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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.13  suppl.2 Rio de Janeiro Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232008000900023 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

Zooterapia popular na Chapada Diamantina: uma medicina incidental?

 

Folk medicine using animals in the Chapada Diamantina: incidental medicine?

 

 

Flávia de Barros Prado MouraI; José Geraldo Wanderley MarquesII

IICBS, Universidade Federal de Alagoas. Rua Aristeu de Andrade 452, Farol. 57051-090 Maceió AL. flavia.moura@pesquisador.cnpq.br
IILaboratório de Etnoecologia, Departamento de Biologia, Universidade Estadual de Feira de Santana

 

 


RESUMO

Este trabalho analisa o sistema zooterápico tradicional de uma população afrodescendente na Chapada Diamantina, Bahia. A pesquisa foi conduzida ao longo de oito meses de trabalho nos quais foram realizadas entrevistas livres e semi-estruturadas, registro fotográfico e identificação de espécies. Busca-se, além da apresentação de uma lista de produtos oriundos de animais e seus respectivos usos, iniciar uma discussão sobre as possíveis razões para crença no potencial terapêutico ou profilático das frações e produtos animais amplamente utilizados na medicina tradicional de populações brasileiras.

Palavras-chave: Medicina popular, Zooterapia, Populações tradicionais, Etnomedicina


ABSTRACT

This study examines the traditional therapeutic use of animals or parts of animals by an Afro Brazilian population living in the Chapada Diamantina, Bahia, Brazil. The investigation was conducted over a period of eight months and consisted of open- and semi-structured interviews, photographic documentation and identification of species. Besides presenting a list of animal products and their respective use, we seek to stimulate a discussion about the possible existence of a rational basis for the belief in the therapeutic or prophylactic potential of the animal products used in the traditional medicine of Brazilian populations.

Key words: Folk medicine, Indigenous populations, Ethnomedicine


 

 

O saruê foi o único animal que ajudou Nossa Senhora dando leite para o Menino Jesus. Aí ela disse: você vai parir sem dor. Não tem nada melhor do que o couro do saruê para apressar o parto.

 

Introdução

O uso de animais na medicina popular é um fenômeno amplamente distribuído do ponto de vista histórico e geográfico, que vem sendo estudado sob diferentes abordagens - etnográficas1,2, médicas3, farmacológicas,4 e ecológicas5-9.

Toda civilização, para desenvolver seu sistema médico, exercita a prática da observação e a caracterização empírica dos fenômenos. Provavelmente, muitos produtos obtidos de animais e plantas foram incorporados à farmacopéia popular por acaso, pela avaliação dos sintomas experimentados após o consumo, assim como muitos podem ter sido incluídos ou eliminados após seqüências de tentativas e erros

Neste trabalho, o sistema zooterápico de uma população afrodescendente na Chapada Diamantina é analisado. Busca-se, além da apresentação de uma lista de produtos oriundos de animais e seus respectivos usos, iniciar uma discussão sobre as possíveis razões para a crença no potencial terapêutico ou profilático das frações e produtos animais amplamente utilizados na medicina tradicional de populações brasileiras.

 

Metodologia

O trabalho de campo foi conduzido no povoado do Remanso, no município de Lençóis, Bahia. A população de 206 habitantes é composta predominantemente de afrodescendentes que vivem da pesca e da agricultura familiar e, mais recentemente, do turismo.

Nos três meses iniciais de trabalho, foram visitadas vinte residências (60%), buscando identificar usos e formas de uso de partes ou produtos animais. Foi utilizada nesta etapa a metodologia geradora de dados10, que se baseia em perguntas abertas. As entrevistas iniciais permitiram a identificação de cinco especialistas locais com idades variando de 23 a 65 anos, entre os entrevistados ou apontados por estes. Foram consideradas especialistas locais pessoas reconhecidas pela população como os principais detentores do conhecimento sobre a prática zooterápica tradicional. Nos cinco meses seguintes, com cada um dos especialistas, foram realizadas de uma a cinco entrevistas semi-estruturadas com duração de 20 a 50 minutos. As entrevistas tiveram como objetivo aprofundar o conhecimento sobre o sistema médico local.

