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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.14 n.5 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232009000500008 

ARTIGO ARTICLE

 

Perfil dos atendimentos de emergência por acidentes envolvendo crianças menores de dez anos - Brasil, 2006 a 2007

 

Profile of unintentional injuries involving children under ten years of age in emergency departments - Brazil, 2006 to 2007

 

 

Deborah Carvalho MaltaI; Márcio Dênis Medeiros MascarenhasI; Marta Maria Alves da SilvaI; Eduardo Marques MacárioII

ICoordenação Geral de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde. Esplanada dos Ministérios, Bloco G, Edifício Sede, 1º andar, Sala 142. 70058-900 Brasília DF. deborah.malta@saude.gov.br
IIPrograma de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do Sistema Único de Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde

 

 


RESUMO

As causas externas destacam-se no perfil da morbimortalidade de jovens e crianças no Brasil, configurando importante problema de saúde pública e requerendo o aprofundamento de estudos sobre suas características e magnitude. O trabalho descreve o perfil dos atendimentos de emergência por acidentes envolvendo crianças (<10 anos de idade) atendidas em alguns serviços públicos de emergência no Brasil em 2006 e 2007. Os dados foram obtidos do componente de vigilância sentinela por inquérito dos Serviços Sentinelas de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA), do Ministério da Saúde. As crianças representaram cerca de 20% dos atendimentos de emergência por acidentes, com predomínio do sexo masculino e pré-escolares (2-5 anos). A maior proporção de acidentes (60%) ocorreu no ambiente domiciliar, seguido da via pública, escola, local de prática de esporte. As quedas e as queimaduras tiveram maior participação no grupo etário mais jovem (<1 ano), enquanto os acidentes de transporte e os demais tipos de acidentes apresentaram maior frequência entre as crianças com idade de dois a cinco anos. São necessários programas educacionais desde a pré-escola e comunidade, visando alertar para os riscos e a adoção de comportamentos seguros em relação ao ambiente doméstico e à fase de desenvolvimento da criança.

Palavras-chave: Infância, Acidentes em crianças, Lesões, Causas externas, Atendimento de emergência


ABSTRACT

External causes occupy a high position in the morbidity and mortality profile of youth and children in Brazil, configuring an important public health problem and demanding the deepening of the studies on its characteristics and magnitude. This article describes the profile of emergency care for accidents suffered by children (< 10 years of age) seen at emergency public in some services in Brazil in 2006 and 2007. The data were obtained from survey surveillance component of the Sentinel Service Surveillance System for Violence and Accidents (VIVA), of the Ministry of Health. Children represented about 20% of emergency visits by accidents, with male sex predominance and pre scholars' (2-5 years of age). The greater proportion of accidents (60%) occurred in the household, followed by public ways, school, leisure and sport practice places. Falls and burns had greater participation in the younger age group (< 1), while transport accidents and other types of accidents presented greater frequency among children age 2 to 5. It is necessary to develop education programs since pre school and along the community, aiming of warning about risks and the need of adopt safe behavior in relation to the household environment and the development phase of the child.

Key words: Childhood, Child accidents, Injuries, External causes, Emergency care


 

 

Introdução

As causas externas, compreendidas como os acidentes e violências, ocupam posição de destaque no perfil da mortalidade de jovens e crianças acima de um ano de idade. Constituem, assim, importante problema de saúde pública, o que requer o aprofundamento de estudos sobre suas características, magnitude e impacto na vida das pessoas. Além dos custos sociais, econômicos e emocionais, os acidentes na infância são também responsáveis por eventos não fatais e sequelas que, em longo prazo, repercutem na família e na sociedade, penalizando crianças e adolescentes1.

No cenário mundial2, as estatísticas imprimem diferenças regionais e mostram que as maiores taxas de mortalidade (TM) na infância encontram-se em países da África (TM=53,1/100.000) e Ásia (TM=21,8/100.000), sendo que os menores valores podem ser encontrados em países da América do Norte (TM=14,4/100.000) e Europa (TM=7,9/100.000). Dentre os óbitos ocorridos na infância, as principais causas incluem os acidentes de trânsito (TM=10,7/100.000), afogamento (TM=7,2/100.000), queimaduras (TM=3,9/100.000), quedas (TM=1,9/100.000) e envenenamentos (TM=1,8/100.000).

