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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15 n.3 Rio de Janeiro May. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000300007 

ARTIGO

 

Uso de substâncias psicoativas entre estudantes de odontologia da Universidade Federal do Espírito Santo

 

Psychoactive substance use among Espírito Santo Federal University odontology students

 

 

Renata Frossard TeixeiraI; Renata Santos de SouzaII; Vitor BuaizIII; Marluce Miguel de SiqueiraIV

ICentro de Ciencias da Saúde, Departamento de Enfermagem, Universidade Federal do Espírito Santo. Av. Marechal Campos 1468, Maruípe. 29040-090 Vitória ES. renatinha_frossard19@hotmail.com
IIFaculdade Brasileira
IIIDepartamento de Clínica Médica, Universidade Federal do Espírito Santo
IVDepartamento de Enfermagem, Universidade Federal do Espírito Santo

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho é traçar o perfil do uso de substâncias psicoativas entre os universitários do curso de odontologia do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo. Trata-se de um estudo exploratório, descritivo, transversal e quantitativo, desenvolvido com universitários do primeiro ao último ano do curso de odontologia. O instrumento utilizado na coleta de dados é uma adaptação do proposto pela OMS e desenvolvido pela WHO - Research and Reporting Project on the Epidemiology of Drug Dependence. Os dados foram tabulados e analisados através do Programa Statistical Package for the Social Science. 60,3% dos universitários são do sexo feminino, 48,9% se encontram na faixa etária de 20 a 22 anos e 41,3% e 43,7% pertencem à classe social A e B, respectivamente. Quanto ao uso de substâncias psicoativas, 72,4% fizeram uso na vida de alguma substância, exceto álcool e tabaco; 25,9% fizeram uso de solventes, 13,2% uso de maconha, 10,9%, de anfetamínicos, 27%, de tabaco e 87,9%, de álcool. Faz-se necessário a prevenção do uso indevido de substâncias psicoativas entre universitários, através da abordagem dessa temática no currículo acadêmico e da criação de programas específicos para universitários.

Palavras-chave: Substâncias psicoativas, Universitários, Prevenção


ABSTRACT

The objective of this article is to trace the psychoactive substance use profile among odontology college students from the Espírito Santo Federal University Health Sciences Center. It is an explorative, descriptive, transversal and quantitative study developed with first to last year college students of the odontology course. The instrument used for data collection was an adaptation of one proposed by WHO and developed by WHO - Research and Reporting Project on the Epidemiology of Drug Dependence. Data were listed and analyzed through the Statistical Package Program for the Social Science. The results showed that 60.3% colleges student are female, 48.9% age between 20 and 22 years, 41.3% and 43.7% belong to A and B social class, respectively. The prevalence of psychoactive drugs use reported at least once in lifetime was 72.4% except for alcohol and tobacco; 25.9% used inhaled drugs, 13.2% marijuana, 10.9% amphetamines , 27% tobacco and 87.9% alcohol. It could be concluded that is necessary to prevent improper drug use among college students by inserting this subject on the college curriculum as well as establishing drug use prevention programs for students.

Key words: Psychoactive substances, Colleges, Prevention


 

 

Introdução

A prevalência mundial do consumo de substâncias psicoativas está aumentando, principalmente entre os jovens de 18 a 25 anos, tornando-se um problema de saúde pública1-5.

Estudos indicam uma prevalência de uso de "drogas ilícitas" de 38,1% na vida, 26,3% nos últimos doze meses e 18,9% nos últimos trinta dias entre universitários da área de ciências biológicas6.

Os estudantes de ciências biológicas merecem atenção especial quanto ao uso de álcool e outras drogas, pois, futuramente, serão profissionais responsáveis pelas orientações básicas à saúde1. Além disso, é de fundamental importância o conhecimento do padrão de consumo, das atitudes, do conhecimento em relação às substâncias psicoativas que os futuros profissionais de saúde têm ou adquirem na formação acadêmica, devido ao efeito multiplicador de suas informações para a população assistida7.

Vale salientar que os estudantes da área de saúde detêm maior conhecimento acerca das substâncias psicoativas e possuem fácil acesso às mesmas, o que, aliado ao estresse do trabalho, torna esse grupo mais vulnerável8.