Para a sistematização dos dados, foi usado o modelo da união das diversas competências11. Foi efetuado o registro fotográfico de frações animais utilizadas com fins terapêuticos encontradas nas residências (Figuras 1 e 2). A identificação das espécies foi feita a partir de pistas taxonômicas fornecidas pela população local e consulta à bibliografia especializada.

 

 

 

 

Resultados

O uso de animais na medicina local parece bastante amplo, tendo sido obtida uma lista com 52 espécies de animais (Quadro 1), as quais fornecem 72 matérias-primas para prevenção ou tratamento de 39 enfermidades. As gorduras se destacaram como o principal produto medicinal, tendo sido mencionadas como úteis gorduras de 19 dos 52 animais que fazem parte do receituário.

Além destas, são utilizadas outras partes e produtos como: casco, pêlo, vísceras, espinhos, chifres, couros, dentes, ninhos, fezes, leite e mel. O número de partes ou produtos obtidos de cada animal variou de um a três. Alguns animais, entretanto, são usados integralmente, podendo ser torrados, moídos, transformados em pó e adicionados a chás ou misturados a alimentos.

Na medicina popular do Remanso, como em muitas outras populações tradicionais brasileiras, a obtenção e manutenção da saúde envolvem práticas terapêuticas nas quais a função médica ou litúrgica dos recursos se confunde12-15. A crença no potencial terapêutico de um animal pode se dever a uma grande variedade de fatores que vão do plano físico, como a avaliação dos sintomas experimentados após o seu consumo, ao simbólico, como associação da forma da fração animal utilizada à parte do corpo humano que requer cuidados.

Três características, entretanto, isoladas ou combinadas, mostraram-se recorrentes. Animais, suas frações ou produtos considerados medicinais: 1) têm, segundo a crença local, o potencial de provocar alteração da temperatura corpórea (propriedade de aquecer ou resfriar o corpo do usuário); 2) têm uma morfologia que pode ser associada à parte do corpo humano que precisa ser tratada; e/ou 3) não têm utilidade para outros fins. Estas características, aparentemente, não são exclusivas dos zooterápicos usados pela população estudada, podendo se constituir uma base comum com modelos médicos de outras populações brasileiras. Nas sessões a seguir, discutiremos esses possíveis padrões, buscando explicações aplicáveis, pelo menos, à população estudada.

 

A propriedade de provocar alteração da temperatura corpórea: uma medicina humoral (re) inventada?

No sistema médico do Remanso, dos 39 problemas de saúde relatados, 17 tiveram suas causas atribuídas a excesso de exposição ao frio ou ao calor. Doenças como reumatismo, além daquelas relacionadas ao aparelho respiratório (asma, bronquite, tuberculose), são freqüentemente associadas à exposição excessiva a temperaturas frias. O excesso de calor provocaria inflamações oftálmicas, problemas dermatológicos, neurológicos, cólicas, gases, diarréias e outros problemas relacionados ao aparelho digestório (Quadro 2).

Os termos "fresco" e "quente" são popularmente associados a produtos de origem animal ou vegetal, capazes de aquecer ou resfriar o corpo dos usuários, segundo a crença local. A forte crença popular de que muitas enfermidades são causadas por exposição excessiva ao frio ou ao calor faz com que, freqüentemente, se pratique o uso de alimentos ou medicamentos com possíveis propriedades antagônicas na tentativa de se restabelecer a temperatura adequada e, conseqüentemente, a saúde.

Fortemente arraigada na medicina popular contemporânea, a crença de que muitas doenças estariam relacionadas ao desequilíbrio entre temperaturas corporais já teve lugar privilegiado na história da medicina ocidental: remonta à medicina humoral, atribuída a Hipócrates (460-375 a.C.). Hipócrates adicionou à teoria dos quatro elementos de Empédocles (504-443 a.C.) quatro qualidades (frio, calor, seco e molhado), associadas aos quatro humores (sangue, fleuma, bile negra e bile amarela). A saúde, assim como a personalidade, provinha do equilíbrio entre esses humores opostos16-18. A medicina oriental também postula que o corpo necessite manter-se equilibrado com o ambiente para garantir seu funcionamento harmônico. Para a medicina tradicional chinesa, o comprometimento deste equilíbrio é responsável por doenças19.

