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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.14 n.5 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232009000500029 

OPINIÃO OPINION

 

Contribuição da educação popular no atendimento fisioterapêutico domiciliar

 

Contribution of popular education in domiciliary physiotherapeutic attendance

 

 

Cristina Katya Dantas Torres; Joseane de Fátima Madruga Estrela; Kátia Suely Queiroz Silva Ribeiro

Departamento de Fisioterapia, Universidade Federal da Paraíba. Cidade Universitária. 58059-900 João Pessoa PB. cristinakatya@bol.com.br

 

 


RESUMO

O projeto de extensão Fisioterapia na Comunidade é desenvolvido no Bairro do Grotão, vinculado às unidades de saúde da família, em João Pessoa. Procura-se neste trabalho valorizar os saberes e práticas populares. A assistência fisioterapêutica domiciliar à luz da educação popular, ao mesmo tempo em que promove uma assistência à população desassistida, amplia nossa visão de saúde como processo educativo. A cada visita domiciliar, nos confrontamos com a realidade social das camadas populares e os problemas que estas pessoas enfrentam, repercutindo no seu estado de saúde, evidenciando para nós os condicionantes socioeconômicos do processo saúde-doença. Observa-se que, ao realizar atendimentos domiciliares com base nos princípios da educação popular, amplia-se a perspectiva de atuação do fisioterapeuta. Isso se deve ao fato de ser esta uma educação baseada no diálogo, que propõe a troca entre os saberes científico e popular, motivando a perspectiva de um compromisso à saúde junto à comunidade.

Palavras-chave: Educação popular, Fisioterapia, Domicílio


ABSTRACT

The extension project of Physiotherapy in the Community is developed in the neighborhood of Grotão linked to the family health units, in the city of João Pessoa. The aim of this work is to value popular knowledge and practices. The domiciliary physiotherapeutical assistance to the light of the popular education, at the same time that it promotes assistance to the unassisted population, extends our vision of health as an educational process. In each domiciliary visit we observed the social reality of the popular layers and the problems these people face, reflecting in its state of health, being evident for us the partner-economic conditionants of the process health-illness. This is observed that when carrying out domiciliary consultation on the basis of the principles of the popular education, it extents the perspective of the performance of the physiotherapist. This is so, because it is an education based on the dialogue, that proposes the exchange between scientific and popular knowledge, motivating the perspective of a commitment to the health together with the community.

Key words: Popular education, Physiotherapy, Home


 

 

Introdução

O projeto de extensão Fisioterapia na Comunidade é desenvolvido no Bairro do Grotão, vinculado às unidades de saúde da família, lá implantadas, e na Comunidade Maria de Nazaré, localizada no bairro Funcionários III, em João Pessoa, que são áreas adjacentes geograficamente. Atua juntamente com o projeto de extensão Educação Popular e Atenção à Saúde da Família1 . Tendo a educação popular como base teórica e metodológica para a realização das atividades do projeto, procura-se neste trabalho valorizar os saberes e práticas populares, buscando estabelecer uma relação dialógica com os atores com os quais temos interlocução, assim como contribuir com o fortalecimento desses sujeitos2. Dentre as várias atividades desenvolvidas neste projeto, encontra-se a assistência fisioterapêutica domiciliar na comunidade. A relevância dessa atividade se justifica pelo fato de que muitas pessoas enfrentam obstáculos de acesso aos serviços de saúde por diversos fatores, tais como a distância entre o local de moradia e os serviços que prestam atendimento; a limitação física que muitos usuários apresentam, o que, muitas vezes, impede seu deslocamento em transportes coletivos; os custos financeiros que estes deslocamentos representam e com os quais estes sujeitos não conseguem arcar; e a insuficiência de vagas nos serviços, causando uma demanda reprimida3. Estes obstáculos têm feito com que muitas pessoas tenham seus problemas de saúde agravados, e dificultado ou impossibilitado o processo de reabilitação, como também gerado uma assistência inadequada à saúde. A assistência fisioterapêutica domiciliar à luz da educação popular, ao mesmo tempo em que promove uma assistência à essa população desassistida, amplia nossa visão de saúde como processo educativo. Com o atendimento no domicílio das pessoas das comunidades realizado através do projeto Fisioterapia na Comunidade, evidentemente não estamos solucionando o problema, mas com certeza contribuímos para que uma pequena parcela dos que estão excluídos do acesso ao serviço de fisioterapia possam ter um atendimento.