De acordo com a Política de Redução de Danos, o foco principal é a prevenção, não no sentido de proibir o direito de cada indivíduo a usar ou não drogas, mas enfatizando a importância da redução dos problemas, das consequências do uso, evitando também as drogas lícitas9. Prioriza também a promoção da saúde, através da qualidade de vida com base na intersetorialidade das ações, e identifica as responsabilidades institucionais de modo a promover a redução das situações de risco ou vulnerabilidade dos indivíduos10.

É importante destacar que, além de colaborar com outras pesquisas nesta área, este estudo fornecerá subsídios para um futuro programa de prevenção, permitindo a detecção precoce do uso indevido de substâncias psicoativas, o incentivo à não iniciação e a redução do uso.

Portanto, acreditando na relevância deste estudo para a prevenção do uso indevido de drogas entre universitários e para a formação de profissionais de saúde mais qualificados, resolvemos desenvolver esta pesquisa, estabelecendo como objetivo traçar o perfil do uso de substâncias psicoativas entre os universitários do curso de odontologia do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo.

 

Metodologia

A pesquisa foi realizada no curso de odontologia do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), no período de setembro a novembro de 2007. A população do estudo foi constituída de alunos matriculados no referido curso nos nove períodos acadêmicos. A amostra foi calculada no software Epi Info 6.04, considerando-se um grau de confiabilidade de 95%, uma precisão de 2% e uma prevalência de "usuários de droga na vida" de 10%. Entretanto, dos 251 alunos matriculados no curso de odontologia, 77 alunos (30,6%) não estavam presentes em sala de aula no momento da aplicação do questionário ou, apesar de presentes, se recusaram a participar da pesquisa. Sendo assim, a amostra final foi constituída de 174 estudantes.

Inicialmente, foi enviada uma carta ao chefe de departamento do curso de odontologia, solicitando a colaboração dos professores na concessão de alguns minutos de sua aula para a aplicação dos questionários. Foi utilizado um questionário fechado, de autopreenchimento e sem identificação pessoal do aluno, aplicado a todos os alunos presentes em sala de aula e que aceitaram participar da pesquisa, não ocorrendo perdas devido a questionários em branco ou anulados por incoerências de respostas. A participação no estudo não era obrigatória, porém todos que aceitaram participar assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido.

O questionário utilizado é uma adaptação do instrumento proposto pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e desenvolvido pela WHO - Research and Reporting Project on the Epidemiology of Drug Dependence11. No Brasil, este instrumento foi adaptado por Carlini-Cotrim et al., sendo também utilizado nos levantamentos nacionais sobre o uso de drogas em estudantes de primeiro e segundo graus, realizados pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID) em 1987, 1989, 1993, 1997 e 2004.

O instrumento é dividido em cinco partes, sendo que a primeira explica a pesquisa, convidando o estudante a participar da mesma; a segunda é compreendida por questões referentes aos dados sociodemográficos; a terceira contempla questões envolvendo o uso de substâncias psicoativas, incluindo tabaco, álcool, maconha, cocaína e derivados, medicamentos anfetamínicos, ansiolíticos, anticolinérgicos, orexígenos, barbitúricos, opióides, xaropes à base de codeína, solventes, alucinógenos, além de questões sobre o uso de anabolizantes que foram incluídas no estudo pelo seu significativo abuso, embora não sejam drogas psicoativas, bem como questões sobre o uso de drogas injetáveis. A quarta parte do instrumento consiste em um questionamento minucioso sobre o uso abusivo de álcool, e a quinta parte, um questionamento sobre o relacionamento entre os pais e os estudantes entrevistados. Aplicou-se também a escala socioeconômica proposta pela Associação Brasileira do Instituto de Mercado e Pesquisa12.

Antes da aplicação definitiva do instrumento, foi realizado um estudo piloto com três alunos matriculados nos 1º, 5º e 9º períodos do curso de odontologia, para capacitação do pesquisador e adequação do instrumento, sendo necessário ajustar a questão 36 para melhor compreensão.

