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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.14 n.5 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232009000500037 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Rosane Cavalcante de Araújo

Secretaria Municipal de Assistência Social da Prefeitura do Rio de Janeiro

 

 

 

Schenker M. Valores familiares e uso abusivo de drogas. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2008. 164p.

Miriam Schenker é psicóloga e terapeuta de família do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (NEPAD), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisadora colaboradora do Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (CLAVES/Fiocruz) e doutora em ciências pelo Instituto Fernandes Figueira/Fiocruz.

A partir de sua experiência profissional, a autora dedica-se a pesquisar a influência da construção de princípios e práticas no interior das famílias e a sua influência junto a jovens de classe média, usuários abusivos de drogas, em tratamento ambulatorial na cidade do Rio de Janeiro. Nessa busca, a autora considerou a família, a partir de um quadro geracional composto por avós, pais e filhos.

A obra, fruto de pesquisa para elaboração da tese de doutoramento, está dividida em cinco partes: referências teóricas e eixos norteadores do estudo, as bases metodológicas ancoradas no modelo sistêmico-cibernético, a trajetória das famílias pesquisadas, considerações finais e comentários adicionais.

Consideramos que o grande desafio da pesquisa de Miriam Schenker foi significar o lugar da família no processo de desenvolvimento da drogadicção de um de seus membros, sem, no entanto, se deixar levar pelo caminho da culpabilização.

Segundo ela, "O pressuposto central deste trabalho é que os valores vivenciados na dinâmica interna dessas famílias influenciam o desenvolvimento da drogadicção em um de seus membros".

Partindo da compreensão das diferentes funções sociais da droga, ao longo da história, a autora busca contextualizar o momento sociopolítico vivenciado pelos pais dos jovens, em que o uso de drogas relacionava-se a uma postura política engajada que se contrapunha ao modelo hegemônico vigente.

Atualmente, a droga não está associada de maneira direta a uma ruptura política. Considerar as possíveis formas de significação do lugar social das drogas hoje remete à ampliação dessa análise, como aponta Plastino1: [...] a toxicomania não pode ser analisada como um fenômeno isolado, sendo conveniente considerá-la como um aspecto específico de um conjunto mais abrangente de comportamentos[...].

Nesse sentido, Miriam dá voz aos familiares e usuários de drogas, partindo de suas próprias representações a respeito da drogadicção.

As três categorias centrais de análise, escolhidas por Schenker, valores familiares, conflito entre gerações e processo educativo, possibilitam ao leitor a clara percepção do quadro familiar contemporâneo.

Acerca dos valores familiares, há uma centralidade a respeito de regras e conceitos construídos no seio da família, elaborados pelos "adultos responsáveis", que, paradoxalmente, nem sempre vivenciam ou praticam eles próprios a normatização estabelecida. Ainda nesse tópico, é relevante o questionamento à respeito das possibilidades que as famílias tem ou não de rever de forma conjunta às suas próprias regras. Para tanto, Miriam estabelece um diálogo com autores como Clifford Geertz e Ana Maria Nicolaci-da-Costa; a categoria conflito de gerações aponta para as diferentes formas de exercício de conceitos transmitidos no interior do núcleo familiar, tais como hierarquia, infantilização e expectativa. Nesse aspecto, a autora ressalta a importância de se compreender quais foram os sujeitos responsáveis pela educação dos jovens, a geração de seus avós, de seus pais, ou ambas, considerando que esses elementos podem evidenciar a existência de uma tensão geracional. Compreender de que forma estabeleceu-se o lugar da hierarquia e quais lugares foram também atribuídos aos jovens no interior destas famílias. Ela considera que a infantilização dos sujeitos não contribui para a construção de sua autonomia e que a discrepância de expectativas entre o que se espera dos jovens e o que eles desejam de suas próprias vidas aponta para conflitos. Nesse aspecto, houve um estreito diálogo com Velho e Heilborn; a categoria processo educativo aponta para a identificação da aprendizagem como um processo contínuo e relacional e, nesse sentido, o vínculo será uma força fundamental para o estabelecimento das relações; o conceito de modelo se refere ao processo de identificação dos filhos com seus pais. Nesse sentido, Miriam levanta alguns questionamentos: os pais e avós são modelos para os jovens drogadictos? Em caso negativo, quais serão os seus modelos? Ressaltamos ainda o que a autora chama de "estilo de criação", três diferentes maneiras de estabelecimento de regras, a saber, os modelos autoritário, permissivo e "com autoridade"'. Nesta categoria, a autora estabelece uma comunicação conceitual com Maturana e Nolte e Harris.