Na medicina popular, o conceito de equilíbrio, particularmente no que se refere ao sistema quente/frio, é bastante difundido entre diferentes povos, tendo sido referido por diversos autores para sistemas médicos de populações do novo mundo12-17,20,21. Voeks15 reporta o sistema quente/frio caracterizando divindades do candomblé, embora argumente que não há evidências de que as raízes deste sistema dual provenham do continente africano. O autor referido, com base em estudos realizados com povos da América Central e povos indígenas isolados na América do Sul, sugere que o sistema tenha-se produzido de forma endógena (no novo e no velho mundo), evoluindo independentemente. A origem independente justificar-se-ia, possivelmente, pela capacidade de percepção de alterações no corpo, quando este é submetido a excessos, principalmente no que se refere às sensações físicas de frio e calor. Outra possibilidade, embora meramente especulativa, seria a de que a teoria proposta por Hipócrates e popularizada por Galeno, que vigorou até o século XVIII, tenha sido amplamente disseminada, deixando marcas em sistemas médicos de populações distintas que, embora se utilizando de produtos diversos, abandonando, substituindo ou incorporando novos produtos, fundamentem-se em bases teóricas semelhantes, trazidas e mantidas com as populações migrantes durante mais de dois séculos.

 

A natureza mostra a cura: a teoria das assinaturas (re) descoberta?

O segundo critério utilizado no Remanso para justificar o uso de uma fração animal ou de seu corpo inteiro é a sua forma semelhante a um órgão ou parte do corpo que requer cuidados. A semelhança morfológica é freqüentemente interpretada como a sugestão de um benefício potencial (Quadro 3).

O uso direto ou indireto de frações ou órgãos de animais devido a características morfológicas é recorrente na medicina popular brasileira. Os exemplos mais comuns são os amuletos, os quais são usados para atrair o sexo oposto, aumentar o desempenho sexual, prevenir mau-olhado, entre tantas outras funções. Um caso bem ilustrativo é o uso, em diferentes regiões do Brasil, do dente de jacaré para facilitar o nascimento de dentes em crianças. Neste caso, o uso pode ser direto - torrado e adicionado à água de beber - ou indireto - portado como amuleto6. O escroto do saruê (um marsupial) é usado no Remanso para apressar o parto; o pênis do quati (Nasua nasua), usado no Remanso contra impotência, teve o mesmo uso registrado em Alagoas6; a genitália do boto (Inia geoffrensis) é usada na Amazônia brasileira e teria a função de atrair o sexo oposto2,4, amparada, provavelmente, na mesma lógica.

O uso de produtos devido a critérios morfológicos nos remete à teoria das assinaturas (Signatura Rerum), atribuída a Paracelso (1495-1541). A teoria das assinaturas preconiza que tudo que a natureza cria recebe a imagem da virtude que ela pretende esconder. Assim, plantas e animais exibiriam morfologia, bem como cores ou odores, que pudessem ser relacionados à parte do corpo humano que mereceria cuidados. As características exibidas seriam uma maneira de sinalizar, para a humanidade, as suas propriedades terapêuticas. Completamente desprovida de base científica, a crença parece sobreviver na cultura popular por mais de cinco séculos.

 

Remédio ou lixo: uma medicina das sobras reencontrada?

