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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15 n.3 Rio de Janeiro May. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000300001 

EDITORIAL

 

O desafio da drogadicção na sociedade contemporânea

 

 

O eixo temático que compõe este número de Ciência & Saúde Coletiva surge da demanda dos autores e contribui para pesquisas na área da drogadicção na sociedade contemporânea.

O uso abusivo de drogas pode ser considerado um grave problema de saúde pública, por acarretar ônus ao sujeito, à família e à sociedade, na forma de repetência na escola, perda de emprego, rupturas familiares e violência, crimes, acidentes e encarceramentos. Uma questão tão ampla e controversa como essa remete ao fato de que o início do uso de drogas se dá, geralmente, na adolescência, fase de extrema curiosidade, de movimentos de individuação, da especial valorização do grupo de amigos e do conhecido comportamento rebelde, muitas vezes necessário para iniciar seu corte do cordão umbilical familiar.

Por tratar-se de um tema complexo e desafiante, o uso do álcool e de outras substâncias lícitas e ilícitas é aqui abordado das mais variadas formas: desde as ideologias que o permeiam, passando pela miríade de possibilidades que compõem a trama dos fatores de risco/vulnerabilidade e dos fatores de proteção para tal uso, tudo isto imerso no contexto sociocultural e no momento histórico dos atores em que se situam essas pesquisas.

A compreensão do comportamento adicto, tendo como base uma abordagem sistêmico-cibernética para lidar com o desafio do uso abusivo de drogas na contemporaneidade, revela três pressupostos: (1) o sintoma do uso indevido ou abusivo de substâncias irrompe quando o contexto familiar e o sociocultural oferecem condições de possibilidades para o seu surgimento e desenvolvimento; (2) o comportamento de um indivíduo afeta e é afetado pelo comportamento do outro numa relação de circularidade e não de linearidade, na qual se revela que todos os fenômenos são relacionais e, portanto, coconstruídos em coparticipação entre os indivíduos implicados nesta relação; (3) é preciso trabalhar a capilaridade do tecido que conforma as interações entre o indivíduo, a família e o ambiente sociocultural que dão suporte a padrões de desajuste sistêmico.

Tendo em mente esta trama de causalidades múltiplas, espera-se que a coletânea de artigos deste número de Ciência & Saúde Coletiva com tema tão instigante possa contribuir para o entendimento: (a) de diversas formas de pensar e abordar a drogadicção e como estas influenciam a prática dos cuidados ou descuidados com relação aos indivíduos, às famílias, aos serviços de saúde, às sociedades específicas; (b) dos fatores de risco e de proteção ao consumo de substâncias lícitas ou ilícitas em serviços de saúde diversos e às possibilidades de construção de estratégias adequadas a essas diferentes populações e contextos e (c) dos estudos longitudinais que apontam para uma modificação do uso das substâncias e de suas implicações sistêmicas.

Que estes estudos possam servir de discussão, reflexão e de norte para a construção de estratégias de ação para a saúde no que tange à drogadicção e seus desafios, dando voz à diversidade e não buscando a hegemonia do pensar e fazer.

 

Miriam Schenker
Editora convidada