Os dados foram analisados através do programa Statistical Package for the Social Science-SPSS13, sendo que os dados referentes ao consumo de drogas pelos universitários foram analisados segundo os indicadores de classificação sobre o uso de drogas, preconizados pela OMS11: "uso na vida" (quando a pessoa fez uso pelo menos uma vez na vida); "uso no ano" (quando meses que antecederam a pesquisa); "uso no mês" (quando a pessoa fez uso pelo menos uma vez nos trinta dias que antecederam a pesquisa); "uso frequente" (quando a pessoa fez uso seis ou mais vezes nos trinta dias que antecederam a pesquisa); e "uso pesado" (quando a pessoa fez uso vinte ou mais vezes nos trinta dias que antecederam a pesquisa).

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do CCS da UFES através do processo 104/2006 e conduzida de acordo com os dispositivos da Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

 

Resultados

A Tabela 1 apresenta o perfil socioeconômico dos estudantes do curso de odontologia, onde se observa que 60,3% pertencem ao sexo feminino, 48,9% encontram-se na faixa etária de 20 a 22 anos e 85% pertencem à classe social A e B. Quanto à defasagem da universidade, observou-se que 24,7 % faltaram de um a três dias no últimos trinta dias que antecederam a pesquisa.

 

 

A Tabela 2 demonstra o uso de substâncias psicoativas e a frequência de uso pelos estudantes. Observa-se que 74,2% fizeram uso na vida de alguma substância, exceto álcool e tabaco, sendo a prevalência de uso na vida de álcool de 87,9%, seguido de tabaco (27%), solventes (25,9%), maconha (13,2%), ansiolíticos (12,6%), anfetamínicos (10,9%), alucinógenos (4%), anticolinérgicos (2,3%) e barbitúricos (1,1%). Quanto ao uso no ano, observa-se o predomínio do consumo de álcool (82,8%), seguido do tabaco (19,5%). Quanto ao uso frequente, 19% dos estudantes informaram uso de álcool e 2,3%, de tabaco. Em relação ao uso pesado, 5,7% relataram uso de álcool, 1,7%, de tabaco, 1,1%, de maconha e 1,1%, de anfetaminas e 0,6%, de solventes.

 

 

A Tabela 3 demonstra o uso na vida de substâncias psicoativas pelos estudantes segundo o sexo. Observa-se que o consumo de álcool é semelhante em ambos os sexos, sendo 89,2% para os homens e 87,6% para as mulheres.

 

 

Quanto as demais substâncias, observa-se diferença de consumo; o uso na vida de tabaco foi de 36,9% entre os homens e 21% entre as mulheres. Esta diferença é maior em relação ao uso na vida de maconha, com 23,1% presentes no sexo masculino e 6,9%, no sexo feminino. O consumo de anfetamínicos e ansiolíticos foi semelhante entre homens (10,8% e 12,3%, respectivamente) e mulheres (10,5% e 12,4%, respectivamente). Observou-se maior prevalência de substâncias ilícitas entre os homens e ocorrência de uso de cocaína e anticolinérgicos somente entre os estudantes do sexo masculino (1,5% e 4,9%, respectivamente).

A Tabela 4 se refere ao uso de substâncias psicoativas entre os universitários de acordo com a idade de experimentação; observamos relatos de uso inferiores aos doze anos e maior prevalência de uso entre dezesseis e dezoito anos, principalmente entre as drogas lícitas. Acima de dezoito anos, predominou o uso de ansiolíticos, seguido do uso de solventes.

A Tabela 5 demonstra as características do consumo de bebidas alcoólicas pelos estudantes. As bebidas mais consumidas são a cerveja (54,2%) e a vodka (11,1%); a prevalência do número de doses por ocasião foi de uma a duas doses (40,5%) e a frequência de uso de uma a cinco vezes (19%). Quanto ao local de uso, houve predomínio de bares, danceterias e boates (67,3%) e as pessoas com as quais os estudantes mais costumam beber são os amigos (71,2%).

 

 

Discussão

Quanto ao perfil socioeconômico da amostra, verificou-se maior prevalência entre as idades de 20 a 22 anos e maior incidência de estudantes nas classes sociais A e B; tal perfil também se observa no estudo realizado com universitários da área da saúde da Universidade Federal do Amazonas14.