Uma terceira característica comum em frações de animais, ou mesmo em animais inteiros usados como medicinais, é a sua inutilidade para outros fins. Mais da metade (55%) das frações/produtos utilizados no Remanso são subprodutos de animais. Embora estudos sobre a zooterapia popular brasileira ainda não tenham se voltado para a análise quantitativa de uso de sobras ou subprodutos animais, a prática é bem documentada em listagens de zooterápicos obtidas com populações tradicionais em diferentes estados do Brasil1,2,4-7,22,23. Essa prática já havia sido observada por Holanda24 para a primeira metade do século XX, quando o autor relata o uso, como amuletos e remédios, de partes de animais silvestres consideradas impróprias para a alimentação ou manufatura de couros, afirmando que a utilidade medicinal destas partes era bastante arraigada na mentalidade popular da época. Cita, entre as partes passíveis de uso, os chifres, os dentes, as unhas, os ossos, os cascos, as couraças e as gorduras.

No caso particular da comunidade do Remanso, é possível sugerir, cautelosamente, três vias explicativas para o uso de sobras ou subprodutos na medicina popular: a primeira de cunho socioeconômico, a segunda de cunho ecológico e a terceira de cunho farmacológico.

A primeira possibilidade seria a de que, sendo formadas por pessoas economicamente excluídas (descendentes de escravos), o uso de so-bras teria emergido historicamente tendo como base as sobras alimentares da classe dominante, ou seja, partes desprezadas, sem valor comercial, disponíveis como matéria prima.

Do ponto de vista da teoria ecológica, o uso de sobras poderia ser justificado como uma tentativa de maximizar os recursos obtidos dos ecossistemas locais, uma vez que a maioria das partes medicinais - chifres, couros, escamas - são impróprias para consumo alimentar devido à dificuldade mecânica para sua ingestão. Assim, a população estaria maximizando o que retira da natureza, utilizando como medicamento partes que, apresentando dificuldades para serem usadas na alimentação diária, seriam descartadas.

Pela via explicativa de cunho farmacológico, a hipótese seria que, em pelo menos alguns desses subprodutos, concentrem-se substâncias bioativas de efeito medicinal, as quais, se ingeridas em proporções compatíveis com os objetivos alimentares, teriam efeito deletério sobre o organismo dos seus consumidores - daí a sua exclusão do cardápio e a sua inclusão na farmacopéia. Esta explicação talvez possa ser aplicada não só a frações animais, como também a animais inteiros, cujos espécimes, se consumidos em quantidades compatíveis com os objetivos alimentares, pudessem provocar reações indesejáveis (e. g., tóxica, alérgica, etc.). Estas reações poderiam incidir, de forma particular, sobre o organismo de pessoas em estados especiais (e. g., doentes, convalescentes, gestantes ou durante puerpério e pós-operatório) e daí a restrição dietética.

As três possibilidades aqui aventadas para explicar o uso de sobras talvez não se apliquem exclusivamente à população estudada, uma vez que o fenômeno do uso de sobras/subprodutos aparenta ser amplo e talvez se constitua numa das características mais marcantes na zooterapia popular brasileira.

 

Do popular científico ao científico popular: considerações finais

Um dos objetivos das pesquisas sobre o conhecimento tradicional é a busca das possibilidades de integrá-lo ao conhecimento acadêmico e uma das estratégias para fazê-lo é gerar hipóteses testáveis. Tal abordagem tem se revelado frutífera para a obtenção de novos medicamentos25. Wilson26 salienta que o estudo do folclore e da medicina tradicional dos povos indígenas é um meio eficiente para encurtar o caminho que vai desde os organismos silvestres a um produto comercial. Cita o argumento incontestável de que, dos 119 compostos farmacêuticos puros conhecidos sendo usados em alguma parte do mundo, 88 foram descobertos "através de dicas da medicina tradicional".

Embora farmacopéias científicas e populares listem múltiplos zooterápicos27, o emprego médico e etnomédico de animais ainda permanece como um "fenômeno semi-oculto" na literatura científica, sendo na maioria das vezes omitido pelos informantes de "folk" quando dos primeiros contatos com os pesquisadores, devido, dentre outras possíveis razões, a implicações legais (e.g., proibições à caça e consumo de animais nativos). Sabe-se hoje, entretanto, que o percentual de fontes animais para obtenção dos fármacos essenciais é bastante significativo e não fica muito abaixo daquele das fontes vegetais. Dos 252 fármacos essenciais selecionados pela Organização Mundial de Saúde, 11,1% têm origem vegetal e 8,7%, animal28.