Dados acerca da mortalidade em crianças menores de dez anos no Brasil3 durante 2006 apontam como as principais causas de óbito os acidentes de transporte (29,3%), os afogamentos (21,1%), os riscos à respiração (15,4%), as agressões (7,0%) e as quedas (5,1%). A taxa de mortalidade por causas externas nesta população para o mesmo período foi de 12,2/100.000, atingindo os maiores valores para os acidentes de transporte (TM=3,6/100.000), afogamentos (TM=2,6/100.000) e riscos acidentais à respiração (TM=1,8/100.000).

Os acidentes na infância são responsáveis não só por grande parte das mortes, mas também por traumatismos não fatais, como encefalopatia anóxia por quase-afogamento, cicatrizes e desfiguração devido a queimaduras, bem como déficits neurológicos persistentes decorrentes de traumatismos cranianos, causadores de danos imensuráveis a indivíduos que se encontram em plena fase de crescimento e desenvolvimento4-7. Sobre essa temática, a maioria dos estudos disponíveis se detém a descrever aspectos da morbidade hospitalar e mortalidade por acidentes em crianças, ou seja, abrangem apenas os casos de internação ou óbito, tratando-se, portanto, dos eventos de maior gravidade5,8-10.

Percebe-se que são poucos os relatos sobre as características epidemiológicas dos atendimentos de emergência por causas externas no país6,11. Embora sejam utilizados dados de sistemas de informação oficiais sobre morbidade e mortalidade por causas externas no Brasil, somente os dados disponíveis no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e Hospitalizações (SIH) não são capazes de contabilizar as lesões de menor gravidade, as quais são responsáveis por uma grande demanda de atendimentos nos serviços de urgência e emergência. Para preencher essa lacuna, o Ministério da Saúde implantou, a partir de 2006, o Sistema de Serviços Sentinelas de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA), sendo que um dos componentes se destina a identificar e descrever o perfil dos atendimentos às vítimas de causas externas atendidas em serviços de urgência e emergência da rede assistencial do Sistema Único de Saúde (SUS). Trata-se de uma estratégia de vigilância que pretende conhecer a distribuição, magnitude e tendência destes agravos e de seus fatores de risco, permitindo identificar condicionantes sociais, econômicos e ambientais da ocorrência das causas externas e subsidiar o planejamento e aplicação de intervenções apropriadas de prevenção11,12,21.

Sabe-se que a maioria dos atendimentos em pronto-socorro, especialmente os decorrentes de causas acidentais, poderia ser evitada com a adoção de medidas preventivas. Nesse contexto, estudar as causas e circunstâncias desses agravos junto à população infantil torna-se essencial para o desenvolvimento de estratégias de promoção à saúde e prevenção destes eventos. Assim, o atual estudo busca descrever o perfil dos atendimentos de emergência por acidentes envolvendo crianças menores de dez anos atendidas em serviços selecionados do Brasil nos anos 2006 e 2007, fornecendo subsídios para o desenvolvimento de ações profícuas de prevenção e promoção da saúde.

 

Métodos

Estudo descritivo, de corte transversal, cujos dados foram coletados no período de trinta dias consecutivos entre os meses de setembro e novembro de 2006 e 2007. No primeiro ano, a pesquisa foi desenvolvida em 65 serviços de emergência credenciados ao SUS, localizados em 34 municípios e no Distrito Federal. No ano seguinte, o número de serviços aumentou para 84 unidades de emergência distribuídas em 36 municípios e no Distrito Federal, totalizando 24 UF (Unidades Federadas) . Foram consideradas elegíveis para a realização da pesquisa as capitais das Unidades Federadas, sendo que Porto Alegre, São Paulo e Belém não participaram por problemas operacionais. Além disso, foram incluídas outras cidades que atenderam aos seguintes critérios: elevado coeficiente de morbimortalidade por causas externas, existência de serviços de referência para o atendimento às vítimas de violências e acidentes, execução de ações intersetoriais de prevenção das violências e acidentes. As demais cidades foram distribuídas nos estados de São Paulo, Pernambuco e Espírito Santo. Maiores detalhes da metodologia podem ser vistos em Gawryszewski et al.12.

