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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.14 n.5 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232009000500007 

ARTIGO ARTICLE

 

Atendimentos de emergência por acidentes na Rede de Vigilância de Violências e Acidentes - Brasil, 2006

 

Unintentional injuries at the Emergency Department Injury Surveillance System - Brazil, 2006

 

 

Márcio Dênis Medeiros MascarenhasI; Marta Maria Alves da SilvaI; Deborah Carvalho MaltaI; Lenildo de MouraI; Vilma Pinheiro GawryszewskiII; Valter Chaves CostaI; Maria de Fátima Marinho SouzaIII; Otaliba Libânio de Morais NetoIV

ICoordenação Geral de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde. SAF Sul, Trecho 02, Lotes 05 e 06, Bloco F, Torre I, Edifício Premium, Térreo, Sala 14. 70070-600 Brasília DF. marcio.mascarenhas@saude.gov.br
IISecretaria de Estado da Saúde de São Paulo
IIICoordenação Geral de Informação e Análise
IVDepartamento de Análise de Situação de Saúde

 

 


RESUMO

Em 2006, o Ministério da Saúde implantou a Rede de Serviços Sentinelas de Vigilância de Violências e Acidentes (Rede VIVA) a fim de descrever os atendimentos de emergência por violências e acidentes, principalmente as lesões de menor gravidade que não implicam mortes ou internações. Neste artigo, descrevem-se as características dos atendimentos de emergência por acidentes realizados nesses serviços. Estudo descritivo, de corte transversal, realizado em 35 municípios com os maiores coeficientes de morbimortalidade por causas externas. Os dados foram coletados durante trinta dias consecutivos em plantões alternados de doze horas. Registraram-se 41.677 atendimentos por acidentes, com predomínio de homens (64,8%), pessoas de 20 a 29 anos de idade (22,9%) e com baixa escolaridade (56,8%). As quedas (40,2%) foram a principal causa, seguidas dos acidentes de transporte (26,6%). Os locais de ocorrência mais frequentes foram via pública (36,2%) e residência (33,7%). As partes do corpo mais atingidas foram membros superiores (38,1%), membros inferiores (37,6%) e cabeça/face (25,7%). A vigilância sentinela de violências e acidentes permite coletar dados em tempo hábil sobre eventos menos graves, cujo conhecimento é fundamental para o planejamento de medidas preventivas.

Palavras-chave: Acidentes, Violência, Lesões, Causas externas, Vigilância de evento sentinela


ABSTRACT

In 2006, the Brazilian Ministry of Health established the Injury Surveillance System Network in Sentinel Services (Rede VIVA) to describe data on injuries victims treated at emergency departments (ED), especially minor injuries which do not cause deaths and hospitalization. This study describes the characteristics of unintentional injuries victims treated in these EDs by means of a transversal descriptive study with data coming from EDs located in 35 municipalities with the highest injury rates. The data were collected during 30 consecutive days in an alternated 12-hour shift. There were a total of 41,677 patients with unintentional injuries, mainly among males (64.8%), people aged 20 to 29 years (23.0%) and low level of education (45.8%). Falls were the main cause (40.1% overall), followed by transport related injuries (26.6% overall). The more frequent place of occurrence were public streets (36.3% overall) and residences (33.6% overall). The body parts most affected were upper members (42.7%), lower members (42.0%) and head/face (29.2%). The injury surveillance in sentinel services allows collecting timeless data about minor cases which is essential for planning and implementing preventive measures.

Key words: Accidents, Violence, Injuries, External causes, Sentinel surveillance


 

 

Introdução

As causas externas podem ser classificadas como lesões intencionais (violências), representadas pelas agressões, homicídios, suicídios, privação ou negligência, e lesões não intencionais, que incluem os acidentes de transporte, afogamentos, quedas, queimaduras, dentre outros1. Elas são responsáveis por grande parte dos óbitos em todo o mundo, especialmente nos países em desenvolvimento2,3 como o Brasil, onde as causas externas ocupam a terceira posição4.

