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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.14 n.6 Rio de Janeiro Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232009000600038 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

A musicoterapia na doença de Parkinson

 

Music therapy on Parkinson disease

 

 

Beltrina CôrteI; Pedro Lodovici NetoII

IPrograma de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Rua Monte Alegre 984. 05014 - 001 São Paulo SP. beltrina@uol.com.br
IIDoutorando em Antropologia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

 

 


RESUMO

Este estudo descreve uma pesquisa qualitativa, interfaciando dois campos - gerontologia e musicoterapia -, em uma metodologia interativo-dialógica - com dez indivíduos ligados de forma íntima à questão parkinsoniana, entrevistados na Associação Brasil Parkinson (ABP) paulistana. Objetiva-se verificar, a partir de narrativas pessoais, a importância de práticas alternativas fundadas em elementos sonoro-rítmico-musicais, sendo exemplares o exercício de tocar um instrumento (piano, violino, etc.), ou cantar em grupo, ou praticar um exercício musical orientado, que podem funcionar como atividade terapêutica para pessoas com a doença de Parkinson (DP), e como devem ser aplicadas com seriedade e competência pelos seus profissionais. Dados foram coletados em entrevista preestruturada e reestruturada conforme a necessidade de aplicação a cada entrevistado, envolvendo categorias variadas. Da análise, sistematização e interpretação dos dados, pôde-se, a partir das modalidades das respostas e de uma comparação qualitativa, sugerir que a musicoterapia é excelente via para o tratamento do doente, fazendo-o conviver melhor com a DP, minimizando seu sofrimento, o que implica a mudança do sujeito para uma posição singular e própria na relação com sua doença e com os demais que o cercam.

Palavras-chave: Musicoterapia, Doença de Parkinson, Gerontologia


ABSTRACT

This study is a result of a qualitative research, in the Gerontology and Music therapy scenario. It was analyzed the importance of alternative practices like playing an instrument (piano, violin, etc.), singing, or practicing a guided musical exercise as a therapy activity for elder people with Parkinson Disease. The analysis, systematization and interpretation of the data pointed: music therapy is an excellent way to improve the life of the patient that becomes more sociable, decreasing physical and psychological symptoms ("symptomatology") and the subject change for a singular and own position in the relation with your disease and the people around.

Key words: Music therapy, Parkinson disease, Gerontology


 

 

Introdução

Este estudo decorre de uma pesquisa de dissertação de mestrado, motivada pela nossa aposta em uma elaboração teórica diferenciada das questões do envelhecimento e da velhice e de como se pode operar a direção de um tratamento ao sofrimento do idoso por meio da música.

O objetivo foi, originalmente, estabelecer um diálogo interdisciplinar entre musicoterapia e gerontologia, ou seja, tratar das relações entre os estudos da música e os do envelhecimento, em uma pesquisa de abordagem qualitativa que, em se valendo dos aportes de ambos os campos, pudesse ressaltar o significativo aporte dos próprios sujeitos desta pesquisa.

A musicoterapia, que no decorrer dos últimos anos vem-se constituindo como um campo de pesquisa altamente promissor para a área da saúde, em suas inúmeras teorias, tem orientado práticas com resultados exitosos no tratamento de patologias que afetam a capacidade física, cognitiva ou subjetiva das pessoas. Dentre as doenças que se agudizam em uma recente geração de idosos "cada vez mais idosos", está a doença de Parkinson (DP), em torno da qual circunscreve-se a investigação ora descrita, com foco no tratamento musicoterápico.

São objetivos específicos deste trabalho: (i) discutir e explicitar como o exercício musical pode funcionar de forma eficiente como atividade terapêutica para o sofrimento decorrente da DP, especialmente em função do isolamento em que a pessoa afetada acaba se encerrando e dos efeitos sintomáticos (de ordem motora e não-motora) trazidos pela doença; (ii) contribuir no sentido de explicitar quais as condições ou restrições suficientes e necessárias colocadas pelos sujeitos ouvidos, a caracterização enfim do exercício musical orientado como forma de tratamento, para que constitua uma possibilidade nova de a pessoa trabalhar seu interior1 e integrar-se com o outro, tornando-a via de escape ao isolamento, de resistência à doença, enfim; (iii) reafirmar o valor do tratamento musicoterápico coadjuvante à medicação alopática e outras terapias aos acometidos pela DP.