Foram coletados dados sobre identificação do paciente (nome, idade, sexo, raça/cor, escolaridade, meio de transporte utilizados para chegar ao hospital), tipo de ocorrência (acidente ou violência), local de ocorrência (residência, escola, via pública, trabalho, bar, local de prática de esporte), tipo de acidentes (ATT, Acidente de Transporte Terrestre, queda, queimaduras, outros), tipo de violência (agressões, maus-tratos, suicídio), características do agressor (sexo, relação com a vítima), parte do corpo atingida e evolução dos casos (alta, hospitalização, óbito). Antes de iniciar a etapa de coleta de dados (entrevista às vítimas ou responsáveis), realizou-se capacitação em vigilância de violências e acidentes para os técnicos das secretarias estaduais e municipais de saúde participantes da pesquisa. Nesta ocasião, apresentou-se a operacionalização do VIVA, incluindo os seguintes aspectos: identificação dos serviços de urgência e emergência, padronização das definições adotadas, uniformização das técnicas de obtenção e registro de dados, fluxo de envio dos dados.

Os dados foram tabulados no Setor de Vigilância Epidemiológica de cada município participante da pesquisa e, posteriormente, transferidos para o Ministério da Saúde para consolidação e composição da base de dados nacional. A análise dos dados foi realizada por meio da distribuição de frequências absolutas e relativas. A faixa etária foi subdividida nos seguintes grupos: lactente (d"1 ano), pré-escolar (2 a 5 anos) e escolar (6 a 9 anos). Utilizou-se o pacote estatístico Epi Info for Windows (versão 3.5.1)13 durante as etapas de tabulação, consolidação e análise dos dados. Também foi realizada uma etapa específica para a identificação e exclusão de registros duplicados a partir do uso do programa Link Plus. Considerando-se a semelhança dos resultados observados nos dois anos em que a pesquisa foi realizada, algumas características foram analisadas tomando-se apenas os resultados de 2006.

Os resultados aqui apresentados referem-se apenas aos atendimentos de emergência por acidentes, definidos como "eventos não intencionais e evitáveis, causadores de lesões físicas e emocionais, no âmbito doméstico ou social como trabalho, escola, esporte e lazer"14.

Quanto aos aspectos éticos, a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido foi substituída por consentimento verbal do paciente ou por seu responsável. Conforme o que preconiza a Resolução nº 196/1996, garantiu-se total anonimato e privacidade aos pacientes, profissionais e gestores dos serviços onde as entrevistas foram realizadas. O projeto foi aprovado pelo Comitê Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP).

 

Resultados

Na pesquisa realizada em 2006, foram registrados 41.677 atendimentos de emergência por causas acidentais, dos quais 8.309 (19,9%) ocorreram entre crianças com idade de zero a nove anos. No ano seguinte, em 2007, foram contabilizados 53.788 atendimentos de emergência decorrentes de acidentes, sendo mantida a proporção de crianças dentre as vítimas, as quais foram responsáveis por 10.687 (19,9%) atendimentos.

A Tabela 1 sintetiza as principais características crianças menores de dez anos envolvidas em acidentes e que buscaram atendimento em serviços de urgência e emergência vinculados ao VIVA em 2006 e 2007. Observa-se o predomínio de vítimas do sexo masculino, com razão M/F igual a 1,6 e 1,5, respectivamente. As crianças com idade de dois a cinco anos e aquelas de raça/cor de pele parda e branca representaram a maior proporção dentre o total de vítimas. Os meios de transporte mais frequentemente utilizados para chegar ao hospital foram veículo particular, transporte coletivo e ambulância.

Na Tabela 2, pode-se observar que, em ambos os períodos estudados, aproximadamente 60% de todos os acidentes entre crianças ocorreram no ambiente domiciliar, seguidos, em menor proporção, dos acidentes cujo local de ocorrência foram via pública, escola, local de prática de esporte ou áreas de lazer. Com relação à localização da lesão, as regiões corpóreas mais comumente atingidas foram a cabeça/face, membros superiores e membros inferiores. As principais lesões observadas nos atendimentos de emergência foram cortes, perfurações, contusões, entorses, luxações e fraturas. Após o atendimento inicial de emergência, a maior parte das vítimas evoluiu para a alta, enquanto menos de um quarto delas foi encaminhada para atendimento ambulatorial ou internação hospitalar. O percentual geral de óbito foi de 0,1%.