No âmbito da saúde pública, a prevenção destes agravos tem como etapa inicial a descrição de sua magnitude e impacto2,3. No Brasil, essa descrição é realizada a partir do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informações Hospitalares (SIH), nos quais são registrados os principais tipos de causas externas que determinam mortes e internações, respectivamente. Em 2005, foram registradas 127.633 mortes por causas externas (12% do total de mortes no país), com coeficiente de mortalidade de 69 por 100 mil habitantes. No mesmo ano, 11,4 milhões de internações foram realizadas nos hospitais credenciados ao Sistema Único de Saúde (SUS). Destas, 788.701 (7%) foram decorrentes das causas externas, com custo estimado em R$ 594 milhões, o que representou 8,5% do total pago para todas as internações4.

Embora os dados disponíveis no SIM e SIH sejam úteis para monitorar a vigilância epidemiológica das causas externas, esses sistemas não fornecem dados sobre as lesões de menor gravidade, que não implicam mortes ou internações, mas que são responsáveis por uma grande demanda de atendimentos nos serviços de emergência. Para preencher essa lacuna, o Ministério da Saúde implantou, em 2006, a Rede de Serviços Sentinelas de Vigilância de Violências e Acidentes (Rede VIVA), estruturada em dois componentes: 1) vigilância de violências e acidentes em emergências hospitalares, que visa à caracterização dos atendimentos de emergência por causas externas; e 2) vigilância das violências sexual, doméstica e/ou outras violências interpessoais, em cumprimento às exigências legais de notificação da violência contra criança, adolescente, mulher e idoso. Esta estratégia de vigilância pretende conhecer a distribuição, magnitude, tendência e fatores de risco das violências e acidentes, além de identificar condicionantes sociais, econômicos e ambientais de sua ocorrência para subsidiar o planejamento e a aplicação de intervenções apropriadas de prevenção e controle5.

O presente estudo tem como objetivo descrever as características dos atendimentos de emergência por acidentes registrados em serviços integrantes da Rede VIVA em 2006.

 

Métodos

Estudo descritivo, de corte transversal, realizado em 65 serviços de emergência credenciados ao SUS, localizados em 34 municípios e Distrito Federal, os quais atenderam aos seguintes critérios de inclusão: elevado coeficiente de morbimortalidade por causas externas, existência de serviços de referência para o atendimento às vítimas de violências e acidentes, execução de ações intersetoriais de prevenção das violências e acidentes5.

Considerando a metodologia de amostragem por conveniência, a população de estudo foi composta pelas vítimas de violências e acidentes que procuraram atendimento nos serviços de emergência dos municípios selecionados durante trinta dias consecutivos entre os meses de setembro e novembro de 2006. A escolha de um único mês deveu-se à tentativa de evitar a interferência dos meses típicos de férias e festas de fim de ano sobre a sazonalidade e maior ocorrência das causas externas. Devido ao grande número de atendimentos nos serviços de emergência, decidiu-se pela coleta de dados em plantões de doze horas e em turnos alternados, o que facilitou o trabalho de campo e permitiu estabelecer a representatividade dos atendimentos em cada serviço.

Utilizou-se formulário padronizado que continha os seguintes grupos de variáveis: identificação do paciente (nome, idade, sexo, raça/cor da pele, escolaridade, meio de transporte utilizado para chegar ao hospital), tipo de ocorrência (acidente ou violência), local de ocorrência (residência, escola, via pública, trabalho, bar, local de prática de esporte), tipo de acidente (acidente de transporte, queda, queimadura, outros), tipo de violência (agressão, maus-tratos, tentativa de suicídio), características do agressor (sexo, relação com a vítima), parte do corpo atingida e evolução dos casos (alta, hospitalização, óbito).