Ao informar as bases metodológicas referenciadas em seu estudo, Schenker parte do paradigma sistêmico-cibernético para compreender os mecanismos de comunicação intrafamiliar, bem como as possíveis formas de comportamento de cada membro, a partir destas experiências. Há um salto conceitual, a partir dessas pesquisas, e o enfoque do tratamento passa do indivíduo, do intrapsíquico, para as inter-relações da família, com ênfase na interação e na comunicação entre seus membros2.

Assim, Miriam compreende que a ação de cada membro de um sistema familiar estará carregada de emoção e que é a própria emoção que contribuirá para o caminho da possível fluidez da comunicação.

A importância de se pensar a família dentro desse paradigma coloca-se na medida em que todos os seus membros são constituintes e constituídos nesse compartilhamento e, de maneira ampliada, as demais relações sociais se darão dentro desse processo de circularidade.

No processo de entrevista com as famílias, Miriam Schenker vai tecendo um mosaico, que busca valorizar as falas de cada membro, bem como compreender essas expressões, à luz das teorias apontadas.

Elementos como permissividade, infantilização, excesso de expectativas e descompasso no diálogo demonstram os conflitos existentes no interior desses grupos e as dificuldades que os próprios grupos apresentam ao se depararem com questões difíceis de vivenciar e, portanto, difíceis de superar.

A análise e interpretação das falas evidencia questões de gênero, deixando claro o processo de desresponsabilização dos homens dentro das famílias e a intolerância na relação com os jovens, num momento em que estes precisam alçar vôos em busca de sua autonomia. As entrevistas apontam também para as dificuldades na construção da autonomia desses jovens.

A presença dos avós na educação dos filhos expressa um rearranjo familiar necessário para que as mulheres/mães destas famílias estejam no mercado de trabalho, mas, ao mesmo tempo, estabelecem uma "confusão" de papéis acerca de quem será o responsável pela educação desses sujeitos. Esse novo arranjo demonstra também os conflitos estabelecidos entre as relações dos avós e seus próprios filhos, que, em alguma medida, se reeditam no estabelecimento da relação com os netos e, por vezes, desqualifica o papel dos pais, deslocando mais uma vez o desempenho de funções sociais na instituição familiar.

Vale ressaltar a tensão colocada a partir do paradoxo entre a existência de discursos que apontam para o desejo de construção de relações igualitárias e a dificuldade de se desprenderem das amarras de um modelo familiar tradicional autoritário.

Essa tensão gera conflitos, na medida em que a sociedade contemporânea traz uma série de cobranças, às quais os jovens em geral não tem maturidade para corresponder, tendo em vista as relações de dependências elaboradas ao longo da trajetória das famílias.

Conforme a autora enfatiza, nas palavras de Giddens3, [...] a exposição da subjetividade à fluidez de suas escolhas, abre espaço para o comportamento "compulsivo", que representa a perda da autonomia, da capacidade de refletir e de escolher, pela falência de controle sobre o "eu".

Finalizando, Schenker sugere que os programas de prevenção ao uso indevido de drogas possibilitem espaços de reflexão para as famílias, sobre a elaboração de seus referenciais, sobre questões como a qualidade dos vínculos, as possíveis maneiras de construção para a autonomia, tendo em vista a importância do desenvolvimento individual e coletivo de seus membros, além da necessidade de elaboração de metas e projetos possíveis, para filhos e netos.

 

Referências

1. Plastino CA. Dependência, subjetividade e narcisismo na sociedade contemporânea. In: Baptista M, Cruz MS, Matias R, organizadores. Drogas e pós-modernidade: faces de um tema proscrito. Rio de Janeiro: Eduerj, Faperj; 2003. p. 23.         [ Links ]

2. Schenker M. A família na toxicomania. In: Baptista M, Cruz MS, Matias R, organizadores. Drogas e pós-modernidade: prazer, sofrimento, tabu. Rio de Janeiro: Eduerj, Faperj; 2003. p. 40.         [ Links ]

3. Giddens A. A transformação da intimidade. São Paulo: Unesp; 1993.         [ Links ]