O objeto de estudo é o fato musicoterápico, ou seja, o discurso de alguns sujeitos sobre como os problemas de saúde ligados à DP são tratados por meio da musicoterapia. A coleta do objeto de estudo se deu em situação natural de fala, em que não apenas atuamos como observadores, mas tendo participado diretamente da interação com os sujeitos de pesquisa, uma necessidade imposta pela própria orientação teórica deste trabalho. Para evitar o "paradoxo do observador"2 ou de que de nossa presença com gravador pudesse perturbar a naturalidade do evento de coleta de dados, optamos pela entrevista com cada um dos informantes, em um papel de aprendiz-interessado nos seus problemas de saúde e peculiaridades. O objetivo central era apreender tudo sobre os informantes em termos de cada um contar a sua história de vida com a DP, com o tratamento com música, deixando cada um à vontade para responder de sua própria maneira à pergunta feita.

Para atender a tais propósitos metodológicos, foram formulados módulos de perguntas por meio um questionário-guia semi-estruturado previamente e que se reestruturava de acordo com as respostas que motivavam novo turno de perguntas. Tais módulos visavam homogeneizar os dados dos vários informantes, para sua comparação posterior, controle dos tópicos de conversação e, em especial, provocar narrativas de experiência pessoal com a DP tratada musicoterapicamente. Segundo Tarallo2, os estudos sobre narrativas de experiência pessoal têm demonstrado que, ao relatá-las ainda que sob a forma de respostas a perguntas, o informante está tão envolvido emocionalmente com o que relata que nem presta atenção a como relata. E é justamente esta a situação natural de fala pretendida neste trabalho preocupado com a questão da subjetividade. Os módulos cobriram uma série de tópicos para fins de conversação: dados pessoais do informante (sua história de vida); seus encontros com a música na infância, na escola ou como ofício; o momento de descoberta da DP; sua interação com outros membros da família e amigos, etc. A aplicação dos módulos variou até mesmo para cada indivíduo, exigindo muitas vezes que fossem adaptados continuamente. O módulo "Medo da morte", por exemplo, mostrou-se um dos mais interessantes durante a coleta de narrativas, embora não tivesse tido similar peso ao serem aplicados aos profissionais (que diziam do medo da morte para os idosos a que atendiam). Módulo "Medo da morte". Pergunta 1: O senhor teve medo da morte alguma vez. por exemplo. quando descobriu estar com a DP, em uma situação tal em que tenha dito a si mesmo: "Será que agora chegou a minha hora?" Diante de uma resposta muito concisa de alguns dos informantes: (1) "Eu não tenho medo"; (2) "Não, não tenho medo de morrer. Não tive medos" ou (3) "Não tenho. Eu não tive medo, toquei a vida em frente, recebi tudo naturalmente", houve a necessidade de se introduzir novo turno de pergunta para levar os informantes a detalharem o tópico tratado: Pergunta 2: O que aconteceu, então, pro senhor? Numa situação dessas, muita gente pode dizer: "Bom, seja o que Deus quiser!" O que o senhor acha disso? Interessante aqui foi que um dos informantes assumiu uma postura de senso comum, ao generalizar o fato questionado: "Quem não tem? Não é pavor, mas quem não tem?". Estes fragmentos discursivos são uma espécie de mapeamento inicial da relação entre os diversos discursos coletados que foram objeto de nossa análise.

O critério básico para a seleção dos informantes foi o da amostragem aleatória, ou seja, haveria a chance de qualquer dos participantes presentes no setting musicoterápico participar de nossa gravação. Nosso primeiro contato foi com o presidente da Associação Brasil Parkinson (ABP), localizada na capital paulistana, que nos apresentou àquela comunidade, para dali selecionarmos os informantes; ao ser anunciado o objetivo de nossa entrevista e que as fitas gravadas contendo informações de natureza pessoal poderiam ser posteriormente inutilizadas a pedido dos entrevistados e na sua presença, várias pessoas foram se candidatando espontaneamente.