Os dados foram coletados por técnicos das secretarias de saúde dos municípios incluídos na pesquisa e em parceria com representantes das respectivas secretarias estaduais de saúde. Todos os participantes da coleta de dados receberam treinamento específico sobre vigilância de violências e acidentes, durante o qual foram apresentados os seguintes aspectos: operacionalização do sistema de vigilância, seleção dos serviços de emergência, padronização de definições, uniformização das técnicas de obtenção e registro de dados, fluxo de envio dos dados (Figura 1).

 

 

Os atendimentos foram classificados em dois grupos: acidentes e violências. Acidente foi definido como "evento não intencional e evitável, causador de lesões físicas e emocionais, no âmbito doméstico ou social como trabalho, escola, esporte e lazer"6. Incluíram-se neste grupo os acidentes de transporte, quedas, queimaduras, cortes, queda de objetos sobre a pessoa, envenenamento, sufocação, afogamento, dentre outros. Considerou-se como violência "o uso da força contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha qualquer possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação"3. Sob esta denominação, incluíram-se as tentativas de suicídio, maus-tratos e agressões.

Os dados foram digitados no Setor de Vigilância Epidemiológica de cada município participante da pesquisa e, posteriormente, transferidos para o Ministério da Saúde, onde se procedeu a consolidação da base de dados nacional, análise e divulgação dos resultados. Utilizaram-se os programas Link Plus e Epi Info 3.3.27 para a identificação de registros duplicados e análise de dados, respectivamente. O banco de dados nacional continha 47.554 registros, dos quais foram identificados e excluídos 759 (1,6%) por estarem duplicados. Os resultados aqui apresentados referem-se apenas aos atendimentos de emergência por acidentes.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê Nacional de Ética em Pesquisa. Por se tratar de ação específica de vigilância epidemiológica de âmbito nacional, a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido foi substituída por consentimento verbal, obtido pelo paciente ou por seu responsável. Foi garantido total anonimato e privacidade aos pacientes, profissionais e gestores dos serviços onde a pesquisa foi realizada, assim como a liberdade para desistir de participar da entrevista a qualquer momento, sem prejuízo de qualquer natureza para si próprio ou familiares.

 

Resultados

Foram registrados 46.795 atendimentos, dos quais 41.677 (89,1%) foram classificados como acidentes. Destes, 26.989 (64,8%) ocorreram no sexo masculino e 14.688 (35,2%), no sexo feminino. A Tabela 1 apresenta a distribuição dos atendimentos de emergência por acidentes em todos os municípios que realizaram a pesquisa em 2006.

As maiores proporções de atendimentos foram observadas em pessoas jovens, apresentando distribuição diferente entre os sexos. Entre os homens, a faixa etária mais frequente incluiu pessoas de 20 a 29 anos (25,4%), seguidas das de 10 a 19 anos (19,4%) e de 0 a 9 anos (18,8%). Nas mulheres, a maior proporção de atendimentos compreendeu as pessoas de 0 a 9 anos (22%), seguidas das de 10 a 19 anos (18,9%) e de 20 a 29 anos (18,2%). Com relação à raça/cor da pele, os pardos representaram 49,2%, seguidos de brancos (35,9%) e pretos (11,2%), enquanto amarelos (1,3%) e indígenas (0,2%) corresponderam às menores proporções no total de atendimentos. Esta distribuição foi semelhante quando desagregada por sexo da vítima. Observou-se que 56,8% dos pacientes informaram ter cursado de um a oito anos de estudo (ensino fundamental) e 17,9% cursaram de nove a onze anos de estudo (ensino médio), sendo as menores proporções constituídas por pessoas sem escolaridade (4,3%) e os que concluíram o ensino superior (1,8%). Os meios de transporte mais utilizados para chegar ao serviço de emergência foram veículo particular (38%) e ambulância (27,1%), incluindo as unidades do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), utilizadas em 14% dos atendimentos (Tabela 2).

