apresentando como distúrbios vinculados ao trabalho, principalmente da forma como ele é organizado23. No meio bancário, existe a necessidade de novas pesquisas, além de aprofundamento daquelas já existentes, a fim de tornar possível a busca de alternativas para os graves problemas de saúde ligados ao trabalho, principalmente os mentais e as lesões por esforço repetitivo16.

As diferenças apresentadas entre as duas morbidades mais importantes para esse grupo de trabalhadores bancários reforçam que pode estar havendo mudança no perfil de adoecimento, em que o grupamento dos transtornos mentais e do comportamento está aumentando, enquanto o grupamento das doenças osteomusculares está se reduzindo.

 

Conclusões

O levantamento do perfil de absenteísmo nessa empresa estatal do setor bancário mostrou-se importante para elucidação de alguns comportamentos referentes ao absenteísmo. Alguns dos itens levantados, como os referentes aos dados sociodemográficos, revelaram o envelhecimento da população trabalhadora, provavelmente decorrente da política restritiva de contratações e dos planos de adequação de quadros. Notou-se, ainda, crescimento no número de trabalhadores do sexo feminino, bem como dos níveis de escolaridade dos trabalhadores.

Quanto aos indicadores de absenteísmo, houve aumento no número de afastamentos e redução na média de dias de afastamento.

Apesar dos afastamentos por doenças osteomusculares e do tecido conjuntivo predominarem no período analisado, no ano de 2003, prevaleceram os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais. Estes, além do aumento da prevalência, apresentaram também elevação no número de eventos, bem como da representação percentual anual do número de dias de afastamentos, indicando tendência à mudança histórica no perfil de adoecimento na empresa.

Conclui-se, também, que as duas morbidades que mais afetaram os trabalhadores da empresa são aquelas tidas como ligadas às formas como o trabalho se organiza. Esse fato reforça a necessidade de um detalhamento do estudo atual no sentido de se investigarem as relações de determinação entre a organização do trabalho e as morbidades prevalentes observadas no banco pesquisado.

 

Colaboradores

LS Silva foi responsável pela concepção, pesquisa, metodologia e redação. TMM Pinheiro foi responsável pela orientação da pesquisa e redação e E Sakurai, pela co-orientação da pesquisa.

 

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Artigo apresentado em 11/08/2006
Aprovado em 25/09/2006
Versão final apresentada em 07/11/2006