Dez sujeitos ligados à questão parkinsoniana foram gravados durante cerca de um mês: seis profissionais, sendo dois musicoterapeutas (pianista e regente de um coral), dois fonoaudiólogos e dois fisioterapeutas que orientam a terapia vocal e corporal dos doentes; quatro idosos portadores da DP, sendo três membros da ABP, e um membro, pessoa pública, cujos dados foram colhidos de entrevista e recente biografia, ambas publicadas na mídia. Julgamos adequado o número de informantes que caracterizaram o universo de nossa amostra (4 doentes de Parkinson e 6 profissionais), uma vez que teríamos aí apenas um grupo com duas células a levar em conta: a variável profissional versus doente de Parkinson. Conforme Tarallo, numa pesquisa sociolinguística, de caráter qualitativo, a medida de cinco informantes para cada combinação de fatores pode perfeitamente garantir a representatividade de uma amostra. Houve posteriormente, por mais de dois meses, a transcrição dos dados que foram digitados e incluídos integralmente na dissertação.

A aproximação entre os campos da musicoterapia e da gerontologia, a nosso ver, seria enriquecida em suas discussões se alguns pressupostos fossem levados em consideração para nortearem nosso compromisso com a descrição da fala do idoso em tratamento musicoterápico diante da DP: (i) o papel do outro considerado determinante e constitutivo, que se consubstancia, aqui, em uma relação de diálogo entre: - um musicoterapeuta e uma pessoa com DP; - o familiar, amigo ou cuidador e a pessoa com DP; - a pessoa com DP e outra pessoa com DP, no setting musicoterápico; e - um pesquisador e a pessoa com DP; (ii) a natureza interativo-dialógica dos interlocutores dessa relação.

A análise, a sistematização e a interpretação dos dados basearam-se em uma linha teórica a que denominamos de dialógico-musical, partindo de algumas concepções imprescindíveis: (i) a de entender o idoso como "o sujeito que envelhece" e não "o sujeito que adoece", não sozinho, mas em diálogo familiar, com amigos, com a sociedade; (ii) a de conceber o envelhecimento como processo dinâmico e particular a cada indivíduo3; (iii) a de ver a música não apenas em seus efeitos terapêuticos, mas também preventivos a qualquer doença e também conceber a música na sua natureza "linguajeira", a de ser uma linguagem dentre outras. Delimitamos de início o que estamos entendendo sob o termo hipótese dialógico-musical: no diálogo com o outro com orientada mediação da música, o doente pode restabelecer-se, manter ou voltar a ter contato com o mundo, numa aproximação com a realidade, estabelecer laços afetivos que o afastem da solidão, do isolamento do mundo (no sentido de Varella4 e Zygouris5), a ponto de não se centrar na doença e minimizar seus efeitos, o que pode reverter em mudanças positivas em sua subjetividade.

Justamente de nosso compromisso com a descrição da fala de idosos com DP, profissionais e familiares ligados a eles, foram estudadas questões relevantes aos objetivos propostos, de início desatrelando pares conceituais como: doença versus velhice; velhice versus má qualidade de vida; velhice versus isolamento subjetivo e social; velhice versus morte, problematizando o sentimento que as pessoas têm de seu próprio envelhecimento e de sua doença, suas opções de resiliência, por meio da música, à doença, que podem dar conta das incidências (ou efeitos motores e não-motores, a dita sintomatologia), além de refletir sobre perspectivas de um sentido produtivo à vida longeva com melhor qualidade de vida6 e novas possibilidades de laço social7.

As referências teóricas de ambos os campos aqui interfaciados advêm de vários discursos - antropológico, médico, musical, terapêutico, da área da linguagem - e de teóricos consagrados, dentre outros, do envelhecimento como Ângela Mucida7, Simone de Beauvoir8; Jack Messy9; da musicoterapia como Kenneth Bruscia10, Even Ruud11 e Rolando Benenzon12.

 

Sobre a doença de Parkinson

A prevalência da DP na população brasileira é de 150-200 casos por cem mil habitantes, sendo que, anualmente, vinte novos casos são atestados. Da população total projetada para 07/2006, de cerca de 186.770.562 habitantes, entre 280.156 e 373.540 habitantes são os acometidos pela DP13.