Segundo o tipo de acidente, destacaram-se as quedas (n=16.768; 40,2%), acidentes de transporte (n=11.080; 26,6%) e queimaduras (n=976; 2,3%). As quedas do mesmo nível foram responsáveis por mais da metade (59,5%) deste tipo de acidente em ambos os sexos. A maior parte dos acidentes de transporte envolveu motocicleta (46,2%), bicicleta (22,5%) e automóvel (22%), sendo o condutor o tipo de vítima mais frequente (58,2%). Entre os homens, a principal vítima também foi o condutor (68,4%); entre as mulheres, destacaram-se as passageiras (44,3%). Dos acidentes por queimaduras, substância quente (51,3%) foi o agente responsável pela maioria dos atendimentos nesse grupo, principalmente entre as mulheres (63,1%). Outros agentes, como substâncias químicas (ácidos e bases) e superfícies quentes (escapamento de moto, utensílios de cozinha), causaram 19% das queimaduras. Os demais tipos de acidentes foram responsáveis por cerca de um terço do total de atendimentos (n=12.853; 30,8%). Dentre eles, destacaram-se os acidentes envolvendo material pérfuro-cortante (20,3%) e queda de objetos sobre a pessoa (11,8%). Ainda foram identificados, nesta categoria, os acidentes por arma de fogo, afogamento e sufocação. Outros tipos de acidentes incluíram ataques de animais (picadas, mordeduras), introdução/aspiração de corpo estranho, colisões entre pessoas ou entre pessoas e objetos inanimados, além de entorses/luxação, perfazendo, em seu conjunto, 24% dos atendimentos do grupo. Em 39,9% dos registros, o evento foi um acidente, mas não teve seu tipo especificado (Tabela 3).

Quanto ao horário de ocorrência dos acidentes, observou-se maior frequência no período diurno (manhã e tarde), principalmente à tarde (37,1%). Segundo o local de ocorrência, 36,2% dos acidentes aconteceram em via pública, incluindo ruas e rodovias, e proporção semelhante aconteceu em residências (33,7%). Entre os homens, os acidentes ocorreram em maior proporção na via pública (38,8%), enquanto o domicílio (46,7%) foi o local mais frequente para a ocorrência dos acidentes entre as mulheres. Referência ao uso de álcool ou drogas ilícitas foi observada em 8,1% de todos os eventos e em 10,6% dos acidentes registrados entre os homens. As regiões do corpo mais frequentemente atingidas foram os membros superiores (38,1%), membros inferiores (37,6%) e cabeça/face (25,7%). Quanto à evolução dos casos após o atendimento de emergência inicial, 64,4% receberam alta, 17,9% foram encaminhados para internação hospitalar e 13,6% foram direcionados ao acompanhamento ambulatorial. O percentual geral de óbitos nesses serviços foi de 0,2% (Tabela 4).

 

Discussão

A vigilância epidemiológica de causas externas é uma ação relevante para a sociedade, pois, além de permitir o monitoramento e a análise de possíveis mudanças no perfil desses agravos, contribui para a educação e o planejamento de ações intersetoriais de prevenção de violências e acidentes2.

O propósito do estabelecimento da vigilância de acidentes em serviços de emergência é possibilitar o acesso às informações acerca das causas externas ainda pouco conhecidas, de alta ocorrência e impacto na saúde da população. Os resultados ora apresentados são fundamentais para auxiliar no real dimensionamento dos acidentes ocorridos em alguns municípios brasileiros, muitas vezes inacessíveis pelos gestores e tomadores de decisão, quer seja por falhas no atual modelo de vigilância, quer seja pela limitação dos sistemas de informação atualmente disponíveis, cujo foco são os acidentes mais graves e que resultam em internações ou óbitos captados pelo SIH ou SIM, respectivamente. Outra fonte de dados para monitorar os atendimentos por acidentes é o Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA); porém, este sistema não apresenta dados suficientes à análise epidemiológica, sendo mais útil ao acompanhamento financeiro dos procedimentos pagos pelo SUS no atendimento ambulatorial4,8. Além disso, a dificuldade em monitorar os atendimentos de emergência por acidentes decorre da própria natureza do evento, que exige rápido diagnóstico e intervenção oportunos por parte da equipe de assistência.