 

Metodologia

A preocupação com a memória dessa experiência e sua sistematização nos impele a organizar arquivos onde ficam registradas todas as atividades desenvolvidas nesse trabalho. Os atendimentos domiciliares, geralmente, são indicados por agentes comunitários de saúde e pelos médicos da unidade de saúde da família (USF), os quais nos acompanham nas visitas às pessoas que estão precisando da assistência fisioterapêutica, facilitando nossa interação com a comunidade. Nossas visitas são realizadas semanalmente e registradas numa pasta, em conjunto com a avaliação que fazemos regularmente de cada paciente, descrevendo todo o tratamento, como também a evolução do mesmo. Desse modo, é viabilizado o acesso às informações sobre nossa atuação, promovendo o resgate de informações quando necessário. O atendimento domiciliar é oferecido aos pacientes que apresentam dificuldades em se deslocar à USF, em função de sua condição física e falta de um transporte adequado. O fisioterapeuta atende, trata e reabilita na casa do paciente, de acordo com suas necessidades, distúrbios neurológicos (AVE, TCE, paralisia infantil, Parkinson, etc.), ortopédicos (fraturas, entorses, contusões, etc.), respiratórios (asma, DPOC, bronquite, etc.) e ginecológicos (mulheres em fase puerperal). Tão logo ele apresente condições de se deslocar ao serviço, é encaminhado para que possa interagir com a sociedade, não ficando preso só ao ambiente familiar, o que faz diminuir sua rede social. Durante o atendimento em domicílio, além de nos dedicarmos à recuperação, reabilitação e readaptação do paciente, procuramos identificar, através do diálogo, as atividades desenvolvidas naturalmente pelos familiares e cuidadores, e observamos a necessidade de incentivar e orientar as possíveis ações, promovendo uma saúde integral. Estimulamos, assim, as atividades favoráveis dentro da realidade de cada família, cuidador e domicílio, valorizando e reconhecendo a sua participação como membro da equipe de saúde.

 

Discussão

A cada visita domiciliar, nos confrontamos com a realidade social das camadas populares e os problemas que estas pessoas enfrentam, repercutindo no seu estado de saúde, evidenciando para nós os condicionantes socioeconômicos do processo saúde-doença e expondo a fragilidade do modelo de assistência aprendido no meio universitário. Por outro lado, aprendemos também a valorizar os saberes e iniciativas desses sujeitos. Nesse trabalho, faz-se necessário usar a criatividade para criar/adequar as técnicas aprendidas na academia à realidade local, priorizando o instrumento mais poderoso que possuímos, que são "nossas mãos", incluindo também os materiais caseiros construídos por familiares, que nos ajudam a alcançar o nossos objetivos. As descobertas resultantes da convivência com os sujeitos da comunidade provocam mudanças na compreensão sobre o fenômeno de adoecimento humano. O envolvimento com seus problemas e alegrias, conhecendo seu cotidiano e a realidade social em que estão inseridos, proporciona aos estudantes/participantes uma compreensão mais alargada do processo saúde-doença e das possibilidades de intervenção que se apresentam a um profissional de saúde. Nessa atividade, contribuímos com a melhoria na qualidade de vida da população por meio de técnicas fisioterapêuticas, além de ações educativas que visam à manutenção e promoção da saúde e do estabelecimento de vínculos e incentivo ao controle social.

 

Conclusão

O atendimento domiciliar é imprescindível ao trabalho do profissional de fisioterapia na atenção básica, pois é quando nos deparamos com a realidade das pessoas, verificando suas atividades de vida diária, suas limitações e, a partir daí, procedemos aos encaminhamentos e orientações pertinentes a cada caso.

Entendemos que o atendimento desenvolve-se numa atuação integral, em que reconhecemos a importância da família como membro da equipe e, de forma cooperativa, identificamos ações desenvolvidas dentro de cada realidade e possibilidade.

As atividades realizadas nos domicílios estão associadas com abordagem à família, que envolve ações de promoção e manutenção da saúde. Esta atividade desenvolve o autocuidado, favorece a criação de vínculos, despertando valores de integração social. Promove, assim, um novo modelo de atenção da saúde da população.

Nesse sentido, observa-se que, ao realizar atendimentos domiciliares com base nos princípios da educação popular, amplia-se a perspectiva de atuação do fisioterapeuta e torna sua intervenção mais orientada para as necessidades do cliente. Isso se deve ao fato de ser esta uma educação baseada no diálogo, que propõe a troca entre os saberes científico e popular, na qual ocorre o ensino e aprendizagem de ambos os envolvidos, gerando motivação na perspectiva de um compromisso à saúde junto a comunidade.

 

Colaboradores

CKT Torres trabalhou na concepção teórica, elaboração e redação final do texto; JFM Estrela e KSQS Ribeiro participaram da organização e revisão de literatura.

 

Referências

1. Ribeiro KSQ, Lacerda DAL. Fisioterapia na comunidade, uma experiência na atenção básica. 1ª ed. João Pessoa: UFPB; 2006.         [ Links ]

2. Vasconcelos EM. Educação popular nos serviços de saúde. 3ª ed. São Paulo: Hucitec; 1997.         [ Links ]

3. Neto FM. Extensão universitária, uma análise crítica. João Pessoa: UFPB; 2001.         [ Links ]

 

 

Artigo apresentado em 05/03/2007
Aprovado em 16/06/2007
Versão final apresentada em 18/09/2007