Em se tratando de idoso, via de regra evocam-se as doenças chamadas degenerativas, como numa relação causal em que as segundas seriam inevitavelmente obra da idade cronológica. É preciso logo pontuar que não apenas na velhice se manifestam a Parkinson, Alzheimer, complicações cardiocirculatórias, arteriosclerose, etc. O que não se nega é que, apesar de essas doenças poderem acometer pessoas das mais variadas idades, na verdade elas são altamente incidentes naquelas mais longevas. E também não restam dúvidas que mais preocupantes, assustadoras até, para idosos e familiares, são as duas primeiras: a DP e a de Alzheimer.

Para além de tais indicações, contudo, o essencial deve ser tirar o foco da doença em si ou de sua sintomatologia; deve ser deslocado para o sujeito, na relação que ele deve estabelecer com sua doença e na relação com o outro (o familiar, cuidador, amigo). A nosso ver, esta é a via fundamental para decidir a modalidade e a direção de qualquer tratamento.

Por sinal, vem sendo esta a preocupação dos estudiosos do campo do envelhecimento: trabalhar a relação do idoso com familiares e outras pessoas, tendo algo que os aproxime. É preciso levar em conta que somos membros de uma sociedade que se articula por meio de grupos comunitários: em uma família, clubes, associações, ligados por determinadas crenças, movidos por determinados interesses econômicos; assim como novos "arranjos familiares" caracterizam-se na modernidade, em que casamentos são dissolvidos, cônjuges em novo casamento e nova geração de filhos. Nesse contexto, "arranjos sociais" novos precisam ser idealizados como, por exemplo, a criação de espaços, públicos e privados, para o grande contingente de idosos em que predomina o feminino3.

Nas relações, ou laços sociais, tecidos num setting musicoterápico, está o ponto em que se centra este trabalho, trazendo relatos de pessoas que enfrentam, de uma forma renovada e bastante exitosa, uma das duas mais temidas doenças, a DP - uma das afecções neurológicas mais comuns do sistema nervoso central. Acomete principalmente o sistema motor de aproximadamente 1% da população acima dos 65 anos; 10% dos casos ocorrem antes dos 50 anos; 5%, antes dos 40; casos mais esparsos de afetados com até 30, enquanto a DP em crianças é a forma menos incidente. Dentre os efeitos de ordem motora ("sintomatologia corporal") que afetam o doente de Parkinson, verificam-se: enrijecimento corporal e do rosto, tremor de repouso (o mais visível e assustador para a própria pessoa e que retém o olhar do outro), o estacar em meio a uma ação; festinação (ou tendência contrária de aceleração do passo, da fala e da escrita); dificuldade de equilíbrio, acinesia (ou incapacidade de mover-se, talvez o sintoma mais incapacitante da DP) e bradicinesia (maior lentificação dos movimentos voluntários, com perda da agilidade, mesmo em tarefas simples, automáticas), dentre outros. Como efeitos de ordem não-motora ("sintomatologia não-corporal") registram-se: perda de memória; sensação de emperramento da mente; alterações emocionais; distúrbios do sono, cognitivos, da fala e da escrita; dores, depressão/ansiedade, dentre outros. Apesar dos avanços científicos na área cada vez mais promissores, inclusive com as pesquisas médicas recentes utilizando células-tronco, a DP é considerada uma doença crônica, sendo que a progressão de seus sintomas se dá, via de regra, de forma lenta e variável em cada caso. É consolador pelo menos saber da não-evidência de que ela seja hereditária ou contagiosa, mas preocupante é a forma quase imperceptível com que ela vai afetando uma pessoa, com muitas vezes nem mesmo a própria conseguir identificar o início preciso das primeiras manifestações. Há muitos casos de pessoas conhecidas no mundo que padecem com a DP e que representam testemunhos de luta contra ela. Pessoas que, em vez de se abaterem pelas más condições físicas e mentais e se precipitarem num estado de autodestruição, revertem esse caminho: passam a produzir mais ainda saberes sobre seu sofrimento, pensando, antes que em si, nos outros também afetados.

No tratamento da DP, é modelar aquele realizado na ABP paulistana - locus de aplicação dos questionários do presente estudo -, onde atuam com processo multidisciplinar, utilizando terapias