No presente estudo, o predomínio de homens entre as vítimas (razão entre sexos masculino e feminino igual a 1,8) não pode ser justificado por um fator biológico específico, mas, talvez, pelos padrões socioculturais cristalizados na noção de gênero9. Somente em 2005, a população masculina representou 83,6% de toda a mortalidade por causas externas, com coeficiente de 117,6 mortes para cada grupo de 100 mil homens, cinco vezes maior do que entre a população feminina (22,4/100 mil). Distribuição semelhante foi observada com relação à morbidade: de todas as internações por causas externas ocorridas em 2005, 70,3% eram de pacientes do sexo masculino4.

Adolescentes e adultos jovens têm sido, frequentemente, identificados como as principais vítimas de causas externas9,10. Fatores como inexperiência, busca de emoções, prazer em experimentar situações de risco, impulsividade e abuso de substâncias psicoativas parecem estar associados aos comportamentos deste grupo etário9. Todavia, crianças menores de dez anos representaram uma parcela importante entre as vítimas de acidentes neste estudo, principalmente entre as mulheres. Considerando o desenvolvimento infantil, as crianças apresentam dificuldade de localização exata de sons, sua visão periférica é restrita, tendem à distração e precisam de mais tempo para processar informações. Tais características, somadas à inerente atividade de explorar o ambiente, contribuem para caracterizar as crianças como grupo vulnerável aos acidentes, o que requer permanentemente supervisão e orientação por parte dos adultos11,12.

Os negros (pretos e pardos) predominaram em todos os tipos de acidentes, confirmando as estatísticas encontradas no Brasil4,13,14. Segundo análises realizadas com dados do Ministério da Saúde13, a população negra apresenta os maiores coeficientes de mortalidade por causas externas. No período de 2000 a 2003, estes coeficientes mantiveram-se estáveis entre os brancos, enquanto na população parda e preta observou-se crescimento no risco de morte por causas externas. Embora um grupo social não se defina por relações de raça ou cor, diferenças étnicas associam-se a desigualdades sociais e condicionam a forma de viver e de morrer de grupos populacionais. A etnia em si não é um fator de risco, mas a inserção social adversa de um grupo racial/étnico é que se constitui em característica de vulnerabilidade14. Outro aspecto importante foi a considerável proporção de atendimentos de pessoas com baixo nível de escolaridade, resultado semelhante ao apresentado em outros estudos nacionais15-17, nos quais também se verificou relação inversa entre a ocorrência de acidentes e o número de anos de estudo da vítima.

Em busca de atendimento, o meio de transporte mais utilizado para chegar ao serviço de emergência foi veículo particular, semelhante ao verificado no município do Rio de Janeiro, quando se analisou a morbidade por acidentes de transporte em hospitais públicos18. No presente estudo, as ambulâncias aparecem em segundo lugar, incluindo as unidades de resgate do SAMU, principal componente da Política Nacional de Atenção às Urgências (PNAU) do Ministério da Saúde, cuja cobertura atinge 62 milhões de pessoas em 266 cidades brasileiras. As principais ações desta política incluem: a) organização do atendimento de urgência em unidades de pronto-atendimento; b) estruturação do atendimento pré-hospitalar móvel (SAMU/192); c) reorganização das grandes urgências e prontos-socorros em hospitais; d) criação de suporte hospitalar para os atendimentos de urgência; e) estruturação do atendimento pós-hospitalar19.