As quedas foram responsáveis por mais da metade dos atendimentos de emergência em crianças, sendo também registrados acidentes de transporte, queimaduras e uma série de outros tipos de acidentes envolvendo sufocação, engasgamento, afogamento, ferimentos por objetos cortantes ou armas de fogo, acidentes com animais, dentre outros. Analisando a distribuição dos tipos de acidentes por faixa etária, observa-se que as quedas, mesmo predominado em todos os grupos etários, e as queimaduras apresentam uma tendência de redução à medida que a idade aumenta, enquanto os acidentes de transporte e os demais tipos de acidentes apresentam tendência de aumento (Tabela 3).

A maioria dos acidentes ocorreu no período diurno, apresentando tendência crescente a partir das 6h e voltando aos seus valores mínimos a partir das 18h até às 23h. O período de maior ocorrência das quedas foi observado por volta das 10h e 17h. Os acidentes de transporte foram mais frequentes em torno das 11h e 17h. As queimaduras apresentaram distribuição de ocorrência constante, sem grandes variações ao longo do dia, com discreto aumento por volta das 11h e 18h. Os demais tipos de acidentes ocorreram em maior frequência às 11h e 16h (Figura 1).

Por meio da Figura 2, é possível observar a parcela de contribuição de cada grupo etário entre os diferentes tipos de acidentes. Nos atendimentos por quedas, predominaram os pré-escolares (42,3%). Nos atendimentos decorrentes de acidentes de transporte, a maior parcela de vítimas foi de crianças na idade escolar (50,8%). Os lactentes foram as vítimas mais frequentes dos acidentes envolvendo queimaduras (42%). Para os demais tipos de acidentes, 85% das vítimas pertenciam ao grupo de crianças com idade de 2 a 9 anos.

 

 

A Tabela 4 descreve, detalhadamente, as características de cada tipo de acidente segundo a faixa etária das vítimas. As quedas do mesmo nível são as mais frequentes, em todas as fixas etárias, seguidas das quedas de outras alturas, em maiores de 1 ano; em lactentes, o segundo lugar é ocupado pelas quedas de leito/berço ou sofá. Entre os ATT , o meio de transporte mais comum nos acidentes é a bicicleta, seguida de automóvel e motocicleta. As vítimas mais comuns entre os ATT são os passageiros. Entre as queimaduras, predominam aquelas envolvendo substância quente.

 

Discussão

Os resultados aqui apresentados mostram a importância dos acidentes como demanda de atenção nos serviços públicos de urgência e emergência do Brasil. Estudos sobre atendimentos realizados nesses serviços demonstram que grande parte das causas externas lá atendidas apresenta menor gravidade, requerendo procedimentos que envolvem menor complexidade assistencial, porém fundamentais para a prevenção de lesões e sequelas graves e, até mesmo, permanentes7.

No que se refere, especificamente, aos acidentes na infância, alguns fatores podem estar associados à sua ocorrência, tais como sexo, idade da criança, etapa de desenvolvimento neuropsicomotor (imaturidade física e mental, inexperiência, incapacidade para prever e evitar situações de perigo, curiosidade, tendência a imitar comportamentos adultos, falta de noção corporal e de espaço, incoordenação motora) e características da personalidade (hiperatividade, agressividade, impulsividade e distração), além de particularidades orgânicas ou anatômicas, tais como deficiência física e/ou mental7.

O presente estudo mostra o predomínio do sexo masculino entre as vítimas desses eventos, o que pode ser justificado pelos diferentes comportamentos de cada sexo e por fatores culturais, que determinam maior liberdade aos meninos e, em contrapartida, maior vigilância sobre as meninas. Este comportamento cultural acaba por levar os meninos a realizar atividades com menor supervisão direta dos adultos, tendo, então, um maior tempo de exposição a situações que antecedem os acidentes5,6.

A faixa etária de maior ocorrência de acidentes foi de dois a cinco anos, o que não é inteiramente comparável com outros estudos, que mostraram, ora a faixa de sete a doze anos6, ora de um a três anos5. Por outro lado, os dados aqui apresentados são compatíveis com o que a literatura informa quando se afirma que, de modo geral, crianças menores sofrem mais queimaduras, afogamentos, quedas e intoxicações; as maiores sofrem mais quedas e acidentes de transporte8.