Em nosso estudo, observamos a prevalência de uso na vida de álcool de 87,9%, dado semelhante ao encontrado por Kerr-Côrrea et al.6, que detectou uma prevalência de 84% para o uso na vida dessa substância entre estudantes de Medicina da UNESP6. Quanto ao uso no ano (82,8%), foi de acordo com o encontrado por Silva et al.1, de 84,7%. Em relação ao uso mês, nossos achados (40,8%) divergiram um pouco do encontrado por Tavares, Béria e Lima15, pois em seu estudo envolvendo adolescentes, detectaram 62,3%; entretanto, o uso frequente (19%) foi semelhante ao referido estudo (16,8%). O uso pesado foi informado por 5,7% dos estudantes, estando de acordo com a pesquisa de Tavares, Béria e Lima15, que detectaram 5%. Entretanto, Soldera et al.5, em seu estudo com adolescentes, encontraram uso pesado de 11,9%.

Quanto ao uso de tabaco, observa-se que 27% dos estudantes relataram uso na vida e 2,3%, uso frequente. Estes dados foram diferentes dos encontrados pelo IV levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de primeiro e segundo graus16, no qual o uso na vida de tabaco foi de 32,8% e o uso frequente de 6,2%, o que reflete possivelmente uma preocupação maior por parte dos estudantes universitários, visto que serão futuros profissionais da área da saúde.

A prevalência de uso na vida de solventes foi elevada (25,9%), sendo o uso no ano 10,9% e o uso no mês e pesado 1,1% e 0,6%, respectivamente. Estes dados são preocupantes, uma vez que outros estudos envolvendo adolescentes apresentam dados inferiores, como o de Tavares Béria e Lima15, que encontrou uso na vida de 11,6%, e o de Guimarães et al.17, que detectou uso na vida de 10,1%. Medina-Mora18 apontou os solventes como a droga mais popular para os jovens no México. O uso na vida de solventes tem crescido entre os estudantes16, mostrando que, apesar de ser uma droga ilegal, o fácil acesso pode estar contribuindo para este aumento, como se observa entre universitários da saúde, que possuem facilidade de adquirir solventes como o éter e o clorofórmio.

Quanto ao uso de maconha, detectou-se uso na vida de 13,2%, estando de acordo com o achado de Tavares, Béria e Lima15, que encontraram 13,9%. Entretanto, nos países desenvolvidos, para a mesma categoria, a maconha é mais usada que os solventes19.

No que se refere ao uso de anfetaminas e ansiolíticos, verificou-se uso na vida de 10,9% e 12,6%, respectivamente, sendo superior ao estudo de Galduróz et al.16, que encontraram uso na vida de 4,4% para as anfetaminas e 5,8% para os ansiolíticos. Os estudos internacionais mencionam valores semelhantes aos nacionais19,20.

Ao verificar o uso na vida de substâncias psicoativas segundo o sexo, observa-se que o consumo de tabaco, maconha e solventes foi maior no sexo masculino, enquanto que o consumo de anfetaminas e ansiolíticos foi bastante semelhante entre homens e mulheres. Quanto ao álcool, não houve diferença entre os dois sexos. Estes resultados assemelham-se aos encontrados em outros estudos16,17,21, divergindo quanto ao consumo de anfetamínicos e ansiolíticos onde tal estudo encontrou maior prevalência entre as mulheres.

Quanto ao uso de substâncias psicoativas segundo a idade de experimentação, a faixa etária de maior prevalência para a maconha, anfetaminas, solventes, tabaco e álcool foi a de dezesseis a dezoito anos e para os ansiolíticos, acima dos dezoito anos. Nossos dados divergem do estudo de Lucas et al.14 no que se refere às anfetaminas e solventes, que apresentaram maior prevalência acima de dezoito anos. É importante salientar ainda o predomínio da idade de experimentação de dezesseis a dezoito anos e a ocorrência de início do uso de álcool em idades inferiores a dez anos, do tabaco entre dez e doze anos e dos solventes e maconha entre treze e quinze anos. Segundo Marin et al.22 e Andrade et al.6, a idade de início para uso de tabaco encontra-se entre quinze e dezenove anos, estando de acordo com o nosso estudo. No entanto, Vazquez et al.23 encontraram idade de experimentação até os quinze anos. Esta diferença pode estar relacionada a aspectos culturais, uma vez que este trabalho foi realizado com estudantes mexicanos. A idade de experimentação de substâncias psicoativas é de extrema importância para a prevenção do uso indevido, pois quanto mais cedo o uso, maior a probabilidade de desenvolver a dependência.