Com relação ao horário de ocorrência dos acidentes, no período da manhã, sua distribuição sofre influência das categorias outros tipos de acidentes e das queimaduras, enquanto os acidentes de transporte se sobressaem no período da tarde e noite. Em um estudo20 sobre a epidemiologia das hospitalizações por queimaduras, observou-se que elas foram mais frequentes entre as 10h e 12h. Por outro lado, estudos realizados na região Sul do Brasil evidenciaram maior proporção de acidentes de transporte no período da tarde e início da noite21,22.

Dentre as causas externas, as quedas representam a principal causa de internações no sistema público de saúde brasileiro, principalmente entre crianças, adolescentes e idosos4. Na faixa etária de 0 a 9 anos, esse tipo de acidente poderia ser evitado se os pais ou responsáveis tivessem percebido os riscos antecipadamente e tomado providências para evitá-lo11,23. Entre os idosos, as quedas possuem um significado muito relevante, pois podem levá-los à incapacidade, sequelas ou lesões permanentes e morte. Seu custo social é imenso e torna-se maior quando o idoso tem diminuição da autonomia e da independência ou passa a necessitar de institucionalização. Neste grupo, deve-se valorizar o autocuidado, adaptações ambientais conforme as necessidades físicas do idoso e supervisão por parte dos familiares e cuidadores24,25.

Os meios de transporte que mais geraram vítimas foram a motocicleta e a bicicleta, resultados semelhantes aos encontrados no sistema de vigilância de causas externas de Cali, na Colômbia26. De todos os atendimentos por este tipo de acidente, o condutor foi a vítima mais comum, seguido por passageiro e pedestre. Deve-se ressaltar que a categoria pedestre constitui-se, sobretudo, de crianças e idosos, grupos que apresentam maior restrição à sua mobilidade27. Por outro lado, a distribuição apresentada nos serviços de emergência incluídas no presente estudo é semelhante ao observado no estudo realizado em serviço de atendimento pré-hospitalar de Londrina (Paraná), onde os motociclistas foram o principal tipo de vítima, com proporção superior a 40% do total de atendimentos de emergência por acidentes de transporte9.

Tanto os motociclistas como os ciclistas devem ser considerados mais vulneráveis em relação aos condutores de outros tipos de veículos. Quando os condutores de bicicletas são crianças e adolescentes, deve-se intensificar a atenção, pois, como a maioria deles utiliza a bicicleta como lazer, a consciência do risco a que estão expostos pode estar subestimada9,28. Torna-se necessário desenvolver estratégias específicas para estes grupos, por meio de ações intersentoriais que incluam as áreas de segurança pública, engenharia de trânsito, saúde e educação.

As queimaduras são consideradas um importante problema de saúde pública, pois, além dos problemas físicos que podem levar o paciente à morte, elas acarretam danos de ordem psicológica e social29. No Brasil, os dados estatísticos sobre as lesões por queimaduras são escassos. Em 2005, foram registradas 60.451 internações por queimaduras no SIH, incluindo exposição à corrente elétrica, fogo e substâncias quentes, enquanto no SIM foram registrados 2.421 óbitos por essas causas4. A exemplo dos resultados apresentados em outros estudos20,30, observou-se maior proporção de queimaduras em pessoas do sexo masculino, principalmente as queimaduras decorrentes de exposição a fogo e corrente elétrica, ocorridas geralmente no local de trabalho. Todavia, as queimaduras por substância quente foram marcantes no sexo feminino, devido, provavelmente, às atividades domésticas ou ao trabalho no setor de serviços31. Estes dados são importantes para que se possa compreender a magnitude do problema e identificar as populações mais atingidas e as circunstâncias nas quais as queimaduras ocorrem, de forma que seja possível implementar programas de prevenção29.