Quanto ao local do acidente, a maioria dos acidentes ocorreu em casa, resultado semelhante ao encontrado por outros autores5,6. O fato de a casa ser o local mais frequente decorre do grande tempo que se passa no ambiente doméstico, e remete à exposição da criança aos possíveis fatores causadores de acidentes, como janelas sem proteção, tapetes soltos, brinquedos espalhados, objetos pérfuro-cortantes, fogão, medicamentos e produtos de limpeza mal armazenados, animais domésticos, pisos molhados. Os pais devem ser alertados sobre estes perigos, adotando sistemas e mecanismos de segurança em casa, tais como proteção nas janelas, cancelas nas extremidades das escadas, protetores de tomadas, cantoneiras, travas de segurança nos sanitários, detectores de fumaça, armazenamento de medicamentos e materiais de limpeza em locais altos e com fechadura, dentre outros, para minimizar tais ocorrências. Destaque-se que o mais importante é a supervisão dos pais ou responsáveis5,6.

Neste sentido, Souza e Barroso4 classificam os fatores de risco para a ocorrência de acidentes na infância nas seguintes categorias: os químicos (medicamentos, produtos de higiene, produtos de limpeza doméstica), físicos (líquidos quentes), ambientais (locais perigosos como janelas, escadas, elevadores, jardins, piscinas, cozinhas com objetos cortantes e perfurantes), biológicos (plantas venenosas, animais domésticos, animais peçonhentos, insetos) e estruturais (formação da família, fatores culturais, estilo de vida, hábitos e crenças). O dimensionamento de todos esses fatores evidencia a necessidade de disponibilizar recursos para a prevenção de acidentes por meio de atuação inter-multisetorial e direcionada para intervenções sobre os fatores específicos da população- alvo.

A região corpórea mais atingida foi a cabeça, o que pose ser devido ao fato de as crianças ainda não serem capazes de proteger a região cefálica em caso de quedas e impactos5,15. Esse fato é preocupante, considerando que o traumatismo cefálico tem sido apontado como importante causa de internação e óbito9. A seguir, são apontados os traumatismos de membros superiores e inferiores, provavelmente porque, além de já terem desenvolvido o reflexo de proteção da cabeça, nessa fase predominam atividades como prática de esportes, passeio com bicicleta, uso de patins, jogos de bola, entre outros, que expõem mais os membros a lesões5.

Com relação ao tipo de lesão, predominam os ferimentos, contusões, entorses e as fraturas, o que revela a relativa baixa gravidade das lesões decorrentes de causas externas em crianças atendidas nos serviços de urgência e emergência. Tal pressuposto encontra apoio nos resultados apresentados por outros estudos, nos quais a proporção de óbito e internação hospitalar foi bem menor em relação ao número de pacientes que receberam alta logo após o atendimento inicial de emergência6,7. Entretanto, a despeito da menor gravidade, esses eventos são responsáveis por uma parcela significativa do orçamento com despesas hospitalares e causam estresse para a criança e sua família15,16.

Os resultados do VIVA informam a maior ocorrência de quedas dentre os atendimentos de emergência por causas externas, seguidas dos acidentes de transporte, queimaduras, ferimentos por objetos cortantes, queda de objetos sobre a pessoa, envenenamento, sufocação, afogamento e acidentes com arma de fogo. Esses resultados são semelhantes aos que foram encontrados por outros autores4-8.

As quedas destacam-se na faixa etária pediátrica pelas características do desenvolvimento da criança, curiosidade, imaturidade e falta de coordenação motora, o que as coloca em situações de perigo. Nas crianças acima de quatro anos, agregam-se outros fatores explicativos como atividades de lazer e esportes, próprios desta faixa etária, destacando-se jogos, corridas, patins e outros. Quanto à altura das quedas, predominam as do mesmo nível (própria altura), seguida de outros níveis como cama, berço, escada, cadeira, muro e outros, conforme apontado por Filócomo e colaboradores6.

Os acidentes de transporte destacam-se como a segunda causa de atendimentos de emergência por causas externas acidentais. No que se refere à mortalidade por esta causa, ocupam a primeira posição entre crianças de um a nove anos de idade, sendo apontada pela Organização Mundial da Saúde como a causa mais importante de óbitos e lesões na população infantil mundial2. No Brasil, o perfil da mortalidade por acidentes de transporte em menores de dez anos apresenta o predomínio de atropelamentos, seguidos de acidentes com ocupantes de veículos e, em terceiro lugar, acidentes envolvendo ciclistas. O estudo atual mostra que, quanto ao perfil da morbidade, observa-se o predomínio de ATT envolvendo ciclistas, seguidos de pedestres atropelados por automóveis e motocicletas1.