Quanto às características dos estudantes em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, observou-se que as bebidas mais consumidas foram a cerveja (54,2%), a vodka (11,1%) e o vinho (8,5%), estando de acordo com trabalhos de Pinton et al.21 e Alves et al.24.

No que se refere ao número de doses consumidas, 40,5% dos alunos relataram de uma a duas doses por ocasião, 21,6% dos alunos referiram de três a quatro doses, 12,4% relataram de cinco a seis doses, 2,7% informaram de sete a nove doses e 5,9% dos estudantes relataram mais de dez doses. Nossos resultados foram inferiores ao estudo realizado por Pinton et al.21, que demonstrou consumo de até duas doses por 39,7% dos estudantes, de três a cinco doses por 36,4% e mais de seis doses por 23,9% dos estudantes.

O local que os estudantes costumam ingerir bebidas alcoólicas com mais frequência são os bares, as danceterias, e boates (67,3%) e geralmente na companhia de amigos (71,2%). Pinton et al.21 e Alves et al.24 tiveram achados semelhantes.

 

Conclusão

Os resultados encontrados em nosso estudo demonstram que o perfil dos estudantes de odontologia é semelhante ao dos universitários de outras regiões do país. Este perfil revela a necessidade da abordagem deste tema no currículo acadêmico, a fim de contribuir para a formação de profissionais de saúde qualificados para assistência de usuários com problemas decorrentes de substâncias psicoativas.

Nossos achados forneceram subsídios para a formulação de estratégias de prevenção ao uso indevido de drogas nesta população. No entanto, ressaltamos a importância da realização de outras pesquisas envolvendo universitários de odontologia, pois a literatura nessa área ainda é bastante escassa.

As informações foram coletadas por meio de um questionário auto-aplicável coletivamente em sala de aula, sendo bem aceito por garantir o anonimato. A experiência de pesquisadores nacionais mostra que, neste caso, o índice de recusa é baixo, chegando a menos de 1%, inclusive neste estudo. Apesar do questionário ser padronizado e testado no país, é importante interpretar com cautela os dados apresentados, fundamentalmente em relação a um possível viés de informação. O instrumento mede o relato do consumo e não o consumo em si. A confirmação das respostas dependeria de exames, o que limitaria o estudo em razão do alto custo, além da possibilidade de elevar o índice de recusa.

Outra limitação desta pesquisa refere-se à validade interna; os resultados não devem ser generalizados para a população geral. Assim, embora os dados sobre a prevalência do uso de drogas em estudantes do curso de odontologia da UFES sejam restritos, a sua análise favorece uma compreensão do fenômeno e a possibilidade de conceber ações preventivas na própria universidade, ressaltando-se que este estudo foi o primeiro realizado numa população de universitários no Estado do Espírito Santo. Para aprofundar a questão e incluir as causas do uso e abuso de drogas, serão necessárias outras pesquisas, talvez com aplicação de metodologia qualitativa.

 

Colaboradores

RF Teixeira participou da coleta de dados, tabulação e redação final; RS Souza participou da pesquisa, concepção e redação final; V Buaiz participou da pesquisa e MM Siqueira participou da orientação, pesquisa, concepção e redação final.

 

Agradecimentos

Ao Núcleo de Estudos sobre Álcool e outras Drogas (NEAD) pela oportunidade de realizar a pesquisa. À Fundação de Apoio à Pesquisa do Espírito Santo (FAPES) pelo suporte financeiro. E a Denis Soprani Pereira, Paula Silva Mardegan e Flávia Batista Portugal pelo auxílio na coleta de dados.

 

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Artigo apresentado em 22/01/2008
Aprovado em 11/03/2008
Versão final apresentada em 05/04/2008