Os demais tipos de acidentes (cortes, queda de objetos sobre a pessoa, envenenamento, afogamento, sufocação, acidentes com arma de fogo e os não especificados) foram duas vezes mais frequentes entre os homens. Embora tenham ocorrido em todas as faixas etárias, as crianças formam um grande grupo de risco para esses acidentes. Estes resultados são semelhantes aos apresentados em estudo envolvendo pacientes menores de 15 anos atendidos em prontos-socorros de Londrina (Paraná)32. Embora cada tipo de acidente tenha apresentado menor proporção em relação aos acidentes de transporte, quedas e queimaduras, eles não podem ser menosprezados, haja vista a parcela de carga social imputada ao sistema de saúde, bem como o sofrimento causado às vítimas e familiares.

Apesar de aproximadamente um terço dos acidentes ter ocorrido em via pública (36,2%), chama a atenção a proporção de acidentes ocorridos no domicílio (33,7%). Por ser o ambiente de maior permanência da maioria das pessoas, em especial as crianças, o principal local de ocorrência dos acidentes é o próprio domicílio, sendo este o local de ocorrência da maioria das quedas, queimaduras, choques elétricos, contato com instrumentos cortantes, sufocação e afogamento27,33.

Outro aspecto a ser destacado na epidemiologia dos acidentes, sobretudo os relacionados aos meios de transporte, é o uso de substâncias psicoativas. Em pesquisa realizada com estudantes universitários34, menos de 4% reconheceram o hábito de ingerir bebidas alcoólicas como causador de seu envolvimento em acidentes de transporte; porém, entre os condutores que dirigiam após beber, o risco de envolvimento em acidentes de transporte foi 184% maior do que entre os que não apresentavam esse comportamento. Assim, o uso de álcool e outras drogas, associado à inexperiência, busca de emoções, prazer em experimentar sensações de risco e impulsividade são fatores associados ao comportamento de adolescentes e adultos jovens que podem contribuir para a maior incidência de acidentes, principalmente os de transporte9.

Neste estudo, os membros superiores foram a região do corpo mais afetada, enquanto na análise realizada no município de Londrina (Paraná)32, as lesões na região da cabeça e pescoço foram as mais frequentes. O destino do paciente após o atendimento de emergência pode ser empregado como medida indireta da gravidade da lesão27. Tanto a pequena proporção de óbitos como a relativa baixa ocorrência de internações hospitalares tornam evidente a má distribuição dos pacientes entre os serviços públicos de emergência e os de atenção primária, acarretando a superlotação dos primeiros.

Os dados aqui apresentados traduzem a realidade do cotidiano dos serviços de emergência e despertam novos olhares sobre o problema do atendimento às vítimas de acidentes. A maior contribuição da modalidade de vigilância de causas externas em serviços sentinelas é a disponibilização de dados em tempo hábil, de forma que sua análise e interpretação proporcionem as bases para a tomada de decisão. Outrossim, permite captar dados sobre eventos menos graves, mas cujo conhecimento é fundamental para o planejamento de políticas públicas de prevenção de agravos e promoção da saúde.

 

Colaboradores

MDM Mascarenhas participou da concepção teórica, levantamento bibliográfico, consolidação e análise dos dados, elaboração e redação e revisão final do texto; MMA Silva, DM Carvalho, VP Gawryszewski e L Moura participaram da concepção teórica, análise dos dados, redação e revisão do texto até a versão final; VC Costa, MFM Souza e OL Morais Neto participaram da concepção teórica e revisão final do texto.

 

Agradecimentos

Agradecemos aos técnicos das secretarias estaduais e municipais de saúde, pela dedicação durante o treinamento e coleta de dados; aos pacientes atendidos nos serviços de emergência incluídos na Rede VIVA, pelo fornecimento das informações aqui apresentadas, mesmo em situação de sofrimento; e a Eduardo Marques Macário, pelo cuidadoso trabalho de identificação dos registros duplicados.

 

Referências

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Artigo apresentado em 23/04/2007
Aprovado em 15/02/2008
Versão final apresentada em 04/03/2008