Torna-se importante a reeducação no trânsito, a supervisão adequada de crianças pequenas e o estímulo ao uso da cadeirinha, do cinto de segurança, bem como o transporte de crianças apenas nos bancos traseiros, além da rigorosa vigilância da circulação de veículos e punição de infratores. É fundamental a adoção de medidas intersetoriais relativas ao trânsito visando à redução das mortes por acidentes de transporte.

Quanto às queimaduras, neste estudo mais frequentes em crianças menores de dois anos, possivelmente podem ser associadas às características do desenvolvimento da criança nesta fase, como curiosidade, imaturidade e incoordenação. Destaque-se o fato de as crianças pequenas puxarem para si os recipientes com líquido quente, como as panelas em cima do fogão, as travessas em cima da mesa e as bacias com roupa de molho em água quente, atingindo com frequência a cabeça, pescoço e tórax. Além dessas características, o fácil acesso à cozinha e a supervisão inadequada da criança podem contribuir para a ocorrência desses eventos6,8,10. No que se refere à prevenção de queimaduras, torna-se importante modificar o ambiente, manter a criança afastada de fornos aquecidos, não deixar cabos de panelas voltados para fora do fogão e alimentos quentes em cima de mesas com toalhas, manter ferro de passar roupa e aparelhos elétricos ainda quentes em lugares altos, restringir o acesso da criança à cozinha e lavanderia. Outro tipo de queimadura apresentada nos resultados da pesquisa foi a decorrente de choque elétrico, cujas medidas de prevenção incluem a proteção das tomadas, retirada de extensões elétricas expostas e guarda de aparelhos elétricos longe do alcance das crianças.

Em 2001, o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional para Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências14, com propostas de ações específicas para os gestores federal, estaduais e municipais, cujas diretrizes são: promoção da adoção de comportamentos e de ambientes seguros e saudáveis; monitorização da ocorrência de acidentes e de violências; sistematização, ampliação e consolidação do atendimento pré-hospitalar; assistência interdisciplinar e intersetorial às vítimas de acidentes e de violências; estruturação e consolidação do atendimento voltado à recuperação e à reabilitação; capacitação de recursos humanos; apoio ao desenvolvimento de estudos e pesquisas. Em 2004, foram criados os Núcleos de Prevenção de Acidentes e Violências no Sistema Único de Saúde, que foram se consolidando e recebendo suporte técnico-financeiro e monitoramento do Ministério da Saúde, ampliando a rede de núcleos nos anos seguintes17-19. Estes núcleos operam articulados a serviços de apoio às vítimas, a redes sociais e atuam sob a perspectiva da promoção da saúde, de acordo com as diretrizes da Política Nacional de Promoção à Saúde 20,21 no que se refere à prevenção dos acidentes de transporte e da cultura da paz.

A literatura aponta para a abrangência e magnitude dos acidentes infantis, havendo necessidade de ações preventivas junto aos profissionais de saúde, criança, família, comunidade e sociedade em geral, no sentido de alertar para os riscos e para a necessidade de adotar comportamentos seguros em relação ao ambiente doméstico e à fase de desenvolvimento da criança22. Pode-se compreender que a prevenção é o caminho mais eficaz para reduzir os altos indicadores de ocorrência de acidentes na infância. Para tanto, é preciso que se desenvolvam programas educacionais desde a pré-escola e junto à comunidade, além do cumprimento de normas e medidas de proteção junto à indústria farmacêutica e engenharia civil2. A análise destas ocorrências pode melhor direcionar as ações de promoção à saúde, prevenção e controle desses agravos, resultando em ações educativas que envolvem pais, famílias, profissionais de saúde e gestores na busca de redução destes eventos, em sua maioria, evitáveis.

 

Colaboradores

DC Malta, MDM Mascarenhas, MMA Silva e EM Macário participaram, igualmente, da concepção teórica, levantamento bibliográfico, consolidação e análise dos dados, elaboração e redação e revisão final do texto.

 

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Artigo apresentado em 18/03/2009
Aprovado em 17/07/2009
Versão final apresentada em 20/07/2009