Um grande número de pesquisas científicas vem dando suporte à eficácia terapêutica de animais, que, desde há muito, têm utilização popular. O potencial de utilização terapêutica de produtos da pele de rãs e sapos, por exemplo, vem encontrando, através da pesquisa farmacológica, avaliação positiva e crescente nas últimas décadas, revelando pequenos peptídeos dotados de atividades hormonais, psicotrópicas ou antibióticas29. Na herpetofauna brasileira, tanto a cascavel (Crotalus sp.) quanto a jararaca (Bothrops sp.) têm tido os seus venenos farmacologicamente pesquisados. Da segunda foram patenteadas, no exterior, substâncias que compõem conhecidos agentes anti-hipertensivos comercializados no Brasil.

Outro destaque merecido tem sido dado às gorduras. Da mesma forma que autores têm destacado a importância das gorduras (banhas) na medicina popular em todo Brasil (e.g., Ilha Grande, RJ30; Barra do Superagüí, PR31; para Boa Vista, RR32), o potencial terapêutico de gorduras animais vem sendo amplamente discutido na literatura científica33,34. Atualmente, um dos produtos de origem animal mais recomendados na alimentação humana é o ácido docosahexaenóico (DHA), um dos ácidos conhecidos como ômega 3. Cientistas reforçam o potencial profilático e curativo35-37 do produto para uma gama variada de problemas, destacando-se: ação preventiva em relação à doença de Alzheimer; potencial para melhorar a visão de pessoas com dislexia; prevenção de doenças coronarianas e aterosclerose e como coadjuvante no tratamento da artrite, asma e esquizofrenia. O produto tem encontrado múltiplas indicações, parecendo mais um daqueles "remédios que servem para tudo". Diante da tão ampla gama de prescrições e usos populares, caberia inquirir sobre a razão do porquê fazê-lo: estaríamos diante de medicamentos "ômnibus" que para nada serviriam ou de pelo menos uma possibilidade real para curas?

Vale ressaltar que pesquisas realizadas no Brasil na última década encontraram o DHA em gorduras de peixes nativos, quando sua ocorrência era atribuída exclusivamente a peixes de águas geladas e profundas38. Assim sendo, embora se deva levar em conta a não sobreposição total entre as relações de causa/efeito atualmente apontadas pela investigação científica e as tradicionalmente citadas, vale a pena abdicar dos preconceitos e das ideologias em uma época que vê doenças surgirem e ressurgirem (a exemplo da AIDS e da tuberculose multirresistente). Além do mais, situações de emergência (a exemplo de guerras, ações terroristas e catástrofes naturais) serão melhor enfrentadas com a disponibilidade de recursos locais e independentes da globalização.

As observações feitas neste trabalho, embora de caráter mais especulativo, sugerem a possibilidade de que a medicina popular evolua não apenas como conseqüência de uma aprendizagem decorrente de uma sucessão de erros e acertos: é provável que nas teorias contidas no uso de "medicamentos" resida a capacidade de adaptação da medicina popular, no momento que um grupo migrante necessita incorporar espécies novas (pela ausência das anteriormente utilizadas) à sua farmacopéia. Esta discussão merece aprofundamento, junto com a busca de possíveis padrões para a crença popular na eficácia terapêutica de produtos animais usados tradicionalmente no Brasil.

 

Colaboradores

FBP Moura foi responsável pela tese de doutorado na qual se baseou este artigo e JGW Marques foi seu orientador.

 

Agradecimentos

A primeira autora agradece a toda população do Remanso, em especial ao Agente de Saúde Natalino Nascimento pela valiosa colaboração no aces-so ao campo, pela ajuda na análise de dados e pela solidariedade durante os oito meses de campo necessários a pesquisa para realização da tese.

 

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Artigo apresentado em 06/01/2007
Aprovado em 01/11/2007
Versão final apresentada em 30/11/2007